POPLOAD ENTREVISTA: FENG SUAVE. Falamos com Daniel De Jong, do duo indie holandês, que acabou de lançar EP novo

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* Feng Suave, como o próprio nome diz, vem suave, na boa. Duo indie de Amsterdã formado por Daniel De Jong e Daniel Elvis Schoemaker, que no palco ganha formato de banda, o Feng Suave carrega em sua música uma vibe musical cheia de influências da soul music dos anos 1970. Talvez uma psicodelia minimalista à la “Strawberry Fields Forever”, dos Beatles, explique melhor.

As letras falam de nóias atuais, como o aquecimento global, por exemplo. Assim, de certa forma, a música ganha ares de um tempo e espaço único. Esse universo tranquilo e singular fica claro no mais recente lançamento deles, o terceiro EP da dupla, “So Much for Gardening”, que saiu sexta passada.

Vale dizer aqui que o nome da banda holandesa, já bastante “adotada” pela cena inglesa, tem ligação com a nossa língua portuguesa. Em entrevista recente, Daniel De Jong explicou: “O (Daniel) Elvis usava um shampoo que no frasco estava escrito em português ‘Ultra Suave’. Aí o ex-colega de quarto dele, o Joris, um dia estava olhando para o frasco em questão e apareceu com o trocadilho brilhante ‘Feng Suave’, uma corruptela de ‘feng shui’. Então ele colocou isso como nome no perfil do Instagram. E nessa época a gente estava procurando desesperadamente por um nome para a banda e gostamos muito desse, então convencemos Joris a nos deixar usá-lo”.

O novo trabalho conta com quatro faixas que não vão mudar sua vida, mas podem deixá-la mais agradável caso esteja procurando por momentos de calmaria. Ou caso queira esvaziar a mente. Fazer um feng shui sonoro, mesmo.

A poploader Isadora Almeida conversou com o vocalista Daniel De Jong (o de preto na foto abaixo), por Zoom desde a Holanda, sobre a carreira deles até aqui. E, claro, sobre o novo EP.

2 - FENG SUAVE _ Pasqual Amade

Popload – Para começar, quando você decidiu que queria ser músico? Quantos anos tinha e quem foi sua maior influência?
Daniel de Jong –
Eu tinha um trabalho de verão bem horrível, tinha que colher frutas o dia todo e o salário era péssimo. E eu tinha baixado o álbum “Ok Computer”, do Radiohead< porque curtia muito a faixa "Karma Police". Não tinha ouvido nada além dessa música e aí ouvi "Paranoid Android" e fiquei: "WOW". Acho que eu tinha uns 13 ou 14 anos. Foi quando música se tornou uma parada mais séria pra mim. O segundo momento foi quando tinha uns 21 anos e larguei a faculdade pra focar em música. Na real eu ainda estou tentando ser um músico [risos].

Popload – Esta entrevista é falando de vocês como uma banda nova que está lançando um novo EP. Queria saber como você descreveria sua música para uma pessoa que nunca ouviu nada do Feng Suave?
Daniel de Jong –
Acho que é bem romântico de várias maneiras. Sempre considero difícil essa pergunta, mas nosso som tem muita inspiração em músicas mais vintage. A gente até passou a fazer um som mais moderno, mas no EP novo voltamos com tudo para o passado da música, tipo a dos anos 60 e 70. Mas a gente tenta escrever letras bem atuais. A ideia é juntar um som mais vintage e letras que falam, por exemplo, sobre aquecimento global.

Popload – Como a pandemia afetou o trabalho do Feng Suave? Quando vocês gravaram o “So Much for Gardening”?
Daniel de Jong –
A gente começou a escrever quando a pandemia começou. Era para saírmos em turnê com ele. Iríamos para o México. E aí ficamos sabendo que a pandemia estava chegando em todos os países. Ela é a grande responsável por este EP estar pronto agora. A gente é meio devagar, sabe? Não porque somos preguiçosos, mas sim por tentarmos bastante antes de lançar algo.

Popload – E como foi o processo de gravação? Quantas pessoas estavam envolvidas?
Daniel de Jong –
Os processos mudaram neste caso porque a gente foi para um estúdio bem grande em Haarlem (próximo a Amsterdã). E foi a primeira vez que gravamos com fita e não teve computador envolvido. Uma experiência diferente.

Popload – Sobre o título do EP, qual é a brisa de “So Much for Gardening”?
Daniel de Jong –
O outro Daniel veio com essa ideia. Uma imagem divertida, tipo, pensar que o mundo está uma merda nas questões ambientais e tudo mais e aí você pensa que tentar fazer o jardim de casa não adianta nada. Tipo plantar uma árvore. É meio um título antiambiental [risos] e na real achamos que soa muito bem. Ele não reflete uma ideia de todas as músicas, mas achamos que é um bom nome.

Popload – Vocês incorporam elementos mais clássicos de soul, pop dos anos 60 e coisas mais modernas. Queria entender como vocês equilibram tudo isso: o antigo e o contemporâneo.
Daniel de Jong –
Não sei como a gente faz exatamente, porque na real foi a primeira vez, fomos aprendendo. Nunca tinha sido assim, tipo gravar na fita, sabe? Antes a gente gravava várias coisas no computador. Mas, como já disse, as letras são bem atuais e acho que o jeito que eu canto não soa como da década de 60 ou 70. Esses dois elementos dão o tom de que é um som dos dias de hoje. A gente ouve muita música feita agora e acho que essas influências sempre vão estar aí.

Popload – Gostamos sempre de saber se existem referências específicas em um trabalho. Na hora de gravar, existia algo em mente? Um gênero musical ou banda. E entender como referências fora do mundo da música se refletem no trabalho de vocês?
Daniel de Jong –
Isso vai soar meio deprimente, mas eu fui realmente ouvir Beatles tem uns dois anos [risos]. E, agora que fui a fundo, hoje eles são minha banda favorita. Amo The Kinks. Eu odiava a música country e agora eu amo, tipo o Glenn Campbell e John Prine. Há cinco anos eu diria que amo música menos metal, EDM e country [risos]. De bandas novas adoro as últimas faixas da banda Villagers, o Andy Shauf, Timber Timbre.

Popload – Sobre os vídeos da banda, senti em “Come Gather Round” uma energia pesada dos antigos do Beastie Boys, Beck, aqueles bem cara da MTV da década de 90. Como a cultura MTV influenciou vocês, enquanto vocês estavam crescendo?
Daniel de Jong –
Na real nenhuma [Risos], porque não tinha MTV na Holanda. A gente tinha um canal chamado TMF, que era mais ou menos uma variante. A gente não é tão velho, então a MTV já estava passando menos e menos música, sabe? Já estava mais focado em reality shows. Mas, sim, esse vídeo específico tem sim essa energia dos trabalhos visuais divertidos dos Beastie Boys. A gente queria algo nesse sentido e acho que funcionou.

Popload – Para finalizar, como anda a cena musical na Holanda? Não existe ou vocês fazem parte de uma cena vibrante de músicos?
Daniel de Jong –
De certa forma, existe sim. No nosso vídeo de “Unweaving the Rainbow Forever” aparecem vários dos nossos “amigos musicais”, que são da nossa área. Mas eu não me sinto parte de uma cena musical específica holandesa, por assim dizer. Me sinto meio um cara sozinho nesse sentido. Mas tudo bem.

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* A entrevista com Daniel de Jong, da banda indie holandesa Feng Suave, foi conduzida por Isadora Almeida.

** A foto deste post é de Pasqual Amade. A que ilustra a chamada da home da Popload é de Elsa Groener.