Em champions league:

Futebol é pop. Torcida do Liverpool resgata hino indie para homenagear o craque-fenômeno Salah

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* Daquelas coisas que só os ingleses sabem fazer, uma famosa canção pop britânica dos anos 90 foi revivida com força agora em 2018 e voltou às paradas por causa de uma arquibancada de futebol.

Neste sábado, se nada der errado (já explico), as TVs brasileiras sintonizadas na sensacional final do principal torneio de clubes do mundo, a Champions League europeia, devem emanar o som de um clássico indie de 1989 e relançado em 1991, a música “Sit Down”, da banda James, mas com uma letra diferente do maior hino da banda que um dia foi do tamanho do que o Oasis logo viria ser, mas o grunge do Nirvana veio e acabou com tudo.

Liverpool e Real Madrid jogam em Kiev, na Ucrânia, para ver quem é o clube soberano na Europa e que vai ganhar o direito de em dezembro disputar a final mundial contra o Palm… contra o campeão da Libertadores, que está sendo jogada.

E o Liverpool, de campanha brilhante, tem em seu time talvez hoje o jogador mais badalado do mundo, se você não contar aqui com os super-heróis da bola o fabuloso Cristiano Ronaldo (do adversário Real Madrid), o deus Messi e Neymar Júnior, aquele lá.

LIVERPOOL, ENGLAND - FEBRUARY 04:  Mohamed Salah of Liverpool celebrates after scoring his sides first goal during the Premier League match between Liverpool and Tottenham Hotspur at Anfield on February 4, 2018 in Liverpool, England.  (Photo by Clive Brunskill/Getty Images)

O craque do time inglês, no caso, é egípcio. Trata de Mohamed Salah, atacante de gols improváveis que não só levou o Liverpool à decisão mais importante do time nos últimos 11 anos como botou o Egito “milagrosamente” na Copa do Mundo deste ano, ao fazer um gol salvador, de pênalti, aos 50 minutos do segundo tempo nas eliminatórias africanas.

Este 2018 de Salah está um absurdo. Ele foi considerado o melhor jogador da Premier League, o campeonato inglês, virou o boleiro africano e do próprio Liverpool a ter o maior número de gols numa Champions League, entre outros recordes pessoais dentro do Liverpool e do futebol inglês.

Só que, para homenagear o craque Salah, a torcida do Liverpool resgatou a absurda “Sit Down”, do James.

Curiosamente “Sit Down” nunca foi primeiro lugar das paradas britânicas (chegou ao número 2), mas botou o James na condição de superbanda em 1991, quando foi relançada. No gigantesco Reading Festival de 1991, vi o James, uma das principais atrações do evento naquele ano, botar cerca de 70-80 mil pessoas para sentar e ouvir seu vocalista, Tim Both, entoar a canção.

A versão boleira em tributo ao “rei egípcio” Salah modifica o refrão de “Sit Down” para acomodar a reverência lírica “Mo Salah, Mo Salah, Mo Salah/ Running down the wing/ Salah, lah, lah, lah, lah/ Egyptian King”. “Running down the wing” é por sua exímia habilidade de atacar pelos flancos da defesa adversária.

O Youtube tem vídeo com a versão completa de “Sit Down”, com a musicalidade do James e a letra da torcida do Liverpool.

O tributo não só ganhou as arquibancadas como pubs por onde o Liverpool passa, foi ouvido bastante nesta semana nas ruas de Kiev e o próprio Salah já entoou “sua canção” em programa de entrevista na CNN.

Salah merece mesmo a honraria pop. Além dos fatos já citados, neste ano ele coleciona recordes e prêmios na Premier League, o campeonato inglês, onde se tornou o “Chuteira de Ouro” da última temporada, ao marcar 32 gols em 36 jogos.

Salah, 25 anos, começou relativamente tarde no futebol, em 2010, num time do Egito. Entre outros, jogou na Suíça, no Chelsea, no Roma, não com tanto brilho. Estourou agora em sua temporada de estreia no Liverpool.

É considerado na Inglaterra um contraponto ao brasileiro Neymar. Não dança, não usa brinco, não pinta o cabelo.

Seguidor do islamismo, deve entrar em campo hoje contra o Real Madrid em jejum, por causa do Ramadã, o mês sagrado do calendário muçulmano, em que os fieis não comem durante o dia, entre outras práticas.

O absurdo de onde o jogador chegou em tão pouco tempo pode ser medido pelo fato de o tradicionalíssimo e gigantesco British Museum fazer uma ação ousada para os padrões britânicos que é botar um par de chuteiras de Salah expostos na ala egípcia do museu, à frente de uma esfinge e perto de múmias e estátuas do Egito ancião. O novo “rei” representa o Egito moderno.

Fora a recente versão de “Sit Down”, a torcida do Liverpool já possui, desde os anos 60, talvez a música de estádio mais famosa do mundo. É “You’ll Never Walk Alone”, que nasceu em um musical de teatro inglês, foi para um filme americano e acabou nas paradas de sucesso da Inglaterra na versão da bastante conhecida banda Gerry and the Pacemakers, companheira de cena dos Beatles.

“Sit Down” vem ajudando a manter a carreira do James viva. Depois de aparecer ao longo dos anos em coletâneas e versões remixadas, o clássico indie foi usado em 2017 na peça promocional da sétima temporada da série “Game of Thrones”.

O James, muito por causa de “Sit Down” e graças um pouco ao “momento Salah”, está em plena turnê inglesa e se apresenta no final de junho no Rock in Rio Lisboa.

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Futebol é pop. Torcida nos EUA xinga O PAI do juiz, não a mãe

* Popload em Seattle.

Dá licença de eu abrir um espaço neste arrendamento pop para falar de futebol. Porque futebol é pop, nosso lema. Taí o game Fifa 2012, as propagandas da Umbro na Inglaterra etc. que não me deixa mentir.

Daí ontem fui num jogo de futebol americano. Mas não o futebol americano, entende? O soccer, que no Brasil é o “esporte das multidões” e aqui é um esporte indie, haha. Escrevi sobre isso na “Folha” na terça passada, mas não sei se entenderam o conceito “indie” no caderno de Esporte, hahaha.

Enfim, aí pintou a chance de eu ir ver o time local, o Seattle Sounders, jogar contra o Herediano pela CHAMPIONS LEAGUE. Mas a Champions League aqui da América do Norte, que inclui times da América Central e Caribe. É a Libertadores deles. O Herediano é da Costa Rica.

Mas aconteceram algumas coisas legais, que eu não esperava. Ou esperava um pouco, não tanto. São elas:

1. Eles xingam o PAI do juiz: Hahahaha. Nos EUA, diferentemente do Brasil, a rainha do lar é poupada na hora de descarregar a raiva pelo erro de arbitragem (que erra sempre contra o nosso time, quase nunca com os outros?). Na verdade é assim: tem três musiquinhas “contra” o juiz “ladrão”. Eles xingam o pai do juiz em DUAS ocasiões. Uma eu não lembro a letra, mas o progenitor era impiedosamente massacrado na linha “seu pai é estúpido, então naturalmente você também é”. Numa outra, mais legal, ele é citado, é parte integrante da melhor parte da canção, mas na verdade o objeto do xingamento nem é ele diretamente. E, numa projeção que o torcedor na hora do ódio com certeza não faz, as palavras bonitas são direcionadas à família toda. A letra é assim: “Who’s your father, who’s your father, who’s your faaaaather, referee? Haven’t got one, never had one. You’re a BASTARD, referee”.

Opa, peraí. Siiiiim, nessa eles estão xingando A MÃE. Num american way, hahaha.

2. Você deve ter percebido. Eu fiquei no meio de uma torcida ORGANIZADA de um time de futebol nos EUA. Dá para imaginar? Fiquei no meio da Emerald City Supporters, ECS, tipo a Mancha Verde ou Gaviões da Fiel do Seattle Sounders. Entrei no miolo, viram fácil que eu não era dali e uma menina simpática se aproximou. Me entregou um flyer com musiquinhas para cantar. Se eu estava ali naquele setor, no meio deles, atrás do gol, era para cantar tudo, toda hora, sem parar. Me avisou ainda que minha visão do jogo podia ser obstruída por braços para o alto e bandeiras. E que eu não podia sentar.

3. Eles não poupam jogadores do time adversário que se machucam durante o jogo. Os médicos entram para socorrer o cara aos gritos “LET HIM DIE, LET HIM DIE, LET HIM DIE”.

4. Mania bem brasileira, o lance em que o jogador finge uma falta e cai fazendo teatrinho também não é apreciado. Canção neles: “You dirty diving bastard”, pausada e bem musical, sendo que “to dive” em inglês é “mergulhar”, ecooooooooooooooa no estádio para saudar o “ator”. 80% dos craques do Brasileirão não teriam vida fácil nos EUA. Além do que, pelo que eu entendi, a MLS, a liga organizadora do futebol (soccer) daqui, pune os fingidos depois, analisando em vídeo as faltas contestadas pelo adversário.

5. Palavrão é evitado nas cantorias. Me falaram isso e realmente. Nada de um banal “fucking” eu ouvi. No máximo, é “bastard”, mesmo. O aspecto violento, típico de torcida organizada mais, hum, profissional, é às vezes sentido. Numa das músicas que não falam que “O céu é azul e o Sounders é verde” diz o “incendiar, destruir, trucidar e matar” a que a gente está acostumado:

“We came to drink, we came to sing whoa whoa…
Burn destroy wreck and kill whoa, whoa
Burn destroy wreck and kill
Seattle Sounders surely will!”

6. Vou botar um vídeo de gritos de “Hey” e palmas que eles fazem quando o time entra em campo. Parece bobo e talvez não dê sentido pelo vídeo, mas o eco que faz no estádio, ali ao vivo, é incrível.

PS1: Tinha 10 mil pessoas vendo Sounders e Heridiano. Eles parecem não ligar muito para este torneio internacional, pelo menos nessa fase inicia. A média de público do time, no campeonato nacional americano, no entanto, é de mais de 36 mil pessoas. Maior que a do Corinthians, no Brasileiro atual, o primeiro do nosso ranking de mais prestigiados.
PS2: O jogo acabou 1 a 0 pro time da Costa Rica. Dei azar para o Sounders, haha.