SEMILOAD – Parece que os shows reais vêm aí. Primeira pergunta: será? Segunda pergunta, mais filosófica: o que faz um grande show ser isso… um grande show?

1 - semiload-arte2

* Você deve se lembrar de shows, não? Aquela coisa de ir ver uma banda ou artista se apresentarem num palco e tal. Faz tempo, sabemos. Mas pareeeeeeeeece que eles podem voltar em breve (toc toc toc). Nos erre, delta.

Já que pelo menos estão nos deixando sonhar com eles novamente, nossa intrépida newsletteira Dora Guerra, da parceira brilhante Semibreve, vasculha suas memórias afetivas para lembrar de grandes shows que ela viu. Mas não um mero “dropping names” de grupos e cantoras/cantores.

Como Dorinha vai sempre por caminhos que não são os óbvios, ela vai buscar se entender sobre o que faz um grande show ser isso mesmo… um grande show.

O resultado é esse cursinho rápido preparatório para o que vem por aí em forma de “long read”.

Captura de Tela 2021-08-20 às 1.40.18 PM

Com todo o otimismo e saudosismo de um país em vacinação, venho pensando em shows do futuro e do passado. Mas, precisamente, o que faz um grande show?

Um grande show não tem nada a ver com tamanho de espaço, tampouco é perfeitamente previsível: ao entregar seu ingresso, você nunca sabe se está prestes a ver um. Mesmo que você espere – tem alguns artistas que, por definição, fazem excelentes apresentações –, o grande show consegue te deixar de queixo caído.

É, ele pode ser esperado, mas jamais previsível.

Um grande show te convence de uma série de coisas: primeiro, que a banda ali em cima é absurdamente atraente, todos os seus membros (frequentemente você muda de ideia depois de vê-los fora do palco); segundo, que a música é realmente boa, mesmo que você a tenha ouvido pela primeira vez; e, por último, que se sua vida existia antes dessa banda em questão, agora não deveria mais – este último pode passar com a euforia, mas os bons nunca passam.

O grande show tem alma, sangue, suor. Convida e abraça o erro e o improviso, porque são eles que ligam o palco à plateia e afirmam: “Isto aqui, só vocês viveram”. Uma cumplicidade mútua, mesmo que fingida. E, afinal, sob os holofotes e a aglomeração, ninguém percebe notas erradas: celebramos tudo que sai do script, desde que não seja desagradável aos ouvidos.

O grande show, afinal, não é sobre ouvidos, é sobre corpo. O Queen entendeu esse recado perfeitamente com a famosa ideia de “We Will Rock You”. Os blocos de Carnaval não ficam atrás. Afinal, em um grande show, a banda não é só músicos no palco; aqueles são só os maestros, mas músicos somos todos. E aí temos um coro de vozes, palmas e pés a nossa disposição, atentos e aguardando comando.

O grande show te faz esquecer do que acontece lá fora, como se o único acontecimento no mundo fosse aquela arena ou aquela pequena casa de shows. E te torna unido a um coletivo, alinhado cosmicamente de forma complicada até para o mais cético – o tipo de energia alinhada que as motociatas do presidente sonham, só sonham em ter. Naquele senso de unidade, no grande show, você topa pular, empurrar, gritar, chorar. E se pega encarando o palco – ou o telão – com uma expressão atônita, em uma experiência que é ao mesmo tempo só sua, mas também de todos a sua volta (principalmente do fulano que você empurrou durante o mosh). Na sua cabeça, um pensamento prevalece: “Não quero esquecer esta sensação ou este momento jamais”.

É que o grande show te tira toda e qualquer barreira, te deixa à flor da pele. Quando você vê, já é tarde demais: você está à mercê da música, entregue ao que os músicos querem fazer de você. Os maestros – os bons maestros – sabem te conduzir entre euforia, tristeza, tesão, raiva e puro caos.

Do grande show, não resta nada. Quase literalmente, porque você sai dele tonto, exaurido, adrenalinado. Confio que o grande artista sai da mesma forma, depois de deixar tudo no palco. Em luto, você acaba se segurando a cada grande momento do que viveu, numa espécie de barganha com seu cérebro: vou repassar essas cenas pra você não esquecê-las. Os grandes, grandes mesmo, até te dão uma falsa sensação de que você finalmente compreendeu algo importante e imprescindível para a sua vida (“Preciso me tornar guitarrista”, “Tenho que me mudar para esta cidade”, “Nunca mais perco nenhum show deles”). Com o tempo, claro, você percebe que eram conclusões ainda embriagadas.

Pouco a pouco, você perde uma ou outra cena na sua cabeça, esquece que músicas foram cantadas. Do grande show, a única coisa que resta a longo prazo é aquela certeza infalível que você tem todas as vezes: “Este aqui é o melhor show da minha vida”. Eu mesma já tive uns 13 melhores-shows-da-vida; mas o bom é que ninguém está contando.

É que o grande show te lembra: a música é poderosíssima, infalível, transcendental. E você, perto dela, é nada.

P.S.: com timing curioso, este texto foi parcialmente inspirado por um dos grandes shows a que fui – Lorde no Popload Festival de 2018 (foto lá em cima). Aquela Dora não fazia ideia que um dia escreveria aqui.

*****

* Dora Guerra “atua” também no Twitter, como @goraduerra. Já foi lá?