Em caetano veloso:

Top 50 da CENA: um resumo de 2021. Também conhecido como: As 50 Melhores Músicas do Ano no Brasil

1 - cenatopo19

* Como a gente já repetiu algumas vezes: listar as nossas favoritas da CENA brasileira, durante todo o ano, é mais um jeito de contar tudo de bom do que a gente anda ouvindo a cada semana. A gente deixa de lado qualquer pretensão de dizer o que é melhor ou pior. No fim de ano, a missão segue a mesma. Nossa ideia aqui é apresentar este resumo do que foi 2021. Faltou música, lógico, a ordem talvez desagrade, mas é só voltar semana a semana para achar outras centenas de músicas incríveis destacadas aqui para de um modo modesto jogar luz nesta CENA brasileira nada modesta. A CENA nunca foi tão produtiva e boa.

jucara2topquadrada

1 – Juçara Marçal – “Crash”
Rap. Samba. Juçara entrega em “Crash”, letra de Rodrigo Ogi, uma música que arrebenta com qualquer fronteira que se queira criar entre os gêneros musicais. É impossível determinar onde começa o que aqui. Uma certeza é que a letra tem um recado mais claro: é hora de ver a derrota de quem com ferro feriu.

2 – Don L – “Volta da Vitória/Citação: Us Mano e as Mina (Xis)”
Nas revoluções do passado e nas que virão, que aparecem por todo o novo roteiro de Don L, há o dia da vitória. Dia das conquistas e celebrações. Em tempos amargos, é bom lembrar em uma canção que a festa é parte da transformação. Ela não precisa ser só uma resposta para a tristeza da realidade, mas sim a constante nessa nova trilha.

3 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah”
E, no ano em que a música brasileiro sonhou perigosamente, Rico versa: “Sem poder saber o passado/ sem poder ganhar o presente/ E ter a culpa de ser o futuro/ Meus sonhos são gigantes”. Sonhos que acontecem aqui, na América do Sul, detalhe que Rico faz questão de lembrar ao ouvinte, que é puxado para dentro da canção em uma singela quebra da quarta parede: “Alô, parceiro, passageiro”.

4 – Jadsa – “Sem Edição”
Se a distopia onde vivemos a vida dos outros através de milhares de filtros sociais e virtuais é aqui e agora, Jadsa clama por um pouco de vida real sem aquecer, esfriar, esmaecer, ajustar e outras coisas. Que discaço que ela fez.

5 – Alessandra Leão – “Borda da Pele”
Nas palavras da própria Alessandra, “Borda da Pele” é “A escolha subversiva pelo sim”. E ela continua: “Pela estratégia do prazer. Sabedoria selvagem da escuridão de dentro em resposta às trevas de fora”. Quando a descrição vem pronta assim a gente só reproduz. Não é preciso dizer mais nada.

6 – LEALL – “Pedro Bala”
Em uma letra que abre diálogos com Jorge Amado (Pedro Bala de “Capitães de Areia”) e Chico Buarque (que tem seu “Pedro Pedreiro”), Leall descreve com exatidão a realidade, sonhos e motivações de um personagem condenado pela estrutura racista do Brasil a violência, miséria e fome. E transforma tudo isso em música de primeira.

7 – Marina Sena – “Por Supuesto” e FBC – “Se Tá Solteira”
Talvez as duas principais músicas produzidas pela cena independente brasileira que furaram a bolha e alcançaram plays incontáveis por Tik Toks e pelas festas do país. Merecem a celebração conjunta.

8 – Caetano Veloso – “Pardo”
Ao lado de Letieres Leite, mestre que a música brasileira perdeu em 2021, Caetano faz sua autodeclaração, que já havia sido cantada por Céu: é pardo. Termo que Caetano reconhece que é mais usado hoje do que na sua juventude. Ainda que não seja exatamente sobre o assunto, a canção coincide com a defesa de Caetano que a discussão racial no Brasil passe a ser mais informada pelo próprio Brasil do que pelos Estados Unidos.

9 – Amaro Freitas – “Baquaqua”
A impressionante trajetória de Baquaqua, africano que foi escravo no Brasil e após fugir do país escreveu sua autobiografia nos Estados Unidos, um raro documento histórico de um escravo sobre sua realidade, vira uma música instrumental absurda no piano de Amaro, que traduz nota a nota essa jornada.

10 – Pabllo Vittar – “Não É Papel de Homem”
Ao trazer brega, forró e calypso para informar o ultrapop, invertendo o processo onde geralmente é a gente que é contaminado pelo pop estrangeiro, Pabllo Vittar segue inventiva ditando o pop na música brasileira.

11 – Anitta – “Girl from Rio”
12 – Coruja BC1 – “Brasil Futurista”
13 – Tuyo – “Sonho de Lay”
14 – Prettos – “Oyá/Sorriso Negro”
15 – Marina Sena – “Pelejei”
16 – Liniker – “Mel”
17 – Luana Flores – “Lampejo da Encruza” (28)
18 – Valciãn Calixto – “Exu Não É Diabo (Èsù Is Not Satan)”
19 – Bebé – “Sinais Elétricos na Carne”
20 – Edgar – “A Procissão dos Clones”
21 – Rodrigo Amarante – “Maré”
22 – Tasha e Tracie – “Lui Lui”
23 – GIO – “Sangue Negro”
24 – Linn Da Quebrada – “I míssil”
25 – Jonathan Ferr – “Amor”
26 – Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo – “Fora do Meu Quarto”
27 – MC Carol – “Levanta Mina”
28 – Criolo – “Cleane”
29 – Fresno – “Casa Assombrada”
30 – Gab Ferreira – “Karma”
31 – César Lacerda – “O Sol Que Tudo Sente”
32 – TARDA – “Futuro”
33 – Rabo de Galo, Ubunto e Luedji Luna – “Me Abraça e Me Beija”
34 – Céu – “Chega Mais”
35 – brvnks – “sei la”
36 – Vandal, Djonga e BaianaSystem – “BALAH IH FOGOH”
37 – FEBEM – “Crime”
38 – Luedji Luna e Zudzilla – “Ameixa”
39 – Johnny Hooker – “Amante de Aluguel”
40 – BADSISTA – “Chora Na Minha Frente”
41 – BK – “Cidade do Pecado”
42 – Jup do Bairro – “Sinfonia do Corpo”
43 – Giovanna Moraes – “Baile de Máscaras”
44 – Romulo Fróes – “Baby Infeliz”
45 – Nelson D – “Algo Em Processo”
46 – Duda Beat – “Meu Pisêro”
47 – Yung Buda – “Digimon”
48 – Boogarins – “Supernova”
49 – Jota Ghetto – “Vagabounce”
50 – Lupe de Lupe – “Brasil Novo”

*****

******

* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a cantora carioca Juçara Marçal.
*** Este ranking é formulado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix, talvez o maior estudioso da nossa CENA. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

>>

Os Melhores Discos de 2021 da Popload – nacional

1 - cenatopo19

* A mesma dor “gostosa” que passamos ao tentar definir os melhores discos internacionais de 2021 sofremos para primeiro elaborar um Top 10 nacional dos mais significantes álbums lançados neste ano no Brasil, cada um ao gosto de seus votantes. Segundo, escolher uma ordem de “importância pessoal” para esses dez álbuns. E terceiro para, ainda dentro do gosto de cada um, pinçar o primeiro lugar dentro dessa turma de discos importantes que fizeram deste ano um dos melhores nesta produção incrível, variada e de muitas dimensões, camadas e cores desta CENA linda.

Cabe a nós, num computo geral dos votantes da Popload para os melhores discos nacionais de 2021 e estabelecendo uma nota para cada, esclarecer que estes quatro álbuns abaixo ocuparam o nosso pódio final:

*****

1. “Delta Estácio Blues”, Juçara Marçal

2. “Olho de Vidro”, Jadsa

3. Baile”, FBC & VHOOR / “Roteiro pra Aïnouz, Vol. 2”, Don L

*****

Abaixo, seguem os votos dos poploaders que durante o ano todo se embrenharam empolgadamente nesta vasta floresta que é a CENA brasileira de nova música ou de veteranos músicos lançando novidades. Tem para tudo e para todos na enorme trilha sonora que embala esta terra brasilis muito loka. Mas também muito rica e criativa.

juçara

** Lúcio Ribeiro

1. “Olho de Vidro”, Jadsa
2. “Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo”, Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo
3. “Delta Estácio Blues”, Juçara Marçal
4. “Baile”, FBC & VHOOR
5. “Sankofa”, Amaro Freitas
6. “Ultrassom”, Edgar
7. “III”, Giovanna Moraes
8. “Dolores Dala Guardião do Alívio”, Rico Dalasam
9. “Torus”, Carlos do Complexo
10. “Diretoria”, Tasha & Tracie

***

** Isadora Almeida

1. “Pacífica Pedra Branca”, Jennifer Souza
2. “Olho de Vidro”, Jadsa
3. “Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo”, Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo
4. “De Primeira”, Marina Sena
5. “Baile”, FBC & VHOOR
6. “Roteiro pra Aïnouz, Vol. 2”, Don L
7. “Delta Estácio Blues”, Juçara Marçal
8. “Jovem OG”, Febem
9. “Chegamos Sozinhos em Casa”, Tuyo
10. “Bebé”, Bebé

***

** Vinicius Felix

1. “Roteiro pra Aïnouz, Vol. 2”, Don L
2. “Delta Estácio Blues”, Juçara Marçal
3. “Dolores Dala Guardião do Alívio”, Rico Dalasam
4. “Olho de Vidro”, Jadsa
5. “Esculpido a Machado”, Leall
6. “Diretoria”, Tasha & Tracie
7. “Borogodó”, Mc Carol
8. “Batuque de Magia”, Art Popular
9. “Rocinha”, Mbé
10. “Chegamos Sozinhos em Casa”, Tuyo

***

** Dora Guerra

1. “De Primeira”, Marina Sena
2. “Delta Estácio Blues”, Juçara Marçal
3. “Baile”, FBC & VHOOR
4. “Roteiro pra Aïnouz, Vol. 2”, Don L
5. “Dolores Dala Guardião do Alívio”, Rico Dalasam
6. “Batidão Tropical”, Pabllo Vittar
7. “Diretoria”, Tasha & Tracie
8. “Síntese do Lance” – João Donato e Jards Macalé
9. “Meu Coco”, Caetano Veloso
10. “Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo”, Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo

***

** Tallita Alves

1. “Batidão Tropical”, Pabllo Vittar
2. “Chegamos Sozinhos em Casa”, Tuyo
3. “Trava Línguas”, Linn da Quebrada
4. “Portas”, Marisa Monte
5. “Te Amo Lá Fora”, Duda Beat
6. “Indigo Borboleta Azul”, Liniker
7. “Doce 22”, Luísa Sonza
8. “Meu Coco”, Caetano Veloso
9. “De Primeira”, Marina Sena
10. “Baile”, FBC & VHOOR

>>

SEMILOAD – Precisamos falar sobre o TikTok na música. Ou a música no TikTok

1 - semiload-arte2

* Faltava nossa pensadora musical Dora Guerra, que orquestra a ótima newsletter Semibreve, nossa parceira semanal, botar seus preciosos pingos nos “is” da plataforma revolucionária TikTok, que a seu jeito tem transformado o jeito de se consumir música.

Mesmo tendo o Caetano Veloso como contraponto, o que torna a tarefa mais instigante por tudo o que representa, não falta mais.

caetano

Nestes dias, viralizou um vídeo do “Porta dos Fundos” com o Caetano Veloso, que você deve ter visto por aí. Nele, os personagens de Gregório Duvivier e João Vicente representam empresários marketeiros, típicos, afins de subir os KPIs e outras siglas inglesas, tiktok-zando o Caetano. Choque de gerações. O bom e velho humor em cima de paulista.

Eis que, pouco tempo depois, me deparei com um artigo do Tab UOL – sobre a esquete e, principalmente, sobre o medo do TikTok e da necessidade de se tiktok-zar. Ao longo do artigo, o autor mostra seu espanto com a nova cultura da plataforma, o consumo rápido, a falta de densidade na nossa relação com a arte. Justo? Talvez. Mas eu acho que cabe também discordar – ou, por outro lado, tentar acalmar o autor.

(Lá vou eu, mais uma vez, a defensora da nova geração. Às vezes sinto que é só isso que faço – além de chatear beatlemaníaco).

Algumas coisas são fatos que nem eu posso contestar: 1) o TikTok está, sim, alterando a lógica da indústria musical; 2) músicas estão cada vez menores, diminuindo o espaço que grandes canções de sete minutos outrora tiveram e 3) “Meu Coco” é, realmente, um nome de álbum questionável.

Mas enxergar o TikTok como um vilão vem de um medo misturado com preconceito misturado com resistência. É uma plataforma de vídeos curtos, então claro que trechos curtos de música vão fazer mais sucesso. Todo mundo adora uma dancinha e, portanto, se na sua canção couber uma coreografia, ótimo. Mas isso de música-dançável-não-necessariamente-profunda é um fenômeno novo? Bom, você que me diz: vale lembrar que “Conga Conga Conga” vem dos anos 80.

Há um lugar para canções como a de Caetano – e esse nunca será o do TikTok, o que tanto a plataforma quanto o artista sabem. Primeiro que ninguém precisa do TikTok para fazer sucesso (ajuda, beleza, mas não é imprescindível). Segundo que você não vai à plataforma para pensar sobre canções profundas; na rede, a fração dominante da música tende a ser a sonoridade, o que já propõe uma relação interessante com o que a gente ouve por lá. Aliás, o TikTok teve um histórico de conceder sucesso a pequenos artistas e produtores, com um algoritmo próprio baseado em – pasmem! – o que as pessoas gostam de ouvir e usar de trilha sonora. Isso é mesmo tão assustador?

Beleza, o TikTok tem seus problemas (ao meu ver, mais relacionados à autoria e monetização de artistas); mas, se vai deixar estrago na indústria, é menos por sua existência e mais pela forma que alguns mercenários o interpretam.

Porque aqueles personagens caricatos do vídeo, incômodos pela falta de tato e obsessão com os números, existem. Ô, se existem. Na Faria Lima, você balança uma árvore e caem quatro deles. Mas é muito romântico da nossa parte acreditar que, em outros momentos da carreira de Caetano, empresários de gravadora igualmente sedentos não estavam implorando que ele saísse do tema político, investisse no marketing, fosse no Chacrinha ou qualquer que fosse a plataforma de tamanho proporcional ao TikTok do momento. Basicamente: desde que o mundo é mundo, alguém com coragem suficiente para minar alguém como Caetano Veloso sempre existiu e existirá. Lá no filme do Queen, alguém também olhou para uma obra-prima como “Bohemian Rhapsody” e disse que aquilo ali nunca ia tocar nas rádios. E aí?

A gente tem que respeitar o lugar das coisas – a graça do vídeo não está no que os empresários dizem, mas no fato de que Caetano está lá, atento e atônito, ouvindo o que esses homens têm a dizer.

Explicando o humor na tirinha: é engraçado porque, na vida real, Caetano não precisa disso – não pensou se você vai ler o nome do álbum dele errado, tampouco ficou preocupado em tornar “Anjos Tronchos” um hit. Quem você vê apelando para as estratégias nostálgicas, de meme ou “de entrar no Big Brother”, como citam os empresários no vídeo, são os artistas que estão começando e se divertindo, os que precisam de um hit ou que, a esta altura, querem conquistar uma visibilidade que perderam. É a Lizzo (nativa digital), a Avril Lavigne (cuja carreira ficou nos anos 2000/2010), o Projota (no meio da carreira, sem shows na pandemia).

Aliás, é curioso até que a figura escolhida para o vídeo seja o Caetano – logo ele, que não tem medo do futuro, que cita sambanejo, trap, pagodão em suas músicas. Ele, que vive se modernizando não por necessidade, mas por sede de novidade. Se Caetano quisesse, sim, talvez cedesse à lógica do TikTok como qualquer outro artista pop cedeu à lógica das rádios em qualquer dado momento na história. Isto é, se ele quisesse que sua música fosse o hit do momento. Mas ele não precisa ou quer – e é um desespero tolo acreditar que alguém como Caetano estará algum dia sujeito às métricas de marketing do novo mundo.

Claro, outros artistas estão, sim, sujeitos a essas métricas; por outro lado, vários deles têm hoje muito mais espaço que jamais tiveram (e menos renda, isso eu concordo). O mito da democratização que a internet traz é mito, mas tem sua ponta de verdade; o viral pode ser fabricável, mas também pode vir do povo. Quantas histórias de artistas desacreditados com músicas bem-humoradas não renderam carreiras nos últimos anos, graças ao TikTok e às redes?

O autor acaba o texto dizendo: “Algo se perdeu, algo se quebrou, algo está se quebrando”. É… Talvez. Muita coisa vem se quebrando ultimamente. Mas a gente anda ganhando muita coisa, também – diversificando, nos propondo a dançar, abrindo horizontes. Vamos com calma ao condenar o futuro, mais uma vez. Se tivermos danos a longo prazo causados pelo momento tecnológico (e claro, teremos), a nossa referência disso não é (nem deve ser) os produtores caricatos de grandes gravadoras que, pelo que a gente ouve dizer, sempre foram e sempre serão assim.

No mais, sabe quem não precisa se preocupar? O Caetano.

****

* Não misture as redes. Dora Guerra faz dancinha das palavras no Twitter, como @goraduerra.

>>

Top 50 da CENA – O topo da nova música é da velha geração. Jards Macalé, João Donato e Caetano Veloso mandam no ranking

1 - cenatopo19

* Quando a gente fala da potência da CENA brasileira e suas novidades parece que estamos falando só de artistas novos. Não é bem assim, claro. Nossos artistas mais velhos estão sempre mostrando o quanto ainda têm a apresentar e principalmente o quanto é preciso prestar atenção no que eles estão dizendo, do alto de sua sabedoria. Essa enorme força está provada nos novos lançamentos de João Donato, Jards Macalé e Caetano Veloso. Trabalhos de músicas inéditas, sobre o hoje. Fortes e presentes.

E, enquanto escrevíamos este Top 50, veio a notícia do falecimento do músico Letieres Leite, um dos maiores. Arranjador e instrumentista, Letieres é fundador da Orkestra Rumpilezz e tem a mão em obras de Hermeto Pascoal, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Timbalada, Paulo Moura, Ivete Sangalo, Maria Bethânia, Naná Vasconcelos, Daniela Mercury, Olodum – a lista é enorme. Gigante. É dele uma importante lição sobre música brasileira trazida em uma faixa de Zé Manoel: “Toda música brasileira é afro-brasileira”. R.i.p.

joaojardstopquadrado

1 – João Donato e Jards Macalé – “Côco Táxi” (Estreia)
Nus já na capa. E que capa. Jards e João. João e Jards. Juntos. Pela primeira vez. Em músicas inéditas, essa parceria de homens de diferentes gerações parece que sempre existiu. É uma sensação que bate de cara: “Jards e João? Escutei tudo”, como se já existissem vários álbuns da dupla. Tudo soa natural, belo e pronto por aqui. É a habilidade dos dois mestres. “Côco Táxi”, por exemplo, é um veículo cubano que ambos usaram em diferentes momentos da vida em visitas a Cuba. É a metáfora perfeita para o álbum.

2 – Caetano Veloso – “Não Vou Deixar” (Estreia)
Um beat de rap, modernoso, com interlúdio experimental e tudo. É assim que se apresenta “Não Vou Deixar”. O recado de Caetano aqui pode ter múltiplos alvos. Um Relacionamento? O Bolsonarismo? A gente entendeu que talvez o recado mesmo seja para o neoliberalismo e sua energia de querer derrubar toda a potência do Brasil. Essa vontade de ser norte-americano que existe por aí. Caetano acredita ao longo de “Meu Coco”, seu novo álbum, que a saída de salvação do mundo é brasileira. E isso vem da superação definitiva da tragédia da colonização, que ainda se reproduz na atualidade em forma da desigualdade e do racismo. Violências que impedem o Brasil de cumprir seu destino de salvar o mundo.

3 – Rabo de Galo, DJ Ubunto e Luedji Luna – “Me Abraça e Me Beija” (Estreia)
O duo Rabo de Galo (formado por Peu Araujo e Bruno Komodo) e o DJ Ubunto vai regrar o álbum “Atrás do Pôr do Sol” (1988) de Lazzo Matumbi, artista de Salvador e uma das vozes mais importantes da cidade. O primeiro single deste trabalho traz duas regravações de oito, tem a clássica “Me Abraça e Me Beija”, com participação de Luedji Luna no voz. A ideia de retrabalhar um álbum quase perdido na história da música brasileira, ausente no Spotify, por exemplo, tem essa missão de resolver essa injustiça. Vamos escutar “Atrás do Por do Sol”?

4 – Stefanie e Gigante no Mic – “Coroa de Flores” (Estreia)
Rapper de longa estrada, ainda que com trabalho solo recente, Stefanie chega muito bem ao lado do companheiro em uma homenagem as vítimas da Covid. Ambos tiveram perdas pessoais na pandemia e a música fala disso, mas também fala das perdas de todos. Na segunda metade, quando o beat fica mais pesado, o recado passa a ser aos que ainda estão por aqui e que estão dando bobeira, um alerta sobre.

5 – Vandal – “BALAH IH FOGOH” (Estreia)
Das mais conhecidas do rapper de Salvador, “BALAH IH FOGOH” ganhou até uma releitura pesada na mão do BaianaSystem. Ainda há novas rimas de Djonga, além do próprio Vandal acelerando o flow original na sua parte. “Só quero minha moeda, nada deles.” Aliás, Vandal acabou de soltar uma nova mixtape que merece sua atenção. Se liga.

6 – Pluma – “Transbordar” (Estreia)
A banda paulista Pluma segue produzindo músicas deliciosas em clima meio pop, meio quase jazz e experimental. “Transbordar”, por exemplo, chega a “travar” a ponto de deixar você noiado se é o seu computador que está com algum problema. Quem diria que um TCC, motivo que uniu a banda, daria tão certo.

7 – Chapéu de Palha – “Domingo” (Estreia)
O duo Giovanna Póvoas e Helder Cruz, de Manaus, faz um pop delicado e bonito. Daquele que tenta te tirar do agito e da loucura e te colocar num lugar bom, como um bom “Domingo”.

8 – Francisco, El Hombre – “Loucura” (Estreia)
“A melhor cura é uma boa loucura”, canta a banda na abertura de seu novo álbum, “Casa Francisco”. “Loucura” é sobre ter coragem de se arriscar, de se jogar no mundo. É a única forma de ver se a gente consegue fazer o que sonha. Não é um processo sem dor, às vezes alguém tem que te dar um empurrão, te assusta e aí você descobre que é capaz de ser melhor, de ser o que é.

9 – Johnny Hooker – “Amante de Alguel” (Estreia)
Sabe aquele brega que nasce com cara de clássico? Johnny consegue isso com seu novo single, “Amante de Aluguel”, que é daquelas que na primeira repetição você já saí cantando. Que poder.

10 – Don L – “Na Batida da Procura Perfeita” (1)
Tem um verso antigo do Don L que avisa: “Faz da vida um filme próprio, não um filme antigo”. Fazer o próprio filme é uma tarefa árdua. Se você tentar terá sorte se só te chamarem de maluco. Simbólico que “Você não queria um filme diferente?” seja a frase que abre sua nova música, esta aqui. No filme próprio que constrói, Don começa a dar conta de que perceber o que há de errado no mundo é bem diferente de mudar o que há de errado no mundo. Nessa distância entre reflexão e ação cabe um milhão de coisas. E nesse caminho Don já topou com as contradições (“Eu sou comunista e curto carros”), com o cansaço (“Uma luta contra o mundo/ Pra fazer parte do mundo que cê luta contra”), o tema da vez é a procura pelo que se quer de fato. Ou uma redefinição de metas e objetivos. Ricos? Imagina a gente livre, ele pondera. Temos aqui uma música que toca na questão da terra como luta primordial ao lembrar o mito guarani da busca por uma terra sem males (“Yvy Marã”). A senha é a palavra “busca”. E mais: mal não é algo abstrato, mas engloba criações dos homens brancos que massacraram a população indígena. A invenção da propriedade privada é um desses males, para ficar em um só problema. Sonhar por um filme diferente é parte essencial de conseguir armar esse filme diferente. E é uma questão que escapa ainda para muita gente, que tem deixado de sonhar, como se no máximo desse para dar uma melhorada em um roteiro ruim. Cadê nossa criatividade? E se tá ruim, massa, todo mundo entendeu, mas que filme diferente é esse? Don deu sua sugestão.

11 – Céu – “Chega Mais” (2)
12 – Alice Caymmi – “Serpente” (3)
13 – Juçara Marçal – “Ladra” (4)
14 – Criolo – “Cleane” (5)
15 – Coruja Bc1 e Salgadinho – “Bolhas” (6)
16 – Sant – “Prantos” (7)
17 – Francisco, El Hombre – “Solo Muere El Que Se Olvida” (8)
18 – Marina Sena – “Pelejei” (9)
19 – Felipe S – “Violento Monumento” (10)
20 – Terno Rei e Samuel Rosa – “Resposta” (11)
21 – Taxidermia – “Lava” (12)
22 – The Baggios – “Barra Pesada” (13)
23 – Tagore – “Maya” (17)
24 – Caetano Veloso – “Anjos Tronchos” (18)
25 – Marissol Mwaba – “Marte” (19)
26 – Prettos – “Oyá/Sorriso Negro” (20)
27 – Liniker – “Mel” (21)
28 – Luana Flores – “Lampejo da Encruza” (24)
29 – Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo – “Fora do Meu Quarto” (25)
30 – Rei Lacoste – “Tutorial de Como Ser Amador” (26)
31 – Valciãn Calixto – “Exu Não É Diabo (Èsù Is Not Satan)” (27)
32 – Bebé – “Sinais Elétricos na Carne” (28)
33 – Majur – Ogunté (29)
34 – Tasha e Tracie – “Lui Lui” (30)
35 – GIO – “Sangue Negro” (33)
36 – Linn Da Quebrada – “I míssil” (34)
37 – Rodrigo Amarante – “Maré” (35)
38 – Amaro Freitas – “Sankofa” (36)
39 – Pabllo Vittar – “Não É Papel de Homem” (37)
40 – Edgar – “A Procissão dos Clones” (38)
41 – Tuyo – “Toda Vez Que Eu Chego em Casa” (39)
42 – Jadsa – “Mergulho” (40)
43 – FEBEM – “Crime” (41)
44 – Boogarins – “Supernova” (44)
45 – JOCA, Sain, Jonathan Ferr, BENO, Theo Zagrae – “Água Fresca” (19)
46 – Jota Ghetto – “Vagabounce” (46)
47 – Mbé – “Aos Meus” (47)
48 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (48)
49 – LEALL – “Pedro Bala” (49)
50 – Lupe de Lupe – “Brasil Novo” (50)

*****

*****

* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a dupla João Donato e Jards Macalé.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.

>>

CENA – A liberdade no espelho: um encontro de muitos Caetanos em “Meu Coco”

1 - cenatopo19

***
Por Vinícius Felix
***

Dá para dizer que muitos Caetanos se encontram em “Meu Coco”, primeiro álbum de inéditas do famoooooooooso cantor e compositor baiano em quase dez anos e quase aos 80 anos. Já na capa há uma sugestão dessa quase afirmação nossa. Caetano aparece multiplicado por espelhos – espelho, justamente um dos objetos que ele mais deu falta em seu período preso pela ditadura militar no Brasil. Que o objeto apareça aqui de cara já soa como um elogio imediato à liberdade, um dos temas do álbum.

A liberdade de não ser um só talvez seja uma das grandes batalhas de Caetano pela vida. Excluindo a vida pessoal da jogada e pensando só na questão musical dos álbuns gravados, temos vários Caetanos por aí. Tem aquele Caetano da Tropicália, tem aquele da Outra Banda da Terra, tem aquele que é parceiro de Jaques Morelenbaum, tem aquele da banda Cê. São tantos e tão diversos que é compreensível que exista quem deteste alguns e ame outros, por exemplo. Pessoalmente, gosto de todos.

Em um trecho do livro “Um Apartamento em Urano”, o filósofo Paul B Preciado escreve: “Fomos divididos pela norma. Cortado em dois e forçados em seguida a escolher uma de nossas partes. O que chamamos de subjetividade não é mais que a cicatriz deixada pelo corte na multiplicidade do que poderíamos ter sido. Sobre essa cicatriz assenta-se a propriedade, funda-se a família e lega-se a herança”. Aqui, Preciado lança um ataque contra o que chama de epistemologia binária do Ocidente. Caetano Veloso faz parte dessa insurgência. Ao “Globo”, declarou que é fluido, em uma pergunta sobre sexo. Dá para dizer que estava falando de sua história toda.

Se em diferentes momentos esses diferentes Caetanos surgiram, parece que “Meu Coco” busca reapresentar todos eles. Um gesto que é feito ao recuperar parceiros de diferentes épocas. Jaques está aqui. Pedro Sá da Banda Cê está aqui. Márcio Vitor, percussionista de Caetano em álbuns como “Prenda Minha” e “Noites do Norte” está aqui. Vinícius Cantuária da Outra Banda da Terra está aqui. Gil e Gal, partes da Tropicália, não estão, mas são homenageados em uma canção.

Essa criação de um universo particular em cada canção com parceiros de todas as épocas distribuídos por elas dá uma sensação de equilíbrio torto entre as músicas. Tudo funciona em conjunto ainda que sejam tão diferentes entre si – tem samba (“Sem Samba Não Dá”), tem música eletrônica (“Não Vou Deixar”), tem coisas percussivas (“Pardo”), tem coisas orquestradas (“Cobre”), tem até Caetano em português de Portugal em um fado (“Você-Você”).

O encontro principal do álbum é nosso com a cabeça de Caetano. Seu coco. Sua cabeça está no centro. Sua cabeça, em sua própria descrição, sempre inquieta, é ao mesmo tempo seu objeto de análise e sua ferramenta de tradução. Ao entrar no disco caímos em uma imensidão de nomes e ideias que atravessa seu caminho. E é bom estar em um território de tantas possibilidades.

Em “Verdade Tropical”, seu livro de 1997, Caetano relembra uma de suas primeiras filosofadas ainda criança, quando diante da impossibilidade de provar a existência de si e do mundo quer avisar a todos que tudo não passa de uma grande mentira. “Se não posso sair de mim – e não posso -, não há mundo nem coisas nem nada, só meu pensamento.” Certo ou não, dali em diante ele aprendeu a lidar com isso. 

Nessas voltas pela própria cabeça, encontramos o Caetano devoto de João Gilberto, que lembra em “Meu Coco” um recado que João lhe deu sobre o Brasil: “Somos chineses”. É a primeira vez que ele lança um disco sem que João esteja por aqui. A lembrança querida carrega a afirmação pelo Brasil de João. E Caetano busca por meio da arte brasileira afirmar um Brasil possível em tempos de negação dessa beleza, como relatou em entrevista à “Folha de São Paulo”. “Com Naras, Bethânias e Elis/Faremos mundo feliz”, canta no refrão.

A missão de salvar o mundo reaparece em “Enzo Gabriel”. Ao pegar o nome mais popular do Brasil em anos recentes, Caetano imagina quem é essa criança que pode se tornar um menino guenzo ou gigante negro de olho azul” e pergunta qual será seu papel na salvação do mundo? É um pouco conselheiro e profeta. Ao passo que vê o “viramundo” a partir do Hemisfério Sul, avisa que ele “já verá o que é nasceres no Brasil” – um país tão rachado socialmente que é capaz de abrigar um pobre e um rico Enzo que terão vidas muito diferentes em possibilidades.

Captura de Tela 2021-10-26 às 6.24.46 PM

Também encontramos o Caetano avô, que aparece feliz com o neto que lhe apresenta algo inédito no mundo, um feito e tanto diante de um senhor de 79 anos. Encontramos o artista que não perde a curiosidade pela música brasileira e está atento a todas as novidades: de Gabriel do Borel ao duo Anavitória. De Djonga a Marília Mendonça. Todos citados na música “Sem Samba Não Dá”. E sem esquecer Billie Eilish, citada em “Anjos Tronchos”, sua tese sobre os efeitos da tecnologia e dos algoritmos no mundo público e privado.
 
Encontramos também o Caetano que abandou o liberalismo e chocou muita gente ao relatar que não considera mais as experiências socialistas o puro horror – abominando a relação direta que muita gente faz entre fascismo e nazismo com o comunismo. Que a manifestação de “Não Vou Deixar” seja encarada como direcionada a Bolsonaro ou Olavo de Carvalho é esquecer um alvo maior, que inclui os dois: o neoliberalismo e sua força de tentar reduzir o mundo a um denominador comum, no caso, a visão dos dominadores. Lutar contra esse fim é um das missões de Caetano desde “Alegria, Alegria”. Vale lembrar, é o primeiro álbum de inéditas dele após Junho de 2013, o primeiro após o golpe sofrido pela presidenta Dilma Rouseff, o primeiro após a eleição de um discípulo de um guru que tem ódio de Caetano.

Não por acaso, o álbum termina com ele visitando pela primeira vez uma velha composição, “Noite de Cristal”, que encerra assim: “Peço dias de outras cores, alegrias, para mim, para o meu amor e meus amores”.

Nas minúcias das pistas deixadas pelo compositor deve ter muito mais a se falar de “Meu Coco”. É preciso escutar mais vezes. Até aqui, fica evidente a vontade de Caetano que o Brasil retome seu destino de guardar o mundo de seu fim. Da defesa por liberdade e por um livre pensar real. Não esse esboço de defesa à violência que virou a conversa sobre liberdade de expressão em tempos recentes. Minorias de todos os tipos já sofrem com uma censura sofisticada que não garante seus direitos. Não é derrubar um vídeo de um presidente mentindo diante de um fato que vai afetar a nossa surrada liberdade de expressão.

Em um vídeo que viralizou recentemente da economista Maria da Conceição Tavares, famosa pela veemência de suas falas em alguns momentos, uma característica que compartilha com Caetano Veloso, ela comenta: “Pensar é altamente subversivo. Já fui em cana por isso. Esse direito que muita gente acha menor não é um direito tranquilo”. Que Caetano possa sempre se olhar no espelho.

* Em tempo, digno de nota o esforço da equipe de Caetano em deixar no Instagram a ficha técnica do álbum todo, sendo justos com todos os artistas que participam do trabalho. Uma atitude que as plataformas de streaming ainda se recusam a fazer, deixando os curiosos sobre arranjos e participações a ver navios, como se música fosse um produto sem autores.

>>