Em billie elish:

SEMILOAD – Oba! Billie Eilish, Silk Sonic, “Is This It” (ops!)… Hoje é dia de muitos lançamentos. Mas, no fim, isso é mesmo bom?

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* Disco bombator da Billie Eilish. Single e vídeo novos do super Silk Sonic. Até um lançamento de 20 anos atrás é celebrado hoje como se fosse de… hoje. E a pergunta que intriga a mente rápida e prodígia da senhorita Dora Guerra, dona da necessária newsletter Semibreve, parceira aqui das nossas sextas, é: mas e daí. Lançamentos são realmente algo a se festejar para o fã de música?

Direto ao ponto, Dorinha!

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Mais uma vez, o assunto que tira meu sono é… o dos lançamentos.

Tira o meu sono e de executivos por aí, eu tenho certeza; além de existirem várias possibilidades, não há uma resposta certa porque o assunto parece diariamente mais denso. Mais complexo. E, afinal de contas, o “novo” é tão interessante assim hoje em dia?

A estratégia de lançamento da Billie Eilish, por exemplo, me frustrou um bucado: vale ressaltar que o primeiro single do “Happier than Ever” (álbum que finalmente saiu hoje) saiu há quase um ano, literalmente. Ainda que você considere “Your Power”, faixa que acompanhou o anúncio de um novo disco (e novo cabelo), já fazem alguns meses que esse bafafá começou. No meio tempo, a artista lançou mais dois singles, prometeu, prometeu, prometeu.

Mas a minha sensação com a Billie é que, desde que explodiu, ela nunca saiu de cena de verdade – não nos deixou espaço para respirar, digerir, sentir falta de seu trabalho. Ganhou Grammys seguidos, foi o assunto ininterrupto, produziu até em pandemia. Existe espaço para ver seu futuro álbum como algo especial, cuidadosamente criado?

Eu gosto do fator surpresa hoje em dia: dos retornos de artistas feito Lorde e Kanye (que, claro, podem se dar ao privilégio de uma pausa com a garantia da atenção em seus retornos). Para eles, lançar um novo trabalho significa fornecer um pequeno checkpoint de como estão, para onde vão; dois artistas que, em últimos álbuns, redefiniram e chacoalharam algumas coisas.

E quando você leva as coisas de forma anunciada mas imprevisível – à la Kanye: há um álbum, ele vem, mas não quando você espera (nem ele sabe quando vai lançar, na verdade!) –, consegue exatamente o melhor dos dois mundos. O artista mantém o público atento, faminto, enquanto ainda pode pegá-lo desprevenido. É mais ou menos o que Silk Sonic vem fazendo também, brincando com a imprevisibilidade sem nos deixar desligar deles. Já com Billie, achei difícil ficar curiosa, acreditar que haveria qualquer elemento surpreendente dentro do novo álbum; parecia que todas as cartas já estavam dadas.

Mas é possível, ainda, que o buraco seja mais embaixo. Acho que a gente pode estar lidando com um problema muito maior que um ou outro álbum – talvez, o problema seja o público.

Consumir música não era sobre lançamentos – foi se tornando. Como uma nativa do CD e, pouco tempo depois, mp3/iPod e músicas baixadas, eu não me lembro de ter uma relação forte com lançamentos – ainda que você pudesse baixar de tudo, tinha que se dar a esse trabalho de selecionar uma faixa ou álbum para fazer o download. Além de ser um processo que envolvia uma certa decisão, a partir daquele momento a música estava na sua biblioteca, nas suas playlists e você passava mais tempo criando uma relação com ela; algo como as músicas que você decide baixar no Spotify para ouvir em modo offline quando sai de casa, mas ainda mais íntimo àquela altura (e olha que estou falando deste século aqui).

Lembro que, para lançamentos serem considerados LANÇAMENTOS (em maiúsculas mesmo) frente ao público comum, tinham de ser fortemente anunciados e martelados – por muito tempo, se possível. Tinha que dar tempo da notícia chegar até você, você se preparar, gostar do resultado, querer levar a faixa ou o álbum no seu player.

Agora, sinto que os artistas prestes a lançar trabalhos ficam numa encruzilhada – do tipo sem resposta certa, complexa, subjetiva. Lançamentos arrastados podem ser arrastados demais. Se forem de surpresa, talvez esqueçamos rápido. E nossos padrões de consumo (que já se encaminhavam para isso mesmo pré-pandemia) estão, em todas as frentes, meio saturados; musicalmente, torna-se ainda mais difícil acompanhar a quantidade absurda de novidades por semana.

Somando isso a nossa dificuldade dos últimos anos em absorver esses lançamentos – dentro de casa, sem muito espaço ou tempo para viver cada novo álbum para além do vórtex pandêmico –, temos uma questão.

Pode parecer que eu tenha inventado a questão, mas não: um amigo me mandou nestes dias um estudo que afirma que 66% de toda a música ouvida nos EUA é de catálogo, não de lançamentos novos (o que é especialmente curioso, visto que o mercado de shows por lá voltou a se aquecer – e os artistas vêm lançando o que querem tocar ao vivo, desta vez). O número pode variar aqui no Brasil, mas eu consigo ver um padrão de comportamento similar até entre quem acompanha música como profissão; paro público comum, então, não é qualquer burburinho que realmente faz barulho.

Para os grandes artistas – que não precisam toda hora fazer um anúncio gigantesco e tirar uma grana –, às vezes acho que diminuir os holofotes pode ser a melhor solução; deixa para fazer o burburinho na hora certa, quando for realmente um projeto que vale o espetáculo. Dá um respiro pra gente, sem necessariamente requentar o trabalho anterior, mas deixando entrar. Faz a gente sentir sua falta, ir te buscar, reencontrar o velho álbum. Não é à toa que, vira e mexe, a internet resolve ressuscitar uma música “que não recebeu a devida atenção”.

Hoje, acho que estamos precisando de novos clássicos – e vamos com calma nos novos novos.

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* Dora Guerra “atua” ainda no Twitter, como @goraduerra. Segue ela!

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POPLOAD NOW – 5 músicas ao vivo de agora para dar gatilho para a volta dos shows. Estrelando Billie Eilish, New Order, Far from Alaska, Paul Weller e Distillers

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* Reunimos uma pacoteira de lançamentos de vídeo ao vivo dos últimos dias para, sim, dar um gatilhaço nas nossas vidas vazias e tristes de zero shows. Porque, se a variante fucking delta não atrapalhar, vamos encostar a cara num palco em muito breve. Mas quão breve é agora, diria o Morrissey?

* BILLIE EILISH – NDA (LIVE)

Bem, o mundo musical vai parar semana que vem, dia 30, quando sai finalmente o segundo disco da joooovem cantora poderosa Billie Eilish, o “Happier than Ever”. E, para bater bumbo sobre o novo trabalho e manter todo mundo ouriçado até a chegada dele, ela postou em sua conta no Youtube uma versão ao vivo da fodona “NDA”, single lançado no comecinho do mês. A loira cantando, Finneas no synth, um brother na percussão, autotune rolando na parte dramática da música. Que beleza!

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* NEW ORDER – BLUE MONDAY (LIVE)

Lá em maio (só há dois meses) o lendário porém ainda vivo New Order lançou uma compilação ao vivo chamada “Education Entertainment Recreation”, registro em áudio e imagem de uma apresentação da banda inglesa no Alexandra Palace, Londres, em novembro de 2018. Mesmo com o álbum lançado, a banda que continuou o Joy Division no começo dos anos 80 segue postando imagem dessa apresentação do disco. Como esta recente abaixo, da estupenda “Blue Monday”, um dos principais hits da música independente de todos os tempo, inclusive mudando os parâmetros na Inglaterra do que era indie e o que era mainstream. Histórica que ela só, a versão “nova” ao vivo da electropop “Blue Monday” pode ser vista aqui embaixo.

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* DISTILLERS – CITY OF ANGELS (LIVE)

A banda punk californiana The Distillers, que já foi australiana antes que a incrível vocalista e guitarrista Brody Dalle casasse com o Josh Queens Homme, acabou de lançar um disco ao vivo chamado “Live in Lockdown”. O rolê feroz do Distillers na música foi feroz no começo dos anos 2000. Depois de se afastar da música para cuidar dos bebês, a punk tatuada e cheia de piercings Brody ensaiou uma volta em 2018, depois que se separou de Josh Homme. Pandemia no meio do caminho, ela mostra agora esse disco ao vivo, remexendo com gás atual em sucessos antigos da banda, como essa espertíssima “City of Angels”, que pertence ao seu segundo álbum, de 2002, o “Sing Sing Death House”. Arrasa, Dalle querida.

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* PAUL WELLER – TESTIFY (LIVE)

O excelentíssimo senhor Paul Weller, que já foi mod (você entende um mod?), tocou nos punkeiros do Jam e fez bossa nova no maravilhoso Style Council, para depois engatar uma carreira solo forte e influenciar Oasis e metade do rock inglês dos 90, acabou de lançar seu 16º disco, “Fat Pop (Volume 1)”, e foi tomar um café da manhã no “The Chris Evans Breakfast Show”, programa matinal da Virgin Radio inglesa, e tocaram ao vivo “Testify”, do álbum novo. Maior style, Paul.

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* FAR FROM ALASKA – AO VIVO NO SESC GUARULHOS

A parada aqui é CENA e tem uma hora de duração. No último sábado, a banda potiguar Far from Alaska fez transmissão ao vivo para as redes do Instagram e Youtube do Sesc São Paulo, direto da unidade de Guarulhos, dentro da programação da série #EmCasaComSesc. Mesmo num belo cenário vazio desolador, porém com uma iluminação decentíssima e uma disposição circular da banda, não teve aliviada na Live do FFA, tudo orquestrado pela gritaria da Emmily Barreto.

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