SEMILOAD – Juliette BBB e a arte de lançar um disco

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* Nesta semana aconteceu o superlançamento do EP (!) da ex-BBB Juliette, com um aparato de comunicação como se o disco fosse a edição do histórico disco do Metallica, para citar um badalado lançamento de hoje.

Juliette, uma das mulheres mais faladas no Brasil, está mesmo podendo, desde que deixou a casa do reality da Globo. Ela só cresce e aparece, ainda mais. Primeiro dominou as redes, os comerciais de TV, ganhou livro. E agora chegou ao disco. Que começou a ser feito sem ela, porque ela ainda estava presa no programa.

Sem querer julgar aqui se o disco é bom ou não, chamou atenção da nossa pensadora pop Dora Guerra, parceira da Popload e dona da seminal “Semibreve”, a newsletter de música mais legal do Brasil, a forma como o disco foi feito. O que isso pode significar não só para seus fãs como para ela mesma, enquanto uma artista que quer fazer um nome na música, como parece ser o caso.

Nessas, Dora aproveitou o disco de Juliette para, a partir dele, construir sua deliciosa reflexão sobre a relação artista e obra desde sempre na música pop, seja qual for o tamanho do artista.

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Todo o papo em torno daquele EP da ex-BBB Juliette me lembrou de algumas (várias) discussões que eu já vi por aí. Queria tentar levantar algumas – mas hoje, especificamente, não tô a fim de receber ameaças de morte, ok? A conversa não é para avaliar o disco simplesmente. É muito além.

À la autobiografia escrita por ghost writer em dois meses, o EP de Juliette e sua estratégia comercial escancaram uma realidade que alguns estão cansados de conhecer. E outros tomaram um susto. Composto por um time de compositores e produtores e com faixas pré-gravadas mesmo antes de Juliette sair do reality, o EP deixou claro: goste ou não do resultado, ele foi arquitetado em nome da personagem, baseado em sua imagem na mídia e sem muita colaboração criativa sua.

Mas essa estratégia, por si só, não é necessariamente um demérito. Na verdade, Juliette foi, nesse sentido, equiparável a grandes pop stars – Ariana Grande, Rihanna, Britney Spears –, váaarios artistas sertanejos de renome e tudo o mais. Só tem um time de compositores quem pode. E, em muitos casos, isso não compromete o resultado final. Se o artista consegue te convencer que aquela música foi feita por ele, de que importa se não foi?

Um vídeo que eu curto – “The Case of Non-Descript Artists” – trata um pouco sobre as várias categorias de artistas que assinam músicas que amamos: há os intérpretes/vocalistas, os performers, os compositores, por aí vai. Muitas vezes, essas categorias se sobrepõem, especialmente à medida que os artistas vão se sentindo confortáveis em explorar outras partes do processo.

E existe quem faz, majoritariamente, só um ou outro deles – mas de forma tão genial que não cabe a nós questionar. É o caso de Beyoncé, que enquanto performer é tão gigantesca que a canção em si vem em segundo plano, ainda que seja uma vocalista fenomenal; ou daquela série de compositores geniais que são vocalistas medianos ou pelo menos esquisitos, feito Bob Dylan, Patti Smith, até nosso Chico. Tem até quem é um grande performer e não necessariamente um cantor virtuoso, feito Mick Jagger e Madonna. Ah, claro: existem os músicos virtuosíssimos, com treinamento formal, ouvido absoluto, sinestesia e que tocam três pianos usando somente os pés – mas, curiosamente, não têm a presença de palco que muito doidão tem por aí.

É. Música é muito mais que cálculo, mais que só estudo: tem um fator artístico difícil de precisar, complicado de prever (que muitas vezes o público saca melhor que qualquer empresário de meia tigela, daqueles que você vê em filmes e pensa “esse cara vai se arrepender”). E assim, eu truco todo mundo que acha que tem um sucesso em mãos só porque fulaninho é famoso. Sucesso até tem. Mas tem legado?

Aliás, está cheio de músico já famoso que ainda não chega lá. O problema que o cara do vídeo “The Case of…” aponta – e que eu reforço – é, na verdade, quando um artista não cabe em nenhuma dessas categorias (os tais “non-descript artists”). Não são nem grandes vocalistas/musicistas, não são grandes performers, nem grandes compositores). São artistas cuja identidade fica difícil de localizar, porque você não se guia nem pela performance vocal, nem pela presença de palco, nem pelas letras, nem por nada; pode ser que um desses vá bem em uma ou outra canção, mas você não tem essa garantia em todas. Não significa que sejam artistas ruins, mas são aqueles que não emplacam de fato – você vê, claramente, que falta algo. No vídeo, essa parte leva exemplos como Maroon 5 (hoje) e Bebe Rexha.

Veja bem: são artistas que podem ter músicas boas, hits até. Mas a sensação de modo geral é a de que suas músicas são maiores que eles – eles ficam meio apagadinhos, ofuscados pela própria faixa. São esses artistas que lembram que a máquina-produtora-de-hits, do time de compositores e tudo o mais, consegue garantir uma grana ao artista, mas não garante uma obra-prima.

Já sabe onde eu estou indo com isso, né? Pois é. O EP de Juliette é uma explicação perfeita da questão dos “non-descript artists” – e digo isso porque, mesmo sem ser uma artista formada, ela já se posicionou como tal, apoiada por gigantes da indústria.

O problema do miniálbum que também leva o nome de Juliette não é necessariamente a falta de contribuição criativa da agora-cantora, mas o fato de que as músicas tomam conta dela, não o contrário; mesmo sua personalidade efusiva, responsável por garantir que Juliette chegasse onde chegou, pouco transparece nas músicas genéricas feitas por outrem. Ela é a prova de que uma voz afinada, ainda que ajude, não garante nada a ninguém (acredite, eu demorei a entender essa parte até para minha própria tentativa de ser musicista). Carisma também é ótimo, mas, se não se traduz em performance, não se sustenta. Já presença midiática, então, parece uma promessa incontestável de sucesso – mas é outra falácia da indústria.

Ainda que pareça, não estou aqui para detonar Juliette – não tô aqui para detonar ninguém, na verdade. O caso de Juliette só me lembrou que, em se tratando de música, o buraco é sempre mais embaixo. Não só é um erro confiar em supostos “grandes nomes garantidos”, como arrisco dizer que música é constantemente uma surpresa: os maiores não são pessoas que você necessariamente veria na rua e imaginaria que seriam tudo o que são. A Lady Gaga é menor que eu; o Caetano era um jovem meio feio. e Milton… Bom, nada no mundo te prepararia para o que sai de dentro de Milton Nascimento.

Afinal, não é essa a graça?

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  • Bianca Lemos

    Tá, mas por que alguém tem que lançar um disco para ser comparável à Madonna, Beyoncé, Bob Dylan, etc? Não dá pra simplesmente a pessoa poder trabalhar e ganhar dinheiro fazendo algo que gosta? Tem que ser incrível? E mais… Tem que ser incrível AGORA? Não dá pra fazer umas “porcarias” no início e ir melhorando, se aprimorando com o tempo?
    O texto é muito interessante, mas o ponto de vista é muito raso e eu acho engraçado como se espera que uma ex participante de reality faça algo marcante só porque cantarolou no programa, ALGUNS acharam que ela é afinada, Anitta, marketeira que só + amigos responsáveis pelas redes sociais resolveram aproveitar o momento pra fazer algo que ela NÃO PODERIA recusar. Até porque imagina como ficaria a imagem dela se recusasse fazer parte de um projeto com tantas pessoas envolvidas??? Se não lançasse, ia ser chamada de arrogante, traiçoeira com os amigos que a estavam ajudando de graça e ingrata, por não aceitar a ajuda da “maior artista pop brasileira da atualidade”
    Enfim, é cobrança de excelência demais para quem nem achava que poderia ser cantora. Agora deixa a pessoa errar e evoluir (ou não) porque é isso o que todo mundo faz com as escolhas diárias, pequenas ou grandes, mostradas na mídia ou invisíveis. E deem liberdade para as pessoas fazerem arte, boa ou ruim. É só praticando que se melhora.