SEMILOAD explica: o fenômeno mineiro Marina Sena

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* Nos últimos tempos, reparamos, qualquer nome que se cite na música brasileira Brasilzão mesmo, seja como indicações de disco ou para line-up de festivais, a cantora mineira Marina Sena é citada para lá e para cá, ainda que com toda a pinta de que os que citam não necessariamente ouviram Marina Sena cantar, nem na banda Rosa Neon, nem agora, em bombada aventura solo.

Daí, claro, nos ocorreu pedirmos para a mineira Dora Guerra, da espertíssima newsletter musical Semibreve, nossa parceira, nos fazer um “Marina Sena para dummies”, com a intimidade de vizinha que ela tem da cantora-bafo da vez, que nem é tão nova assim na CENA, mas parece ter sido oficialmente adotada “no eixo”, depois que lançou seu primeiro álbum solo, “De Primeira”, há algumas semanas.

marinasena

Marina Sena é o papo do momento. Furou a bolha SP-Rio, chegou charmosa, tô vendo geral comentar. Para mim, é feito ver um amigo meu fazer sucesso – é que eu sou de BH e, às vezes, as coisas são assim por aqui.

E é que a gente já a conhece mesmo que não a conheça. Quando Marina lançou seu primeiro single solo – “Me Toca” –, ela ainda não estava tão perto de ser o que é hoje, a tal “promessa que já vai se cumprindo”. Mas por aqui Marina já era o momento faz tempo. Ou estava, muito claramente, prestes a ser.

Afinal, Marina Sena não chegou agora. Nem esteve sozinha nesse tempo. Desde A Outra Banda da Lua – cujo nome tilelê atesta a identidade bem banda-brasilidades-Minas-que-é-quase-Bahia, a artista vem aparecendo, com diferentes cabelos, diferentes caras (às vezes com um corte de cabelo Elis Regina, às vezes meio Juma Marruá).

De mansinho, ela já vinha em uma trajetória própria dentro da banda, talvez já consciente de que tinha brilho próprio demais – do tipo que às vezes ofusca muito o resto. Foi fazendo a gente conhecer quem ela era, nos convencendo de que ela tinha todo aquele je-ne- sais-quoi dentro dela. Devagar.

Mas foi com o Rosa Neon que, aos poucos, Marina se tornou a Marina.

Ah, o Rosa Neon. O Rosinha mudou as coisas em maior escala em Belo Horizonte – estratégia de marketing daquelas, músicas mais refrescantes, nem pretensiosas, nem despretensiosas demais. Um quarteto que fazia todo mundo comentar. E aqui, em BH, a regra dos seis graus de proximidade cai para dois ou três – no caso do Rosa, todo mundo conhece alguém que conhece alguém que era do Rosa Neon. E, por isso, era como se a gente fosse amigo de todo mundo.

O Rosa ficou por aí pouco tempo, mas o suficiente para todo belorizontino comparecer a pelo menos um show, saber o nome dos membros, ver o grupo se desmontando. Foi aí que conheci Marina Sena – na voz inconfundível (e que a princípio, eu estranhei) de “Ombrim”.

Não foi aí que eu entendi Marina, não. Na verdade precisei de um tempo para sacar real quem era ela. Marina já tinha toda a confiança, mas não parecia bem como se apresentar para a gente (Mesmo assim, já se convidava para nossa piscina).

“Ó, me chama pra tomá um bandipiscinadsuacasa?”

Do banho na piscininha, ela aos poucos foi aparecendo como quem não quer nada, querendo muita coisa – encontrando um lugar de “gostosona rural”, fazendo vídeos dançando na cozinha naquele calor de interior mineiro. Mas foi à medida que o Rosa foi perdendo pedaços que deu pra ver, escancarado: se Marina Sena saísse, não haveria Rosa nem nada.

O Rosa acabou sabendo disso. Aí veio ele, claro – o álbum solo, no tempo certo, encaixando perfeitamente na trajetória da artista. Marina é boa em seduzir: câmera, público, agora imprensa. Uma artista que passeou na MPB, no pop, em todos os cabelos, agora entende o suficiente de si pra dizer de si sozinha. O resultado você já ouviu, leu por aí, pelo menos ouviu falar: é autêntico, charmoso feito ela é, com aquele sorriso de canto de boca de quem sabe o que você não sabe. Ela te engana, diz que tudo isso é “de primeira” – mas pra gente aqui, Marina não começou agora.

Mas em muitos casos, é de primeira, sim. Marina conseguiu um lugar inesquecível na minha vida: foi, na semana passada, meu primeiro “show” depois desse caos pandêmico (que ainda não acabou); eu ocupo um lugar na vida dela também, fazendo parte do público da primeira apresentação da sua carreira solo. Nele, menos de um mês depois do lançamento de seu primeiro álbum, todos os presentes sabiam cantar quase todas as músicas (pedindo incessantemente pelo bis). Tudo de primeira.

Foi aí que todo o burburinho se provou: quando Marina entrou no palco, na verdade, ficou claro que estávamos testemunhando nossa própria diva pop – e isso eu digo com a plena consciência de que não estou exagerando.

A gente sabe que não é bem a primeira vez dela, mas a gente sabe que é A VEZ. E, como bons bairristas que somos, orgulhosos e saudosistas de (quase) tudo que é nosso, a gente se prepara com calma para dar a Marina Sena todo o apoio que ela merece – com todo o sotaque norte-de-minas-mineiraço que ela tem e atesta de onde vem.

Porque aqui em BH a regra cai para três graus de proximidade: todo mundo conhece alguém que conhece alguém que conhece a Marina Sena. No fim das contas, isso significa que ela meio que é amiga de todos nós.

Aquela amiga que todo mundo sabe que vai ser a mais famosa e bem-sucedida da galera, claro.

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* Dora Guerra se autoexplica também no Twitter, como @goraduerra.

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