Em Anitta:

Top 50 da CENA: um resumo de 2021. Também conhecido como: As 50 Melhores Músicas do Ano no Brasil

1 - cenatopo19

* Como a gente já repetiu algumas vezes: listar as nossas favoritas da CENA brasileira, durante todo o ano, é mais um jeito de contar tudo de bom do que a gente anda ouvindo a cada semana. A gente deixa de lado qualquer pretensão de dizer o que é melhor ou pior. No fim de ano, a missão segue a mesma. Nossa ideia aqui é apresentar este resumo do que foi 2021. Faltou música, lógico, a ordem talvez desagrade, mas é só voltar semana a semana para achar outras centenas de músicas incríveis destacadas aqui para de um modo modesto jogar luz nesta CENA brasileira nada modesta. A CENA nunca foi tão produtiva e boa.

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1 – Juçara Marçal – “Crash”
Rap. Samba. Juçara entrega em “Crash”, letra de Rodrigo Ogi, uma música que arrebenta com qualquer fronteira que se queira criar entre os gêneros musicais. É impossível determinar onde começa o que aqui. Uma certeza é que a letra tem um recado mais claro: é hora de ver a derrota de quem com ferro feriu.

2 – Don L – “Volta da Vitória/Citação: Us Mano e as Mina (Xis)”
Nas revoluções do passado e nas que virão, que aparecem por todo o novo roteiro de Don L, há o dia da vitória. Dia das conquistas e celebrações. Em tempos amargos, é bom lembrar em uma canção que a festa é parte da transformação. Ela não precisa ser só uma resposta para a tristeza da realidade, mas sim a constante nessa nova trilha.

3 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah”
E, no ano em que a música brasileiro sonhou perigosamente, Rico versa: “Sem poder saber o passado/ sem poder ganhar o presente/ E ter a culpa de ser o futuro/ Meus sonhos são gigantes”. Sonhos que acontecem aqui, na América do Sul, detalhe que Rico faz questão de lembrar ao ouvinte, que é puxado para dentro da canção em uma singela quebra da quarta parede: “Alô, parceiro, passageiro”.

4 – Jadsa – “Sem Edição”
Se a distopia onde vivemos a vida dos outros através de milhares de filtros sociais e virtuais é aqui e agora, Jadsa clama por um pouco de vida real sem aquecer, esfriar, esmaecer, ajustar e outras coisas. Que discaço que ela fez.

5 – Alessandra Leão – “Borda da Pele”
Nas palavras da própria Alessandra, “Borda da Pele” é “A escolha subversiva pelo sim”. E ela continua: “Pela estratégia do prazer. Sabedoria selvagem da escuridão de dentro em resposta às trevas de fora”. Quando a descrição vem pronta assim a gente só reproduz. Não é preciso dizer mais nada.

6 – LEALL – “Pedro Bala”
Em uma letra que abre diálogos com Jorge Amado (Pedro Bala de “Capitães de Areia”) e Chico Buarque (que tem seu “Pedro Pedreiro”), Leall descreve com exatidão a realidade, sonhos e motivações de um personagem condenado pela estrutura racista do Brasil a violência, miséria e fome. E transforma tudo isso em música de primeira.

7 – Marina Sena – “Por Supuesto” e FBC – “Se Tá Solteira”
Talvez as duas principais músicas produzidas pela cena independente brasileira que furaram a bolha e alcançaram plays incontáveis por Tik Toks e pelas festas do país. Merecem a celebração conjunta.

8 – Caetano Veloso – “Pardo”
Ao lado de Letieres Leite, mestre que a música brasileira perdeu em 2021, Caetano faz sua autodeclaração, que já havia sido cantada por Céu: é pardo. Termo que Caetano reconhece que é mais usado hoje do que na sua juventude. Ainda que não seja exatamente sobre o assunto, a canção coincide com a defesa de Caetano que a discussão racial no Brasil passe a ser mais informada pelo próprio Brasil do que pelos Estados Unidos.

9 – Amaro Freitas – “Baquaqua”
A impressionante trajetória de Baquaqua, africano que foi escravo no Brasil e após fugir do país escreveu sua autobiografia nos Estados Unidos, um raro documento histórico de um escravo sobre sua realidade, vira uma música instrumental absurda no piano de Amaro, que traduz nota a nota essa jornada.

10 – Pabllo Vittar – “Não É Papel de Homem”
Ao trazer brega, forró e calypso para informar o ultrapop, invertendo o processo onde geralmente é a gente que é contaminado pelo pop estrangeiro, Pabllo Vittar segue inventiva ditando o pop na música brasileira.

11 – Anitta – “Girl from Rio”
12 – Coruja BC1 – “Brasil Futurista”
13 – Tuyo – “Sonho de Lay”
14 – Prettos – “Oyá/Sorriso Negro”
15 – Marina Sena – “Pelejei”
16 – Liniker – “Mel”
17 – Luana Flores – “Lampejo da Encruza” (28)
18 – Valciãn Calixto – “Exu Não É Diabo (Èsù Is Not Satan)”
19 – Bebé – “Sinais Elétricos na Carne”
20 – Edgar – “A Procissão dos Clones”
21 – Rodrigo Amarante – “Maré”
22 – Tasha e Tracie – “Lui Lui”
23 – GIO – “Sangue Negro”
24 – Linn Da Quebrada – “I míssil”
25 – Jonathan Ferr – “Amor”
26 – Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo – “Fora do Meu Quarto”
27 – MC Carol – “Levanta Mina”
28 – Criolo – “Cleane”
29 – Fresno – “Casa Assombrada”
30 – Gab Ferreira – “Karma”
31 – César Lacerda – “O Sol Que Tudo Sente”
32 – TARDA – “Futuro”
33 – Rabo de Galo, Ubunto e Luedji Luna – “Me Abraça e Me Beija”
34 – Céu – “Chega Mais”
35 – brvnks – “sei la”
36 – Vandal, Djonga e BaianaSystem – “BALAH IH FOGOH”
37 – FEBEM – “Crime”
38 – Luedji Luna e Zudzilla – “Ameixa”
39 – Johnny Hooker – “Amante de Aluguel”
40 – BADSISTA – “Chora Na Minha Frente”
41 – BK – “Cidade do Pecado”
42 – Jup do Bairro – “Sinfonia do Corpo”
43 – Giovanna Moraes – “Baile de Máscaras”
44 – Romulo Fróes – “Baby Infeliz”
45 – Nelson D – “Algo Em Processo”
46 – Duda Beat – “Meu Pisêro”
47 – Yung Buda – “Digimon”
48 – Boogarins – “Supernova”
49 – Jota Ghetto – “Vagabounce”
50 – Lupe de Lupe – “Brasil Novo”

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a cantora carioca Juçara Marçal.
*** Este ranking é formulado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix, talvez o maior estudioso da nossa CENA. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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SEMILOAD – Sobre artistas twitteiros, artistas instagrammers, artistas tiktokers…

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* O artista enquanto comunicador de si mesmo, o artista enquanto influencer e o artista enquanto “pessoa normal” são assuntos fascinantes no mundo conectado de hoje. A gente, que não sai do computador e do celular, vê isso mais e mais todos os dias, de modo fragmentado. Estava precisando alguém aparecer para amarrar tudo isso numa pensata pertinente.

Não está mais. Dora Guerra, a dona da sempre atenta newsletter Semibreve, parceira semana da Popload com esta Semiload, jogou uma luz sobre artistas que sabem usar a internet a seu favor. E como isso faz uma bela diferença não só para o surgimento de um “artista total” como para a música em geral.

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Estamos num momento interessante de “virada” das coisas – aquele momento em que uma geração diferente, com comportamentos muito particulares a sua época, começa a assumir o posto de geração mais influente. Sabe do que eu estou falando? Dos artistas de 20/30 que sabem o que é a internet – e, por isso, sabem bem o que fazer com ela.

Não é só questão de idade, claro: é questão de escolha também. E personalidade. Alguém como a Anitta, por exemplo, pode parecer ser um caso de quem domina as redes como ninguém. Mas não é bem assim: ela se comunica na internet não como uma nativa, e sim como uma influencer; entende a internet como um lugar de escolher como e o que anunciar, ultimamente se limitando a anúncios marketeiros, um pedacinho do luxo de sua vida pessoal ou discussões políticas. Se você quer saber um pouco antes sobre o próximo single, festas caseiras ou que roupa ela usou no Met Gala, você a segue. Mas só.

Anitta está longe de ser um caso isolado. A cada dia que passa, os artistas estão mais reclusos, na verdade – transformando suas redes sociais única e exclusivamente em instrumentos de trabalho, mesmo quando nos dão a honra de uma selfie comum. Por isso, quando aparece alguém nascido, crescido e criado na internet – que sabe fazer dela o que bem entende, como uma extensão não só de sua carreira como de sua personalidade –, isso chama a atenção.

É, eu estou falando (entre outros) do Lil Nas X, claro. É por isso que ele é o papo do ano: não só por sua música, pelo efeito social e tudo o mais; mas pelo carisma e naturalidade em fazer o que faz. Aos 22 anos, o artista sabe mesclar suas redes sociais com o marketing de seu trabalho de forma quase indissociável, não só interagindo com memes como fabricando-os ele mesmo (ou sua equipe). É impossível rir dele quando você está constantemente rindo com ele: com Lil Nas, não existe conversa da qual ele não faça parte, piada que ele não esteja por dentro, replicando ou estendendo. Quando comparado com alguns artistas – que claramente não se familiarizam com os formatos nem sequer tem interesse neles –, a diferença é nítida: mais que popstar, Lil Nas é um nativo da internet.

Isso não significa que ele é melhor que os outros em seu trabalho, precisamente – não é por aí. Mas, quando muito se fala da diferença entre artista e influencer e a métrica (desleal) de seguidores, que não atesta qualidade de trabalho, a questão vai além disso: Lil Nas X já veio com conhecimento que curso de marketing (ou equipe!) algum o ensinaria. Isso significa que – basicamente – o que ele quiser vender, seus fãs “compram”. E, enquanto tiver esse fator, ele é infalível.

Sabe quem faz parecido? A Doja Cat. Menos quanto à própria carreira – que exala mais glamour que sua verdadeira personalidade –, mas mais como forma de se garantir no carisma. Doja fez sua fama em parte pelas músicas, em parte simplesmente por viralizar na internet fazendo ou falando bobagens, enfiando batatas fritas no nariz (sério). Não é à toa que suas músicas viralizam constantemente no TikTok (para além dos seus próprios vídeos na plataforma): algo na própria Doja, por si só, é extremamente viral.

Trazendo para um caso mais local, a Pabllo também faz isso muito bem, como alguém que realmente usa o Twitter em seu tempo livre. São nessas brechas que surgem as oportunidades. feito a profecia do “Pabllo Vittar vai passar mal”, uma brincadeira que fez todo mundo ficar de olho no perfil dela e, por fim, receber notícia de novo vídeo. Existem diversos outros brasileiros que fazem bem esse tipo de coisa – porque a gente naturalmente se comunica nesse tom de humor, talvez. Os três que mais me vêm à mente são Jaloo, Clarice Falcão e Brvnks: artistas que não me parecem usar o Twitter e as redes como ferramentas de trabalho – e sim como usuários comuns –, mas não deixam de ter bons efeitos de visibilidade justamente por isso.

Mas o principal é que esse tipo de coisa eu não acho que se ensina, só se aprimora. Para quem tem facilidade com isso, o trabalho musical ganha mais uma dimensão, fornecendo mais um ponto de contato com o público que é continuamente interessante, dinâmico, acessível e (principalmente) divertido. Essa proposta de relacionamento entre artista e fã é uma espécie de continuação do MySpace, de forma diluída, que funciona. Eu vivo martelando, é uma forma de você mostrar que, enquanto figura pública, você vale a pena – o seu produto, qualquer que seja, é secundário.

(E aí, vendendo sua figura, você consegue vender até maquiagem ou lingerie se precisar. Né, Rihanna?)

Esse tipo de relação, no fim das contas, é a mais perene que você pode ter em um mercado tão instável – faz com que você não dependa de mais ninguém para saber dominar sua própria carreira. Ou pelo menos faz parecer que é assim.

Na internet, rir de si mesmo nunca falhou. Ainda bem (é graças a isso que eu sigo aqui).

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* Dora Guerra ri de sim mesmo também no Twitter, como @goraduerra.

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VMA consagra Lil Nas X, bota a Anitta na festa e da troféu de ícone para o Foo Fighters

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* O estiloso rapper gay bombator Lil Nas X foi o grande vencedor do Video Music Awards, o VMA, premiação da MTV americana que já viu dias mais significantes, mas que ainda assim consegue ser mais relevante que a emissora que o abriga.

Lil Nas X ganhou o vídeo do ano com “Montero (Call Me by Your Name)”, bombástica canção que vai puxar seu primeiro álbum, “Montero”, que sai sexta que vem e promete abalar os alicerces pop, por assim dizer. A cerimônia rolou no enorme Barclays Center, no Brooklyn, NYC.

Entre tretas (o Machine Gun Kelly saiu na mão no bastidor com um campeão de UFC, pensa) e poses e roupas horrivelmente fashion, tivemos as performances ao vivo, das quais destacamos algumas, aqui embaixo. Teve Anitta, não ao viiiiiivo, mas pela primeira vez na premiação gringa, e um medley do Foo fighters, que ganhou um prêmio sobre “legado”, o Global Icon Award, e fez uma homenagem na bateria a Charlie Watts, dos Stones, morto recentemente. A estatueta do homem na lua foi entregue ao Dave Grohl pela Billie Eilish.

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SEMILOAD – O pop brasileiro e a luta pelo resgate do carinho pelo Brasilzão

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* O pop brasileiro vai salvar este país ferrado? Difícil saber, mas reconhecemos que nele tem um esforço danado e louvável de tentar fazer com que a gente recupere pelo menos um pouquinho de carinho por este Brasilzão complicado. É nessa linha que segue nossa “Grande Conversa” da semana, pilotada pela sempre incrível nos papos Dora Guerra, dona da newsletter Semibreve, nossa parceira. Vamos reconhecer o que é nosso? O pop brasileiro quer ajudar. E a Dora, com esta pensata abaixo, também.

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Existem alguns conceitos que, desde sempre, nos deixam um pouco desconcertados: o orgulho nacional, ufanista, o carinho excessivo pelo verde e amarelo. Eu me acostumei a essas coisas só em época de Copa – do mundo, não Copa América. E, com o tempo, fui me tornando avessa mesmo a isso.

Somos os inventores da síndrome de vira-lata, estamos no auge da crise com o nosso próprio país, e, ainda, somos preocupados com o que as outras nações pensam do nosso pequeno fim de mundo. Sabe quem anda percebendo – e remanejando – isso? O pop brasileiro!

Sim, o pop brasileiro. Esse que voltou a ter alguma atenção mundial – Anitta, Ludmilla, Pabllo Vittar, Iza são só alguns dos nomes que têm alguns feats internacionais e alguma reputação lá fora, ainda que tímida. Nenhum desses (nem mesmo a Anitta) é uma força incontestável no exterior, mas é o suficiente para botar Glória Groove para repetir o verso de Aldir Blanc: “O Brazil não conhece o Brasil”.

Não conhece mesmo, e é necessário que conheça. Depois de a gente viver vendo artistas gringos visitando o Rio de Janeiro por um dia para gravar um vídeo na escadaria, sensualizar na praia e pronto, fomos desapropriados dos nossos próprios símbolos. É um problema sério da nossa cultura atualmente: não é o futebol nem a praia, nem a bandeira do Brasil o que nos representa. Talvez fossem à época da bossa e do Pelé. Mas, desde então, o buraco é muito mais embaixo.

É desse ponto de partida que a Anitta começa a desenhar seu trabalho, desde muito antes de “Girl from Rio”: seu mote sempre foi o de representar o Brasil pelas periferias, pelo funk e pelo sensual, buscando exaltar o bonito no “vulgar”.

Se ela o fez de forma bem-sucedida durante a sua carreira, isso é outra história – mas o simples fato de ela tentar é um passo importante na hora de reapresentar novos símbolos. Ainda num mundo pré-Bolsonaro, ela avisava que existia um Brasil do qual era possível se orgulhar.

Já em 2021, Anitta parte do princípio que o gringo já conhece parte do Brasil (ou que a gente já conhece o Brazil que o gringo vê). Daí, ela sai do estereótipo e constroi sua própria visão das coisas, lembrando que os cariocas (e todo o país) não são só uma coisa nem outra. E reaproveita o visual explícito do funk – a celulite, a bunda de fora, a baguncinha – de forma mais comercial, com direção artística, mas sem censura.

O que parece um “ato de Anitta”, na verdade, está mais para um movimento inteiro. Em Rainha da Favela, Ludmilla faz algo similar: também brinca um pouco com o estereótipo, enquanto celebra suas origens sem refinamento excessivo. Mais que um tributo ao funk, o vídeo é um tributo à própria música brasileira – quando a artista celebra os grandes nomes do funk que vieram antes dela, está ressaltando uma parte que a história da música não conta com frequência. E dança usando camisa da seleção (aquela blusa proibida que você não tira do armário desde 2014).

De novo, é um Brasil diferente do que você costuma se lembrar – o pop se torna um gênero que vê no funk e na periferia um retrato mais fiel dos terrenos mais férteis da cultura pop brasileira atual.

Se já não estava explícito para você, a Iza terminou de desenhar. Em “Gueto”, ela reconstroi suas origens de forma lúdica; e ali, garante os comentários de “Lá vai a Iza ressignificar a bandeira do Brasil”. De certa forma, ressignifica mesmo – porque se a Iza celebra a bandeira, você sente que também pode; o Brasil dela pode ser o nosso, não o do presidente. Para ela, existe romance nas ruas coloridas do gueto. Há glamour no sacolé.

“Minha lembrança do gueto é a Copa do Mundo, quando as pessoas fazem aquelas bandeiras na rua (…). Nossa bandeira é linda, e é nossa, orgulho de onde viemos. O Brasil é feito de brasileiros, nosso país é foda. Está ferrado, mas é foda. E construído por nós. Temos que ter orgulho. Amo a nossa bandeira, amo ser brasileira.” – Iza, para o site “Glamurama”

De modo geral, o pop vem reapresentando o nosso país – não só para quem vê de fora, como para a gente mesmo, que mal reconhecemos onde estamos. Quando rejeitamos este país como nosso, ninguém ganha; perdemos noção da fertilidade que a nossa cultura tem, do quão potentes são as coisas por aqui (apesar dos pesares). Daí, celebrar a parte tropical, quente, diversa e temperada (e, em todos os vídeos citados, mostrar brasileiros diversos, estilosos, gente de verdade!) é uma forma de reinventar a relação do público com o Brasilzão – a parte que merece alguma celebração, pelo menos.

Se é inteiramente eficaz ou levemente contraproducente, eu não sei dizer. Mas, para a gente se empenhar em querer salvar o país, tem que primeiro voltar a reconhecê-lo como nosso; tem que lembrar o que vale a pena.

Pelo menos a música segue valendo a pena, de ouvir, ver e pensar.

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Top 50 da CENA – A hora e a vez de Rashid falar. Isabel Lenza trazendo o verão no outono. Rodrigo Amarante e o leva-e-traz da maré. É esse o top, puxando outras 47 outras belezas

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* Semana de responsa na CENA brasileira (como se alguma outra não fosse, na fase atual…). Ainda que a gente não tenha revirado muito a nossa lista, estamos vindo com cinco novidades que tomam todo o espaço do top 5, em uma luta árdua pelo primeiro lugar. Tem rap pesado, som que parece triste e não é, um novo balanço de um velho hermano, o aceno do Rincon para o “funk de moto” e uma belíssima reflexão de força de um rapaz da bela Belem do Pará. Aproveitamos para deixar um salve muito grande para o grande Cassiano. Obrigado por muito.

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1 – Rashid – “Diário de Bordo 6” (Estreia)
Em seu sexto diário de bordo, uma série de músicas onde Rashid opta por longos textos sem refrões para dar uma situada na sua vida pessoal e ao seu redor, de seu bairro a todo o seu país. A mira está, principalmente, na escalada de violência recente vista na atuação do governo na pandemia e em outras frentes. “Porque esse governo de morte foi o atalho pra bandeira ficar vermelha/ Do sangue do povo”, versa Rashid, que ainda conta aqui com o apoio do músico Chico César. São 5 minutos só de punchlines certeiras.

2 – Isabel Lenza – “Imenso Verão” (Estreia)
Um música outonal com verão no título, uma música que parece triste mas não é, com uma letra que parece amargurada, mas não é. A cantora paulistana Isabel Lenza a considera “debochada”, para alguém que quer o perdão dela, mas não faz nada para merecê-lo. E é assim que começamos a conhecer “Véspera”, segundo álbum de Lenza, quatro anos após a sua estreia.

3 – Rodrigo Amarante – “Maré” (Estreia)
Em sua segunda aventura solo, o hermano mais atirado na carreira reaparece em “Maré”, com uma sonoridade ensolarada que lembra os verões iluminados de seu projeto Little Joy, um aspecto que ele deixou meio de canto em seu primeiro disco sozinho. No papo da música, reflexões “sobre como o desejo, nossos sonhos e pesadelos moldam nosso destino, a graça e o terror disso”. A maré que leva é a maré que traz, ele canta. Quem sabe se a gente não sonhar melhor, agir melhor, as coisas não mudam?

4 – Rincon Sapiência – “Cotidiano” (Estreia)
Dos nossos rappers mais atentos, Rincon se atualiza em um som que tem toque de funk e fala de moto. Ele está de olho em uma tendência forte no funk atual que é o “consciente”, que não aborda tanto sexo, mas fala de superação, encarar problemas sociais e outros dilemas das quebradas brasileiras, aproximando o gênero do rap, uma união antiga que ficou de lado por uns tempos, mas vem sendo retomada. Rincon está ajudando nessa ponte.

5 – Saulo Duarte com Luedji Luna – “Lumina” (Estreia)
A nova canção de Saulo Duarte com participação de Luedji nos vocais e metais certeiros da turma do Bixiga 70 é uma inspirada mensagem de que a mudança, um novo dia e toda energia para ele está em nós. Que esperança e força só podem partir de dentro de nós. É desse nascer do sol que ele canta aqui, após identificar em pequenos detalhes mensagens poderosas que lhe trazem saudade, ancestralidade, africanidade e verdade.

6 – Anitta – “Girl from Rio” (1)
A esta altura talvez tudo já tenha sido dito sobre a música da Anitta. Mas tem um lance em a gente destacar alto ela aqui e ter citado ela no top 10 Gringo. Na lista gringa ressaltamos a sacada em conquistar o mundo. Aqui, nosso olhar é sobre a CENA brasileira. Anitta pensa em multidões, sabe que seus passos ressoam mais do que o dos demais. E em “Girl from Rio” dá seu pitaco na discussão que ronda o funk ser ou não uma música tão sofisticada quanto os outros estilos, o que nos traz de volta à discussão do Grammy+Cardy B. Por isso a provocação em se apropriar da nossa bossa nova mais popular da história. A própria bossa nova, que passou por um longo processo de elitização que a deixou muito mais branca do que é de fato, é um exemplo do que o racismo e elitismo no Brasil dão conta de fazer com a nossa cultura. Ela ser uma arma dessa mesma elite contra o funk é a prova disso. Nada mais justo que a Anitta pegar e dizer: “Ei, esse Tom Jobim é meu, na real”. Ainda que a música talvez tem suas questões problemáticas no discurso e no próprio vídeo, que vende uma sociabilidade que está em cheque no Brasil contaminado atual, a provocação está lá e é bem válida. Este som já nasceu clássico.

7 – Gustavo Bertoni e Giovanna Moraes – “Como Queria Te Deixar Entrar” (2)
Deu muito certa a união de Bertoni com a cantora fora-da-curva Giovanna Moraes. Amigos pelas redes sociais inicialmente, aqui eles parecem parceiros das antigas, tal a conexão nas vozes e na letra – que é dela, mas soa muito verdadeira na voz dele. A música, muuuuito bonita e bem construída, ainda ganha pontos pelos diferentes climas que consegue criar, chegando até a ficar bem abstrata antes de voltar ao “normal” – como um nó que se desfaz para ser refeito.

8 – Lupe de Lupe – “Coromandel” (3)
A banda mineira Lupe de Lupe adotou um jeito curioso de divulgar seu novo álbum. Cada single tem como destaque um membro da banda na voz. Logo, são cinco singles que antecedem a chegada do novo álbum, “Trator”, logo mais. Esse mais recente single, o último também, coloca no vocal o baterista da banda, Cícero Nogueira, em uma letra escrachada e que nos leva até um dos solos mais divertidos do ano. Que barulheira boa. O Pavement ou o Weezer do começo ficariam orgulhosos, desde que eles não ligassem para a letra.

9 – Jupiter Apple – “Cerebral Sex (The Apple Sound)” (4)
Astronauta Pinguim, Clegue França, Laura Wrona e Júpiter Apple formaram a The Apple Sound, a banda paulistana de Jupiter. Talvez você nunca tenha ouvido falar, porque esse quarteto durou apenas três shows em 2009. “Cerebral Sex”, único registro deles em estúdio, foi revelada pelo diretor de vídeos André Peniche, amigo do músico gaúcho, que já tinha ajudado na descoberta do disco solo perdido dele.

10 – Salma e Mac – “Amiga” (5)
O casal da famosa banda goiana Carne Doce se apresenta agora de maneira intimista, dupla voz e violão. A ideia dos dois é apresentar as canções que compõem juntos na forma como surgem, com a suavidade íntima que depois viraria barulhinho bom na banda. Se nesse caldo vem novidades ainda não está claro, por agora resgataram a já linda amiga, lançada em 2016 no disco “Princesa”, com a promessa de vir mais por aí. E logo.

11 – Yung Buda – “Digimon” (6)
12 – Hierofante Púrpura – “Na Terra das Cartas” (7)
13 – AKEEM MUSIC – “Eu Já Amei uma Ginasta” (8)
14 – Plutão Já Foi Planeta – “Depois das Dez” (9)
15 – Duda Beat – “Meu Pisêro” (10)
16 – FEBEM – “Crime” (11)
17 – Aquino e a Orquestra Invisível – “Os Prédios Cinzas e Brancos da Av. Maracanã” (12)
18 – Boogarins – “Supernova” (13)
19 – Moons – “Love Hurts” (14)
20 – BaianaSystem – “Brasiliana” (15)
21 – Bárbara Eugênia – “Hold Me Now” (16)
22 – NoPorn – “Festa No Meu Quarto” (17)
23 – Jair Naves – “Vai” (18)
24 – FEBEM – “México” (19)
25 – Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo – “Delícia/Lúxuria” (20)
26 – Carmem Red Light – “Faith No More” (21)
27 – Jadsa – “Olho de Vidro” (22)
28 – Giovanna Moraes – “Boogarins’ Are You Crazy?” (23)
29 – Lupe de Lupe – “Resplendor” (24)
30 – Yannick Hara – “Raça Humana” (25)
31 – Jota Ghetto – “Vagabounce” (26)
32 – Uana – “Mapa Astral” (27)
33 – Mayí – “Sedenta” (28)
34 – BaianaSystem – “Reza Frevo” (29)
35 – Jadsa – “Sem Edição” (30)
36 – Thiago Elniño – “Dia De Saída” (31)
37 – Luna Vitrolira – “Aquenda” (32)
38 – FBC – “Gameleira” (33)
39 – Rico Dalasam – “Última Vez” (34)
40 – Mbé – “Aos Meus” (37)
41 – Giovanna Moraes – “Tudo Bem?” (37)
42 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (39)
43 – Djonga – “Eu” (40)
44 – LEALL – “Pedro Bala” (41)
45 – Filipe Ret – “F* F* M*” (43)
46 – BNegão – “Salve 2 (Ribuliço Riddim)” (44)
47 – Ale Sater – “Peu” (46)
48 – Apeles – “Eu Tenho Medo do Silêncio” (48)
49 – Rohmanelli – “Viúvo” (49)
50 – Jadsa – “A Ginga do Nêgo” (50)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a imagem é do Rashid.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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