SEMILOAD – Quem tem medo da música pop?

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* Dora Guerra é impressionante em seu timing. Uma semana depois que a superpop Billie Eilish lança um disco bomástico com trip-hops e viagens roqueirinhas e eletrônicas travestidas em “música fácil” e NO MESMO DIA em que a rapper cantora ou a cantora rapper Lizzo anuncia uma nova era no… pop?, a moça da newsletter “Semibreve” pousa aqui na POPload com o assunto necessário. E que amarra todas as pontas soltas do “status quo” da música que a gente gosta.

A discussão, sim, é antiga. Provavelmente ela tenha ajudado Kurt Cobain ter feito o que fez, lá atrás. Mas talvez esse papo nunca tenha feito tanto sentido como agora, por tudo quem tem implicado: Olivia Disney Rodrigo tem uns indies legais ou não tem? Billie Eilish não é gênia demais para a idade dela? Músicas do disco novo do Jungle não cabem numa festa de néon no Cine Joia e num clube de jazz na mesma medida? Taylor Swift virou “alta-cultura indie” ou é impressão? A citada Lizzo é uma rapper ou cantora pop? Ou as duas coisas?

A†e dá uma arrepiada, aqui.

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Eu. Eu tenho medo da música pop.

Amar o pop não é fácil mesmo para mim, que me rendi a ele. Para bom fã de música, significa frequentemente deixar o orgulho de lado. E vai contra o que muitos de nós fomos ensinados – nós, que fugíamos do mainstream, não queríamos ser posers. Éramos viciados em dizer “Conheci isso antes de ficar famoso”.

Para o indie, amar o pop é uma dificuldade por inúmeros motivos – quando você se acostuma a idolatrar o independente e se sentir um alecrim dourado pelo seu gosto musical, o negócio degringola. Mas é tolice pensar que, em 2021, exista alguma escapatória: o indie é pop, o pop é indie, Billie Eilish é pop com cara de indie, Phoebe Bridgers se mistura com Taylor Swift, Bon Iver também.

Isso assusta? Assusta. Para mim, persiste a ideia de que estou cedendo a uma lógica mercadológica que faz de tudo para ter meu consumo – e o tem. Simples: eu me sinto uma vendida.

E, claro, com a nossa eterna insistência em nos definir pelo que ouvimos – com os Wrappeds do Spotify, pôsteres nas paredes, camisetas de banda –, encaramos música como encaramos roupas; ao mesmo tempo que queremos fugir à moda principal, para nos convencer de que temos personalidades/gostos próprios e conseguimos resistir às últimas tendências, é impossível não se interessar por algo comum à maioria.

Mais precisamente: Dua Lipa toca. Você vai dizer que não gosta e não dança?

Talvez o meu – e talvez o seu – medo de música pop venha acompanhado do temor de priorizar o comercial sobre o artístico; de seguir valorizando o gigantesco, o rico, o consolidado, em detrimento do pequeno que luta para sobreviver. Mas isso não existe: dá para amar ambos, valorizar ambos, curtir música. Como tudo na vida, a música não é um assunto tão preto-no-branco assim.

Mas talvez o medo venha de raciocínios ainda mais enraizados e preconceituosos, que a gente acatou depois de ler e ouvir muita crítica musical maniqueísta. Você lembra bem: aquela que classifica por gênero musical a música “boa” da “ruim”. Que vê na indústria cultural apenas… indústria.

Vale lembrar que essa é uma linha de pensamento muito conveniente e seletiva – que tira das divas pop o valor que atribui aos “gênios” de outrora. Os Beatles eram gênios, Britney jamais seria. Afinal, qual seria o mérito de uma música que raramente é complexa em estrutura, que não é “para pensar”, feita a inúmeras mãos para um público majoritariamente feminino e LGBTQIA+?

Aí que tá. Ver o pop como um gênero musical pouco complexo, ter medo dele, se afastar dele é menosprezá-lo, novamente. Claro, o fio condutor da música pop é o espetáculo: é uma música feita para encantar, te prender com o excesso de brilho. O bom pop é o entretenimento em seu auge, mas jamais isolado da sociedade – sobretudo hoje. Frequentemente, o pop é uma bússola clara de por onde os aspectos sociais caminham (Madonna que o diga).

Ou seja: não é só que o pop merece estudo e análise, mas ignorá-lo é perder uma parte fundamental de uma das culturas que mais circulam na nossa fração de mundo.

O pop é uma potência, que transcende a música para alcançar a moda, a fotografia, o cinema, as referências culturais de todo tipo; com recurso suficiente para construir narrativas atraentes, formas mais digestíveis de pequenas revoluções. Simples: de Rihanna a Pabllo Vittar, Michael Jackson a Anitta, o pop muda o mundo – ou potencializa algumas mudanças há muito necessárias.

E, muito mais que os Beatles que insisti em amar durante a adolescência, eu fui profunda e irrevogavelmente formada por música pop – e eu sei que muitos de vocês também. Eu sou cada um dos vídeos musicais que cresci assistindo, sou o CD de “Dangerously in Love” da Beyoncé, sou até o Show das Poderosas. Pessoalmente, o pop me formou como gente, como mulher, como fã de música, me deu noção de um mundo para além do meu próprio – um mundo que faz de tudo para te fornecer um grande espetáculo. E, no fim, se tem algo que eu realmente sei falar sobre… é o pop.

Tudo bem. O pop é gostoso demais. E depois que a gente aceita isso, as coisas ficam muito mais fáceis.

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* Dora Guerra “atua” também no Twitter, como @goraduerra. Já foi lá?

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