Lembra quando…: a Popload entrevistou o Phil Selway, baterista do Radiohead? Era 2003 e eles já prometiam vir ao Brasil.

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radioheadbrasil

Vocês zoam, né? Mas vejam bem…

Se não me engano, quando entrevistei o baterista Phil Selway pela primeira vez, em 1993, o que talvez tenha sido também a minha primeira entrevista de música na vida (para a Revista BIZZ), ele já veio com uns papos no estilo “não vejo a hora de tocar no Brasil”. Ou não, talvez eu esteja delirando ou tenha arrancado essa reposta à força e, desde então, venho iludindo o povo brasileiro anunciando Radiohead-no-Brasil todo dia.

Pensa no Radiohead em 1993. Pós Pablo Honey, disco de estreia, e pré-Bends, ainda na fase Thom-Yorke-loiro, provavelmente. Não consegui achar essa entrevista para a Bizz online, infelizmente, mas achei a minha segunda entrevista com o mesmo Selway, agora para o jornal Folha de São Paulo, em 2003. Era a época do lançamento do disco Hail to the Thief e a conversa virou capa do caderno Ilustrada. Entre outras coisas, discutimos o vazamento do disco na internet e… a vinda da banda ao Brasil. Sim, 15 anos atrás. Também falamos sobre, ATENÇÃO: a “abortada vinda ao país” no ano anterior, 2002.
Não sou eu, gente. São eles!
O Radiohead iria pisar em solo nacional pela primeira vez somente em 2009.
(E, claro, pisa de novo na semana que vem, no Rio (dia 20) e SP (22).

radiohead

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Como você já sabe, às quintas-feiras, nós publicamos o saudoso #tbt, pegando carona naquela popular hashtag do Instagram e aproveitando para fuçar pautas antigas e matérias que se perderam na nossa versão impressa. Já recuperamos muita coisa boa e você pode ter acesso a todas elas no final deste post.

Fiquem agora com OK COMPUTADOR & Phil Selway, em junho de 2003.
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radiohead ilustrada

Ok computador

Com “Hail to the Thief”, Radiohead reencaixa o rock no meio de suas experimentações

Baterista Phil Selway fala sobre o vazamento do CD para a internet, turnê pela América do Sul e mudanças sonoras da banda

LÚCIO RIBEIRO
COLUNISTA DA FOLHA
São Paulo, sexta-feira, 06 de junho de 2003

Seja em Moscou, Tóquio, Londres, Nova York ou nas lojas de discos das Grandes Galerias, em São Paulo, a cena pop pára nos próximos dias para saudar a chegada do novo CD do Radiohead. Este “Hail to the Thief”, que será lançado no Brasil na segunda, o sexto disco do mais cultuado grupo de rock no mundo, nem chega a ser grande novidade para quem tem o mouse do computador direcionado para a revolução da distribuição de música na internet. Tal disco já é consumido em alta velocidade na rede desde que vazou inteiro, há dois meses, fato que pode ter a polêmica e a importância medidas pela quantidade de capas que mereceu em revistas e jornais de todo lugar, inclusive desta Ilustrada.

Para explicar esse encontro do “Hail to the Thief” real e do virtual (“O disco não estava pronto”), falar do inqualificável som da banda dentro dos rótulos convencionais (“Já ouvi dizer que fazemos rock espacial experimental, seja lá o que for isso”) e mostrar desconhecimento quanto à abortada vinda ao Brasil no ano passado, a Folha conversou por telefone, de Londres, com Phil Selway, 36, baterista e fundador do Radiohead.

Lúcio Ribeiro – Vocês acabaram há pouco uma pequena turnê britânica. Como foi a aceitação das músicas novas por parte dos fãs?
Phil Selway – Muito boa. Embora a gente já venha tocando várias das canções do novo álbum desde o final do ano passado [turnês em Portugal e Espanha], as músicas estão ficando mais fortes, mais intensas conforme vamos nos apresentando. Algumas, como “The Gloaming” e “Backdrifts”, estão ficando mais cruas, enquanto outras mais simples, como “Punch Up at a Wedding”, vão indo por um caminho experimental, têm ganhado uma sofisticação natural. Os shows do Radiohead têm sido bem diferentes a cada apresentação. Nós gostamos disso. E acho que os fãs também.

Como você descreveria o novo álbum?
Acho que esse disco é o que mais conseguiu captar no estúdio a energia que o Radiohead leva para o palco. Geralmente cansamos logo do disco de estúdio, mas renovamos nossa alegria de ser uma banda a cada vez que tocamos nossas músicas ao vivo. “Hail to the Thief” carrega elementos do que já fizemos nos outros cinco álbuns, mas é o que melhor captou a felicidade da banda em tocar. Nunca estivemos tão felizes como agora. “Hail to the Thief” consegue, nas letras, ser mais direto, chegar mais nas pessoas, do que “Amnesiac” [2001] e “Kid A” [2000]. E musicalmente considero quase tão bom quanto “OK Computer” [97].

Que tipo de música pop faz o Radiohead? Como você definiria a linha sonora da banda desde o roqueiro “Pablo Honey” (93), passando pela guinada atmosférica de “OK Computer” e chegando a este “Hail to the Thief”?
Bem, nós vivemos juntos como uma banda desde 1985. Inevitavelmente, até como um meio de sobreviver e de nos suportarmos, atravessamos diversas fases distintas. Somos muito felizes em sempre encontrar novos meios de trabalhar, de acordo com o que o pop nos oferece em determinado tempo e espaço. O que não quer dizer que renegamos o barulho que fizemos com “Creep” ou a histeria eletrônica que colocamos em “Paranoid Android” sete anos depois, por exemplo. Nosso desafio é fazer músicas que não fiquem datadas.

O quanto chateou vocês o fato de o CD ter vazado para a internet?
Ficamos bastante desapontados. As músicas nem estavam prontas. O que vazou não era aquilo que queríamos mostrar para o público.

A versão de “Hail to the Thief” que apareceu na rede é muito diferente da que está no disco?
Para a banda, sim. Talvez não para a maioria das pessoas. Se você é músico e ouvir as duas versões, nota a diferença.

Qual a posição da banda a respeito da troca gratuita de arquivos musicais pela rede?
[Pensando muito…] Não somos contra. Não acho que a internet vai matar a música, como a indústria costuma espalhar. É um modo bem eficaz para bandas novas divulgarem seu trabalho. Quando eu era adolescente, diziam que gravar disco em fita cassete ia matar a música. E eu gravei muito disco em fita cassete. E a música não morreu por causa da Basf. Acho que uma revolução como essa dos MP3s sempre força uma mudança das coisas. Mas quando acontece algo como foi com “Hail to the Thief”, que nem estava pronto, não acho bom.

Foi dito aqui no Brasil que o Radiohead tocaria no país no ano passado, estava acertado. Isso não aconteceu devido ao cancelamento do festival (Free Jazz) que traria a banda em outubro. Você confirma?
É sério isso? Não fomos avisados, acho, em nenhum momento. Não sei se pode ser verdade, porque nós da banda sempre sabemos onde [os agentes] estão nos levando. Dificilmente iríamos naquela época, porque ir à América do Sul com uma turnê é complicado e estávamos envolvidos com o novo disco.

Alguma chance de o Radiohead vir à América do Sul?
Sim, temos planos de fazer uma turnê pela América do Sul no próximo ano.

Qual sua música favorita do novo álbum? E qual a que você mais gosta das que a banda fez?
Deste novo álbum a minha preferida é “Sit Down. Stand Up”, porque acho que é a que consegue melhor captar todas as fases anteriores do Radiohead. A canção que eu mais gosto dentre todas as que a banda já fez é “Paranoid Android”.

Até guitarra, quem diria, volta a caber na banda

“Hail to the Thief” nem chegou às lojas ainda e sua história já foi vastamente contada. Só nesta Folha o disco já apareceu em notas, colunas, fotos, capas. E volta aqui hoje. A celebração noticiosa do pré-lançamento evidencia a importância que a banda do esquisito Thom Yorke galgou na cena pop desde que estreou nela no começo dos 90, quando fez um apenas ótimo CD de rock comum, com guitarras estridentes e vocal desesperado.

Em 1997, o Radiohead lançou a obra-prima “OK Computer” e desde então a banda caiu dentro de uma vala de experimentalismos e ruídos eletrônicos para andróide ver, fugindo das guitarras. E a legião de fãs cultuadores da banda só cresceu. Desde “OK Computer” o pop fica ouriçado a cada vez que o grupo vai lançar um disco, na esperança de o rock “voltar” a ter destaque no som do Radiohead. E “Hail to the Thief”, então, pode ser festejado como o CD que promoveu o retorno do rock ao Radiohead. Por causa da excelente “There There”.

A música tem as esquisitices experimentais do Radiohead, mas também solo de guitarra. Dá até para desconfiar que a canção foi tocada por uma banda comum deste planeta, com guitarra, baixo e bateria. Se você pecaminosamente desconsiderar as 13 faixas restantes, “There There” -em que Thom Yorke canta: “O fato de você estar sentindo algo não significa que ele exista”- vale sozinha o preço do álbum. (LÚCIO RIBEIRO)

Hail to the Thief
Artista: Radiohead
Lançamento: EMI
Quanto: R$ 33, em média

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  • Fabrizio Zorzella Franco

    15 anos depois e a palavra POP virou INDIE… que baita mundança hahaha