Polêmicos, é preciso falar dos shows de Roger Waters no Brasil além da política

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* Com mais um show-polêmico por fazer em solo brasileiro, nesta terça em Porto Alegre, quis o destino que Roger Waters fizesse sua penúltima apresentação no Brasil justamente em Curitiba, na noite do último sábado, véspera das eleições que a gente sabe bem como acabou.
O poploader Fernando Scoczynski Filho se fez presente no estádio do Coxa, o lotado Couto Pereira, e tenta nos contar sobre o concerto paranaense, tanto pelo aspecto político quanto pela música, o binômio que sempre pautou o Pink Floyd e a carreira solo de Waters.

“Pelas últimas semanas, o fundador e principal compositor do Pink Floyd tem feito shows de sua turnê Us + Them pelo Brasil. É a quarta vez que o músico excursiona pelo país, mas certamente tem sido a visita que mais deu buxixo. Logo no primeiro, em São Paulo, Waters se posicionou politicamente contra o (agora eleito) candidato Jair Bolsonaro, e o fato virou uma notícia tão grande que acabou ofuscando outros aspectos da performance. Neste sábado, rolou o show em Curitiba, num momento crítico para o país: véspera de segundo turno das eleições. E estávamos lá, claro.

Primeiro, vamos falar do que pouco se falou da turnê por aqui: o show é fantástico. Numa inevitável comparação com as outras visitas de Waters ao país (bem como a do ex-Pink Floyd David Gilmour), fica em empate técnico com os shows que fez aqui em 2012, apresentando o álbum The Wall (1979) na íntegra.

Por um lado, a turnê Us + Them apresentou mais variedade musical, focando em material de três discos clássicos do Pink Floyd – The Dark Side of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975) e Animals (1977) -, bem como algumas inescapáveis faixas do último disco solo de Waters. As execuções das músicas do Floyd foram, em sua maioria, impecáveis, tanto nas mais manjadas (Breathe e Time) quanto nas menos comuns (Dogs e Pigs).

A sensação era de estar vendo o mais próximo que alguém poderia chegar de uma reunião do Pink Floyd nos dias atuais. Waters consegue encontrar um ótimo equilíbrio entre saudar o passado e não parecer uma banda cover qualquer. Mesmo com a ausência de Mother no bis, depois de tudo que já tinha sido tocado, era dificílimo reclamar.

Por outro lado, no aspecto visual, Us + Them ora supera a turnê The Wall, ora oferece alternativas inferiores. Os exemplos mais fáceis de citar (e os que devem permanecer na memória do público por mais tempo) foram as recriações das capas de Animals e The Dark Side of the Moon com efeitos no palco, bem como o gigante porco inflável flutuando sobre a plateia, todos incríveis de presenciar ao vivo.

Menos impressionantes foram os visuais exageradamente coloridos no telão em várias faixas, como Money e Comfortably Numb, que destoavam da estética comumente associada ao Pink Floyd. Muito mais eficazes foram, por exemplo, a versão atualizada do vídeo para Us and Them, incluindo cenas modernas e impactantes de desigualdade social, e uma imagem de um cão bravo latindo, em câmera lenta, durante um trecho de Dogs. Nesta música, também houve o belo momento em que alguns integrantes da banda pararam para tomar drinks no palco durante um solo de teclado, e Waters, vestindo uma máscara de porco, exibiu duas placas ao público: “Pigs rule the world”, e “Fuck the pigs”. Sim, é impossível falar da apresentação sem falar de seu aspecto político.

Um dia antes do show em Curitiba, veio uma notícia pesada: por ser véspera de segundo turno, manifestações políticas não seriam permitidas após as 22h; se ocorressem após tal horário, seriam crime político-eleitoral. Em Curitiba, com o evento iniciando às 21h30, parecia simplesmente impossível Waters encaixar algo no tempo que tinha, pois as menções antifascismo dos shows no Brasil apareceram mais de uma hora após seu início. E foi justamente esse limite de tempo que deu vez para a melhor surpresa da noite.

Faltando poucos minutos para as 22h, no meio de uma execução excepcional de Welcome to the Machine, veio uma interrupção brusca. As luzes se apagaram, e sirenes começaram a tocar. No telão, uma sequência de frases: “São 9:58. Nos disseram que não podemos falar sobre a eleição depois das 10 da noite. / É lei. /Temos 30 segundos. / Esta é nossa última chance de resistir ao fascismo antes de domingo. / Ele Não! / São 10:00. / Obedeçam a lei”.

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Aí, as duas reações esperadas: coros de “Ele não!” e vaias. A banda retomou Welcome to the Machine do ponto exato em que parou, como se nada tivesse acontecido, e seguiu o show. Parte da plateia ficou visivelmente irritada, birrenta feito criança, e parou de aplaudir pelo resto da noite; outra parte foi ao êxtase, feliz de saber que entende a mensagem da obra que Waters constrói há mais de 40 anos. Surpresa nenhuma para quem tem o mínimo conhecimento da obra de uma das bandas mais famosas da história.

A interrupção da música foi absolutamente surpreendente, e uma das coisas mais geniais que já vi ao vivo. Acabou tornando o show de Curitiba único, e deixando claro que Waters não arregou após as vaias que ouviu em outros estados, e nem precisou quebrar a lei para tal.

A mensagem geral do show foi de união – aceitando aqueles diferentes de nós, e lutando contra os poderes que nos oprimem, podemos ser mais. Nem todos compraram a ideia. “Eu não gosto dessas coisas políticas, só quero ver o show!”, ouvi uma moça atrás de mim gritar, frustrada. Outro moço, mais raivoso, mostrou ambos os dedos do meio para a enorme palavra “RESIST” que ocupou o telão em Another Brick in the Wall.

Perto do fim da noite, onde Waters normalmente faz um discurso de viés político, prometeu falar, em vez disso, sobre amor. Apresentando a suíte de seu último disco solo que conclui com Part of Me Died, explicou que, ao se apaixonar verdadeiramente por alguém, sua personalidade muda: descobre-se a empatia por outros seres humanos, e sentimentos egoístas de ódio são abandonados. Na verdade, era político sim, e na mesma linha que todo o resto do show. Para uma parcela do público, ficou um pensamento otimista: mesmo com toda a rejeição raivosa a essa mensagem, é bom concordar e se sentir acolhido por quem quer mudar para melhor, juntos.”

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** As fotos que ilustra este post são de Theo Marques/UOL.

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