Agora em podcast, Mano Brown se mostra grande entrevistador. Primeiro episódio trouxe Karol Conká como convidada

1 - cenatopo19

* Resenhar podcast é uma tarefa do jornalismo musical? Talvez, hein. O poploader Vinicius Felix tem umas anotações para levantar após escutar a estreia de Mano Brown no seu podcast “Mano a Mano”, que é um produto original do Spotify e terá semanalmente, por 16 episódios, sempre um convidado. O texto acabou virando uma reflexão sobre mídia, racismo e sobre o rapper dos Racionais em si e menos uma resenha do podcast, que para inaugurar a nova falação do Brown traz uma conversa com a polêmica rapper curitibana Karol Conká.

Captura de Tela 2021-08-26 às 5.01.15 PM

Mano Brown tem uma história tortuosa com entrevistas. Justamente por isso ver ele se mostrar um grande entrevistador em seu podcast “Mano a Mano” não surpreende em nada. Parece mais a realização de um sonho. “Era assim que eu queria ser entrevistado”, ele parece dizer. Pelo menos foi isso que eu teorizei na minha cabeça após os primeiros minutos da conversa do rapper apresentador com a hoje extrafamosa Karol Conká. Cheguei a dar um pause para anotar algumas ideias.  

Em parte, é mentira que ele e os Racionais MC’s são avessos a entrevistas. Em parte, é verdade. A explicação é simples.

Se tivessem segurança que suas palavras seriam respeitadas e que as perguntas corretas fossem feitas, Brown teria dados as melhores entrevistas desde que os Racionais se inventaram como quarteto e escreveram sua primeira música como um grupo de rap. Mas, na imprensa brasileira, ainda muito estruturalmente racista – vide a contínua associação de artistas negros com questões de crimanalidade, um problema visível que artistas brancos não têm que enfrentar -, um grupo com a radicalidade dos Racionais, que vai ao cerne da questão brasileira – uma colônia da colônia que segue exterminando índios, negros e pobres e glorifica seus maiores vilões em estátuas -, não teria vez.

A fuga da imprensa não foi marketing, charme, fama de mal – ainda que tenha sido tudo isso também. Esse escape foi uma estratégia de sobrevivência. Quando dizem que ele tem fama de ser avesso a entrevistas, esquecem sua responsabilidade nessa história.
 
As perguntas certas não são as perguntas fáceis, são as reais – mas não temos uma imprensa tão realista quanto Brown. Pior, ainda há uma dificuldade em entender a sensibilidade do poeta.

Muitas vezes suas complexas narrativas parecem reduzidas a uma voz única e em primeira pessoa, que fala por toda a periferia, sendo que ele produziu exatamente o oposto disso – suas músicas dão a amplitude da periferia, sua literatura dá a complexidade da realidade e chega próximo do retrato mais fiel possível – algo que explica em parte seu sucesso e popularidade.

Ele não poderia ser o porta voz de todos, porque ele vem justamente avisar da realidade que escapa da lógica racista – “Ei, aqui o pessoal precisa bem mais do que tom de pele para se unir”; “Ei, você não sabe que tem um outro país dentro deste país”. Isso para ficar no recados que Brown deu para quem vive no centro.

Na entrevista do “Roda Viva”, programa da TV Cultura, esse um clássico, querem entrevistar justamente o porta-voz, não o poeta – ainda que a participação de Rappin Hood, Ferréz e de Maria Rita Kehl faça alguma justiça. Na maioria das vezes, todos os entrevistadores dão sinais de que entenderam tudo errado. Querem saber do Brown difícil, do Brown que amansou, do que ele pensa, em quem ele vota. E as cotas, Brown? A radicalidade, a beleza e a complexidade da obra ficam de canto. 

Lógico, algumas exceções são históricas. Thaíde fez uma grande entrevista com Brown. André Caramante tem a grande entrevista com todos os Racionais reunidos. E a melhor de todas, a do programa “Freestyle”, tocada por Marcílio Gabriel – conduzida com respeito, conhecimento e sobre arte. É Marcílio que pega disco a disco e devolve pra Brown uma pergunta maravilhosa: o que você sonhava aqui? Levantando a bola para que finalmente Brown pudesse reavaliar seus álbuns. Sem esquecer de Tatiana Ivanovici, que entrevistou Brown durante a feitura de uma batida e nos deu acesso ao seu lado de produtor – um papo 100% sobre arte.

E, sendo justo, muitos outros bons jornalistas conseguiram fazer bons papos com ele – ainda que muitas vezes querendo escutar de Brown um recado, uma ordem, um próximo passo, uma análise da conjuntura – muitas vezes essa missão foi cumprida sem soar desrespeitosa. Mas outras não foi. No próprio podcast, Brown chega a lembrar a vez que foi a uma palestra e as pessoas ficaram chateadas com sua resposta sobre cotas. Ele, um defensor das cotas, apresentou a complexidade da questão ao lembrar que existem muito negros inteligentes que são contra elas, uma resposta que irritou a plateia e os produtores da palestra. “É preciso essa pergunta?”, ele questiona.

Todas essas ideias voltam ao podcast “Mano a Mano”, essa grande novidade. Ao Brown diante de uma convidada polêmica. Ele chega a admitir no fim da entrevista que tinha medo inclusive de colaborar com uma situação que colocasse Karol em mais tretas. E ele resolve tudo com as perguntas certas – pergunta a idade, a cidade, se coloca no mesmo lugar da entrevistada, mostra sua admiração, pergunta da sua arte. Quando encontra as fragilidades dela, devolve com as suas – generosidade, afeto, entende?

As perguntas mais duras que faz são as perguntas reais. Quase como um psicólogo, alguém acertou ao comparar no Twitter. Por que aceitar participar do BBB? Por que acreditar no que os outros pensam da gente? Imagino que Karol saiu de lá com a sensação de ter dado a entrevista que nunca teve chance de dar. E Brown de tocar o papo que poucas vezes encarou quando estava do outro lado do balcão. Aliás, nesse espaço relaxado e real, Brown de alguma maneira também fala sobre si de maneira inédita, conta das brigas dos Racionais, sobre sua dureza, teoriza sobre a Globo que nem bem resolveu seu racismo e já quer ensinar a militar. Fãs dele não podem deixar de escutar. Como cultuador da banda, são meus momentos favoritos, ainda que o foco dos episódios também sejam outros.

Ah, não posso encerrar sem elogiar a presença também, no “Mano a Mano”, de Semayat Oliveira, que orienta Brown jornalisticamente durante o papo e traz uma visão que acrescenta à conversa em bons momentos – como quando se levanta a questão do pardo ou das mulheres negras serem sempre fortes.

***

* A imagem da chamada na home da Popload para este post é de Pedro Dimitrow.

 >>