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Direto do álbum “Happier than Ever”, Billie Eilish lança o vídeo mais triste do mundo

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* Já que estamos em época de considerar listas de melhores discos e melhores canções do ano, a garota fenômeno Billie Eilish, 19 anos, nos lembra respectivamente de seu beeeeelo segundo álbum “Happier than Ever”, lançado em julho, e de músicas contidas nele como essa “Male Fantasy”, que foi escolhida hoje como novo single, com um vídeo incrível de tão simples.

Porque a música, “Male Fantasy”, é incrível de tão simples, e Billy Eilish a transformou em imagens do mesmo jeito. Que vídeo maravilhoso. E ela mesma que o dirigiu.

“Male Fantasy” é uma canção de fossa, que Billie Eilish canta direcionada a uma “she”, que a deixou. Seria Billie a “male” da música? Ou “male” é só a fantasia que ela criou? Isso importa? Nada!

O vídeo é absurdo de bonito e de triste. Porque a dor de amor está ali representada em toda a sua intensidade dentro de uma casa. Nada a consola. A música ajuda muito a lama sentimental. Ela é toda construída na voz chorosa da cantora, com uns dedilhados bem econômicos e bem dados pelo irmão Finneas. E só. O que pode indicar uma pobreza técnica na verdade alcança um andamento lindo em que nada mais é necessário.

Veja por você mesmo.

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* No próximo dia 11 de dezembro Billie Eilish vai comandar o lendário programa de TV “Saturday Night Live”. Ela também vai ser a atração musical do show nova-iorquino. Será que ela vai introduzir ela mesma no “SNL”?

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Os quatro discos novos de Arca, lançados sexta, apontam para o futuro do pop e complicam as listas de melhores do ano

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* Nunca um lançamento de disco “comum”, sexta passada saiu “Kick IIIII”, o oitavo disco da transgressora e transformadora artista venezuela Arca, também cantora, compositora, artista pop e DJ futurista que constroi sua carreira em Barcelona.

É sim o oitavo disco mas o QUARTO álbum dela lançado, nesta série “Kick”, que inclui um primeiro volume revelado no ano passado, o “Kick I”, que se formos escrever na grafia estética projetada é “kiCK i”, “kiCK ii” e por aí vai.

Arca, no adjetivo futurista que a sustenta, entre vários, não significa que ela faz música de ficção científica, veja bem. Arca é o que imaginamos que vai ser a música pop no futuro, mas já feita aqui no presente, bem na nossa cara. Pop, eletrônica e visual, a música de Arca nos faz pensar. Seu nome está bem ligado a outros como Kanye West, Bjork, SIA, FKA Twigs e Kelela, vai vendo.

“Kick IIIII”, o de sexta-feira, é um disco “surpresa”. Vamos tentar explicar. A princípio era esperado o lançamento de “Kick II”, a continuação de “Kick I”, de 2020. Normal até aqui.

Depois, soube-se por um anúncio há algumas semanas, que seriam três discos lançados de uma vez no dia 3 de dezembro. Daí “Kick II”, “Kick III” e “Kick IIII” saíram entre os dias 1º e 2, antes da data anunciada. Então, no dia 3 mesmo, veio “”Kick IIIII”, que não estava programado. No total, em três dias, foram despejadas 44 músicas novas em 135 minutos de somo. Isto é Arca.

O todo desses lançamentos novos é aquilo que de certa forma já esperávamos mas não cansa de nos surpreender, por mais paradoxal isso possa ser, mas não é baseado no universo Arca: são quatro discos novos que vai do pop mais normal linha Katy Perry (nome aleatório) à mais cabeçuda eletrônica linha Aphex Twin, com tudo fazendo sentido. Adicione nesse caminho música latina, Prince, hip hop fino, Timbaland…

Em “Kick IIIII”, Arca traz “Sanctuary”, uma música em parceria com o sempre vanguardista Ryuichi Sakamoto, que é por onde puxamos uma série de vídeos-áudios aleatórios disponíveis aqui embaixo. Mergulhe na arca de Arca.

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* Está bastante esperado o show que Arca vai fazer no próximo dia 9, quinta-feira agora, no espaço de arte e performances Knockdown Center, em Nova York. Ingressos esgotados há tempos. Arca se apresentou na sexta passada em Los Angeles, no Catch One. São as duas performances previstas da venezuelana no ano.

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POPNOTAS – Coldplay anuncia hoje os outros shows da turnê por aqui. Dave Grohl encerra a Hanukkah Sessions com Clash e Kiss. Phoebe Bridgers toca uma do Tom Waits. E a ganhadora do livro brasileiro do Mark Lanegan

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– O enorme grupo Coldplay deve anunciar hoje outras datas de shows na América do Sul em 2022, ancorada em sua participação no Rock in Rio, no dia 10 de setembro. Pelo menos uma das datas da turnê “Music of the Spheres” está prevista para acontecer no Allianz Parque, laureada arena de São Paulo. Vão ter outros no Brasil. A colorida banda de Chris Martin deve botar para circular junto, também, a cantora americana-nascida-cubana Camila Cabello, como fez com a britânica Dua Lipa, da última vez, em 2017. Peru, Colômbia, Chile e Argentina estarão neste rolê. A gente atualiza esta nota conforme as notícias oficiais chegarem.

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– O chapa Dave Grohl encerrou neste final de semana, com músicas de Clash e Kiss, as duas últimas performances da Hanukkah Sessions, o projeto anual que ele e o produtor amigo Greg Kurstin fazem para prestar homenagens musicais à famosa festa judia. As noites 7 e 8 foram de, respectivamente, “Train in Vain”, clássico da banda punk inglesa, e “Rock and Roll All Nite”, outro hit universal dos cara-pintada mais famosos do rock americano. Nesta última session, em que Kurstin faz todas as guitarras no sintetizador, sempre com Grohl na bateria lembrando seus tempos nirvânicos, o vídeo traz os dois dando rolezinho de carro em Los Angeles, com as pinturas do Kiss na cara.

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– A loirinha californiana Phoebe Bridgers continou sua boa mania de fazer covers legais, desta vez lançando oficialmente, da sexta-feira, “Day After Tomorrow”, do grande cantor trovão, compositor e ator americano Tom Waits. A música, de 2004, é um hino antiguerra de Waits, sobre um soldado voltando para casa depois de uma batalha. No sábado Bridgers, que veremos de pertinho em março no Lollapalooza Brasil, participou da série de TV “Austin City Limits” cantando “I Know the End”, não por acaso a última faixa de seu segundo álbum, o belo “Punisher”, lançado no ano passado. Dois momentos tranquilinhos da fofa Phoebe Bridgers.

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Cristina Sanfelici (cmsanfelice@gmail.com), que inclusive aproveitou o email para nos mandar um Feliz Natal, foi a vencedora do sorteio de um exemplar de “Sing Backwards and Weep (Memórias)”, impressionante livro do roqueiro Mark Lanegan. Um botton e um pôster estão no pacote. A obra acaba de sair em português pela editora Terreno Estranho.

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SEMILOAD – O pop brasileiro vai ao cyberpunk. Mas por que mesmo, hein?

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* Nossa pensadora musical contemporânea Dora Guerra, que comanda a newsletter parceira Semibreve, agora implic… questiona os vídeos esteticamente frios do quentíssimo pop brasileiro. Será que é proposital ou acidental? Coincidência estética ou o nosso pop quer nos avisar que já estamos vivendo um certo apocalipse (ou pós-apocalipse) cultural?

Dora Guerra dá uma iluminada nessa escuridão.

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Notou que os vídeos do pop brasileiro andam meio… cyberpunks?

Tudo bem, existe essa tendência no pop gringo já há algum tempo (o k-pop que o diga!). Mas, na minha concepção, o cyberpunk era um pouco difícil de associar ao pop brasileiro: uma música tradicionalmente mais orgânica, viva, carnavalesca. Por exemplo: “Nem Um Pouquinho”, da Duda Beat, tem lá seu lado sombrio, mas cai num pagodão baiano. Por que complementar esse tipo de sonoridade com um vídeo tão escuro e “poluído”?

De Duda Beat a Iza, passando por Pabllo Vittar, é curioso que artistas cujas marcas registradas eram (essencialmente) o calor estejam atraídas por visuais mais frios. Muitas dessas artistas, inclusive, cantam sobre temas individuais, não coletivos; têm mais política, crítica e filosofia em seus pronunciamentos públicos que em suas músicas propriamente ditas. Será que escolher o cyberpunk não passa uma outra mensagem?

Afinal, a estética escancara diversas questões: projeta um futuro possivelmente poluído e pessimista; uma vida urbana hiperbólica, que te engole por completo; uma dúvida profunda sobre o que quer dizer ser humano em meio a desenvolvimentos tecnológicos tão avançados; e a decadência, decadência, decadência.

Por esses e outros motivos, esse estilo fantástico-tecnológico-decadente até casou bem com o trap – o que dá para sacar aqui pelo trabalho de alguém feito o Matuê, no disco “MÁQUINA DO TEMPO”. Pegando pelo lado literal, basta ver que a voz autotunada – tecnológica, meio robótica – e o beat, mais sombrio, têm uma conversa direta com a estética cyberpunk. Tudo isso, claro, influenciado por um dos maiores do gênero internacionalmente: Travis Scott.

E à medida que o trap vai deixando sua influência mundialmente e reinando nas paradas, era de se esperar que seus elementos visuais também deixassem pistas no universo mais pop. Vale lembrar também que existe algo de sensual em tudo que é sombrio – o caso do cyberpunk não é exceção; e, se cabe sexy, cabe o pop.

E tem mais, tem mais: tem uma indústria audiovisual crescente no brasil (aos trancos e barrancos, mas isso a gente deixa para outra hora), com gente jovem e boa de serviço e investimentos milionários em videos musicais como nunca antes. Tem grande artista com recurso para bancar um mundo fantasioso ou uma distopia e isso com certeza ajuda. Além disso, a relação direta que a estética cyberpunk faz com o mundo dos games é uma proposta atraente pra qualquer um.

Mas, mesmo considerando todo o papo daí de cima – e ainda que pareça apenas uma escolha estética –, não é só isso: a mera opção pelo cyberpunk já carrega muito significado. Ao projetar um futuro, a estética acompanha um sentimento coletivo, baseado em um certo pessimismo, muitas questões sobre a humanidade e a tecnologia. Mesmo que o flerte com o cyberpunk não ocorra em temática musical ou com densidade, escolher essa estética quer dizer acreditar que ela combina com algo do presente; por definição, a ficção científica sempre tem raízes rastreáveis no agora.

Fato é que o cyberpunk combina com o Brasil, sim. Combina com a sensação de apocalipse ou pós-apocalipse que ainda nos assombra; com o universo poluído, decadente e tenebroso que o governo nos proporcionou; com a tecnologia que, na pandemia, foi o único mediador possível das relações humanas (que de humanas pouco tiveram); com a queimada do que temos de mais simbólico e colorido; e com a realidade autoritária dessas distopias.

Mais precisamente: se estivéssemos vivendo um eterno Carnaval, não sei se haveria espaço para cyberpunk.

Uma estética nunca é só uma estética; em um ou outro vídeo talvez, mas, se já passou de três, se torna algo para se observar mais atentamente. Dançando e sensualizando com seus replicantes, Pabllo Vittar não pretende te trazer o mesmo terror realista que o Criolo em “Sistema Obtuso” (que não é cyberpunk necessariamente, apenas punk de se ver). Mas nunca esteve tão próxima do clima obscuro, coabitando em um mesmo universo tenso e pesado.

É que somos mesmo conterrâneos nesta terra distópica. Será que, quando tudo passar, os vídeos se iluminam de novo?


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* Dora Guerra escreve coisas iluminadas no Twitter dela, o @goraduerra.
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Sabe a biografia do Mark Lanegan, contando que o Kurt Cobain ligou para ele antes de se matar (e ele não quis atender)? Saiu no Brasil. Quer uma?

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* Livrão musical de Natal para além da segunda e lindona edição sobre as letras do Bob Dylan (Companhia das Letras), a obra “Sing Backwards and Weep (Memórias)”, o livro do roqueiro Mark Lanegan, 57 anos, acaba de sair no Brasil graças à bravura musical da editora Terreno Estranho.

“Sing Backwards and Weep (Memórias)” foi originalmente lançado no meio do ano passado nos EUA e Inglaterra imortaliza em letras as lembranças dessa figura importantíssima no rock americano no final dos 80, princípio dos 90. Lanegan, uma das vozes de trovão mais reconhecíveis do rock e já personagem de importantíssimo Popload Gig no Cine Joia anos atrás, foi o líder da bandaça Screaming Trees e conseguiu ser protagonista e sair vivo da cena grunge que fez a última grande revolução do rock.

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Amigo pessoal de Kurt Cobain e dono de frases na linha “A heroína me impediu de morrer de alcoolismo”, Lanegan transformou em literatura uma vida mais ou menos assim retratada em “Sing Backwards and Weep (Memórias)”: pai beberrão, mãe abusiva, seu vício em bebida, pornô e ladroagens AOS DOZE ANOS de idade, as posses de drogas, vandalimo e fraudes cometidas aos 18 anos, até aos 21 anos estar no grupo pré-grunge Screaming Trees, apenas uma opção para ele fugir da modorrenta e empoeirada cidade onde cresceu, Ellensburg, no Estado de Washington.

Aos 29 anos, está no livro, oito discos depois, ele se encontrava vivendo em Seattle, fumando tresloucadamente, acendendo um cigarro no anterior, de roupão de banho e cueca suja, vendo novela na TV, quando um de seus melhores amigos ficou ligando insistentemente. Mas ele não quis atender. Era Kurt Cobain, que poucas horas depois da não-atendida do amigo meteu um tiro de espingarda na própria cabeça, matando a si mesmo e jogando uma nuvem pesada sobre a grande cena musical mundial nos anos 90.

Tudo isso falamos aqui quando “Sing Backwards and Weep (Memórias)” foi lançado lá fora: que Lanegan na real desconfiava mesmo que podia ser Cobain ali, ao telefone, mas achou que o brother do Nirvana iria pedir a ele “apenas” um help para comprar droga, o que acontecia frequentemente.

Tudo isso está contado no livro, além das narrativas de que conhecia Cobain bem antes da fama e tinha bastante carinho por ele. Mas Cobain não só ligava direto querendo que Lanegan fizesse o corre das drogas como constantemente na sua frente brigava muito com a mulher, Courtney Love, e isso deprimia o cara do vozeirão do Screaming Trees. O que justifica muito sua “esnobada” àquele último telefonema do amigo.

A história não para de ser pesadaça: Lanegan viveu ou continuou vivendo numa bad tão grande mesmo depois do suicídio do amigo. Ele até conta, que naqueles tempos, correu o risco de ter um dos braços amputados de tanto que injetou heroína nele. Chegou até, num tormento da ocasião, durante uma turnê do Screaming Trees, pedir a um de seus técnicos de som que procurasse uma prostituta para ele ter o último “blow job” como uma pessoa “normal”. O cara falhou na missão.

A ironia de toda a história: foi a viúva Courtney Love que tirou Lanegan dessa lama existencial e pagou todo o tratamento de rehab para ele, que o manteve vivo.

Tudo isso e muita coisa relevante para a música que gostamos, em um período que adoramos, estão em “Sing Backwards and Weep (Memórias)”, agora em português, a um custo de R$ 89,90.

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* SORTEIO – A Popload bota a sorteio um exemplar de “Sing Backwards and Weep (Memórias)”, a versão em português do livro de Mark Lanegan, acompanhado de um pôster e um botton. Quem quiser adiantar os serviços natalinos e tentar a sorte é só mandar um email a lucio@uol.com.br, tenho “mark lanegan” na linha de assunto. Segunda-feira aviso aqui mesmo o nome da ganhadora ou ganhador. Quer?

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* FESTA DE LANÇAMENTO – Na quinta-feira, dia 9, a partir das 19h, o livro de Mark Lanegan ganha uma celebração no bar FFFront, na Vila Madalena, em SP (rua Purpurina, 199). O tradutor da obra, o jornalista Carlos Messias, vai se encarregar da discotecagem, dentro do universo musical de Lanegan. “Sing Backwards and Weep (Memórias)” estará à venda no local, assim como bottons, camiseta e pôster do livro! E os demais livros da editora também.

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* O QUE NÃO ESTÁ NESTE LIVRO – Se a heroína e o álcool não mataram Mark Lanegan, quase que a covid-19 o fez. O roqueiro, que inclusive já fez parte do Queens of the Stone Age, padeceu em coma em março deste ano e saiu do hospital na Irlanda, onde mora hoje com sua mulher, com sua audição severamente afetada. O caso vai estar num novo livro de memória dele, “Devil in a Coma”, a ser lançado em breve.

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