Em “Drama”, Rodrigo Amarante descobre que a solução é coletiva. E liberdade é fazer parte

1 - cenatopo19

* Saiu hoje “Drama”, o celebrado disco do hermano Rodrigo Amarante, o segundo sob sua assinatura. Celebrado no Brasil, celebrado com belas resenhas na gringa. A nossa aqui vai ser sentimental, com texto assinado pelo poploader Vinicius Felix. O cara… chorou!! :)

amarante

Por Vinicius Felix

A gente não sabe exatamente o que separou os Los Hermanos. Fato é que seus principais compositores não embarcaram imediatamente em carreiras solos daquele jeito tradicional. Marcelo Camelo foi trabalhar perto do Hurtmold. Rodrigo Amarante inventou um verão de dois anos com o Fabrizio Strokes e montou a banda Little Joy.
 
Foi só em 2013 que ele realmente resolveu fazer seu primeiro disco solo, dessa maneira convencional. “Cavalo” veio soturno e provocou reações adversas – hoje, o disco faz muito mais sentido. Naquele álbum, Rodrigo cuidou até de fiação de mesa de som para registrar sua obra. E confessou, em entrevista à radialista Roberta Martinelli, que, apesar desse desejo antigo de um disco solo, “sozinho descobri a parte chata de fazer sozinho”.
 
Imagino que é por isso que sua segunda aventura nestes moldes vem justamente celebrando o coletivo. Como bem reparou o graaande jornalista Thales de Menezes, na “Folha de S.Paulo”, a carta sobre o álbum que Amarante fez à imprensa é uma coletânea de elogios e lembranças aos parceiros de cada detalhe de “Drama”, seu novo álbum, lançado nesta sexta-feira.  

Mario Caldato Jr., Jonanthan Maia, “Lucky” Paul Taylor, Andres Renteria, Todd Dahlhoff, Daniel Castanheira, Cornelia Murr, Moreno Veloso, Danny Bensi, Samur Khouja, David Ralicke, Noah Georgeson, Heba Kadry, Hernan Paganunu, Frederik Jacobi, Michelle Cable, Simon Fuller, Maria Forte, Marcela Amarante, Daniel Carvalho, George Augusto, Devendra Banhart, Azazel Jacobs, Sara Sachs. É um parágrafo todo, mas esses são os nomes que Amarante coloca na essência da feitura de seu novo disco. Seria mesmo “drama” um trabalho solo?

Musicalmente, Amarante conta que queria um disco menos tonal e mais modal. Meu conhecimento limitado de teoria musical, com um pouco de pesquisa sobre o tema, concluiu que isso significa mais Dorival Caymmi do que Beatles, em uma simplificação que resolve a treta. Estou certo, Rodrigo?

Não dá para dizer que essa já não era uma busca dele. Gal chamou Rodrigo de João Gilberto do rock. Talvez seja exagero, mas as semelhanças estão ali. E podemos enxergar pelo disco todo coisas que o João fez, ou até que Caetano Veloso construiu a partir de João, em canções como “Tara” ou “Tão”, especialmente. Fato é que o Brasil corre por tudo ali. “Maré” é em uma praia brasileira, só pode ser.

E, ainda que não seja evidente em cada letra, Amarante faz questão de ressaltar que o álbum é conceitual sobre “a ideia de que a liberdade é fazer parte”. “Drama” começa com a faixa “Drama”, que dá conta pelo clima de risos e aplausos de que estamos em um espetáculo. A plateia ri da música, é uma obra de ficção. Desatento, o disco parece ser uma obra alienada de tempos tão cinzas. Só fala de amores, de dança… Tem algo mais radical que isso atualmente?

Essa mensagem coletiva no conceito, brasileira na opção musical, já é um texto para lá de antifascista. Rodrigo vai na radicalidade do assunto. Pensamento coletivo vem antes do pessoal, do egoísmo. Pense em vacina, saúde pública. Pense nas soluções terríveis que o país escolheu para combater a pandemia. Sutilmente, Rodrigo mira neles aqui.

Em entrevista à revista “Time Out” portuguesa, ele dá nome as coisas, algo que não acontece no disco mas está lá: “O facto de eu ter vindo para os Estados Unidos, e ter aprendido a falar a língua deles, me colocou numa posição de ver um pouco mais de perto a mentalidade que se tornou prevalente no mundo, que é a mentalidade capitalista. Nessa sociedade que espirrou para o mundo inteiro essa mentalidade, há uma veneração da competição que vem da perversão das ideias de Darwin pelos economistas neoliberais. Então, para evoluir como espécie, o fraco tem que perecer e o forte deve sobreviver para a gente depurar a nossa grande capacidade e assim evoluir – isso é o papo nazista”. 

Caramba. Precisa de mais algo? A gente já argumentou aqui que Pabllo Vittar usou um Milton Santos na sua obra. Dá para dizer que Rodrigo também quis inventar a partir do Brasil – um processo que já existia nos Los Hermanos, basta ver quanto disco a disco somem as referências gringas e afloram Gal, Bethânia, Chico, para ficar no nomes mais conhecidos. E isso é um processo rico e legítimo. No caos da indústria cultural e suas contradições, se produz arte. Se a obra é pop ou não, acho que Amarante nem esquentou a cabeça com isso. Se isso te preocupa, saiba que é um disco mais solar que “Cavalo”, mas gostando de “Drama” volte a “Cavalo”, que as coisas farão mais sentido. 

Ainda é cedo para afirmar outras qualidades que moram nesse disco. Quais subtextos estão ali. Pessoalmente, chorei muito sem entender escutando “Tango”, uma canção onde a letra é sobre um relacionamento, mas que me levou na real aos meus amigos por lembrar um astral de épocas de rolês acompanhados de Los Hermanos, de Little Joy.

E não que Amarante recupere aqui aqueles anos de maneira cansada. São lembranças mais afetuosas e criativas, sutis nos acordes, no backing vocal da Cornelia. Ainda na entrevista da “Time Out”, Amarante lembra: “A fantasia de que somos originais, ou de que as minhas músicas são uma expressão pura da minha alma, é uma falácia. As nossas vozes são uma coleção de outras vozes”.

Outras vozes. Talvez as vozes do meus amigos que eu não vejo há tempos por conta da pandemia. Coletivo mais uma vez.

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* As fotos do Rodrigo Amarante, a deste post e a da chamada na home da Popload, são de Eliot Lee Hazel.

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  • David

    Não chorei com o álbum mas quase derramo uma lágrima com esse texto. Parabéns, Vinicius!