SEMILOAD – Mas o que o Kanye West realmente está fazendo?

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* Chega de falar de Kanye West e seu “Donda”, né? Puts, acho que não, viu. O disco, para muito aléééém da discussão se as músicas são boas ou não, se é chato porque é muito longo ou ideal que fosse só um single, tem tantas camadas que a impressão que dá é que não estamos enxergando tudo o que ele quer passar.
Mas a gente tenta, não é, Dora Guerra? A moça da incrível newsletter “Semibreve“, nossa parça semanal, arrisca dizer que em breve, também por causa de “Donda”, ela, nós e você vamos estar fazendo música juntos com o Kanye West.
Mais ou menos isso!

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Por mais que eu deteste ficar falando de Kanye – às vezes eu até cedo, daí ele vai lá e me apronta uma de chamar Marilyn Manson e DaBaby ao seu show –, um assunto específico me chamou muito a atenção (esquece o disco; talvez em outro momento eu decida opinar sobre ele, mas por enquanto tenho certeza que você já leu maravilhas e ofensas sobre o álbum-que-é-longa-metragem). Então vamos lá, sem exaltar o Kanye, mas pensar um pouco sobre o que ele anda fazendo.

Semana passada, Kanye West anunciou o Donda Stem Player – um dispositivo cheio de luzinhas que, basicamente, permite a você “customizar” as músicas do álbum “Donda” (ou outras músicas, aliás) com todos os canais abertos – você edita os vocais, os instrumentais, mixa tudo ali naquela espécie de tamagotchi de 2021.

O que foi chamado por uns de “revolucionário”, na verdade não é novo, nem muda tudo – só talvez tenha uma visibilidade diferente por levar seu nome e fama juntos. Pois é, disponibilizar os stems (projetos de suas músicas) não é uma ideia exclusiva de Kanye: outros artistas já liberaram suas stems até de graça, inclusive. De cabeça, lembro de uma proposta similar do Glass Animals feita logo no ano passado, no auge pandêmico – só não tinha a verba para fazer um gadget feito West.

Mas, na minha humilde opinião, a popularização dessa ideia – capitalização em cima dela, até – cimenta um processo diferente na relação artista-música-público. O stem player, um objeto que torna a música literalmente manipulável, representa a epítome do “do it yourself”: a obra de um artista é tão sua, mas tão sua, que é disponibilizada para você alterá-la e brincar com ela a sua forma. Isso significa assumir que sua música não é um produto final, mas vivo, reativo ao que o público pode interpretar dele. Se você pensar, não é um raciocínio muito diferente da estratégia do projeto “Donda” em ser apresentado algumas vezes ao público de formas diferentes, antes de seu verdadeiro lançamento, nas “listening parties”.

Vale lembrar que abrir o processo não é uma decisão fácil ou necessariamente comum – pode condizer com a trajetória de Kanye, mas não é o caso da trajetória de muitos. Para vários grandes artistas, a tendência é a contrária: se fechar em seu processo criativo, anunciá-lo e lançá-lo somente quando finalizado, com todas as arestas aparadas (o que faz sentido, convenhamos, em um momento que muitos artistas estão tentando se separar de sua existência enquanto celebridades, focando ao máximo no isolamento criativo).

Mas tem até a ver com a estratégia dos álbuns de remixes e reimagineds (essa nova moda de emprestar suas músicas para outros artistas fazerem dela o que bem entenderem). Claro que, nesses casos, a proposta é aberta para colegas e não ao público geral (ou artistas menores, pelo menos); mas já é uma manifestação de um olhar diferente para o que constitui a música – ela não é o arranjo ou quem canta, tampouco acaba quando você a ouve; é aquela melodia, harmonia e o je ne sais quoi, que podem se desdobrar em inúmeras outras reinterpretações, feitas inclusive por pessoas diversas.

Mas considerando a participação/colaboração de gente como a gente no todo, “Donda” – que contou com a participação de público mesmo antes de ser finalizado – é, sim, um projeto que pode apontar para um futuro da música diferente.

Em tempos de discussões subjetivíssimas e cada dia mais complicadas sobre autoria – que nos forçam a discutir de onde vêm cada coisa, o que é original (se é que isso ainda existe) –, encarar a música como um organismo vivo e aberto é uma espécie de contraproposta, que rejeita a autoria como uma discussão necessária. No caso de disponibilizar os stems, por exemplo, um artista do porte de Kanye pode se colocar menos como o controlador de tudo e mais como uma espécie de maestro, convidando influências de todos os lados e apresentando seu trabalho, de cara, como editável.

É uma visão que confia no público, dividindo com ele o peso dessa criação. Como alternativa ao formato tradicional, essa proposta me lembra o que Radiohead fez lá em 2007, disponibilizando o álbum “In Rainbows” para qualquer um baixar por qualquer preço. A sensação que dá é que, com o tempo, os artistas tentam constantemente eliminar os mediadores que existem entre eles e nós: dizendo “Não” aos mercenários do Spotify, “Não” aos malucos de gravadora ou quaisquer engravatados que queiram decidir quanto devemos pagar e quanto eles devem receber. São só eles, suas criações, nossos ouvidos (às vezes, nossas mãos) e nossa vontade de interagir com o que eles têm a nos oferecer.

No caso de Kanye – para alguém viciado em falar ou pensar em si como Deus –, é perfeito: ele nos dá a matéria prima, nós podemos criar outras coisas a partir dela, também; criador, criatura, novas criações. Não é uma revolução palpável, uma inovação inesquecível ou uma mudança permanente na trajetória da música – mas é, talvez, um passo rumo a um caminho inusitado que outras pessoas já vinham trilhando.

Daqui para a frente, a gente acompanha. Cria junto, se puder. E vê no que dá.

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* Dora Guerra cria conteúdos opinativos também no Twitter, como @goraduerra.

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