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ESPECIAL POPLOAD – O lado “E” do Primavera Sound: o festival mais indie do ano vai dançar

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* por Kysia Stockmayer

Ninguém pode negar que um dos assuntos mais comentados dos últimos tempos foi o espetacular line-up do Primavera Sound de 2022, divulgado na semana passada e cujos ingressos maravilhosos começaram a ser vendidos/trocados/”migrados” hoje. Com taaaaaantas atrações boas (agora em dois finais de semana seguidos) do festival de Barcelona, mais de 500 shows em praticamente dez dias de evento, a gente poderia ficar meses comentando sobre cada uma delas.

O Primavera Sound é famoso por ser talvez o megafestival mais indie do mundo. Claro que a intersecção com a eletrônica é brilhantemente contemplada pela curadoria do festival espanhol. Estão lá reluzindo no pôster do festival os nomes de Massive Attack, Caribou, Disclosure, Gorillaz, Jamie XX, entre outros.

Mas, falando no lado “E” mesmo, da eletrônica de pista (quase) sem concessões, o Primavera também se destaca forte nessa cena. No festival, há diversas nuances a serem vividas pela galera que curte um fervo, para muito além de headliners e eletroindies em geral. Vamos partir direto para os nomes com os quais o coitado do designer que fez a arte do anúncio deve ter sofrido para fazer caber tudo.

2 - Honey-Dijon-Boiler Room

Começando com a moçada nova-iorquina AceMo e MoMa Ready, que performarão ao vivo como AMoMa + DJ set com batidas do lo-fi house ao breakbeat, além da “vizinha” Aurora Halal , que vai levar para a Espanha seu techno hipnotizante. Altamente recomendados.

O insólito produtor Awesome Tapes, projeto absurdo de Brian Shimkovitz, que se apresenta tocando FITAS CASSETES que comprou em Gana, África, quando ele morou por lá, tocará em formato de DJ set. Porém teremos bastante DJs e produtores se apresentando ao vivo. Alguns deles são:
– Daniel Avery (que já produziu com Hercules and Love Affair, Little Boots e Metronomy);
– VTSS, a polonesa mais selvagem da cena underground de Berlim (foto abaixo);
– O sueco DJ Seinfeld performando seu projeto Mirrors:Live;
– a DJ dinamarquesa Courtesy e seus graves marcantes;
– e DJ Stingray, a lenda mascarada com seu electro futurista à moda Detroit, sua base de vida.

Ainda sobre as live performances, durante a semana, entre um finde e outro, irá acontecer o Primavera a la Ciutat, um evento “fora da programação” oficial do Primavera, espalhado pelos (muitos) clubes de Barcelona. Com direito à santíssima trindade do PC music reunida: A.G. Cook, Charli XCX e Kero Kero Bonito, acompanhada do hyperpop do duo americano 100 Gecs e da performática Dorian Electra.

1 - VTSS BY Jack Reynolds

Falando em DJ sets, para surpresa geral teremos a Fátima Yamaha (um dos nomes do produtor holandês Bas Bron) neste formato, visto que a maioria, senão todas, das suas apresentações são live. Dos vários DJs e produtores no festival, vale a pena ficar atento ainda em nomes como: o veeeelho Dj Shadow, a queridinha das rádios Carista, o espanhol bombado John Talabot, a e-girl fodona do hyperpop Shygirl (foto na home). E, se tem a polonesa VTSS, tem a suecaSPFDJ, tocam um techno bem pesadão e diferentão que a galera de Berlim ama. Mais? Tem a DJ e produtora australiana-que-vive-em-Londres HAAi (que lançou recentemente colaboração com os Chemical Brothers), o produtor Special Request (Paul Woolford, o responsável por um dos melhores remixes de Róisín Murphy deste ano), o holandês famosinhoYoung Marco e MUITOS outros.

Entre os veteranos de festivais teremos: Black Coffee com seu sofisticado afro house; o queridinho duo Bicep; o excêntrico DJ Harvey; a energia e a housera da dona de uns dos Boiler Rooms mais icônicos, mama Honey Dijon (foto que abre este post); o reptiliano Jeff Mills com seu techno de outro mundo; house e disco emotivo de Mano Le Tough; e, claro, o australiano Mall Grab (foto abaixo), o favorito entre clubbers e skatistas, também cabeça do selo Looking for Trouble, no qual já lançou um álbum com outra atração do festival, a banda de punk hard core (!!) Turnstile.

3 - MALL GRAB by Rob Jones

Finalizando a semana extensa de festival, na verdade 11 dias, temos anunciada uma jornada especial toda voltada para a e-music, com diversos gêneros e vertentes. É o Lado E do Primavera terminando a longa festança indie de 2022. É o Brunch on the Beach, que traz de atrações chill out, lo-fi house a grandes atrações do house até o techno mais 4×4.

Começando pelo francês radicado no Equador Nicola Cruz, que tem bastante influência da América Latina em seu som; o deep e tech house do multiinstrumentista Monolink; o lo-fi house divertido dos irmãos Louis e Beans aka Chaos in the CBD (os caras tiram onda não só no Instagram como também nas pistas); a seletora musical em ascensão em vários festivais, a Malika; a produtora musical Anika Kunst com seu som que vai do techno melódico ao minimal; o tech house da dupla Joyhauser; Héctor Oaks, mais conhecido como Cadency, e o seu techno mais anos 90 e 2000s.

peggy

Para encerrar o Brunch on the Beach, o festival reserva o espaço de headliners inteirinho para a mulherada. Essa glória feminina fica por conta das três DJs e produtoras com a maior influência na cena da música eletrônica, seguidas por MILHÕES de fãs no mundo inteiro tanto nas redes sociais quanto nas lives. São elas:
1. Peggy Gou, a coreana da foto acima que tem grande presença em diversos festivais e se apresenta mais uma vez no Primavera Sound (seus sets sempre são construídos com um leque de possibilidades que vão do acid house ao techno e entre seus hits).
2. Teremos também a russa Nina Kraviz, com muito techno pesadíssimo na sua profunda pesquisa musical, suas produções e uma presença de palco bem marcante.
3. Fechando essa trinca, a balada Brunch toda e todo o Primavera Sound 2022 em si, temos a grande belga Amelie Lens, deixando a Europa mais tribal e derrubando tudo o que restou do festival com seu som mais techno 4×4 (pesadão e linear).

O que a gente pode concluir é que um bom festival vai além dos headliners já esperados. Ele precisa ter consistência, pluralidade e diversidade até nos nomes pequenos que mal conseguimos ler, mas sem perder a coerência na curadoria. Seja ela em sua especialidade, o indie, ou em algo que pode não brilhar no pôster, mas que é bem representativo para seus frequentadores de gosto plural.

Novos espaços para novos artistas favoritos, que surgiram neste mais de ano intenso, diferente de nossas vidas, dentro de casa. Com uma pandemia cruel que ainda está acontecendo, o pessoal parece não querer voltar ao “normal” e viver as mesmas coisas de antes. Os novos tempos chamam por ousadia, coisa que o Primavera Sound sempre foi um dos melhores a oferecer.

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* Kysia Stockmayer é DJ da nova geração da eletrônica brasileira. Mora em Fortaleza, CE. Seus sets às vezes frequentam também o indie-rock e o pop, outras de suas paixões. Se podemos traçar um paralelo geográfico bizarro, virtualmente, Kysia é tão influente quanto qualquer um da cena Sudeste. Em Fortaleza, ela faz parte da 1992 (Dezenove Nove Dois), coletivo de DJs e artistas visuais que atuam (quando dá!) desde 2019 deixando a capital cearense mais eletrônica.

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* PLAYLIST – A gente mata o line e mostra o beat. Preparamos uma playlist especial com o melhor do LADO E do Primavera Sound 2022, para indie ver. E dançar.

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Top 10 Gringo: Django Django na cabeça, Billy & Rosa quase lá, um tal de Kiwi Jr. e um tal de Paul McCartney. Confira as dez mais internacionais da semana

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* Estamos apenas no terceiro Top 10 Gringo, mas já deu para sacar qual é a nossa missão por aqui, não? Toda terça-feira chegamos com uma playlist caprichada que repassa o que tivemos de melhor no tocante (foi mal…) à música pelo mundo naquela semana – menos no Brasil, que “nos debruçamos a analisar” mais detalhadamente toda quarta-feira na já tradicional Top 50 da CENA.

Desta vez a semana esteve movimentada. Lançamentos de alguns nomes gigantes do pop, a reaparição de alguns indies queridos de outrora, algumas novidades que sentimos que passaram meio batidas por aí e umas estranhezas que caíram no nosso gosto e provavelmente vão cair no seu também.

Vamos?

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1 – Django Django – “Free from Gravity”
Aumenta a expectativa pelo novo álbum da banda indie dance “escocesa de Londres” Django Django. “Glowing in the Dark” chega aos streamings e vinil no dia 12 de fevereiro, logo mais. “Free from Gravity”, o single, é bacana e ainda tem um vídeo esperto que faz uma crítica à bagunça atual e geral do planeta Terra. Com uma pequena ajuda de gente de fora. Fora do planeta.

2 – Billie Eilish & Rosalía –  “Los Vas a Olvidar”
Na aguardada parceria, Billie Eilish e Rosalía optaram pela ousadia. Ignoraram fãs, mercado e suas expectativas. Chegaram com uma construção delicada, centrada nas vozes, que conduzem praticamente sozinhas a parte melódica da música, enquanto uma melancólica ambientação minimalista costura o restante. Aquelas obras de quem sabe o que está fazendo.

3 – Kiwi jr. – “Tyler”
A Sub Pop, a casa do grunge, não costuma errar muuuito a mão. E é o caso aqui com os canadenses do Kiwi Jr, uma banda indie-inteligente que parece capaz de produzir exatamente o que quer. Enquanto avaliamos melhor “Cooler Returns”, seu segundo álbum, já dá para garantir que “Tyler” é maravilhosa. Parece muito Pavement, mas não se engane. Os caras estão bem longe de só requentar o passado.

4 – Arlo Parks – “Caroline”
A expectativa para sexta-feira, quando teremos acesso ao disco inteiro de estreia da inglesa Arlo Parks, é tanta que resgatou o single de novembro para este ranking. Só para guardar já um bom posto para as novas que nem conhecemos ainda. “Collapsed in Sunbeams”, o álbum, já está estimulando altas resenhas de quem já o escutou. Por singles como este “Caroline”, a gente sempre soube…

5 – Weezer – “All My Favorite Songs”
“Ok Human” é o disco do Weezer que promete pianos e cordas. Pelo primeiro single, essas ideias sonoras mais requintadas não devem afetar o estilo da banda em suas composições. “All My Favorite Songs” rolaria fácil com guitarra, baixo e bateria. Mas vai bem também nessa construção mais, digamos…, sofisticada. Weezer sofisticado, pensa.

6 – Royal Blood – “Typhoons”
O duo Royal Blood reapareceu com novo single, o segundo do próximo disco, de mesmo nome. Depois da música-chiclete que foi o primeiro, “Trouble’s Coming”, lançado em setembro, a dupla reaparece dançante, porém sem abandonar a barulheira habitual. Aprovadíssimo.

7 – Bicep – “Apricots”
A origem do Bicep, formado por Andrew Ferguson e Matthew McBriar, é o blog de música levantado pela dupla chamado “Feel My Bicep”. De pesquisadores do subterrâneo da eletrônica, eles se tornaram autores. Seu segundo álbum, “Isles”, é bem interessante e rico. “Apricots”, que a gente destaca aqui, é viciante.

8 – Ross from Friends – “Burner”
Pela descoberta do Bicep nos levou de volta ao Ross From Friends, o codinome do produtor britânico Felix Clary Weatherall, de música nova. Aquele som eletrônico sofisticado, manja? “Burner” é bem arquitetada a ponto de lembrar um longo DJ set impecável.

9 – Paul McCartney – “Deep Down”
Falsa impressão nossa ou o “McCartney III” passou meio que batido por aí? Pode até não ser dos melhores trabalhos do ex-beatle setentíssimo em carreira solo, mas é mais um bom capítulo da sua linha de aventuras (quase) 100% solitárias – nos outros dois álbuns da linha “McCartney”, Linda deu uma mão, enquanto aqui ele tem uma leve contribuição de seus parceiros de turnê Rusty Anderson e Abe Laboriel Jr. “Deep Down” é deliciosa em seus timbres.

10 – Flohio – “Roundtown”
O hip hop UK vive uma fase e tanto. Dessa cena, Flohio é mais um nome que merecesse destaque. “Roundtown” é tanto um acerto enquanto som quanto uma bela amostra do potencial da rapper em sua versatilidade vocal.  

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* A imagem que ilustra este post é do banda inglesa Django Django.
** Repare na playlist. A gente inclui as 10 mais da semana, mas sempre deixa todas das semanas anteriores. Pensa no panorama que isso vai dar conforme o ano for seguindo…
*** Este ranking é formulado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.

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