CENA – Que disco é este? A estreia sem limites da Jadsa: entrevista e opinião

1 - cenatopo19

* Quem acompanha o Top 50 da CENA reparou que estávamos beeeeeem ansiosos pelo disco da Jadsa, “Olho de Vidro”, que finalmente foi lançado nesta sexta-feira. A baiana, de 26 anos – aniversário que ela celebrou nesta semana, inclusive -, foi nos conquistando single a single. Daqui, a sensação era de bastante expectativa: seria o melhor disco do ano da música nova nacional? O que faz um disco ser melhor ou mais importante que outros, afinal de contas? É a música pela música? De todo modo, para não nos alongarmos em discussões filosóficas, já adiantamos aqui a conclusão do poploader Vinícius Felix, nosso especialista de CENA, que assina o texto abaixo, mistura de entrevista com opinião. Sim, para ele, até aqui, é o disco do ano. Poxa, mas é março, amigo, não está cedo? Para Felix, não está, não. Abaixo, ele tenta deixar claro por que esse álbum diz tanto e faz tanto à CENA e qual a razão de ele ser uma obra que não aparece por aí todo dia.

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Fazer música é correr o risco de cair em alguns lugares comuns ou vícios. Vícios de linguagem, de forma, de timbres. Moldar seu som pela moda, país ou mercado. Pense, por exemplo, nos limites econômicos que atravessam uma gravação. Em outras palavras, é complicado ser original, se fazer entender, produzir algo que te represente de fato. Conseguir esse feito no primeiro trabalho, então, é algo que mesmo alguns dos grandes artistas não alcançaram.

E ouso dizer que Jadsa aprontou isso em seu primeiro álbum, “Olho de Vidro”. Ainda que não seja a estreia dela em estúdio, por conta de outros projetos e um EP, mesmo que o percurso dela até aqui já tenha sido longo e registrado em vídeos pelo YouTube, o impacto deste disco é de chegada e de chegar com tudo.

Pessoalmente, conheci Jadsa pelo single “Olho de Vidro”, sem ter visto nada dela antes. De cara senti algo ali original. Lembrava passado, presente, futuro, Brasil, sons do mundo. A guitarra ecoava Itamar Assumpção e ecoava The Edge. Tudo ao mesmo tempo, mas não de um jeito centrista bobo, esse tal argumento de “nem de esquerda, nem de direita”. Esse equilíbrio encontrado por Jadsa é radical.

Está no movimento que aparece, por exemplo, em suas letras que lembram mantras. Diversas vezes em “Olho de Vidro” versos se repetem já soando completamente diferentes na volta. Pegue a faixa de abertura “Mergulho”, em que ela deixa todos versos da músicas se apresentarem de três maneiras diferentes, sendo que na primeira vez ela nem chega a mencionar todas as palavras. Na explicação de Jadsa: “É mântrico, mas não um mantra de ficar em transe. E, sim, um mantra de se acelerar e romper as barreiras, atravessar as encruzilhadas”. Aqui com certeza, imagino eu, João Gilberto sorriria para Jadsa da mesma maneira que sorriu para Caetano quando se apresentaram juntos. Exagero? Talvez nem tanto.

Lembrando Caetano, inclusive, Jadsa deixa pontas de canções que não são suas pelo disco, assim como o baiano fez em “Transa”. E, assim ainda como Veloso, Jadsa coloca a velha e a nova geração em par de igualdade, aproxima essas gerações, dá igualdade. Por “Olho de Vidro” se escuta versos antigos e novos: Roberto e Erasmo, Tulipa Ruiz, Luiza Lian, Itamar andam pelas mesmas esquinas com Jadsa dando uma piscadela ao publico, um “Tá ligado nisso?”.

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Trocando uma ideia rápida nesta semana com Jadsa, descobri que seu plano de trabalho se encaixava na minha leitura. “Quando me perguntam por que o disco é pensado no Itamar, eu enxergo isso, mas não no som, e sim nessa tentativa de preservar os griôs, os antepassados. E botando para frente essa parada de uma maneira tecnológica, atualizado, senão ninguém vai acompanhar. A gente tem que acompanhar para chegar nas pessoas, todas as idades. ‘Olho De Vidro’ é basicamente isso, enxergar através e além, estar vendo lá na frente e estar vendo lá atrás também e trazendo para o agora”.

E aqui que vejo um ponto de Jadsa que está bem fora da curva. Sua abordagem está longe do som pelo som, porque para ela som é ação política também. Ela sacou a viagem de Itamar – um toque que fica mais evidente em “Selva”, talvez a hora mais séria do álbum. No nosso papo ela ainda volta a tratar som como um lugar de proteção. Em “Mangostão” as esquinas de Salvador tocam ÀTTØØXXÁ, Ava Rocha e arrocha. “Quando ouço arrocha em São Paulo me sinto em casa”, ela comenta. Som é memória também. E memória é proteção.

Não por acaso, uma das músicas leva o nome de Luiza Lian. A faixa, “Lian”, é um abraço de Jadsa na compositora paulistana pelo carinho que o som de Luiza fez na vida de Jadsa quando ela estava vindo viver em São Paulo. Luiza sem saber acolheu a baiana. “Quando a Jadsa me contou que fez essa música num momento que tava chegando a São Paulo, fiquei me sentindo o próprio sound of reggae em ‘I’m Alive’, de Caetano”, escreveu Luiza no Twitter, que ainda participa da faixa em sua homenagem. “Quando convidei Luiza para estar na música do álbum comigo, só disse: esteja presente, não precisa fazer nada”, comenta a baiana.

Sendo feito desde 2016, tudo parece ter se encaixado para que Jadsa chegasse, no fim, ao álbum que sempre desejou. Ela tomou uma série de nãos do mesmo edital que aprovou seu disco. Em vez de desistir, trabalhou mais ainda no conceito durante o processo de espera. A mudança de Salvador para São Paulo, conhecer a cena, conhecer os músicos que acompanham ela neste disco. Tudo isso aconteceu nesse período de seguidas recusas. Irônico. Se tivesse dado certo antes teria dado errado, sabe? “Olho de Vidro” não seria tão especial quanto é agora.

“E eu só ia fazendo, fui compondo para Luiza sem conhecer ela, pensava no Kiko Dinucci sem ter trocado um ‘oi’ com ele”, ela comenta. Luiza Lian e Kiko Dinucci, que estão em seu disco, por muito tempo só habitaram a imaginação de Jadsa. É desse tipo de energia e ação que estamos conversando. Imaginar um mundo novo e construir ele com seus parceiros. Talvez o recado de Jadsa seja: não só sonhe, mas sonhe melhor, sonhe com o que parece impossível. Para alguém que não nasceu em família de músicos, era uma novata em São Paulo, ter um primeiro álbum com tantas participações especiais, de Aline Falcão, Ana Frango Elétrico, Filipe Massumi, João Meirelles, sintetizador, Josyara, Kiko Dinucci, Luiza Lian, Raíssa Lopes e Sérgio Machado, soava como delírio. Não é mais. Ou como a própria Jadsa canta em “Selva”: Some/ Se junte à gente/ Não hesite/ Exista sem limite.

“Olho de Vidro” é isso. Ele mesmo, um disco sem limites.

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* As fotos de Jadsa usadas para este post, inclusive a da cada de “Olho de Vidro”, é de João Meirelles.

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