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SEMILOAD – Por quanto tempo vamos “get back”?

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* Dora Guerra vai aos Beatles. Nossa parceira mineira e semanal, proprietária da espetacular newsletter musical “Semibreve”, bota o chapeuzinho agora de Semiload para questionar se precisamos de mais documentários, reedições, áudios inéditos ou “inéditos” da maior banda de rock do mundo “só” porque ela até pode ser a maior banda do mundo. Mas tem outras.

Enfim. O assunto parece até tenso, mas não é, não. Dorinha, que ama os Beatles e fala não por falta de amor, mas por sobra, explica por quê, usando words of wisdom.

beatlesdora

Nesta semana saiu o trailer de um documentário novo dos Beatles – sim, um documentário novo sobre os Beatles –, dirigido por Peter Jackson. O ano é 2021 e recentemente marcamos o aniversário de 50 anos sem a banda. É, cara. Meio século.

Por isso, é com pesar no meu coração de beatlemaníaca que penso: está na hora de superar os Beatles.

Primeiro, vamos dar a César o que é de César, claro. Os Beatles têm um legado inegável, redefinindo a música pop por inteiro e encabeçando uma geração de ídolos. Os rastros do grupo são eternos: foram eles os “criadores” do chamado “videoclipe”, os responsáveis por dar novos significados à noção de fandom, ídolo, de música e rock. Foram mestres no que fizeram, ainda que se recusassem a repetir uma mesma fórmula com frequência para experimentar, encarando a música como um constante exercício da novidade. Tiveram aquele desenvolvimento de personagem perfeito: dos teddy boys de Hamburgo aos visuais esquerdista-riponga da virada para os anos 70, basta olhar para os quatro integrantes para entender uma parcela importante da evolução cultural que rolou nesse tempo.

Os Beatles têm de ser sempre estudados, uma espécie de capítulo essencial na nossa história enquanto mundo e cultura. Suas músicas podem e devem ser constantemente escutadas – parte da magia dos Beatles é justamente a capacidade de as músicas continuarem vivas, tocando novas almas diariamente. Ponto para eles, sempre.

Mas… É preciso muito cuidado para a gente não cair em alguns discursos fáceis, repetidos e maçantes para um mundo que já nos mostrou muito mais. Nos últimos tempos, os Beatles foram um produto extremamente vendável, um caminho muito conveniente para falar sobre música – mas que já está saturado, muito mais que a música que eles de fato fizeram.

Afinal, estamos de fato contribuindo para a música quando batemos nessa tecla de novo? Que relevância tem acrescentar mais um aos milhares de documentários, livros, depoimentos e entrevistas que atestam sobre John, George, Ringo e Paul? Eles são mesmo o único objeto de estudo possível em todo o universo cultural da década de 60?

Quando falamos de “clássicos”, é importante lembrar – de Beethoven a Beatles – que “clássico” tem um significado bastante subjetivo (similar ao que chama homem branco de olhos azuis de “padrão”). Tudo bem, eles são grandes nomes, inquestionavelmente – mas mesmo para os parâmetros da nossa cultura ocidental chamar só alguns poucos homens brancos de “clássicos” ou, ainda, “os melhores de todos os tempos” costuma vir acompanhado da invisibilização de alguém; alguém possivelmente tão importante ou necessário quanto.

Para muitos de nós, a banda já veio com o rótulo pronto, impassível de questionamento. Era a melhor banda do mundo e pronto – título que já era estranho para a época (porque “melhor” é subjetivo!), ainda que fosse difícil de contestar quando se tratava da maior banda em proporção. Mas, seguindo esse parâmetro, consideraríamos o BTS uma banda muito maior que os Beatles; seguindo o parâmetro de qualidade musical, seria muito antiquado – um ato de fechar os olhos, aliás – achar que nunca ninguém fez nada melhor que a banda desde então.

E já existe arquivo histórico mais que suficiente para compreender quem foram os Beatles, sem a necessidade de dissecar cada registro da existência de cada integrante. Ainda em 2021, não damos respiro algum a uma banda cuja visibilidade inclusive matou um deles. Parece que o mundo segue numa relação de fandom intoxicada pelo grupo; até hoje, vivendo coletivamente em um quarto lotado de pôsteres de cada um dos quatro integrantes, tentando descobrir o tom exato dos olhos de Paul McCartney. Eu entendo ter a curiosidade de saber o que se passava na vida deles – mas já não sabemos muito?

Essa insistência contínua no mesmo grupo de músicos me passa a sensação de que seguimos uma sociedade nostálgica e fechada; apegadíssima aos ídolos de sempre, sem coração aberto pra possibilidade de algo tão grande quanto ainda vir por aí. E aí querer recontar a história dos Beatles em 2021 faz parecer que, desde eles, nunca mais houve música: ficamos eternamente presos no “na minha época era melhor”.

Reconheço que a crítica musical tem, devagarzinho, tentado reparar o dano que ela mesma criou. Veículos como a “Rolling Stone” – uma das responsáveis pelo culto inextinguível do panteão do rock clássico – e o famoso e polêmico “Pitchfork” têm entendido que a música é um universo em eterna expansão, vivo e que escapa aos rótulos. Ainda que ambos os sites insistam na narrativa das listas e das notas, eles compreendem que, para avaliar o que é bom, temos que considerar o que deixou de legado. E como coisas novas sempre aparecem – bebendo de múltiplas fontes –, o que é “melhor” sempre muda; Beatles deixou muito legado, sim, mas o mesmo aconteceu com outros grandes nomes da época que falamos muito menos.

A esta altura, é hora de deixar o trabalho dos Beatles seguir seu curso, resistindo ao tempo sua maneira; se ater a essa pauta é, de novo, negar a visibilidade de algo essencial do “aqui e agora” – para viver em um passado bacana (para eles), que já passou. Estamos todos precisando aprender com a moral dessa história: precisando repensar os nossos ídolos, abrir espaços pra novos clássicos, parar de lamentar a morte do que não morreu (a boa música).

Existe muita coisa acontecendo ao seu redor agora, fazendo história. Até o Paul vive se reinventando, criando coisa nova – e a galera aí, revirando bastidores de uma gravação dos Beatles de 1969 à tarde. How long do we need to get back?

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* Dora Guerra don’t let you down no Twitter como @goraduerra.

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CENA – Céu chega mais em seus ídolos para fazer um novo álbum. Começando pela Rita Lee

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* Até aqui a paulistana Céu lançou cinco álbuns. Todos autorais em essência. Em sua discografia, são raros os momentos em que ela se dedicou a outros autores – Bob Marley, Aldir Blanc e João Bosco, Jorge Ben Jor, Nelson Cavaquinho e Oswaldo Martins, Lucas Santanna, Caetano Veloso e Dinho do Boogarins são alguns nomes de sua pequena lista, dado o número de álbuns. Jorge dü Peixe é um dos poucos sortudos com quem ela gravou duas vezes, se nossas contas estiverem certas. Até parece muita gente vendo assim, mas as interpretações de Céu sempre são uma ou duas faixas de cada álbum – todo o resto é dela. De vez em quando sozinha, de vez em quando com parceiros.

Um disco apenas interpretando outras pessoas era um desejo antigo da compositora e cantora, uma lembrança do seu começo de carreira que nunca tinha sido comtemplado em disco. Na pandemia, trancada em casa, ela voltou a antigas músicas que amava – como muito de nós, né? Já relatamos por aqui o quanto na pandemia parece mais fácil ficar juntinho de canções queridas de sempre do que de novidades. Desse encontro vem o álbum “Um Gosto de Sol”, com produção de Pupillo e repertório pensando em conjunto por Céu, Pupillo, Edgard Poças e Marcus Preto. Sai em novembro.

É simbólico que o primeiro single seja justamente “Chega Mais”, de Rita Lee – compositora que basicamente gravou seu próprio material durante toda a carreira, um valor e tanto em um país machista que tenta reduzir as conquistas de nossas artistas, sejam elas autoras de sua obras ou intérpretes, como Elis Regina, Maria Bethânia e Cássia Eller, que facilmente poderiam ser registradas como co-autoras de cada canção que gravaram.

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“Chega Mais” é da safra 79 de Rita, está em seu primeiro álbum que leva apenas seu nome e que dá o direcionamento de liberdade no seu som, abraçando sem medo um lado mais pop. A versão de Céu deu uma malemolência toda dela a canção. Chega mais.

O single “Chega Mais” tem a seguinte galera: Pupillo (bateria, percussão e produção musical), Hervé Salters (teclados), Lucas Martins (baixo), Céu (backing vocals) e Andreas Kisser (violão de 7 cordas). O guitarrista do Sepultura é o violonista oficial em todo o álbum.

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* As fotos enevoadas de Céu, a da home da Popload e a da capa do single neste post, são de Érico Toscano.

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Está num relacionamento? Então veja o vídeo novo para “Moody”, da Self Esteem. Ou não veja…

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* Não sabemos você, mas a gente aqui já foi bem impactado pela nova música da Rebecca Lucy Taylor, mas conhecida internamente e externamente pelo nome do seu projeto bonito, Self Esteem. O single saiu em setembro, demos aqui e tals. Hoje saiu o vídeo.

Impactado num sentido decente, digamos. Bom, orgânico, não por algoritmo. Não é difícil sintonizar rádios cool reais ou virtuais como Triple J ou KEXP ou BBC 6Music ou Beats One, you name it, e lá está a Self Esteem.

Com um nome desse, um novo single chamado “Moody” e um vídeo fofo-treta demais, não poderia dar outra. Rebecca chamou para atuar no vídeo o ator e comediante ou ator-comediante, inglês como ela, o Alistair Green.

Tanto “Moody” quanto as imagens para decifrá-la tratam do tema caro a Self Esteem, a mental health. Mas de um jeito mais “leve”, ácido, bem-humorado para tratar de uma coisa que só traz mau-humor. Ajuda o canto-falado muitas vezes de Rebecca.

“Moody” é o quarto single de “Prioritise Pleasure”, seu novo álbum que sai na semana que vem. Todas as músicas conhecidas da moça são boas.

“Moody”, o vídeo”, grosso modo e para não dar muito spoiler, porque sua trama é bem conduzida na temática própria dela, lembra esse seriado bergmaniano “Cenas de um Casamento”, da HBO Max. Entendedoras e entendedores entenderão.

Se bem que, para Rebecca, o vídeo é uma versão mesmo de “We Found Love”, da Rihanna, só que mais realístico na representação de um relacionamento.

A seu critério.

A partir de novembro agora Self Esteem sai em turnê inglesa de 19 shows. Estaremos de olho.

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Billie Eilish no telhado. Veja a cantora mandando “Happier than Ever” no rooftop e socando o Jimmy Kimmel na TV

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* Um soco no estômago do apresentador Jimmy Kimmel e uma performance no rooftop de hotel em Hollywood. Foi assim a passagem da estrela Billie Eilish pela TV americana nesta semana.

Eilish mostrou sua lindaça e intensa canção agridoce “Happier than Ever”, que começa calminha, acaba em clímax e dá nome ao seu recém-lançado segundo álbum, que apareceu em final de julho e trouxe muitas camadas à música da garota do que pode inicar esse título de Cinderela.

Billie Eilish levou seu baterista e o irmão band-leader Finneas para o alto do Hollywood Roosevelt Hotel, do começo do século passado, quase centenário e o mais antigo hotel ainda em funcionamento na Califórnia.

O letreiro vermelho em neon e os vidros do rooftop do Roosevelt funcionou lindão para um cenário de “Happy than Ever”, a música.

Billie Eilish estava nessas participando como atração musical do programa do entrevistador Jimmy Kimmel, que a botou em conversa e ainda a fez participar de uns sketches. E, no quadro da “Lista dos Desejos”, ela cortou o cabelo de uma menina da plateia, ganhou um ratinho e meteu o soco no Kimmel… Ok?

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Beatles and Stones. O riso final da maior banda do mundo, em trailer. A treta da atual turnê americana da outra maior banda do mundo

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* Popload Classics.

– Saiu ontem o trailer de “Get Back”, o documentário dos Beatles de seis horas de duração, dividido em três partes, que o diretor Peter Jackson burilou em cima de quilos de latas de filmes com material inédito do magistral The Beatles que estava “perdido” (ou guardado) e representa o período imediatamente antes do final da banda, em 1970.

O filme estreia na plataforma Disney+ no dia 25 de novembro, dentro de pouco mais de um mês. E traz, entre sessions de estúdios e a famosa apresentação ao vivo no telhado do prédio da gravadora Apple, no número 3 da Savile Row, em Londres, em janeiro de 1969, o que seria o último show dos Beatles, digamos. Cinco músicas tocadas em 42 minutos em nove tomadas (era uma filmagem), com a música “Get Back” sendo performada por três vezes. Conforme a notícia do show bizarro dos Beatles foi se alastrando pela cidade, um povo foi aglomerando na rua, o que causou distúrbio do trânsito e chamou a atenção da polícia, que invadiu o prédio da Apple e acabou com o icônico concerto.

“Get Back”, o doc, mostra os Beatles em 1969 gravando seu disco final, o “Let It Be”, que seria lançado em maio do ano seguinte. O filme mostra um compilado de quase 60 horas de filmagens e 150 horas de áudio já na época delicada de separação, mas se mostrando bem amigos e um zoando o outro por muitas vezes. Segundo informe da Disney, “Get Back” pode ser considerado o mais íntimo e mais honesto momento do processo criativo entre os quatro rapazes jamais filmado.

O trailer, aqui embaixo. Pelo que entendemos, as três partes de “Get Back” passarão em dias diferentes no Disney+. Em 25, 26 e 27 de novembro, este último a data da final da Libertadores da América (ok, misturamos os assuntos).

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– Com a turnê americana em pleno curso, na retomada dos shows pós-quarentena e fazendo as primeiras apresentações sem nunca mais ter o saudoso Charlie Watts sentado na bateria, o outro grupo inglês gigantesco The Rolling Stones viraram ainda mais notícia por abandonarem a ideia de tocar nos concertos um de seus maiores hits: a música “Brown Sugar”.

A canção é considerada insensata, ofensiva e indelicada pelo conteúdo de sua letra, embora Mick Jagger tenha afirmado que a música condenada pode voltar para o setlist em breve.

“Brown Sugar”, lançada em 1971 e um dos começos de música mais emblemáticos da história do rock, escrita por Jagger num dos períodos mais zoados da história da banda, faz referências à escravidão no sul dos EUA, a sexo e a drogas. Para alguns detratores, inclui tortura, racismo, sexismo e até pedofilia.

“Gold coast slave ship bound for cotton fields
Sold in a market down in New Orleans
Skydog slaver knows he’s doing alright
Hear him whip the women just around midnight”

“Brown Sugar” some dos shows agora, sinal dos tempos, mesmo sendo a segunda música mais tocada pelos Stones, só perdendo para “Jumpin’ Jack Flash”. Segundo Jagger, a banda toca a canção todas as noites desde 1970 “mas, às vezes, de repente você pensa e tira uma dessas fora do setlist, para ver como o show caminha sem”.

Uma galera na Inglaterra está contrária à ideia de a banda abandonar um de seus grandes hits e alguns fãs chama a banda de covarde na internet, até.

O guitarrista Keith Richards, segundo o jornal britânico “The Guardian” confirmou em entrevistas em Los Angeles que “Brown Sugar” está mesmo ficando de fora dos setlists, mas que ele anda bem confuso sobre essa onda negativa que a música passou a sofrer nos últimos meses.

“Estou tentando descobrir com as sisters onde é que está a problemática. Essa galera que passou a ficar contra a música não entende que é uma canção dos anos 70 sobre os horrores da escravidão?”

“Brown Sugar” atingiu o segundo lugar das paradas britânicas quando foi lançada. E em números atuais ao hit já foi acionado no Spotify 170 milhões de vezes.

Os Stones tocam hoje no SoFi Stadium, em Inglewood, Califórnia, num show esgotado. Amanhã vemos se “Brown Sugar” não vai estar mesmo no setlist. A música foi tocada pela última vez num show dos Stones nos EUA em 2019, em Miami.

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