SEMILOAD – Anitta, Billie Eilish e a nova bossa nova

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* Pega a “Girl from Rio” da Anitta e a “Billie Bossa Nova” da Billie Eilish. Agora adicione a volta dos violões na pandemia. Bote uma pitadinha da nova onda do jazz pop. Pronto, temos a THE BOSSA NUOVA again. A Dorinha Guerra, superatenta, explica tudo. Olha que coisa mais linda e cheia de graça este texto.

(Dora Guerra é autora da newsletter maravilha Semibreve, parceira da Popload, entre outras bossas)

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30 de abril, dia do lançamento oficial do single oficial do álbum oficial da carreira internacional da Anitta. “Girl from Rio” é uma versão meio trap, meio pop de nada menos que a clássica “Garota de Ipanema”.

Na mesma semana, alguns meses antes do lançamento oficial do segundo álbum oficial de Billie Eilish: o anúncio vem com tracklist e tudo. A terceira faixa, de longe, já chama atenção: é uma música chamada “Billie Bossa Nova”.

Entre a maior representante do pop brasileiro na atualidade lançando sua carreira internacional e a maior representante do pop jovem na atualidade, existe um fator em comum: ambas estão revisitando a bossa nova, em 2021.

Daí, eu tenho tudo para acreditar que uma suspeita minha está se confirmando. É, galera, parece que a bossa nova é mesmo um fenômeno contemporâneo – especialmente na gringa.

Mas por quê? Vamos às teorias. Mas, antes, olha a nova bossa da Anitta:

Primeiro de tudo, o violão voltou a dar as caras. Tem um tempo que eu e meus amigos especulamos sobre o ressurgimento dos instrumentos de corda que todo mundo tem: falei na primeríssima Semiload sobre o retorno nítido da guitarra guitarruda, aquela roqueira (coisa que a WILLOW reiterou nesta semana, inclusive).

Mas, na mesma medida, o sumido violão vem voltando a ser protagonista na música pop internacional (acha que os Kings of Convenience voltaram à toa?). E a própria Billie tem um caso fresquinho, de ontem.

Claro, esse é em parte um fato esperado: se a galera está em casa, fazendo música de casa, é de se esperar que volte a usar instrumentos mais acessíveis – e, no caso do violão, mais intimistas. Mas considerando que a maior parte dos músicos tem um computador (ou um estúdio!) em casa, a escolha de trazer a sonoridade do violão de volta ainda é uma escolha; assim como muita gente opta, deliberadamente, pela quebradêra absolutamente eletrônica.

E, sim, se a estética do violão se tornou repentinamente mais agradável para todos nós, isso talvez seja um sinal do clima mais introspectivo da nossa vida pandêmica. Ano passado, deixamos a música dançante entrar com a compreensão de que fora feita antes de a festa acabar; agora, a calmaria é bem-vinda, seja para apaziguar o estresse, seja para não nos lembrar de que existe balada.

Segundo ponto: o sucesso de vertentes do R&B, neo-soul e essa galera mais jazz no pop (leia-se: dos Tom Misch aos Jacob Collier) faz com que a reaparição da bossa seja inevitável. Enquanto houver nerds musicais em ascensão, a bossa nova, assim como o jazz, continuará aparecendo em maior ou menor medida – amigável, suave, complexa aos ouvidos treinados, mas que não agride. Afinal, estamos falando de gente que estudou Miles Davis e logo depois estudou Tom Jobim, além de ouvir Marcos Valle nas horas vagas.

É que essa leva jazzy do pop conversa muito bem com a bossa – a atrai, até, pelo denominador em comum. E é o que já vinha acontecendo: a bossa nova já tava se manifestando entre artistas feito Still Woozy, Tkay Maidza e Noname.

E terceiro fator: não é de hoje que a música latina – já falei uma, duas, três vezes – vem sendo revisitada e explorada. Neste momento em que o mundo se pega perguntando o que é a música latina, não é só a explosão do reggaetón que se destaca; vemos Rosalía com o flamenco, Bad Bunny com seus mariachis, Kali Uchis com um bolerão.

Nesse processo, a indústria musical fica mais propensa a visitar dois gêneros musicais muito nossos: o funk, sim, mas também a bossa; os dois extremos da identidade musical carioca (ou ainda: o Brazil que se exporta).

Combine tudo isso, com alguns adicionais: basta observar o TikTok para entender que as músicas suaves vinham reaparecendo; ainda mais suavizadas, feito a ressuscitada “Girl, Put Your Records On” (e reforço: nada ajuda mais a compreender as tendências musicais que acompanhar o TikTok). Em outro ponto, vale lembrar que os EUA estão entrando nas estações quentes – se aqui, na época do Carnaval, é tempo de música de quebradeira; lá, agora, é tempo de música fresquinha com sabor de verão.

Ou seja, convenhamos, a bossa nova tinha tudo para reaparecer como um fenômeno contemporâneo. Na verdade, arrisco dizer que é um fenômeno majoritariamente gringo – por aqui, a bossa em seu formato clássico se saturou (vide a reação negativa por parte de quem não aguenta mais ver sua música sendo resumida a “Girl from Ipanema”, “From Rio”, ou seja lá de onde a girl for). O que a gente gosta são os novos sambinhas, coisas menos pastiche e mais diferentinhas de alguma forma; a gente já teve a nossa bossa, afinal de contas.

Mas, lá na gringa, os sinais estão todos claros – banquei a Sherlock aqui para você, mas tô mais para aquela menina de “Meninas Malvadas”, que te avisa que vai chover quando já está chovendo. A bossa nova já é a nova moda lá fora: e, para um público jovem de lá – feito Billie Eilish herself –, que não cresceu ouvindo falar de Tom e Vinicius, a onda acabou de começar.

Então se prepara, que the bossa nouva vem aí. Agora com força total.

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