Em caetano veloso:

Top 50 da CENA – O primeiro lugar do ranking é uma música que não deveria ter sido feita. Francisco, el Hombre bota a primavera no top. Tagore bota sua dose de psicodelia no pódio

1 - cenatopo19

* Uma nota rápida na abertura de hoje. O primeiro lugar desta semana não deveria existir. É isso que temos a dizer, a gente detalha isso no texto da primeira posição.

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1 – Criolo – “Cleane” (Estreia)
Esta era a música que não devia ter existido. Criolo escreveu “Cleane” por conta da situação gerada pela pandemia. Em outras palavras, pela situação gerada por um governo que optou em deixar que a pandemia tocasse a destruição do país, com negacionismo. Não é suposição, está tudo documentado. A faixa leva o nome da irmã que o rapper perdeu para a covid-19. As informações coletadas pela CPI da covid-19 revelam o quanto da pandemia simplesmente poderia ter sido evitada e controlada. Não era para essa faixa ter sido composta, mas aqui estamos. E, como o Criolo escreveu, que o amor e a arte possam ressignificar estes anos. A pandemia não acabou e não deve acabar na nossa memória. Tem feat. do Tropkillaz, ainda.

2 – Francisco, el Hombre – “Nada Conterá a Primavera” (Estreia)
Ainda sobre resistência, a nova música da banda Francisco, El Hombre conta de uma força invisível que não pode ser quebrada nem pelo tempos mais complicados da sociedade. Como é o verso que um certo político falou uma vez? Ainda que cortem umas flores aqui e ali, nada contém a primavera. Se a gente entendeu esta música, o recado é esse.

3 – Tagore – “Maya” (Estreia)
É impossível não pensar na psicodelia australiana, mas, conhecendo também a psicodelia brasileira, ambas estão bem representadas neste terceiro álbum de Tagore Suassuna, que capricha em letras rasgadas, aquelas que se entregam no sentimento, sabe? Embora ele verse que dá trabalho disfarçar a saudade da amada, nas letras ele faz questão zero de camuflar qualquer vergonha.

4 – Juçara Marçal – “Crash” (12)
A gente resolveu trazer a Juçara de novo ao alto do ranking porque é nesta semana que ela solta seu novo álbum, “Delta Estácio Blues”. E é neste disco que está este impressionante rap de Rodrigo Ogi em interpretação absurda de Juçara. Rap do ano.

5 – Bemti – “Quando o Sol Sumir” (Estreia)
Bonito o encontro de Bemti com Fernanda Takai e a sutil participação de Hélio Flanders, do Vanguart, no trompete. Uma história de amor que resista ao fim do mundo é uma grande história de amor, não? A letra é uma parceria de Bemti com Roberta Campos.

6 – Caetano Veloso – “Anjos Tronchos” (1)
Primeira mostra do primeiro álbum de inéditas em quase dez anos, “Anjos Tronchos” revela um Caetano atento a seu tempo. E mais ligado em tecnologia do que poderíamos imaginar que estivesse um homem que não tem celular. Uma de suas canções-tese, onde expõe seu pensamento crítico, este som bate na questão de quantos algoritmos estão moldando nossas cabeças. Caetano pondera aqui sobre o aspecto perverso da tecnologia, que colaborou na ascensão de um neofascismo, mas também aspectos positivos, como a Billie Eilish, que “faz tudo do seu quarto com o irmão”. Até a questão do sexo virtual não escapa de sua rica observação.

7 – Marissol Mwaba – “Marte” (2)
Em parceria com o trio Tuyo e com a superguitarrista Mônica Agena, Marissol lançou mais um excelente single. Marte de Marissol é mais que o planeta vermelho. É um lugar onde ela encontra afeto. Preste atenção nela. De single em single a cantora vai provando que não chamou atenção de nomes como Chico César e Fióti por acaso. Voz talentosíssima.

8 – Prettos – “Oyá/Sorriso Negro” (3)
É impressionante o álbum “Quintal dos Prettos”, trabalho ao vivo da dupla Prettos, formada por Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira, da zona leste de São Paulo. Com uma microfonação pouco usual, indireta, sem colar na voz ou nos instrumentos, eles conseguiram recriar a sensação de ir a uma roda de samba em disco, uma missão e tanta. Público e músicos viram uma coisa só nesse método da gravação e é como se você estivesse na plateia, com o som levemente abafado pela quantidade de pessoas em volta da roda.

9 – Liniker – “Mel” (4)
No excelente primeiro álbum solo, “Indigo Borboleta Anil”, Liniker arrebenta em uma série de músicas que passeiam de maneira habilidosa entre dores e alegrias, como é a vida, não? Do balanço a momentos de reflexão, são muitas as músicas que a gente ficou tentado a colocar por aqui, como “Baby 95” e “Lalange”. Mas ficamos com um dos momentos mais interessantes do álbum, onde ela aparece muito à vontade com voz e violão, sem clique, cantando uma música que aparentemente seria preterida, mas que na real não poderia ficar de fora do disco. Você que lê a gente sabe o quanto somos fissurados em uma metalinguagem. Liniker parou o andamento do disco para avisar, nele, que a seguir vem uma faixa bônus. É uma ideia muito boa de intimidade com seu fã. E acaba que sendo mesmo uma das músicas mais gostosas do álbum. Fora que faz esse fã se sentir parte daquilo. Que bom que ela fez esta no improviso, sem medo de desafinar, e não deixou de fora de “Indigo Borboleta Anil”.

10 – JOCA, Sain, Jonathan Ferr, BENO, Theo Zagrae – “Água Fresca” e “Sombra” (5)
Forte o encontro dos rappers Joca e Sain com o pianista Jonathan Ferr e a produça de Beno e Theo Zagrae. Ao pensar em sombra e água fresca, uma combinação dez, a sacada é que quando elas operam em separado a sombra ganha novo sentido. As duas músicas, então, funcionam como uma só. Sacada esperta.

11 – Fresno e Jup do Bairro – “E Veja Só” (6)
12 – brvnks – “happy together” (7)
13 – Vanguart – “Lá Está” (8)
14 – Papisa e Haēma – “Fortuna” (9)
15 – Luana Flores – “Lampejo da Encruza” (10)
16 – Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo – “Fora do Meu Quarto” (11)
17 – Juçara Marçal – “Crash” (12)
18 – Cesar MC – “Antes Que a Bala Perdida Me Ache” (13)
19 – Alice Caymmi – “Serpente” (14)
20 – Coruja BC1 – “Tarot” (15)
21 – Curumin – “Púrpuras” (16)
22 – Nelson D – “Toy Boy” (17)
23 – Rei Lacoste – “Tutorial de Como Ser Amador” (18)
24 – Valciãn Calixto – “Exu Não É Diabo (Èsù Is Not Satan)” (19)
25 – Bebé – “Sinais Elétricos na Carne” (22)
26 – Marina Sena – “Me Toca” (23)
27 – Majur – Ogunté (24)
28 – Tasha e Tracie – “Lui Lui” (25)
29 – Papangu – “Ave-Bala” (26)
30 – Sebastianismos – “Se Nem Deus Agrada Todo Mundo Muito Menos Eu” (27)
31 – Guilherme Arantes – “A Desordem dos Templários” (29)
32 – GIO – “Sangue Negro” (30)
33 – Linn Da Quebrada – “I míssil” (31)
34 – Rodrigo Amarante – “Maré” (32)
35 – Amaro Freitas – “Sankofa” (34)
36 – Pabllo Vittar – “Não É Papel de Homem” (35)
37 – Edgar – “A Procissão dos Clones” (36)
38 – Tuyo – “Toda Vez Que Eu Chego em Casa” (37)
39 – Jadsa – “Mergulho” (38)
40 – FEBEM – “Crime” (39)
41 – Rodrigo Brandão – “O Sol da Meia-Noite” (40)
42 – Aquino e a Orquestra Invisível – “Os Prédios Cinzas e Brancos da Av. Maracanã” (41)
43 – Boogarins – “Supernova” (42)
44 – BaianaSystem – “Brasiliana” (43)
45 – Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo – “Delícia/Lúxuria” (44)
46 – Jota Ghetto – “Vagabounce” (45)
47 – Mbé – “Aos Meus” (46)
48 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (47)
49 – LEALL – “Pedro Bala” (28)
50 – Lupe de Lupe – “Brasil Novo” (49)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, o rapper e cantor Criolo.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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Top 50 da CENA – Chegou este dia. Caetano liderando um ranking da Popload. E tem até samba no nosso pódio

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* Caetano Veloso. Sim, Caetano Veloso straight to the top no nosso top 50 da CENA. A busca por novidades da música brasileira, prática constante nossa, pode vir de um autor tão clássico como é Caetano. Não tem estranheza nisso. Afinal, ele está escrevendo a partir do nosso tempo e, veja só, com uma atualidade que muito artista novo corre atrás de alcançar, mas que é tarefa das mais difíceis. Pensa só: ele fez uma supermúsica sobre algoritmos e tecnologia, mas nem tem um celular. A capacidade de ler o mundo de algumas pessoas é uma coisa e tanto, né?

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1 – Caetano Veloso – “Anjos Tronchos” (Estreia)
Primeira mostra do primeiro álbum de inéditas em quase dez anos, “Anjos Tronchos” revela um Caetano atento a seu tempo. E mais ligado em tecnologia do que poderíamos imaginar que estivesse um homem que não tem celular. Uma de suas canções-tese, onde expõe seu pensamento crítico, este som bate na questão de quantos algoritmos estão moldando nossas cabeças. Caetano pondera aqui sobre o aspecto perverso da tecnologia, que colaborou na ascensão de um neofascismo, mas também aspectos positivos, como a Billie Eilish, que “faz tudo do seu quarto com o irmão”. Até a questão do sexo virtual não escapa de sua rica observação.

2 – Marissol Mwaba – “Marte” (Estreia)
Em parceria com o trio Tuyo e com a superguitarrista Mônica Agena, Marissol lançou mais um excelente single. Marte de Marissol é mais que o planeta vermelho. É um lugar onde ela encontra afeto. Preste atenção nela. De single em single a cantora vai provando que não chamou atenção de nomes como Chico Cesár e Fióti por acaso. Voz talentosíssima.

3 – Prettos – “Oyá/Sorriso Negro” (Estreia)
É impressionante o álbum “Quintal dos Prettos”, trabalho ao vivo da dupla Prettos, formada por Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira, da zona leste de São Paulo. Com uma microfonação pouco usual, indireta, sem colar na voz ou nos instrumentos, eles conseguiram recriar a sensação de ir a uma roda de samba em disco, uma missão e tanta. Público e músicos viram uma coisa só nesse método da gravação e é como se você estivesse na plateia, com o som levemente abafado pela quantidade de pessoas em volta da roda.

4 – Liniker – “Mel” (1)
No excelente primeiro álbum solo, “Indigo Borboleta Anil”, Liniker arrebenta em uma série de músicas que passeiam de maneira habilidosa entre dores e alegrias, como é a vida, não? Do balanço a momentos de reflexão, são muitas as músicas que a gente ficou tentado a colocar por aqui, como “Baby 95” e “Lalange”. Mas ficamos com um dos momentos mais interessantes do álbum, onde ela aparece muito à vontade com voz e violão, sem clique, cantando uma música que aparentemente seria preterida, mas que na real não poderia ficar de fora do disco. Você que lê a gente sabe o quanto somos fissurados em uma metalinguagem. Liniker parou o andamento do disco para avisar, nele, que a seguir vem uma faixa bônus. É uma ideia muito boa de intimidade com seu fã. E acaba que sendo mesmo uma das músicas mais gostosas do álbum. Fora que faz esse fã se sentir parte daquilo. Que bom que ela fez esta no improviso, sem medo de desafinar, e não deixou de fora de “Indigo Borboleta Anil”.

5 – JOCA, Sain, Jonathan Ferr, BENO, Theo Zagrae – “Água Fresca” e “Sombra” (Estreia)
Forte o encontro dos rappers Joca e Sain com o pianista Jonathan Ferr e a produça de Beno e Theo Zagrae. Ao pensar em sombra e água fresca, uma combinação dez, a sacada é que quando elas operam em separado a sombra ganha novo sentido. As duas músicas, então, funcionam como uma só. Sacada esperta.

6 – Fresno e Jup do Bairro – “E Veja Só” (Estreia)
Jup do Bairro em um som da Fresno é aquele meme do “começo do sonho/deu tudo certo”. Ela já tinha deixado todas as dicas que ama a banda por aí, em covers e vídeo. Esse excelente feat está dentro do projeto INVentário, a novidade da Fresno que já detalhamos em um papo com a banda, veja aqui.

7 – brvnks – “happy together” (Estreia)
Que saudade que a gente estava da brvnks. E, neste novo single, a delicada “hapyy together”, ela acena com muuuuuitas mudanças e promete um novo álbum direcionando sua guitarra a algo mais pop. Queremos.

6 – Vanguart – “Lá Está” (Estreia)
Agora um trio, o Vanguart abriu espaço para Fernanda Kostchak, violinista da banda há quase dez anos, arriscar uma composição e vocal, até aqui (quase) sempre divididos apenas por Hélio Flanders e Reginaldo Lincoln. Saldo: queremos saber mais desse lado da Fernanda que a gente não conhecia. Escutar sua voz no álbum foi uma boa surpresa. Das coisas boas de ouvir um disco sem spoiler – ou você acha que disco não tem spoiler?

9 – Papisa e Haēma – “Fortuna” (Estreia)
Muito bonita a parceria da Papisa com a dupla portuguesa Haēma, formada por Susana Nunes e Diana Cangueiro. Essa união veio da proposta do pesquisador musical português André Gomes, interessado em juntar artistas dos dois países. Como Papisa contou para nossos parceiros do “Scream & Yell”, a música “tem um pouco de caos e incômodo e a sensação de libertação do que nos aprisiona, indo mais pro centro das coisas, pro que é essencial”.

10 – Luana Flores – “Lampejo da Encruza” (2)
Em “Nordeste Futurista”, Luana, que é da Paraíba, chega arrepiando em propor muitas conexões sonoras de ritmos da região com a música eletrônica. Melhor que o verbo “propor”, dá para dizer que Luana realiza com sucesso tipo uma cientista essa mistura para conseguir construir algo novo. Um diálogo criativo em ritmo, sons e na letras, que abordam a questão LGBTQI+.

11 – Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo – “Fora do Meu Quarto” (3)
12 – Juçara Marçal – “Crash” (4)
13 – Cesar MC – “Antes Que a Bala Perdida Me Ache” (5)
14 – Alice Caymmi – “Serpente” (6)
15 – Coruja BC1 – “Tarot” (7)
16 – Curumin – “Púrpuras” (8)
17 – Nelson D – “Toy Boy” (9)
18 – Rei Lacoste – “Tutorial de Como Ser Amador” (10)
19 – Valciãn Calixto – “Exu Não É Diabo (Èsù Is Not Satan)” (11)
20 – Isabel Lenza – “Eu Sou o Meu Lugar” (12)
21 – Luedji Luna e Zudzilla – “Ameixa” (13)
22 – Bebé – “Sinais Elétricos na Carne” (14)
23 – Marina Sena – “Me Toca” (15)
24 – Majur – Ogunté (16)
25 – Tasha e Tracie – “Lui Lui” (18)
26 – Papangu – “Ave-Bala” (19)
27 – Sebastianismos – “Se Nem Deus Agrada Todo Mundo Muito Menos Eu” (20)
28 – Autoramas + Dead Fish – “Sem Tempo” (21)
29 – Guilherme Arantes – “A Desordem dos Templários” (23)
30 – GIO – “Sangue Negro” (24)
31 – Linn Da Quebrada – “I míssil” (26)
32 – Rodrigo Amarante – “Maré” (27)
33 – Criolo – “Fellini” (28)
34 – Amaro Freitas – “Sankofa” (29)
35 – Pabllo Vittar – “Não É Papel de Homem” (30)
36 – Edgar – “A Procissão dos Clones” (32)
37 – Tuyo – “Toda Vez Que Eu Chego em Casa” (33)
38 – Jadsa – “Mergulho” (35)
39 – FEBEM – “Crime” (42)
40 – Rodrigo Brandão – “O Sol da Meia-Noite” (21)
41 – Aquino e a Orquestra Invisível – “Os Prédios Cinzas e Brancos da Av. Maracanã” (43)
42 – Boogarins – “Supernova” (44)
43 – BaianaSystem – “Brasiliana” (45)
44 – Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo – “Delícia/Lúxuria” (46)
45 – Jota Ghetto – “Vagabounce” (47)
46 – Mbé – “Aos Meus” (48)
47 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (49)
48 – LEALL – “Pedro Bala” (50)
49 – Lupe de Lupe – “Brasil Novo” (37)
50 – Tagore – “Capricorniana” (20)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, Caetano Veloso.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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Billie Eilish e sexo virtual são tópicos em novo single de Caetano sobre internet e algoritmos

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* De tempos em tempos, Caetano Veloso manda uma canção com pique de tese sobre algum assunto. Bossa nova, comunismo, violência, política. O pensamento crítico de Caetano está em suas canções.

Em “Anjos Tronchos”, primeiro single do seu novo álbum, “Meu Coco”, previsto para outubro, o alvo da tese são os algoritmos e a tecnologia que moldam o nosso mundo atual. Partindo do ponto de vista de uma pessoa que não é especialista no assunto, Caetano se arrisca pelo tema por diversas frentes em versos curtos, onde tem dar conta de quase tudo ao mesmo tempo – como é de seu estilo.

Na canção, lançada nesta sexta, vai do tom crítico aos donos do Vale do Sícilio (“Anjos já mi, ou bi, ou trilionários/ Comandam só seus mi, bi, trilhões”) até a potência violenta de um post (“Um post vil poderá matar/ Que é que pode ser salvação?”), ao passo que elogia fenômenos que só existem por conta da internet, seja na poesia (“Mas há poemas como jamais”) ou seja na Billie Eilish. Sim, ela mesma, Miss Eilish. (“E enquanto nós nos perguntamos do início/ Miss Eilish faz tudo do quarto com o irmão”).

Também passa pelo questionamento das mobilizações online (“Primavera Árabe, e logo o horror”) até a ascensão de líderes fascistas que aconteceu em parte pela internet (“Palhaços líderes brotaram macabros/ No império e nos seus vastos quintais”).

Em uma espécie de ponte da música, Caetano descreve uma relação sexual virtual. “Ah, morena bela, estás aqui/ Sem pele, tela a tela, estamos aí”. Os versos não revelam exatamente se Caetano aprova essa experiência, mas é interessante ve-lo tocar no assunto sabendo do seu interesse por sexo – tema sobre o qual escreveu longamente em “Verdade Tropical”. “O que importa é ter os caminhos para o sexo rico e intenso abertos dentro de si”, diz num verso.

E isso para ficar em interpretações rápidas sobre alguns dos assuntos contemplados na música. Logo as teses sobre a tese vão aparecer. Até porque nem chegamos na questão central da canção nova: algoritmos nos moldam ou moldamos eles?

Sonoramente, a produção em dupla de Caetano com o jovem Lucas Nunes dá jogo ao trazer a presença marcante do guitarrista Pedro Sá e um rápido momento percussivo tocado por Pretinho da Serrinha, um toque rápido que aparece quando Caetano relembra versos de “Alegria, Alegria”. Se isso adianta a sonoridade do álbum como um todo, é cedo para saber. Fato é que o longo silêncio de novidades do Caetano desde “Abraçaço” (2012), fora algumas poucas inéditas em projetos ao vivo ou de colegas, foi quebrado de maneira espetacular. Segue afiado.

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Pesquisador bota nas redes pôsteres criados para shows históricos de artistas brasileiros. De Cartola a Secos & Molhados. De Gil no exílio à Bossa Nova em NYC

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* A gente gosta muito deste tema: pôster de show. O diretor de arte publicitária Renan Valadares publicou em seu perfil no Twitter, o @renanvaladares, uma thread com seu trabalho de pesquisa de shows históricos envolvendo artistas e bandas famosas brasileiros, para imaginar seus pôsteres de divulgação.

De pôster do show do Cartola em 1978 até o do concerto de lançamento do lendário álbum “Acabou Chorare”, dos Novos Baianos, em 1972, em Salvador (né?), passando por Secos & Molhados no Maracanã-74, com historinha de cada um deles, só tem coisa linda, marcante, que vira emblemática nas mãos do diretor.

E, acompanhando cada cartaz, a história do show que ele ilustra.

Dá uma olhada abaixo na pesquisa criativa do Renan em dez pôsteres. A thread não acabou e ele promete mais pôsteres, à medida que vão aparecendo. Renan inclusive tem recheado seu Instagram com esses cartazes raros.

1. Jorge Ben e Trio Mocotó no Japão. 1972
O Trio Mocotó era a banda do Jorge Ben em excursões internacionais. Neste, do Japão, a marca Phillips patrocinou e resolveu registrar em disco, lançando-o apenas só no Japão. Pensa o quanto esse álbum ao vivo é raro hoje.

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2. Bossa Nova no Carnegie Hall em NY. 1962
Com “Chega de Saudade”, de João Gilberto, bombando nos EUA, a gravadora Audio Fidelity pegou a nova safra de artistas tipo Tom Jobim, Sérgio Mendes e outros e a levou para um show temático “Bossa Nova” no Carnegie Hall, em NYC. O resto é história.

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3. Único registro ao vivo do Cartola. 1978
Cartola lançou seu primeiro disco em 1974, aos 66 anos. Quatro anos depois tem-se o que seria seu primeiro registro e único ao vivo, divulgado com o cartaz abaixo, segundo a pesquisa de Renan Valadares.

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4. Caetano e Gil no último show antes do exílio em Londres. 1969
Último show da dupla, no auge, antes de partir para fora do país, para fugir de ameaças da ditadura militar. O show acabou gravado e acabou virando um disco de áudio ruim, mas um grande documento histórico.

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5. Lançamento do LP Elis & Tom em São Paulo. 1974
A história desse show é maravilhosa. Em 1974, Elis Regina completou dez anos de gravadora, a Philips, e ganhou de presente “o disco que quisesse fazer”. Pediu Tom Jobim como parceiro e juntos foram gravar em Los Angeles, com banda. Tom odiou aquela “eletricidade” toda dos instrumentos, mas acabou convencido. Virou um disco histórico e que vendeu bem. O pôster é do lançamento dele em SP.

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6. João Gilberto, Caetano Veloso e Gal Gosta na TV Tupi. 1971
A convite de João Gilberto, Caetano, exilado em Londres, escapou para o Brasil para um show armado em especial para a TV Tupi. Esse do cartaz abaixo. O encontro de baianos rendeu 1h30 de programa e até renderia um álbum, mas João Gilberto, perfeccionista, não gostou da qualidade da gravação. E barrou. Recentemente, o pesquisador Pedro Fontes encontrou esse especial em fita K7, restaurou seu áudio e botou na internet (@marginal_men).

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7. Show de lançamento de “Acabou Chorare” dos Novos Baianos em Salvador. 1972
Considerado um dos principais discos brasileiros de todos os tempos, foi apresentado de surpresa em Salvador, de 1972, tornando pública ali a nova fase da banda, que havia inserido rock, bandolim etc em seu samba. Até aquela apresentação, ninguém tinha pista disso.

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8. Primeira vez que Tim Maia apresentou uma música da fase Racional. 1974
Foi na inauguração do Teatro Bandeirantes que Tim Maia marcou sua virada religiosa, vestindo branco em shows e entrando em seita, o que renderia naquele momento de sua carreira os famosos dois volumes dos álbuns “Racional”. Nesse show, registrado no pôster abaixo, foi a primeira vez que ele tocou uma música dessa época.

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9. Gilberto Gil & Gal Costa em Londres. 1971
Durante seu exílio, Gil marcou um show na Universidade de Londres. Gal Costa, em visita na cidade, embarcou junto na apresentação, que foi gravada sem que os dois soubessem. Cerca de 40 anos depois, o pesquisador Marcelo Fróes encontrou as fitas e as transformou em disco, lançado em 2014.

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10. Secos & Molhados lotando um Maracanãzinho. 1974
O surpreendente fenômeno da música brasileira, de visual espalhafatoso e com o rock como guia, lançou seu primeiro disco em 1993 e, de shows em lugares menores, acabou no ano seguinte fazendo uma temporada no Maracanãzinho, com 50 mil pessoas em média para vê-los a cada show. Um destes virou disco.

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Popnotas – A linda música nova do Rincon Sapiência. Wolf Alice no palácio. Caetano fase inglesa. Royal f*cking Blood ao vivo. O disco do Joe Strummer. A mistura Pa Salieu e Mahali

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– Fizemos um post aqui hoje da banda Wolf Alice tocando no último programa do Jools Holland, na BBC inglesa, mas tiveram outras atrações de destaque. O galês veteraníssimo, conhecidíssimo e “Sir” Tom Jones foi a atração da noite para entrevista e uma palhinha conjunta com o condutor da bagaça, Jools Holland itself. Além dele e da banda da Ellie Rowsell, teve também a talvez grande aposta da música britânica para este ano, o especialíssimo rapper Pa Salieu (pronuncía-se “Salu”), 23 anos, inglês de Coventry com ascendência ligada à Gâmbia e precursor do chamado “afroswing”. Tudo isso já falamos aqui. No Holland ele aparece acompanhado da ótima cantora Mahalia, atriz e cantora de mistura inglesa e jamaicana. Eles cantam “Energy”, a música que lançaram juntos há três meses e anda tocando muito nas rádios do Reino Unido. Olha que bonita esta dupla.

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– Clássico do blues, daquelas canções sem dono, “Junco Partner” é uma das paixões de Joe Strummer. Registrou ela em seus tempos de The 101ers, gravou ela no fundamental The Clash e tocava a canção ao vivo com os Mescaleros, a banda que acompanhava seu nome. A coletânea “Assembly”, que vai trazer as melhores gravações de seu período solo, conta uma versão inédita e acústica da canção. O disco só saí no fim do mês, mas “Junco Partner” já está por aí com direito até a um vídeo de animação.

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– Está no ar um papo com Caetano Veloso que rolou durante o 24º Cultura Inglesa Festival. A conversa com o poeta, escritor e compositor Felipe Franco Munhoz, aborda o exílio em Londres, a fase inglesa da discografia de Caetano e seu repertório em inglês. A conversa está disponível até o dia 28 de março. Vale acompanhar os 40 minutos dessa ideia. Quem quiser dar uma olhada nas outraS atrações do festival, só ir aqui.

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– A esperta dupla inglesa Royal Blood (foto na chamada da home) fez uma session à distância para a rádio indie WKQX, de Chicago, na quinta passada, para a série deles chamada “Thursday Live”, sempre convidando uma banda para tocar ao vivo lá (quando dava) ou mandar gravada (nos atuais dias). É ao vivo, via canal de Youtube da emissora, mas eles deixam depois para ver quando quiser. O Royal Blood, estupendos ao vivo, tocou por uns 20 minutos. Foram cinco músicas, entre elas os últimos singles “Trouble’s Coming” e “Lights Out”. Confere que vale a pena demais.

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Já ouviu a mais nova música do rapper Rincon Sapiência? Só nós achamos aqui a Música do Ano?

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