Pabllo Vittar compra tretas brasileiras em “Batidão Tropical” e mostra a solução

1 - cenatopo19

* Estamos de cara com “Batidão Tropical”, novo álbum da Pabllo Vittar. De cara tanto com o resultado sonoro quanto com a proposta antenadíssima dela por aqui.

A gente até se permite a lembrar de dois pensadores modernos do Brasil para entender um pouco o que Pabllo Vittar elabora em seu disco, lançado nesta sexta-feira. Um é o pensador Milton Santos, geógrafo que o Brasil perdeu tem 20 anos. O outro é o rapper Don L.

Sim, vê se faz sentido.

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Em linhas gerais, uma das obsessões de Milton é que a única solução para o Brasil é uma solução original. Alguma coisa realmente nosso, produzida aqui, pensada aqui e gestada por aqui. Para tal, é fundamental reconhecer nossa condição – terceiro mundo, sul do mundo, antiga colônia e por aí vai. Já Don L em seu trabalho costuma questionar a razão de sua música ser premiada em uma categoria “melhor do Nordeste”, já que não existe a categoria Sul.

A questão brasileira com o mundo e a questão do Nordeste com o próprio Brasil são duas tretas que Pabllo resolveu comprar em “Batidão Tropical”, seu quarto álbum.

É justamente pensando em referenciar algo brasileiríssimo e nordestino em seu pop de olho no mercado mundial que ela opta em armar seu disco com três canções originais suas assumidamente bregas e seis regravações das bandas de forró e tecnobrega Companhia do Calypso, Ravelly e Batidão. (uma das originais, “A Lua”, tem a jovem-indie-superprodutora Vivian Kuczynski, 18 anos, entre as compositoras)

Nessa ideia de gestar um hyperpop (pense em Sophie e Charlie XCX) embebido das referências que Pabllo escutava adolescente no Pará, ela consegue tanto criar um repertório de hits já testados e superfortes ao mesmo tempo que deixa uma pergunta, em especial ao sul do país: por que essas músicas não estouraram por aqui antes, hein?

Em entrevista para o site G1, que supõe que a reação de parte dos fãs é considerar esse repertório brega “cringe”, Pabllo responde: “Agora tudo é cringe, cringe, cringe… Vamos exaltar o que é nosso. Se você pegar uma performance de Mylla Karvalho (ex-vocalista da Companhia do Calypso), de 17 anos atrás, onde ela subia no palco e pulava de bungee jumping e falar que isso é cringe, mas bater palma para Pink no Rock in Rio não é…”.

Exaltar o que é nosso e de um jeito nosso. Pensa que a Anitta tateou isso em “Girl from Rio”, mas utilizando um Brasil importado pelos gringos (a bossa nova) para contrapor com um funk já muito descaracterizado do brasileiro. Pabllo opta por eliminar intermediários nesse processo e abraçar um Brasil desconhecido por parte do próprio Brasil.

Ao inverter a lógica, pensando a partir do Brasil e não o contrário, Pabllo vai colocar uma música do norte para ganhar prêmios nacionais, obrigado a reconhecerem o valor do que desprezaram até agora. E vai orgulhar o Milton Santos – veja só a força de uma ideia original.

Quando os gringos brisarem nessa onda a partir da apresentação dela no Primavera Sound em Barcelona, no ano que vem – e provocando os brasileiros que infestam o evento indie espanhol a sacarem melhor a proposta dela -, lembre-se de que nós avisamos.

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