SEMILOAD – Já reparou que o álbum de estreia não significa mais o início de uma carreira?

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* No que a Dora Guerra vai se meter a falar desta vez? Simples… Ela vai fazer uma análise absurdamente necessária de uma coisa aparentemente simples no meio musical que quase ninguém se dá conta: o negócio do “disco de estreia”. E como ele moldou a carreira dos artistas antigamente e bem diferente molda agora. Nossa parceira da supimpa newsletter Semibreve consegue enxergar algo que está tão na nossa cara, mas que a gente deixa passar batido de tão trivial que é. Não para a Dora.

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Já notou o tempo que tem levado para você conhecer o álbum de estreia de alguém?

Billie Eilish, Pinkpantheress, Lil Nas X, a lista é gigante – quando você é um novo artista, ou mesmo um artista que recentemente ganhou visibilidade apesar de uma longa trajetória, o álbum não é mais o início de nada; é quase uma conclusão, a entrega formada e já reativa a alguma recepção.

Falei nestes dias (sempre falo!) sobre como o TikTok consegue dar uma chance a alguns artistas e produtores que estão começando e, por acaso, acabam tendo um viral no currículo; estes, o SoundCloud e o próprio Instagram têm nos dado a oportunidade de conhecer um artista em sua forma mais crua, se descobrindo enquanto nós o descobrimos. Ou seja: não temos mais a expectativa de nos deparar com alguém já assessorado, montadinho – a gente gosta de conhecer o que a pessoa produz no próprio quarto, se virando como pode, antes de receber o preparo de gente grande.

Já reparou? Vários são os músicos no Spotify que só têm uma ou duas faixas no perfil – mas já com um número alto de streams. Tenham eles o apoio de gravadoras e o próprio streaming ou não, o que importa aqui é que ninguém precisa esperar mais o conjunto da obra para decidir se gosta.

E olha que curioso: por mais que os virais sejam frequentes, tenho visto cada dia menos os tais do “one-hit wonder”.

Claro, viralizar com trabalhos incipientes não é o caso para muuuuita gente – mas ainda que sejam raros os exemplos dos “virais de início, álbum depois”, estes já representam uma virada no nosso processo de expansão musical. Da nossa parte, enquanto público, estamos mais abertos: dispostos a nos familiarizar com esses artistas na medida em que eles transitam por diferentes faixas, sem se comprometer necessariamente a uma sonoridade ou marca registrada. No caso de Billie Eilish – veja bem, uma das maiores artistas da atualidade no mundo ocidental –, o espaço de tempo entre “Ocean Eyes”, um de seus primeiros hits, e “When We All Fall Asleep, Where Do We Go”, seu primeiro álbum completo, foi de quatro anos.

Para a indústria musical, quatro anos é uma eternidade; para as redes sociais, pior ainda. Billie não esteve parada durante esse tempo, claro – lançou EPs, emplacou músicas em trilhas sonoras e por aí vai. Ela entrou tão devagarzinho no nosso universo (e ainda assim, de forma tão abrupta) que, quando anunciou seu álbum de estreia, a comoção foi gigantesca.

E aí, você se pegava se perguntando: “Álbum de estreia? Ainda?”.

Ainda, sim. Esse é o pulo do gato. Ao lançar seu primeiríssimo disco, Billie Eilish já tinha o público, o dinheiro, a atenção e a estrutura necessárias para conseguir um álbum coeso – que, de cara, levaria uma porrada de Grammys. Ainda que eu imagine que Billie não tenha sido pobre ou mal conectada em nenhum momento da sua vida, o feito é especialmente impressionante não porque ela “surgiu do nada” ou “fez milagre”, mas porque conseguiu os recursos antes mesmo de sua estreia oficial.

E isso é menos um efeito de estratégia da parte dela e mais um gigantesco sinal dos tempos – tanto é que Billie é só um exemplo de muitíssimos.

O resultado disso costuma ser certeiro. À altura do tal “álbum de estreia”, o artista (e sua equipe) ganharam tempo e conhecimento sobre seus próprios trabalhos; entenderam o que é que o público gosta no artista, o que espera, conseguiram criar expectativa. Por consequência, o disco de estreia deles, hoje, raramente é caótico ou experimental demais (a não ser que seja de propósito). É, na verdade, muitíssimo bem calculado, uma forma mais amadurecida do artista do que se tinha notícia de um primeiro álbum. Hoje, o primeiro disco é uma consolidação de quem o artista é naquele momento – muito mais que uma introdução.

Eu encaro assim: antes, o primeiro álbum era mais uma certidão de nascimento escrita às pressas, empoeirada, com informações que você não vai usar muito mais, como o nome do cartório e do hospital. Hoje, é a carteira de identidade: já com foto, com cara, com uma assinatura que você pode ter tido tempo de decidir como seria, o número de RG que você vai acabar usando para o resto da vida. Quando você faz sua carteira de identidade – mesmo que seja a infantil –, você já teve tempo de viver um pouco e ter que ver o que o mundo pensava de você.

Ainda é apenas uma apresentação de quem você é – não vai te definir por completo, você vai trocar ao longo do tempo e tudo o mais; mas é muito mais palpável, concreto, arrumadinho até. Em um momento em que deixar uma impressão definitiva é extremamente arriscado, o álbum de estreia tardio é a opção mais acertada.

É tipo: “Agora cheguei para valer. Antes eu estava só brincando”.

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