SEMILOAD – Um desabafo sobre “música na pandemia”. A cena mundial vai começar a sorrir e vamos ter que aprender a reagir

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* Nossa “Long Read” da semana traz uma discussão importante para nos preparar para o que vem por aí, enquanto brasileiros fãs de música. Porque a partir do mês que vem vai chegar real o verão lá e o inverno aqui e vamos ver coisa que queríamos muito estar vivendo e não vamos poder. A volta dos shows, com público. Então tomemos com um aprendizado esse desabafo da sempre interessante Dora Guerra, nossa parceira e pilota da newsletter sonora Semibreve, neste vôo sonoro para lugar nenhum que vamos estar a partir de agora e por um tempo. Mas, no fim, vamos sair desta.

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Vez em quando dá vontade de fazer um desabafo ou uma reflexão um pouco mais subjetiva sobre música – na pandemia, parece que a música de fato assumiu um valor difícil de mensurar, muito menos concreto; criamos uma nova relação com ela, ora mais profunda, ora apenas complicada.

Até aqui, acho que reagimos mais ao escapismo, à nostalgia e à leveza (foram poucas as obras densas que abraçamos, né?). A gente mergulha em Olivia Rodrigo, Pabllo Vittar, Dua Lipa, sofá, breja e Netflix – mergulhamos em memórias afetivas de outros momentos ou nas festas em que poderíamos estar. De repente, clássicos são desenterrados também: parece que a música serve como um dos nossos poucos meios de transporte possíveis.

Música se tornou algo quase exclusivamente individual. Dançamos sozinhos, fazemos TikToks, gravamos vídeos no Instagram. Fiquei pensando inclusive na lista que revela quais foram as músicas mais usadas nos Stories. São músicas sobre se sentir vivo, sobre ser o seu Esquema Preferido, sobre acreditar em Deus; sobre se projetar para o mundo, em vez de olhar pra ele. Incapazes de mudar esse mundo, seguimos nos definindo individualmente, dizendo quem somos e o que sentimos. O resto não está nas nossas mãos.

Podemos compartilhar música com outras pessoas, mas raramente a ouvimos juntos; a escolha do que vai tocar é quase exclusivamente sua, uma decisão que acaba muito pautada pelo seu emocional. E o que você escolhe? O que amava aos 16 anos, o que te faz se sentir um adolescente, ou o que te faz sentir vivo: seja porque é bonito demais, seja porque é enérgico em um momento que a energia falta. É a música como kit alienação, primeiros-socorros, tudo junto.

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“Konjalwar disse que a familiaridade de artistas como Taylor Swift e os Beatles, cuja música foi uma presença importante durante sua infância, trouxe uma sensação de conforto e estabilidade que a pandemia havia destruído.”Music listening takes a new meaning in the pandemic
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E a falta de shows influenciou muito as coisas – segue influenciando, pegando de surpresa alguns setores do mercado que esperavam ter alguma recuperação até aqui. Não é novidade para ninguém que os pequenos e os independentes estão mal demais. Curiosamente, também vem pegando para os grandes: sem os shows, ambientes tão potentes, muitos artistas seguem guardando seus projetos para um horizonte melhor, e os sucessos parecem se alternar mais.

Estamos, aos poucos, lembrando que música pode ser coletiva – mas não para a gente. Com a volta dos shows e da vida em outros cantos do mundo, voltamos a ver música otimista para um público otimista. Nos EUA, o timing é perfeito: é verão, pode aglomerar, pode até marcar turnê. De repente, todos os artistas escondidos até aqui começam a reaparecer e querer ressuscitar suas carreiras e o ânimo de fãs desolados pelo mundo; se você quer associar sua música com calor físico e calor humano, a hora é agora. Para os estadunidenses, claro. E alguns ingleses.

E mesmo para nós que acompanhamos virtualmente, revemos um fator sumido – aquele, essencial, que sentimos falta no dia-a-dia: a espontaneidade. Com a volta de entrevistas, programas realmente ao vivo e até shows reais, com plateia real, lembro-me do que é a possibilidade de um artista rasgar a calça sem querer e reagir da forma mais espontânea possível. Fazia muito tempo que eu não via performances que não fossem pré-gravadas e editadas em um cenário meticulosamente montado, sem espaço para o erro (afinal, alguém ainda vê lives?). Desde os Grammys, parece que essas coisas foram voltando devagar.

Tem os momentos, até, que você lembra que a música não é feita só pelo artista – ela é feita pelo público, também:

Mas, da nossa parte, pouco mudou – exceto o fato de que somos uma parcela boa de quem consume tudo isso também. Então encontramos um dilema: a música vai mudar daqui para frente e nossa relação com a música vai ter que mudar; a cena mundial vai começar a sorrir, e vamos ter que aprender a reagir. Existe espaço para a gente importar um otimismo verdadeiro do exterior? Ou vamos preferir seguir com o que é nosso e mascara melhor a nossa falta de vida normal?

Talvez por aqui a gente continue ralando pra encontrar o que serve de trilha sonora – nos tornamos pessoas acostumadas com o conceito “minuto de silêncio” e não existe música que apazigue o suficiente quando o negócio aperta. Porque, na prática, não queremos ter músicas de pandemia: queremos, ao fim dela, ressignificar essas músicas a todo custo com novos horizontes, uma vida de verdade. Ouvir música como catarse, não desabafo. Pelo menos não um desabafo da ordem do imponderável, como é este momento.

(E, de preferência, fazer a playlist perfeita para a troca de presidente em 2022.)

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