SEMILOAD – Olivia Rodrigo e o fenômeno da “garota comum”

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* Nada é mais ruidoso hoje na música do que o lnçamento de “SOUR”, disco de estreia da cantora pop (pop?) californiana Olivia Rodrigo. A cada letra que botamos aqui neste post a fama dela vai inflando em vendagens e mençoes em redes, justificando o adjetivo fênomeno que persegue seu nome. Quase já virando substantivo acoplado.

Mas quem é essa garota?, como perguntaria Madonna. Ela canta o quê, exatamente? De onde vem, para onde vai? Justifica o babado todo?

Isso é, claro, uma missão para a destemina pensadora da nova música Dora Guerra desvendar. Nossa parceira da excelente newsletter Semibreve explica por que ela acha que este álbum début da Olivia Rodrigo soa como uma mixtape caótica feita por uma adolescente desiludida, ora brava, ora triste. E tudo bem ser assim.

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Para muitos de nós, o surgimento (explosivo!) de uma tal de Olivia Rodrigo com uma música chamada “Drivers License” – que quebrou recordes de tanto sucesso – foi bastante confuso. Se você, como eu, nunca tinha sequer ouvido falar do nome dela antes disso, foi uma surpresa e tanto ver uma desconhecida com um hit de estreia meteórico.

Os singles foram passando e você, como eu, pode ter se acostumado à medida que a cantora se apresentava ao mundo. Quando chegamos no terceiro single, o fenômeno foi ainda maior: vi amigos em seus 25, 30 ou mais celebrando uma música dessa artista de 18 anos. Viciados, até.

O fenômeno Olivia Rodrigo começou difícil de explicar. Mas agora, com um álbum de estreia em nossas mãos, ela terminou de se apresentar.

Afinal de contas: quem é Olivia Rodrigo e por que vale a pena prestar atenção nela?

Para além de definições que você pode encontrar na Wikipédia – uma estrela da Disney, de origem filipina e nome que tem cara de brazuca –, a artista é um modelo exemplar de uma cantora pop perfeitamente moldada para o mercado atual. À primeira vista, chega a ser surpreendente que uma menina nova, muito menos excêntrica que colegas de sua idade e com uma expressão simpática, seja uma artista pop convincente dessa forma; ela é tão “girl next door” que o fato de isso funcionar, em 2021, é até impressionante. Mas funciona.

Funciona porque, ao olhar para Olivia Rodrigo, você não consegue supor completamente para onde ela vai; na contramão de outros artistas cujos estilos esclarecem suas personalidades, Rodrigo é polida, tímida – fofa, de tal forma a ser impossível desgostar dela por completo.

Em seu primeiro álbum, Olivia Rodrigo alterna guitarras e gritos (que, com a imagem dela, não soam agressivos demais para uma boa família americana) com músicas lentas e arranjos dignos de Jack Antonoff. “SOUR”, esse seu disco de estreia, soa como uma mixtape caótica feita por uma adolescente desiludida, ora brava, ora triste, compilando seus artistas preferidos em um quarto cheio de pôsteres. É o mix perfeito de várias referências pop de sua geração: Lorde, Taylor Swift, pop rock anos 2000 e até… (segundo a própria Olivia) Fiona Apple. Um mapa adequadíssimo de quem Rodrigo pretende ser: uma cantora-compositora aclamada, que ouve seus ídolos e os ídolos de seus ídolos. E faz de tudo um pouco.

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Pelo menos é isso que ela sugere ao início do álbum: “SOUR” abre com um punk rock dramático, o que soa promissor. É perfeitamente localizado no tempo – ao lado de WILLOW, YUNGBLUD e até o retorno de Avril Lavigne, a artista encabeça sem compromisso a nova leva dessa volta do emo, punk e pop rock. Apesar de soar extremamente jovem, a música apela não só para quem tem a mesma idade da artista como para quem viveu o último respiro desses estilos: os fãs do último auge do emo, agora em seus 25/30 anos.

Tá aí, se você não estava entendendo bem por que tinha adulto cultuando uma artista tão novinha. Rodrigo tem uma estratégia meio nostálgica muito bem arquitetada, que ficou escancarada em “Good 4 U” – o último single pré-álbum. Vestida de líder de torcida em um colégio como Britney Spears o fazia, Olivia passa por todas as referências afetivas que a geração nascida em meados dos anos 90 tem: os filmes de cheerleader, os clipes anos 2000, o quarto pegando fogo, a ironia gritada como faziam Hayley Williams e até Miley Cyrus no início. Inclusive, a música alavancou os streams de nada menos que “Misery Business”, do Paramore.

É sedutor, de fato, e tem timing – estamos em parte saudosos de tempos melhores, em parte extremamente raivosos por… bom, tudo. A vida anda densa e vejo muitos de nós atraídos pelo que não é necessariamente denso, apenas catártico: é melhor passar raiva com o Big Brother Brasil para não se desgastar com a realidade daqui de fora. Com tudo isso, nada cai tão bem quanto uma música feita para se gritar no quarto sobre um amor qualquer (ainda que os americanos já possam sair de casa a esta altura).

Resumindo, faz sucesso porque você não precisa pensar sobre para gostar; pega na sua memória afetiva e pronto (e todo mundo tem uma memória afetiva de música-raivosa-de-adolescente).

Infelizmente, é tão sedutor que te faz questionar se essa é realmente Olivia Rodrigo – ou se ela está mais para parte lenta do álbum, que é a outra metade meio bagunçada das canções. São músicas bonitas e introspectivas, à la “Melodrama”, da Lorde, e “Folklore”, da Taylor, com alguma personalidade. Só não têm esse apelo para o mesmo público diverso. Afinal, em se tratando de músicas exclusivamente tristes, o tema “fui trocada por uma loira que já tem 20 e tantos anos” não é algo que todo mundo se identifica – as compositoras adultas, mais profundas, passam a cumprir melhor esse papel para quem não está em seus 17, 18 anos.

Mas Rodrigo é boa letrista, boa cantora e tem um bom potencial. Apesar de ser mesmo tão “girl next door”, tem algo de interessante no que ela pode apresentar: talvez justamente por começar com “Drivers License” e, desde então, mostrar outras facetas (se aproveitando da sua própria imagem inocente). É muito bem assessorada, tem visuais impecáveis e entre quem interessa – os adolescentes – é um fenômeno completo, mais comercial que Billie Eilish.

E, se você não é adolescente há algum tempo, as músicas de Olivia Rodrigo podem não te descer muito bem; mas ignorá-las por completo é ignorar um fenômeno. Rodrigo é um mapa da nova moda do pop – e, para bom fã de música, sempre vale ficar de olho na nova moda.

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  • Vitor Tavares

    Amei o texto!!