SEMILOAD – Pergunta sincera. O que aconteceu com o Coldplay, hein?

1 - semiload-arte2

* Toda vez que o nome Coldplay surge à baila em rodas indies como esta aqui, o seguinte comentário vem à baila logo depois de uma torcida de nariz: “Mas os dois primeiros discos eram tão bons. Por que a banda virou isso aí?”

O “isso aí” vai ser explicado por Dora Guerra, a colunista híbrida da Popload com a newsletter Semibreve, um dos textos mais legais do jornalismo musical brasileiro. Dora vai fazer a ponte do “isso aí”, que é o Coldplay-vibe-Maroon 5 de agora, com “aquilo lá”, que é o Coldplay bom da fase indie.

E dizer se a banda de Chris Martin tem salvação. Mas daí vem outro problema. Ela conta.

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Me peguei ouvindo o “Parachutes”, do Coldplay, novamente – um álbum que divide opiniões, mas que, particularmente, sempre me atraiu. É delicado, agridoce, carregado pela voz macia e sentimental de Chris Martin. Tem alguma melancolia – inspirada por, mas não tão grande quanto, nomes como Radiohead e Jeff Buckley – britânica e contemplativa, otimista com tons de pessimismo do novo milênio. Naquele momento, o Coldplay parecia uma banda que se via com seriedade e prezava por música de alguma forma afetiva.

Tudo isso se aperfeiçoa no álbum seguinte, “A Rush of Blood to the Head”. Eu fico até triste em lembrá-los que estamos falando de uma banda que fez “In My Place”, “Clocks”, “The Scientist”; em 2002, poucas atos eram mais melancólicos que ouvir “The Scientist” na chuva. Era palatável o suficiente para ser trilha sonora de filme romântico, mas em contraponto com outro sucesso do ano – o Nickelback – era um som com mais personalidade e densidade, até.

Mesmo no que eu chamo aqui de “auge do Coldplay”, vale ressaltar que algumas coisas são inegáveis: primeiro, que sempre faltou uma certa “maldade” em seu trabalho, que nunca ousou demais ou saiu do molde de bons garotos (coisa que os artistas sempre foram; Chris Martin sequer bebia). Segundo – e isso não é demérito, necessariamente –, que sempre foi fácil localizar onde os artistas estavam mirando em cada composição.

Às vezes, até demais. Quando eu ouço uma das antigas e confundo a voz de Chris Martin com a do Bono Vox, sei que a coisa se misturou. Ainda assim, eram pecados perdoáveis: eu era nova demais para distinguir uma coisa da outra, pelo menos. E, para mim (que só agora, em pesquisa, descubro que o Coldplay sempre foi visto como “rock para vovós, pouco original e entediante” para inúmeros críticos musicais), sempre houve carga afetiva em muitas dessas canções.

Dá para ver claramente a linha do tempo do Coldplay e onde as coisas mudam. “Viva La Vida or Death and All Its Friends” é o começo do fim – ou o fim do começo. É mais denso, uma tentativa de ser experimental, com faixas monumentais (“42” me arrepia até hoje). “Viva La Vida” (a faixa) é incontestável, como vídeos com milhares de pessoas entoando o coro no Rock in Rio não me deixam mentir.

Mas talvez tenha sido aí – ao descobrir o gosto de uma música que faz as pessoas pularem em estádios – que o Coldplay tenha se perdido de vez.

Afinal, é no álbum seguinte que surge “Paradise”, mais uma tentativa (bem-sucedida, sim, mas a que custo?) de puxar um refrão vindo da plateia. Surgem os vídeos com cores absolutamente saturadas. Nasce o Coldplay anos 2010: com os dois pés em território pop.

Como eu disse, sempre faltou alguma maldade ao Coldplay; por isso, ao aterrissar em terreno pop, a banda foi caindo em um lugar otimista-genérico, perdendo os aspectos minimamente excêntricos que pegavam de suas influências. De repente, todas (todas!) as músicas da banda sorriem com força para você, quase te obrigando a sorrir de volta via chantagem emocional. O universo coldplayniano, que vinha tentando se aprofundar até então, começa a se tornar raso.

O outro problema em questão é justamente aquele que eu citei ali em cima: sempre dá para ver onde o Coldplay está mirando. Não existe enigma e, portanto, você consegue saber claramente se eles acertaram ou falharam em tentar ser aquela inspiração.

Aí, pronto: você vê o sucesso da EDM deixando suas pegadas em “A Sky Full of Stars”, o que não combina de forma alguma com os integrantes. Você vê, em “Higher Power”, a tentativa de ser música-dançante, pop polido, sem mensagem verdadeira. Na tentativa de abraçar o mundo e se redefinir enquanto grupo pop, o Coldplay perdeu muita coisa no caminho.

Afinal, o ano é 2021 e a banda está colaborando com Max Martin. E você ouve falar de uma parceria com BTS. Já sacou onde o Coldplay está mirando agora?

É isso que escancara o problema no trabalho da banda. Não há nada que denuncie mais a obsolescência que a tentativa incessante de ser sempre novo, sempre jovem, sempre relevante; por mais comercialmente bem-sucedido que possa ser o próximo álbum, o Coldplay vai se alinhando ao Maroon 5 como banda que não experimenta e só se preocupa em vender músicas bem farofas – aquelas que em nada mudam a vida de ninguém e, no minuto seguinte, você já esqueceu.

Em um momento da vida em que deveriam estar fazendo tudo menos encaixar em um molde (visto que já venderam o que tinham para vender), o Coldplay está intoxicado pela própria fórmula do sucesso. E, aí, caiu em um formato que só se altera para o pior, para o mais comercial, para a versão musical daquele meme do Steve Buscemi dizendo “How do you do, fellow kids?”.

Será que existe saída disso? Não sei. Mas eles não parecem querê-la, também.

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* Dora Guerra “atua” ainda no Twitter, como @goraduerra. Segue ela!

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  • Diego

    Parabéns por conseguir transcrever de maneira tão completa o que os fãs do “Oldplay” sentem. Até hoje, quase todo dia ouço alguma música do Parachutes ou do A Rush of Blood to the Head e sempre me pego pensando/lamentando sobre o que eles se tornaram. Enquanto uma banda “normal” geralmente vai amadurecendo com o tempo, criando uma identidade musical mais “encorpada”, os caras estão involuindo e se afundando cada vez mais. Só falta o nariz de palhaço. Era um som com significado. Agora não dá nem pra ouvir as porcarias que os caras fazem. É triste e realmente, o Viva la Vida foi o início do fim. Popzinho sem vergonha, som pra galerinha do “apaga que isso tá me dando gatilho”. Triste.