Para quando o Paul McCartney, 77 anos e 27 shows no Brasil, vier de novo ao país

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** O poploader Fernando Scoczynski Filho foi ao show de sir Paul McCartney em Curitiba no último fim de semana, o que encerrou mais uma turnê do ex-beatle no Brasil. E temos info que, incrível, uma outra já está alinhavada para um futuro próximo. O que não deve demorar, uma vez que Paul completa 77 anos em junho, embora tenha disposição e fôlego para quase três horas de show sem se abalar. Fernando apronta os prós e contras de um show dessa magnitude e vívida história, numa época de Greta Van Fleet emulando os anos 70 (sem juízo de valor e sem falar de Led Zeppelin, veja bem) e Fontaines DC, que exala punk inglês antigo em seus poros.

Paul McCartney CURITIBA show FOTOS @MarcosHermes-7

* Em 2010, quando Paul McCartney finalmente anunciou um retorno ao Brasil, após uma ausência de quase 17 anos, fiquei animado com a possibilidade de ver “um beatle”, mesmo sem ideia de como estava seu show à época. Em uma breve pesquisa, descobri que sua última passagem pelo Brasil terminara no meu estado: um show em Curitiba, na Pedreira Paulo Leminski, em 1993; logo, criei a expectativa de que Paul voltaria ao Paraná. Infelizmente, não foi daquela vez: shows apenas no Rio Grande do Sul e São Paulo. Quem sabe na próxima vez ele acharia o Paraná no mapa?

De 2010 a 2017, Paul veio ao Brasil seis vezes. No nosso mapa, além de SP e RS, também foram contemplados com shows: Rio de Janeiro, Pernambuco, Santa Catarina, Minas Gerais, Goiás, Ceará, Distrito Federal, Bahia e Espírito Santo. Em 2019, finalmente, ocorreu o retorno do ex-Beatle ao Paraná, com um show no estádio Couto Pereira (seu 27º no Brasil), marcando o fim da turnê “Freshen Up” pela América do Sul.

Depois de tantas apresentações no país, vale repetir os mesmos elogios de sempre. Paul McCartney, com 76 anos, mantém uma atitude contagiante durante as 2 horas e 45 minutos de show, fazendo brincadeiras em português (e inglês) com o público. Sua voz continua aguentando surpreendentemente bem todas as músicas do setlist, e não demonstra os sinais de fraqueza vocal que alguns de seus contemporâneos têm. Sua banda, que o acompanha há quase duas décadas, é excelente e enxuta, dando espaço para improvisos, mas nenhuma margem para deslizes. Na seleção de músicas, praticamente todas as “obrigatórias” para garantir um público geral médio satisfeito. Para quem já conhecia o show (ou sua reputação), foi a experiência esperada. Tudo certo.

Infelizmente, é na expectativa que surge um pequeno problema: de um lado, fãs que querem um setlist de material 100% reconhecível, alternando entre músicas clássicas dos Beatles, Wings e da carreira solo de McCartney; do outro, os que estão cansados do “mesmo” setlist por tantas turnês em sequência, e querem novidade – mesmo que isso custe “Yesterday” ou “Jet”.

Pois desta vez, essa segunda parcela do público teve o que queria: dentre as 39 músicas tocadas ao total, quatro foram do último disco solo de Paul, “Egypt Station”. O material recente não é ruim, mas não chega nem perto de empolgar tanto quanto o clássico, às vezes vindo como um balde de água fria.

Por sorte, a oscilação na qualidade parou após a primeira metade do show. A partir de “Being for the Benefit of Mr. Kite!”, veio uma série praticamente irretocável de músicas, onde estavam “Band on the Run”, “Let It Be”, “Live and Let Die”, “Hey Jude”, e a sequência final do álbum “Abbey Road”, dentre outras. Durante essa última hora, ocorreu a maioria dos momentos que o público deve efetivamente se lembrar do show no futuro, fechando a noite como um sucesso, e permitindo perdoar as partes mais mornas.

Também vale mencionar o aspecto visual que, por vezes, tornava a experiência mais memorável, e em outras era questionável. O palco contava com um sistema elaborado de telões “transparentes”, permitindo que canhões de luz brilhassem através deles.

Havia um telão grande fixado ao fundo, e dois menores acima da banda, que foram rebaixados para uma sequência de músicas na primeira hora de show (incluindo “In Spite of All the Danger”, primeira música gravada pelos Beatles, enquanto ainda se chamavam The Quarrymen). Isso rendeu visuais fantásticos em momentos como “Helter Skelter” e “The End”, mas frequentemente deixava de realizar todo seu potencial, com vídeos relativamente fracos – em especial, a coleção de celebridades dançando em “Queenie Eye” chegou a ser constrangedora.

Além do óbvio ápice de pirotecnia que sempre é “Live and Let Die”, também foi um dos destaques da noite “Blackbird”, onde o chão do palco sobe, elevando Paul, à frente de outro telão que mostra a silhueta de um pássaro voando. É um efeito caro e complexo, mas executado de forma sutil, sem distrair da perfeição que é “Blackbird”. E aqui, um pequeno adendo: após essa música, Paul explicou (em português) que ela era sobre direitos humanos, o que resultou em aplauso imediato, e um coro de “Ele Não!” vindo do público mais próximo do palco. Paul brevemente seguiu o coro com seu violão. Em seguida, vaias do público. Isto é Curitiba.

Em suma, o show foi uma maneira ótima de encerrar a perna sul-americana da turnê “Freshen Up”. Ao fim de um show tão extenso, não fica um gosto de “quero-mais”, mas uma sensação de missão cumprida. Paul McCartney fez mais uma ótima performance, e o público viu diante de si um beatle real, um frontman que faz jus ao seu status de lenda viva.

As últimas palavras em português dele foram “até a próxima”. Se houver uma próxima, e parece que já há quase um acerto para nova vinda (a última?), certamente haverá gente para assisti-lo. E, mesmo que não ocorram shows futuros, por qualquer motivo que seja, os fãs brasileiros ficam gratos pela ampla oportunidade de ter visto as 23 apresentações que aconteceram de 2010 para cá.

Aos 15 estados brasileiros ainda não contemplados com Paul McCartney ao vivo, desejamos boa sorte.

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** As fotos do show do Paul em Curitiba, utilizada neste post, são de autoria do fera Marcos Hermes.

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