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Top 10 Gringo: Nick Cave pega o primeiro lugar. Óbvio. Julien Baker, Wolf Alice e Tigercub são destaques também. Tem até Notorious B.I.G. e Billie Eilish no ranking

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* Em semana de lançamentos parrudos, temos pelo menos dois álbuns que vão estar em qualquer lista de melhores do ano de respeito. E alguns outros álbuns que vão estar certamente em listas mais alternativas. Teve ainda alguns singles bem interessantes saindo.
Também aproveitamos que semana passada a gente abriu espaço para homenagear o Daft Punk e fazemos aqui, desta vez, uma saudação ao grande (dscp!) B.I.G., por conta de seu documentário, lançado nesta terça na Netflix.
Com o tempo vamos entendendo a missão do Top 10. Começou só com as novidades, agora se torna algo mais voltado às músicas que importaram na semana. De um jeito ou de outro: nossa playlist segue excelente.

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1 – Nick Cave – “Carnage”
Vamos admitir. A gente ainda não consegue desenvolver em palavras os efeitos de um disco novo do Nick Cave. Não tem uma semana o lançamento, e a construção dele pede um outro ritmo de entrega à escuta. Pense. Um trabalho escrito e gravado durante a pandemia, com o parceiro de tantas Warren Ellis, que começa com os versos: “There are some people trying to find out who/There are some people trying to find out why/There are some people who aren’t trying to find anything/But that kingdom in the sky”. Nick Cave trabalha em outro patamar, como a gente gosta de dizer aqui no Brasil. Botar ele em qual lugar deste ranking que não o primeiro?
2 – Julien Baker – “Faith Healer”
A expectativa boa que tínhamos quanto ao álbum de banda da Julien Baker se cumpriu. Que discão da cantora e multiinstrumentista . Nossa favorita segue, no entanto, uma que já conhecíamos enquanto single. “Fath Healer” é um tratado sobre vícios que vai além da questão do vício em drogas e avança sobre a questão do escapismo, que alguns encontram na política, na religião. Formas de lidar com a dor que talvez evitem a cura da própria dor quando confiamos em pessoas não muito bem intencionadas. Um musicão que prima na dinâmica, uma habilidade que já existia na obra de guitarra e voz de Julien, mas que está amplificada agora que ela é acompanhada por uma banda que pode dar mais corpo a suas ideias.
3 – Wolf Alice – “The Last Man on Earth”
Que bom é termos de volta o Wolf Alice. A banda inglesa da Ellie Rowsell chegou ainda quieta, quase, com este single para anunciar que vem aí o terceiro álbum. “Blue Weekend” vai ser lançado no dia 11 de junho e já estamos reservando alguns lugares para suas canções, aqui neste humilde ranking. “The Last Man on Earth”, a música, tem sequência dramática até entrar numa sinfonia à lá Beatles no final. E vale sacar o vídeo da música, simples na ideia e execução, mas ainda assim maravilhoso.
4 – Tigercub – “Stop Beating on My Heart (Like a Bass Drum)”
Banda inglesa de Brighton que sempre parece que vai “acontecer” mas não deslancha, a Tigercub tem a chance de decolar agora com seu segundo álbum. Para puxar “As Blue as Indigo”, o disco, a ótima “Stop Beating on My Heart (Like a Bass Drum)” até começa meio Alt-J brincando com os silêncios, mas depois descamba num Muse heavy metal bem bom.
5 – King Gizzard & The Lizzard Wizard -“If Not Now, Then When?”
Quem já leu sobre os australianos do King Gizzard & The Lizzard Wizard por aqui já viu a gente comentando o quanto eles gostam de lançar álbuns. 2021 já tem um disco deles para chamar de seu (e pode esperar outro). “L.W.” é como uma continuação de “K.G.”, lançado ano passado – ambos fazem parte de uma trilogia chamada “Explorations into Microtonal Tuning” que começou no disco “Flying Microtonal Banana”, de 2017. Confuso? Quer entender melhor o que é microtonalidade? Recomendamos que você de um google em “microtonalidade e Tom Zé”. É sério. Esta “If Not Now, Then When?”, que abre o álbum, parece um ensaio antes de a gravação começar. Mas na verdade o disco já tinha começado sim.
6 – Cloud Nothings – “Oslo”
Há dez anos dando uma surra de guitarras sem concessões, o quarteto de Ohio que já atingiu status de cult balanceia entre ser fiel a seu som vibrante ao mesmo tempo que não oferece nada de novo. Gosta? Beleza. Não curte? Saia da frente. Porque eles vão passar. Com Steve Albini e tudo na produção de seu oitavo disco.
7 – Maximo Park – “Why Must a Building Burn?”
Maximo Park mostrou que não perdeu (totalmente) o fôlego dos seus bons tempos lááá de 2006 e soltou um disco caprichado, “Nature Always Win” é bem bom. Na canção que destacamos, espaço para uma homenagem dupla. Primeiro às vítimas do incêndio na torre Grenfell, em Londres, em 2017, uma tragédia que custou a vida de 72 pessoas. A segunda é a um colega da banda que foi assassinado no ataque terrorista à casa de shows francesa Bataclan, dois anos antes.
8 – Real Estate – “Half a Human”
Tem uma coisa especial em “Half a Human” que vai além da canção em si. Quando a música dá sinais de que está acabando, sendo ali “apenas” uma doce canção do Real Estate, a banda entra em um transe que vai esticando o instrumental dela até um fade out meio fake que logo é resolvido em mais música em um longo crescendo. O que nos devolve ao tema inicial da música. Aula de narrativa indie.
9 – Notorious B.I.G. – “Mo Money Mo Problems”
Que documentário é “Biggie: I Got a Story to Tell”, um regaste ao que interessa do artista, sem tanta atenção às polêmicas de sempre, no filme bem mais humano. Uma coletânea lançada junto ao doc, que resgata seu principais hits, lembrou a gente da maravilha que é “Mo Money Mo Problems”. Talvez um dos grandes exemplos do poder de um sample. Ou você ainda consegue canta “I’m Coming Out”, da Diana Ross, sem pensar em Notorious B.I.G.?
10 – Billie Eilish – “ilomilo”
Ainda sobre documentários, tem que ver o filme sobre a Billie Eilish. A versão ao vivo de “ilomilo” é um convite e tanto. Mas a gente escreveu um texto também para te convencer sobre o filme. Que peso para cima desta menina, que contraataca a pressão absurda do estrelato com músicas viscerais boas. Falamos aqui das vísceras dela mesmo.

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* A imagem que ilustra este post é de Nick Cave e seu parça eterno, Warren Ellis.
** Repare na playlist. A gente inclui as 10 mais da semana, ou quase isso, mas sempre deixa todas as músicas das semanas anteriores. Pensa no panorama que isso vai dar conforme o ano for seguindo…
*** Este ranking é formulado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.

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POPNOTAS 2 – Notorious B.I.G., Billie Eilish, Jeff Buckley e Future Islands: três filmes e um vídeo

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* É chapante o documentário “Biggie: I Got a Story to Tell”, sobre o rapper, nova-iorquino Notorious B.I.G., com bastante detalhe da construção de seu mito. Estreou nesta meia-noite no Netflix. A gente já falou sobre o filme aqui. Saiu também, hoje, às plataformas, um álbum digital de 14 músicas chamado “Music Inspired by Biggie: I Got A Story To Tell”, um greatest hits do rapper, como “Hypnotize” e “Mo Money Mo Problems”. O disco digital tem ainda faixas de sucessos póstumos de Biggie, lançados depois de seu assassinato, em 1997.

* Falando em documentário, o da Billie Eilish na Apple TV+ continua bombando, inclusive nos cinemas. “Billie Eilish: The World’s a Little Blurry” estreou sexta-feira passada e ganhou uma vaaaaaasta análise aqui na Popload. Só porque merece e tal. Mas, se você arranha no inglês, a gente queria trazer aqui um papo que Eilish, 19 anos, teve com o entrevistador Stephen Colbert, semana passada, no “A Late Show”. Foi exclusivaço, a única entrevista que a menina fenômeno do pop mundial dada a esses grandes programas de entrevistas noturnas na TV americana. Durou 20 minutos e Billie foi intensa a responder sobre viver com uma câmera em sua casa por três anos, invasão de privacidade, estranho e divertido ao mesmo tempo, como foi a primeira vez que sentou para ver o documentário, essas coisas. Falou sobre o encontro com Justin Bieber, um dos momentos mais engraçados e dramáticos do filme, e até um pouco sobre seu próximo álbum, que está gravando. Billie assistiu também o novo James Bond, para o qual fez a música-tema. E disse se gostou ou não. Tudo aqui.

* O grande músico Jeff Buckley, que não está mais entre nós desde que, diiiiiiizem, se afogou aos 30 anos de idade num rio no Tennessee, vai ganhar um filme oficial sobre sua vida, a ser co-produzido por sua mãe, Mary Guibert. O cultuado cantor, compositor e guitarrista será dramatizado em “Everybody Here Wants You”. De acordo com a galera que cuida do espólio do músico, será a única vez que alguma biografia ou cinebiografia oficial vai ter acesso a detalhes da vida de Buckley. “Greetings from Tim Buckley” (2012) e “Amazin Grace” (2009) são outros filmes sobre Jeff Buckley, mas feitos de modo independente.

* O Future Islands, a banda de Baltimore liderada pelo “dançarino” Sam Herring, lançou vídeo novo. É para a música “Glada”, do disco “As Long qs You Are”, o sexto álbum do Future Islands, lançado no final do ano passado, em outubro. O vídeo, filmado na Suécia, onde Herring foi morar, tem uma levada poética, romântica, ligada às mudanças das estações. É dirigido pela mulher escandinava de Herring, Julia Ragnarsson. “O tratamento principal para o vídeo foi um retrato do interior da Suécia com os pais de Julia como protagonistas. Eles filmaram na primavera, verão e, mais recentemente, no início do outono do ano passado. Para mim, o mais importante, captura o lugar sobre o qual esta música se trata, que é tudo que eu queria compartilhar em primeiro lugar”, define o vocalista.

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Billie Eilish chega aos cinemas (e na Apple TV). “The World’s a Little Blurry” entrou em cartaz no Brasil

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* Chegou à plataforma online “Apple TV+” e a alguns cinemas brasileiros o aguardado filme “Billie Eilish: The World’s a Little Bluerry”, o documentário sobre a curta carreira da curta de idade Billie Eilish, 19 anos, garota algo birrenta e esquisita (enfim, bem normal) que em 2015 não era ninguém (mesmo) até que o iluminado irmão um pouco mais velho postou uma música dela no SoundCloud e três anos depois ela já caminhava para ser a maior artista pop do mundo. E considere aí um pop bem estranho como ela, algo indie puxado para a eletrônica.

Billie Eilish, a gente aprende em seu filme em que reafirma que “o mundo é meio embaçado”, o seu mundo, odeia muito da vida musical que veio dos pais. Da mãe que a ensinou a compor. Do pai que a ensinou piano. Do dedicado irmão, Finneas, que a ensinou guitarra e a insistir e repetir e insistir e repetir até a música ficar boa. Ela odeia mas ao mesmo tempo ela ama tudo isso (enfim, bem normal). A família, a música (QUANDO PRONTA).. E hoje também em os fãs.

“Eu não penso neles como meus fãs. Eles não são meus fãs, são parte de mim. Eu tenho os mesmos problemas que eles”, diz no começo do documentário o meteoro adolescente, que cria seus vídeos a partir dos seus sonhos bizarros, sua relação com o cachorro e a aranha de estimação e dos resultados de sua síndrome de Tourette, um transtorno psiquiátrico que quando a ataca causa diversos tiques físicos e até vocal.

Já famosa a ponto de excursionar pela Europa, em um show Billie chega a dizer antes de uma música, para uma plateia cheia de menininhas com seus celulares ao alto e desesperadas em devoção, cantando tudo o que ela canta, ainda que a língua oficial não seja a mesma que a dela, que acha tudo aquilo muito estranho. “Não sou ninguém. Por que vocês gostam de mim?”. As fãs berram os gritinhos de encantamento. “É sério. Eu realmente não sei”, continua Billie, com um riso espontâneo que torna difícil não acreditar no que ela está dizendo.

Captura de Tela 2021-02-26 às 6.44.26 AM

Estamos falando de um documentário sobre a enoooooooorme (contém ironia) carreira uma artista de 19 anos que teve sua primeira música tocada em rádio aos 14, vivia numa casinha simples em Los Angeles e que, em pouco tempo, alcançou coisas de 60 bilhões de streamings de suas músicas, 76 milhões de seguidores no Instagram, 5.5 milhões de seguidores no Twitter e por aí vai.

Então, se você é um pouco familiar às canções e à pequena trajetória da menina que só tem um disco lançado e já tocou em cerimônia do Oscar, em palanque virtual de candidato vencedor à Presidência dos Estados Unidos e fez a música-tema do próximo filme de James Bond, você conhece bastante dessa história de “Billie Eilish: The World Is a Little Blurry” porque praticamente a viveu. E nisso o filme impressiona.

Porque Billie é extremamente uma pessoa comum. Acredite nela. Não há o que mentir. Não tem tempo para isso. Nem saiu da adolescência ainda.

Ela nasceu em 2001, é de uma geração superfilmada por gadgets diversos desde bebê. Diante da câmera, tão natural para teens como ela, não precisa atuar. Precisa só ser ela. Por isso é um absurdo ver o quanto normal ela é e o quanto anormal ela conseguiu, mais rápido que outros fenômenos pop fulgurantes parecidos e de outras épocas, tipo Britney Spears. Porque o registro é honesto demais.

Aquela história boa de bastidor da vida que você espera de um documentário de um grande artista, com longo tempo de carreira, por exemplo de alguém colossal como Nina Simone ou Tina Turner, você tem de Billie Eilish sobre a paixão infantil dela pelo Justin Bieber, por exemplo. No que depois isso vai dar. E, na condução da trama, guardada as devidas proporções de dimensão histórica, tem praticamente o mesmo efeito seja qual for a biografia filmada. E o segredo, aqui em “Blurry” é a honestidade temporal de Billie Eilish.

“Eu não era fã do Justin Bieber”, disse Billie a dois veteranos de rádio numa entrevista curiosa dos DJs tarimbados com a menininha que tava fazendo sucesso. Os dois invariavelmente rindo de canto de boca. “Ele era meu namorado. Eu tinha 12 anos e para mim a gente tinha realmente um relacionamento. Ele era meu parceiro, a gente terminou. Tudo na minha cabeça. Depois da “separação”, eu ficava pensando como ia ser minha vida com meus próximos namorados depois de Bieber. E que eu não ia nunca mais viver com alguém o que eu “vivi” com ele. Eu tinha 12 anos e pensava seriamente em coisas como “Eu não sei lidar com isso.”

Para ilustrar esse depoimento maravilhoso (não pelo Justin Bieber, veja bem) ela fez o que ninguém da geração de Britney Spears ou Nina Simone pôde fazer. Mostrou em seu celular um vídeo dela aos 12 anos falando tudo isso que ela disse aos radialistas.

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Por histórias assim é bem divertido ver “Billie Eilish: The World Is a Little Blurry”, mais por esses primeiros passos adolescentes de fenômeno pop da menina problemática mais invejada do mundo hoje. De se descobrir como uma artista dentro de seu quarto, com seu irmão, até receber caras xis de gravadora ávidos por botar as mãos em seu álbum de estreia, feito ali mesmo, dentro de casa, no quarto bagunçado do irmão.

Depois que “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?”, o primeiro álbum, saiu em março de 2019, o que vemos via filme chega a ser trivial, ainda que bonito, ao retratar o roteiro de um artista ou banda quando o estrondoso sucesso chega e muda ainda mais a vida do felizardo ser humano amado pelo planeta. Ou “vítima” de uma superatenção que ele nem sabe ao certo se queria.

E é aí que “Billie Eilish: The World Is a Little Blurry”, a partir de seu nome e da condução da história da menina que apenas acabou de fazer 19, carrega ainda mais na honestidade. Enquanto filme e sobre Billie.

Billie Eilish é o mais cintilante exemplo vivo musical do que acomete os adolescentes da era Instagram, Tik Tok, esses que nasceram de 2000 para cá. A treta da saúde mental, tão exposta hoje em dia na música, no nível do artista e no da adoração dos fãs que os segue e que realmente acredita que ele os representa. Depressão, melancolia, fraqueza emocional, tudo revestida de música, entregue hoje como nunca foi entregue antes. Escancarado. Na cara. E tudo bem se não está tudo bem.

Tem um trecho no meio do documentário de Billie em que ela está com a mãe num carro indo para algum lugar, ainda pré-álbum mas já com um absurdo sucesso e suas nuances e modificações da vida “normal”. E Billie indaga à mãe, do nada, sobre o sentimento de saudade, se os fãs sentem saudade dela, provavelmente depois que ela faz show e vai embora. Meio que duvidando a um certo ponto da relação de adoração de um fã com seu ídolo.

A mãe contempporiza com aqueles “papos de mãe” e tal. “Saudade dói, então o cérebro cria estratégias para lidar com isso…” blablablá, diz a mãe. Daí Billie vem: “Por que não podemos sentir saudade? Por que acobertar e fingir que não tem em vez de deixar acontecer?”. Mãe: “Porque dói”. Billie: “Que doa!”

Nessas Billie Eilish chega ao destino, que era uma rodada de entrevistas. Ela estava em Utah, EUA, e fala a uma rádio local. O documentário mostra ela conversando com um repórter: “As pessoas dizem que na minha música é tudo tão sombrio. Faça música alegre, me dizem. Mas eu nunca me sinto alegre. Por que compor sobre algo que não conheço? Sinto coisas sombrias com muita intensidade. Por que eu não abordaria isso na minha música?”.

O repórter: “Seus fãs parecem notar muito isso. Faz uns dias, entrevistamos uma banda adolescente daqui, que gosta de sua música como referência e num momento eles começaram a falar sobre você: “Se ouvir com cuidado, nas músicas da Billie Eilish dá para ouvi-la quase chorando”.” E continuou: “Você transmite isso a seus fãs. Você acha que seria esse o motivo de sua geração se identificar tanto com sua música?”.

Billie: “Ter uma canção que descreve exatamente como você se sente é a melhor sensação do mundo. Isso te reconforta. Faz você não se sentir sozinha, entende?”

“Billie Eilish: The World Is a Little Blurry” está em cartaz nos cinemas da rede UCI em cidades como São Paulo, Rio, Salvador, Salvador, Fortaleza, Ribeirão Preto, entre outras.

Teve pré-exibição na plataforma Apple TV+, da Apple, ontem à noite.

Um dos trailers do filme está aqui embaixo.

A três dias do lançamento do primeiro álbum de Billie Eilish, já um sucesso mundial aos 17 anos, o “namorado” da Billie Eilish de 12 anos, Justin Bieber, a procura se dizendo obcecado por ela. Finneas, que recebeu a mensagem, conta isso à irmã, que cai na gargalhada. “Ele se ofereceu para fazer um remix de ‘Bad Guy’ com você, mas sinceramente não interessa, porque você não precisa”, disse Finneas. “Só achei engraçado te contar.”

A história depois meio se sabe, meio não. Então veja o filme para ver o resultado disso, porque a partir daí o álbum vai sair, os programas de TV nos EUA vão disputá-la mais que o Justin Bieber, 40 marcas de roupas vão enviar produtos para ela querendo vesti-la para o show “trágico” do Coachella, a turnê de 37 países vai ser anunciada e os ingressos para os shows de lugares como Austrália e Nova Zelândia vão esgotar em cinco minutos.

Beleza para alguém que tem 17 anos, à época, e o mundo é um lugar meio embaçado. Ou nem assim é beleza, no caso de artistas desta geração de Billie Eilish?

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SEMILOAD – O indie-mental health se espalha como um movimento musical, com a mensagem: “Ninguém tá bem. E tudo bem”

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* O indie-mental health está aí, escancarado na música, para quem quiser ver e ouvir. E sentir. Do lado dos artistas, do lado dos fãs. E isso não significa uma má-notícia, exatamente.
Dora Guerra, nossa madame “Semibreve”, a sua espetacular newsletter semanal (não assinou ainda?) e parceira da Popload, esmiúça essas dores da alma espalhadas pelo som que gostamos. Um pouco de onde esse indie-mental health vem e talvez para onde esteja indo, mas principalmente como ele saiu do esconderijo do quarto escuro e pode estar oferecendo conforto e luz a ouvidos sensíveis que andam precisando.

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Quando o emo (termo que vem de “emotional”) nos trouxe uma geração de músicos tristes e levemente góticos, não parecia ser tão diferente nesse sentido dos ingleses tristes da New Wave ou da raiva dos punks. Esses (cada um em seu contexto) foram movimentos pautados por sentimentos fortíssimos, negativos, profundos. Mas hoje, uns dez anos desde aquele respiro do movimento emo, quem era adolescente na época do Paramore já tem coisas a dizer sobre sua própria tristeza – essas, sim, são diferentes.

Na verdade, a própria Hayley Williams (foto acima), que inclusive lançou de surpresa um disco novo nesta sexta-feira, pauta bem essa mudança no cenário emo/indie/alternativo: da guitarra aos synths, ela buscou várias formas de expressar seus sentimentos negativos enquanto compositora na banda. Mas, quando assumiu um projeto solo, entendeu onde estava a virada: Hayley podia assinar seu nome ao lado de desabafos pessoais, ser mais consciente dos seus defeitos e – principalmente – assumir uma depressão que ela há muito disfarçava de outros tipos de tristeza.

Não foi só Hayley, mas também quem cresceu a ouvindo. Os músicos de 20-e-poucos, que hoje começam a conquistar as suas respectivas “cenas”, são os adolescentes emo de 2009 que tiveram Tumblr e achavam que lápis de olho exprimia determinadas angústias. No meio dessa trajetória, encontraram nas redes sociais um espaço confessional; entenderam que desabafo é importante, algumas tristezas são sérias e terapia não é sinal de fragilidade. Na verdade, viram que assumir doenças mentais e insuportáveis dores da alma é um ato de coragem, não de fraqueza – hoje, você até reposta um ou outro meme sobre isso. Combine todos esses fatores, acrescente um pouco de introspecção de tempos majoritariamente digitais e voilá – surge o indie-mental health.

Indie esse que, hoje, encapsula gerações mistas: contempla Fiona Apple, compositora que começou antes de grandes discussões cibernéticas sobre depressão; mas que, finalmente, se reconhece na vulnerabilidade sem se excluir do resto da cena. Contempla Hayley, cujo trabalho solo agora não tem medo de assumir a luta com a psique como parte da sua expressão. Contempla Phoebe Bridgers, Bully, Clarice Falcão, Letrux e quem mais você pensar. Muitos deles não fazem “música triste” por definição – mas são músicos que abrem um diálogo e cantam, para milhares de pessoas, que não estão tão bem assim. A antítese do roqueiro fodão.

Claro, não é um caso exclusivo do indie – se Kanye e Halsey conseguem basear álbuns inteiros em uma bipolaridade assumida, isso mostra que existe um movimento grande acontecendo aqui. Artistas estendendo a mão e dizendo não só que não são perfeitos como que seus fãs também podem procurá-los quando o buraco é mais embaixo. Dizendo “Eu sei exatamente o que é isso que você sente”. Lembrando que existe terapia, existe remédio, existe saída. Advogando a favor deles e de você.

É que tem algo particular desta nossa época, para além de um estilo musical específico. São coisas que um Radiohead da vida já antecipava, mas não falava tão claramente – essas novas músicas no clima “How to Disappear Completely” agora são acompanhadas de entrevistas, doações, alusões explícitas a causas específicas do tal mental health. É uma geração de músicos que não quer ver outro Chris Cornell, cujas letras sinalizavam um sofrimento sério, mas não houve tempo para cura – e é Toni Cornell, a filha de Chris, que hoje canta e também cria um podcast sobre estigmas da saúde mental. E quando Billie Eilish faz vídeos de puro torpor, ela não o faz totalmente sem responsabilidade: complementa sempre com entrevistas sinceras sobre depressão e como as coisas andam melhorando. De repente, estamos dando nome aos bois.

Mas é no indie que o mental health aparece com força, trilhando caminhos para o resto. Porque falar de saúde mental não combina com uma música estritamente comercial ou pop, não é o caso mesmo do último single da Cardi B, mas bate perfeitamente com o clima alternativo-artístico-conceitual. Flerta com a exposição das redes sociais, mas rejeita a pose “perfeita” que o Instagram pede. E vai do próprio sentimento ao sentimento do outro: do “My worst habit is my own sadness”, da girl in red, ao “I would do anything to get you out your room”, da Arlo Parks. Indie que compreende a dor e a seriedade das coisas enquanto tenta dar algum sentido a isso tudo.

Uma mudança como essa acompanha riscos: de glamorizar a dor, de tornar a doença um assunto de TikTok sem seriedade. Quando transformada em arte, a saúde mental (ou a falta dela) se torna um assunto fácil de romantizar, como se o sofrimento desses artistas fosse indissociável do seu sucesso – e, portanto, fãs podem acabar admirando ambos. Mas, de modo geral, estamos finalmente dizendo e ouvindo o que, há pouco, era o indizível. E o indie-mental health te abraça e lembra: ninguém tá bem. E tudo bem.

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POPNOTAS: O documentário dos Racionais e o da Billie Eilish. A caixa do Gang of Four e os tufões do Royal Blood

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– A turma do site Bicho Solto, centro de pesquisa e divulgação de informação sobre cultura e internet no Brasil, soltou seu primeiro documentário no YouTube. O vídeo de pouco mais de meia hora é uma análise pesada sobre a história do veterano grupo paulistano de rap Racionais MC’s (foto na home da Popload). Como o maior grupo musical recente da música brasileira sempre soube interpretar o Brasil, mas o Brasil talvez não tenha os interpretado tão bem assim? É o que tentam desvendar Felipe Adão, João Brizzi e João da Mata, autores do trabalho. A gente assistiu e acredita que eles responderam bem a pergunta. Tome tento. Assiste lá.

– Vem aí uma senhora caixa do histórico grupo inglês Gang of Four. Chamada “77-81”, sai pelo selo Matador em março e reúne em vinil os dois primeiros álbuns da banda (“Entertainment!” e “Solid Gold”), singles e um show ao vivo inédito. Ainda no pacote, um cassete com 26 sons que incluem outtakes, raridades e demos inéditas, entre outros mimos. Praticamente inviável com o dólar atual? Sim, mas vai saber, né? Do material inédito, está disponível no YouTube o som “Elevator”, uma canção que ficou perdida entre os ensaios da banda e a gravação do primeiro disco.

Ricky Powell, fotógrafo nova-iorquino superpróximo dos Beastie Boys, morreu aos 59 anos, com problemas no coração. Do Brooklyn, ele fotografou um turma e tanto em sua carreira, músicos e artistas. Do naipe de Run-DMC, Madonna, Eric B. e Rakim, Flavor Flav., LL Cool J, Andy Warhol, Basquiat, entre outros. Sua relação com os Beastie Boys começou em uma turnê de 1986, quando a banda abria os shows do Run-DMC, e seguiu pelos anos seguintes. Era considerado o “quarto beastie” e seu nome foi parar até em um verso de música do trio. Ricky fez exposições, livros e até tocou em um programa de televisão chamado “Rappin’ with the Rickster”.

– Vale prestar atenção no retorno do duo britânico baixo-bateria Royal Blood. Parte de um repertório mais dançante, “Typhoons”, segundo single dessa retomada da dupla formada por Mike Kerr e Ben Thatcher, acabou de ganhar um vídeo onde o tufão do título da canção é traduzido pela força da pegada da própria música da banda ao vivo da banda, um furacão por si só, para seus fãs. Vale assistir para entender mellhor.

– Saiu mais um trailer do aguardado documentário da cantora Billie Eilish, que chega aos cinemas (americanos) e ao serviço da Apple TV+ no dia 26 de fevereiro. “Billie Eilish: The World Is a Little Blurry” mostra a trajetória da menininha esquisita ao estrelato pop mundial. Como Eilish tem ainda 19 anos e apenas um álbum, “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?”, não é que o doc vai cobrir um graaaaande período da vida de um artista, mas já deve explicar muito os bastidores que leva uma menina que cria aranhas a representar tanto uma geração nova de meninas. Abaixo, o trailer 2 de “Billie Eilish: The World Is a Little Blurry”.

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