Em batidão tropical:

Viu o remix da Pabllo Vittar no disco da Lady Gaga? A gente avisou: Pabllo vai informar o mundo

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* Falamos aqui quando “Batidão Tropical” o novo disco da Pabllo Vittar, saiu, em junho. O álbum tinha uma proposta muito criativa: pensar a música pop a partir do Brasil, colocando no caldo do hyperpop atual (pensando aí muito em Sophie e Charlie XCX) nosso “tempero” musical. No caso, o forró – gênero marginalizado dentro do próprio país, que classifica o som do Norte e Nordeste como regional, mas toma a música do Sul como “brasileira”. Dali parecia inevitável que essa criação original, e não uma importação gringa com elementos brasileiros, ia dar jogo. Até usamos o geógrafo Milton Santos e o rapper Don L para referendar a tese.

E, no fim desse texto em questão, a gente previu: “Não se espante quando os gringos começarem a curtir essa proposta, porque tem coisa aí”.

E agora, no lançamento de “Dawn of Chromatica”, a versão remixada do disco mais recente de Lady Gaga, apresentado sexta passada, temos um remix assinado por Pabllo que leva o forró para “Fun Tonight”. É o “Batidão Tropical” em um disco da Lady Gaga, pensa. A gente não avisou? E o lance é tão radical que teve fã gringo criticando o remix, sem entender nada, com os fãs brasileiros reagindo e fazendo a defesa da “interferência abrasileirada” na música de uma das mais famosas cantoras pop do mundo.

Alguma dúvida que Pabllo é dos artistas mais inventivos do país? Ah, mais um palpite nosso: a concorrência é grande aí (Ariana Grande, Elton John, Black Pink…), mas se bobear esse “Fun Tonight”, com remixa assinado pela Pabllo Vittar, vai ser o hit do disco. Está na nossa mão, Brasil.

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SEMILOAD – Pabllo Vittar representa o Brasil que muita gente ignora. Mas é o melhor Brasil que a gente tem

1 - semiload-arte2

* A CENA brasileira, em sua extensão continental todinha, tem girado em torno de “Batidão Tropical”, o novo disco da Pabllo Vittar que foca uma só região desse Brasilzão imenso e veio para esquentar nosso inverno polar. E como ela consegue essa façanha?

Dora Guerra, a dona da newsletter luminar Semibreve, nossa adorável parceira semanal, tem a explicação.

Afinal, Pabllo Vittar tem o PODER!

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O “Batidão Tropical” pegou todo mundo (todo mundo não, mas muita gente) com força.

O curioso é que, para mim, a experiência foi quase totalmente nova. Mas não é a regra: para muitos, o novo álbum da Pabllo Vittar é na verdade uma coletânea – com acréscimo de algumas faixas originais – de canções já muito conhecidas, de um universo muito consumido. Uma revisita, liderada por Pabllo.

E, se são faixas conhecidas, como explicar o poder que o nome “Pabllo Vittar” traz pra tudo?

Pabllo estimula muito o nosso imaginário; ao contrário de artistas que apelam para a nossa identificação, parecendo figuras acessíveis e cotidianas, ela abusa do status de “diferente”. Porque à primeira vista – quando o menino Phabullo começou como uma drag queen cantora –, tínhamos muito a explicar para nossos pais, avós (e até para nós mesmos!). Poucos de nós estávamos habituados a esse tipo de performance na cultura pop, fora do nicho de RuPaul’s Drag Race que alguns frequentamos.

Mais do que isso, Pabllo é uma figura inusitada; não só uma drag queen, o que já chama atenção, mas uma drag altíssima, com forte presença. Em algum ponto de sua trajetória, ela entendeu o fator de “estranheza” e o incorporou, posando menos como uma mulher, mais como uma personagem – desenhando para quem não entendia: drag é performance artística, não transição de gênero.

E, como uma personagem, sabemos que Phabullo e Pabllo são figuras diferentes; talvez graças à transformação que o figurino, maquiagem e peruca proporcionam, deixamos que pabllo troque de gênero musical como troca de cabelo – que é, afinal, o que muitas divas pop fazem.

Mas, em muitos casos, é difícil separar figura pública de privada sem uma caracterização clara. Para Pabllo, é simples: se sabemos que ela é um personagem, entendemos mais facilmente que ela protagonize diferentes situações, casamentos, términos, forrós, bregas, pops. Pabllo sabe disso: usa e abusa das várias personas que pode assumir, com a noção de que sua música não fala dele (Phabullo), mas da diva pop que criou para si. E, no único momento em que Pabllo e Phabullo são intimamente ligados ao tema da canção, a peruca e a maquiagem saem.

Essa diferenciação também é importante quando Pabllo brinca sobre sua sensualidade/sexualidade. De repente, Pabllo pode cantar explicitamente sobre ser “vadia”, depois “quenga”, “piranha” – muito antes de Cardi B e Megan Thee Stallion. Com todas as letras, com orgulho e bom humor, como se estivéssemos ouvindo aquelas paródias virais no YouTube dos anos 2000/2010 (que, afinal, foi como Pabllo começou). Devagar, ela foi dominando as nossas rádios despretensiosamente. E fica mais difícil dizer que “não é música de verdade” quando Pabllo diz que está triste com tesão: se ela não se leva a sério, você também não deveria.

Essa persona imbatível acaba por incorporar todas as influências mais ecléticas e inesperadas, criando uma artista que traz referências do mangá direto para o mundo do tecnobrega. Assim, Pabllo consegue representar os efeitos inegáveis da globalização – e do acesso à internet, o Instagram, o YouTube, os grupos de k-pop e mais – sem nos deixar esquecer de quem somos e onde crescemos (e o que tocava no nosso DVD player!). E, no caso de Phabullo, pequeno menino criado em uma família até do MST, os DVDs piratas eram da Companhia do Calypso.

Assim, “Batidão Tropical” era o próximo passo perfeito para uma figura tão forte no pop brazuca: é uma reapresentação do Brasil (feito dissertei esses dias, imaginando que a Pabllo ia tocar na parte tropical dos nossos corações), de uma música do Norte-Nordeste que ressoa mais no resto do país que se dá notícia.

Ainda, coloca o brega (em seus dois sentidos) no status de cool, sem o desapropriar – não é a Pabllo surfando na moda do calypso/forró/tecnobrega para se promover, mas tratando com carinho alguns clássicos sem a intenção de tirá-los de contexto ou remover sua identidade. Tudo isso é feito sem perder o elemento comercial de vista: é nostálgico, de forma sutil o suficiente para não ser pastiche, mas explícita o suficiente para vender apelando para a memória.

“Batidão Tropical” foi o próximo passo perfeito, sim – mas na verdade, poucos passos seriam errados na carreira de Pabllo a este ponto. Ela se vendeu tão bem a todos nós que, a esta altura, consumimos qualquer coisa vinda de Pabllo Vittar.

Afinal de contas, ela já é um ícone inesquecível na cultura pop brasileira; pop mesmo e indiscutivelmente brasileira, no sentido de ser bem-humorada, eclética, piranha, calorosa. Representante de um Brasil que muita gente ignora, mas que é o melhor Brasil que a gente tem.

(E, por isso mesmo, Pabllo Vittar é do melhor que a gente tem).

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* Dora Guerra está dócil, no Twitter, no @goraduerra.

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Pabllo Vittar compra tretas brasileiras em “Batidão Tropical” e mostra a solução

1 - cenatopo19

* Estamos de cara com “Batidão Tropical”, novo álbum da Pabllo Vittar. De cara tanto com o resultado sonoro quanto com a proposta antenadíssima dela por aqui.

A gente até se permite a lembrar de dois pensadores modernos do Brasil para entender um pouco o que Pabllo Vittar elabora em seu disco, lançado nesta sexta-feira. Um é o pensador Milton Santos, geógrafo que o Brasil perdeu tem 20 anos. O outro é o rapper Don L.

Sim, vê se faz sentido.

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Em linhas gerais, uma das obsessões de Milton é que a única solução para o Brasil é uma solução original. Alguma coisa realmente nosso, produzida aqui, pensada aqui e gestada por aqui. Para tal, é fundamental reconhecer nossa condição – terceiro mundo, sul do mundo, antiga colônia e por aí vai. Já Don L em seu trabalho costuma questionar a razão de sua música ser premiada em uma categoria “melhor do Nordeste”, já que não existe a categoria Sul.

A questão brasileira com o mundo e a questão do Nordeste com o próprio Brasil são duas tretas que Pabllo resolveu comprar em “Batidão Tropical”, seu quarto álbum.

É justamente pensando em referenciar algo brasileiríssimo e nordestino em seu pop de olho no mercado mundial que ela opta em armar seu disco com três canções originais suas assumidamente bregas e seis regravações das bandas de forró e tecnobrega Companhia do Calypso, Ravelly e Batidão. (uma das originais, “A Lua”, tem a jovem-indie-superprodutora Vivian Kuczynski, 18 anos, entre as compositoras)

Nessa ideia de gestar um hyperpop (pense em Sophie e Charlie XCX) embebido das referências que Pabllo escutava adolescente no Pará, ela consegue tanto criar um repertório de hits já testados e superfortes ao mesmo tempo que deixa uma pergunta, em especial ao sul do país: por que essas músicas não estouraram por aqui antes, hein?

Em entrevista para o site G1, que supõe que a reação de parte dos fãs é considerar esse repertório brega “cringe”, Pabllo responde: “Agora tudo é cringe, cringe, cringe… Vamos exaltar o que é nosso. Se você pegar uma performance de Mylla Karvalho (ex-vocalista da Companhia do Calypso), de 17 anos atrás, onde ela subia no palco e pulava de bungee jumping e falar que isso é cringe, mas bater palma para Pink no Rock in Rio não é…”.

Exaltar o que é nosso e de um jeito nosso. Pensa que a Anitta tateou isso em “Girl from Rio”, mas utilizando um Brasil importado pelos gringos (a bossa nova) para contrapor com um funk já muito descaracterizado do brasileiro. Pabllo opta por eliminar intermediários nesse processo e abraçar um Brasil desconhecido por parte do próprio Brasil.

Ao inverter a lógica, pensando a partir do Brasil e não o contrário, Pabllo vai colocar uma música do norte para ganhar prêmios nacionais, obrigado a reconhecerem o valor do que desprezaram até agora. E vai orgulhar o Milton Santos – veja só a força de uma ideia original.

Quando os gringos brisarem nessa onda a partir da apresentação dela no Primavera Sound em Barcelona, no ano que vem – e provocando os brasileiros que infestam o evento indie espanhol a sacarem melhor a proposta dela -, lembre-se de que nós avisamos.

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