SEMILOAD – O caos colorido e divertido da cantora Remi Wolf, na contramão do pop da melancolia

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* Nesta semana instigamos a Dora Guerra, dona da espertíssima newsletter quartafeiriana “Semibreve”, a falar mais de uma paixãozinha dela, a cantora californiana Remi Wolf, 25 anos. Era a segunda vez que Dora vinha, numa mensagem de Whatsapp inocente, falar bem da menina mais colorida da música atual e chamar a atenção para coisas dela. Então por que não escrever sobre ela, do “jeitinho Dora” absurdo de enxergar a música para além da música. Porque claramente “enquadrar” Remi no mundo pop de hoje não é (só) falar sobre suas canções. É elucidar meandros de comportamento, tendência, autodefesa, necessidade de existir e falar sobre essa existência, de se divertir. E, olha, não conheço ninguém com essa “lupa jovem” melhor que a Dorinha.

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O que acontece se você pegar todos esses artistas bem geração Z, jogar bastante cor e uns chapéus engraçados no liquidificador e reservar por 5 minutos?

Você tem algo como Remi Wolf, uma das artistas mais interessantes que eu tive o prazer de descobrir no último ano.

À primeira vista, na verdade, Remi pode parecer ter a mesmíssima idade que BENEE ou Claud – mas, na prática, ela é alguns anos mais velha, em um momento em que isso faz toda a diferença. Remi tem idade o suficiente para ter uma formação musical universitária finalizada; ter feito uma audição no American Idol que J.Lo achou bastante surpreendente; e, ao contrário de quem completa a maioridade já com uma carreira artística a pleno vapor, já teve mais tempo para decidir quem queria ser antes de começar.

Ainda assim, Remi Wolf é nova o suficiente para ser a cara da playlist “lorem”, literalmente falando e com o significado que isso tem hoje para a nova-música-nova. Com roupas largas e um estilo cuja única preocupação é se divertir – sem refinamento, sem elegância, com várias estampas brigando entre si –, Remi ainda é bastante simbólica desta nova geração que sabe se expressar como ninguém.

Ela ainda traz o mental health que a gente tanto fala: tem um assumido TDAH (déficit de atenção) e, inclusive, puxa inspiração dele para compor. Afinal, para muitos de nós – e aqui eu vou ter que me incluir porque, surpreendentemente para mim, Remi é até mais velha que eu –, ficar calado sobre o que você sente não é bem uma opção. E ostentar seus transtornos de cabeça erguida é uma nova forma de mostrar algo do tipo “É isso que eu tenho e não me impede de ser quem eu quero”.

Mas, fundamentalmente, Remi está no oposto do espectro melancólico que muitos desses seus colegas frequentam: na verdade, ela é a definição de euforia, de uma forma absolutamente inesperada para alguém que lançou álbum de casa, na quarentena. E de forma bem-vinda para gente como a gente, que não conseguiu encontrar essa euforia toda sozinha.

É que, dado o tamanho do buraco em que estamos de forma global, você tem duas alternativas: fazer uma visita ao fundo do poço e narrar o passeio ou criar um universo paralelo próprio, onde as coisas estão mais em ordem simplesmente por não terem ordem nenhuma. Remi é adepta da última: seus vídeos saturam a nossa visão com intensidade absurda, sem a menor pretensão de minimalismo. E, quando você entra no mundo de Remi Wolf, você inevitavelmente sorri.

Tudo isso embalado no que ela define por “funky soul pop”, já adiantando que não gosta nem vê o ponto de definir esse tipo de coisa; para ela e para todo mundo que é novo artista, rótulos não fazem muito sentido mais e “tudo é sopa”. É sopa mesmo, das melhores.

E, como uma boa jovem que criou TikTok na quarentena, Remi ainda é extremamente criativa, sem o menor medo de se expor. E isso traz um tempero extra a sua forma de ser artista: é o mais rock’n’roll que temos, posando só de calcinha e Crocs com toda a noção de que ela pode fazer o que quiser. Essa é a filosofia de Remi, aparentemente: ela está muito ocupada se divertindo, sem tempo pra se questionar. Com claras influências da galera de garagem dos anos 90, mas com altíssimas pitadas de anos 2010/2020 e um tempero só dela. E isso transparece de forma muito nítida em sua música – nos EPs “You’re a Dog!” e “I’m Allergic to Dogs!”. Percebe a despreocupação da mulher?

No fim das contas, o grande diferencial de Remi Wolf é conseguir fazer tudo ter cara de caseiro no melhor sentido; ela se apresenta pulando como se estivesse na sala de casa ou traz Dominic Fike para escovar os dentes com ela. Acessível na medida, mas não replicável.

É convidativo demais. Remi Wolf nos lembra que bom humor vende. E que está em falta. Por que será?


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  • Leocádia Joana Garibaldi Pinto

    legal