SEMILOAD – Reavaliando o hit “Happy” num mundo MUITO TRISTE

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* Ninguém aqui quer instaurar o pessimismo na música, mas chega a ser engraçado como um hit mundial como a canção “Happy”, o Pharrell William, de 2013/2014 não cabe no nosso mundo de hoje. Nem nos referimos ao Brasil, hein.
Dora Guerra, que pilota a ótima newsletter “Semibreve”, nossa parceira semanal de pensamentos pop, achou de traçar um paralelo da música de Pharrell e de outras dessas que dão vontade nas pessoas de sair dançando pela rua com um outro tipo de felicidade musical, por exemplo dessas que você encontra num show da happier-than-ever Billie Eilish.

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Às vezes tenho a impressão de que algumas músicas pop – boas em seu momento – acabam por arruinar o resto da música simplesmente por fazer as pessoas acreditar que podem replicá-las.

Frases hiperbólicas e apocalípticas à parte (exagerei, não acho que nada vai arruinar a música neste momento), quem eu acho que causou estrago nos últimos anos foi, especificamente, uma canção:

De forma bastante similar ao prejuízo que os conceitos minions trouxeram ao mundo, “Happy” deixou marcas profundas na música pós-2014. Enquanto “canção para filme”, trata-se de uma faixa extremamente bem-sucedida: em todas as suas cores, com o coro no fundo e o talento inegável de Pharrell em fazer músicas dançantes, a faixa é indiscutivelmente feliz, perfeita para personagens de animação dançarem; um sucesso comercial, conquistando famílias ao redor do mundo. E taí o problema.

De repente, o fenômeno “música catártica”, que te faz dançar no meio da rua, pareceu acessível a todo e qualquer artista. Com toda a formulinha – incluindo várias pessoas comuns dançando de forma contagiante –, “Happy” fez parecer que não só a “canção para filme”, como quase toda música pop, deveria ser sorridente no talo.

Mas isso, claro, tem problemas: vale destacar que muitos dos comentários em “Happy”, no Youtube, relatam que em 2014 essas pessoas realmente eram felizes – ao contrário de agora.

(Aliás, talvez 2014 tenha sido um ano feliz de modo geral: além de happy, o período teve outras músicas gigantescas como “All about the Bass” e “Uptown Funk”. Ser alegre – com faixas funky e dançantes – era uma influência sonora e emocional que, por algum motivo, pegou bem nas rádios (aliás, flash mobs ainda eram moda). Mas veja bem: tudo tem contexto.

Não que isso tenha morrido em 2014 – dois anos depois houve o famoso caso do filme “Trolls”, que encomendou sua própria “Happy”. A fórmula é exatamente a mesma: com um artista bom de falsete, o vídeo retrata pessoas dançando na rua, incapazes de conter sua felicidade; a música é meio funky, mas não o suficiente para ser sexy. Pronto. Outro sucesso.

Mas o problema de repetir fórmulas é que elas, aos poucos, perdem todo seu efeito. Na época de “Can’t Stop the Feeling”, as pessoas talvez ainda estivessem felizes como a música narra – sorridentes, prestes a dançar com o carro quando tocava na rádio. Mas eram faixas extremamente politicamente corretas, feitas para tocar quando a família estivesse junta e não quisesse discutir política, futebol ou religião; é a música que, quando o filho pequeno ouve, a mãe aprova. Mas é um conto de fadas.

Tem isso em 2021? Diz que tem: alguém na gigantesca equipe de marketing do BTS insiste que esse seja o melhor formato para conquistar o mundo – querem porque querem seduzir a família americana inteira na base do “politicamente correto”, em tentativas aquém do que o grupo consegue fazer. O BTS tentou esse clima três vezes: strike 1, “Dynamite”; strike 2, “Butter”; strike 3, “Permission to Dance” – o “Happy” deles. Mas a falha está logo por aí: se um dia o mundo já foi tão alegre e dançante, hoje nem sequer sugeri-lo já é ofensivo – mesmo pós-vacina.

Minha chefe, redatora e poeta de boteco, cunhou o conceito “épica e alegre”, reservado às poucas músicas que conseguem combinar ambos com maestria. Em uma tentativa com alguns amigos de fazer a lista perfeita épica alegre, ela esbarrou na dificuldade primordial: só pode uma do Queen; depois, a segunda dificuldade: a parte do alegre é fácil, a parte do épico, nem tanto.

Ainda assim, muita gente tenta fazer ambos e acaba caindo em um, correndo risco de mirar no alegre e acertar no infantil. Hoje em dia, é difícil fazer algo genuinamente feliz que converse com o que as pessoas estão sentindo; não há música atual que se refira a sentimentos positivos e coletivos que vá me convencer, pelo menos. É possível, sim, fazer uma música catártica e alegre – mas é mais fácil mirar no sentimento específico a esta altura: “Estou tão apaixonado que quero dançar” talvez seja uma descrição mais acertada que simplesmente “Estou muito, muito feliz”.

Afinal, quem é que se atreve a estar muito feliz?

Dançar não precisa ser um ato tão literal ou preso em si mesmo, como se só fosse possível se mexer por alegria. “Dancing Queen” (assim como todas do Abba) é um fenômeno democrático hoje, porque ganhou o status com o tempo, tocando nas boates para uns, em “Mamma Mia” para outros. Nem toda música-feliz-para-toda-a-família nasceu assim – muitas se tornaram.

É por isso que temos a Robyn, tivemos o New Wave, tanta coisa importante: a gente tem que entender que dança e alegria não precisam ser intrinsecamente conectados e podem, inclusive, ser a antítese um do outro. É possível dançar chorando, é possível dançar sozinho, é ainda mais possível dançar esgoelando uma letra que diz de um sentimento muito mais amargo que a felicidade. As pessoas não estão precisando do politicamente correto quando nada está correto – o que as pessoas estão precisando é esgoelar: basta ver os fãs nos shows recentes da Billie Eilish.

Isso sim é épico. Um épico que nunca precisou do alegre.

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* Dora Guerra aparece no Twitter como @goraduerra, nem sempre (ou quase nunca) muito alegre.

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