Em chapeu de palha:

Top 50 da CENA – Racionais e Elza Soares empatam na primeira colocação. Inédito? Carlos do Complexo chega bonito na cola

1 - cenatopo19

* Que tal inventar uma moda e premiar duas canções com o primeiro lugar? É que a gente foi pego de surpresa nesta semana. Primeiro na live, filme, musical dos Racionais. Segundo, com o disco da Elza Soares ao lado do violinista João de Aquino, uma joia dos anos 90 resgatada em 2021. Não teve jeito de honrar só um deles com o primeiro lugar. Proclamamos um empate técnico.

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1 – Racionais com Paulo Galo – “Vida Loka, Pt. 2” (Estreia)
Na impressionante live que fizeram nesta semana, quase um musical com diferentes atos, os Racionais convidaram Paulo Galo, um dos principais militantes na luta contra a precarização do trabalho e uberização, para cantar a abertura de “Vida Loka, Pt. 2”. Galo, que também se aventura pelo rap, chegou com presença: de moto, lógico. Como acontece com todas as participações especiais nos Racionais, está longe de ser um “feat.”. Se você colou com os Racionais em um som, você é dos Racionais.

1 – Elza Soares e João De Aquino – “Juventude Transviada” (Estreia)
Registro dos anos 90 que estava de canto, é absurda a interpretação que Elza e o violinista João de Aquino dão para o clássico de Luiz Melodia. Elza coloca na música uma citação a “O Lamento da Lavadeira”, de Monsueto Menezes. Em registro mais cru, parece que a voz de Elza transborda ainda mais emoção que de costume, muito bem apoiada pela interpretação de João, que conhece os caminhos do violão para que seu dó maior soe como dele e só dele.

2 – Carlos do Complexo – “Planeta-Espelho” (Estreia)
Difícil recomendar uma só do excelente “Torus”, novo trabalho do produtor carioca Carlos do Complexo. Não que as músicas não funcionem sozinhas, longe disso, mas é outra vibe escutar tudo do começo ao fim, até porque a produção foi pensada dessa maneira. Após a introdução de “Torus”, vamos de “On-line” até o som “Off-Life”. Na dúvida, sempre melhor escutar tudo. Agradece a gente depois, certo?

3 – Dora Morelenbaum – “Japão” (Estreia)
A gente falou mais cedo aqui do auê em torno do projeto Bala Desejo, que reúne Julia Mestre, Dora Morelenbaum, Zé Ibarra e Lucas Nunes. Enquanto eles não lançam nada em conjunto, vale ficar atento ao belo single solo de Dora, lançado há pouco tempo.

4 – Letrux – “We’re All Alone Together” (Estreia)
“Apesar de devotos do amor, também somos da solidão, e é muito bonito (e importante) entender o ponto de equilíbrio disso tudo dentro de uma relação”, escreve Letrux sobre o último single da série de canções perdidas que ela resolveu colocar para jogo. Tem uma clima meio Hole nesta música difícil de explicar. Será que a Letícia concorda?

5 – Mateus Aleluia – “Soluar” (1)
O novo disco de Mateus Aleluia, “Afrocanto das Nações”, é a primeira etapa de um grandioso projeto de pesquisa chamado “Nações do Candomblé”. A ideia básica é “registrar e reatar a herança afro musical do Brasil”. Nesse primeiro volume, a busca é pelo Reino do Daomé – Benin, Cachoeira e Salvador. “Buscamos os Voduns, nos curvamos a eles…”, diz o texto presente no museu virtual que acompanha o disco. Destacar apenas uma canção do álbum, com esta bonita “Soluar”, é pretensão demais – vale mais a experiência completa. Separe uma hora e meia e mergulhe.

6 – BK – “Cidade do Pecado” (2)
“Cidade Do Pecado” traz BK em parceria com o produtor JNXV$. A faixa-título apresenta um personagem em um relacionamento novo. Na conversa, as questões que a riqueza traz são levantadas pelo casal, em uma escrita cuidadosa na troca de vozes – vale escutar várias vezes para tentar entender quem diz o quê. Ainda que seja um EP, também vale escutar na íntegra e na ordem correta, pois as músicas desenvolvem uma história mais longa e que se conecta. Interessante. (Estreia)

7 – Alfamor – “Semente” (3)
O mais novo reggae rasgado da sempre politizada gaúcha-paulistana-baiana Alfamor é uma delícia. E contundente também. Traz uma luz de Jah sobre as mulheres, de diferentes territórios, etnias, idades, corpos e origens sociais. Propõe usar o amor como escudo protetor, diz a letra. O vídeo é muito bonito e representativo de tudo isso.

8/9 – Don L – “volta da vitória” e “favela venceu” (4/5)
No ano em que a nossa música mais falou de sonhos que possam mudar os dias tristes do Brasil, “Roteiro para Aïnouz Vol.2”, novo álbum de Don L, talvez seja o que reúne mais elementos não só de sonho, mas também de caminhos para essa luta e principalmente para quais são os objetivos dela. Tá ruim? Massa, mas e aí? O que colocar no lugar? E com o rapper cearense não tem ideia nublada ou vaga. O crime tem culpado e não é acidente. Don L sabe que o projeto do Brasil deu certo, uma vez que esse projeto envolve massacrar minorias, destruir terras e territórios, ciênca, culturas e muito mais. Sua meta? Derrotar o inimigo, sem concessões, sem conchavo. Se perder, já ganhou, porque lutou do lado certo. Se vier a vitória de uma construção do novo país, precisa só ajudar a apontar novos caminhos. Mais interessante ainda é que, na perspectiva apresentada no álbum, essa luta não será ganha lá no futuro. Ela já foi vencida: Don L conta a história a partir do dia seguinte. Parafraseando Emicida: “Se isso não te motivar a deixar de sonhar com um outro mundo, eu não sei mais o que pode te motivar, chapa”.

10 – Chapéu de Palha – “Elo” (6)
A dupla do Chapéu de Palha, formada por Giovanna Póvoas e Helder Cruz, conquistou a gente ao longo deste ano e traz agora toda sua doçura direto de Manaus em sua estreia em álbum, “Cais”. Para quem gosta de bonitas harmonias vocais, tranquilidade e violão, é tiro certo.

11 – Salvador da Rima, Felp 22 e DJ Cia – “Nike & Lacoste” (7)
12 – BADSISTA – “Bandida” (8)
13 – Aláfia – “Quintal” (9)
14 – Coruja BC1 – “Brasil Futurista” (10)
15 – Vieira – “Fluente” (participação Bixarte, A Fúria Negra, Benkes) (11)
16 – Thiago França – “O Futuro um Dia Volta” (12)
17 – Eliminadorzinho – “Verde” (13)
18 – Tainá – “Brilho” (14)
19 – Pluma – “Revisitar” (15)
20 – Céu – “Bim Bom” (16)
21 – FBC – “Se Tá Solteira” (17)
22 – Fresno – “Casa Assombrada” (18)
23 – Alessandra Leão – “Borda da Pele” (22)
24 – Rabo de Galo, DJ Ubunto e Luedji Luna – “Me Abraça e Me Beija” (24)
25 – Vandal – “BALAH IH FOGOH” (25)
27 – Taxidermia – “Taxidermia Punk” (27)
28 – Juçara Marçal – “Ladra” (28)
29 – Criolo – “Cleane” (29)
30 – Caetano Veloso – “Não Vou Deixar” (30)
31 – Marina Sena – “Pelejei” (31)
32 – Prettos – “Oyá/Sorriso Negro” (32)
33 – Liniker – “Mel” (33)
34 – Valciãn Calixto – “Exu Não É Diabo (Èsù Is Not Satan)” (34)
35 – Bebé – “Sinais Elétricos na Carne” (35)
36 – Tasha e Tracie – “Lui Lui” (36)
37 – GIO – “Sangue Negro” (37)
38 – Linn Da Quebrada – “I míssil” (38)
39 – Rodrigo Amarante – “Maré” (39)
40 – Amaro Freitas – “Sankofa” (40)
41 – Pabllo Vittar – “Não É Papel de Homem” (41)
42 – Edgar – “A Procissão dos Clones” (42)
43 – Tuyo – “Toda Vez Que Eu Chego em Casa” (43)
44 – Jadsa – “Mergulho” (44)
45 – FEBEM – “Crime” (45)
46 – Boogarins – “Supernova” (46)
47 – Mbé – “Aos Meus” (47)
48 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (48)
49 – LEALL – “Pedro Bala” (49)
50 – Lupe de Lupe – “Brasil Novo” (50)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, o rapper Mano Brown, dos Racionais.
*** Este ranking é formulado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix, talvez o maior estudioso da nossa CENA. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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Top 50 da CENA – Mateus Aleluia traz as nações ao primeiro lugar. BK traz suas histórias ao segundo. E Alfamor vem com um reggae gigante fechar o pódio

1 - cenatopo19

* Assim como na gringa, a CENA nacional começa a desacelerar os lançamentos. A não ser que alguém meta o louco de tentar um disco ou single do ano este mês, uma estratégia ousada, é difícil imaginar que apareçam muito mais novidades. Ainda assim, temos bons lançamentos de quem aproveitou este finzinho de ano para chegar firme.

mateustopquadrada

1 – Mateus Aleluia – “Soluar” (Estreia)
O novo disco de Mateus Aleluia, “Afrocanto das Nações”, é a primeira etapa de um grandioso projeto de pesquisa chamado “Nações do Candomblé”. A ideia básica é “registrar e reatar a herança afro musical do Brasil”. Nesse primeiro volume, a busca é pelo Reino do Daomé – Benin, Cachoeira e Salvador. “Buscamos os Voduns, nos curvamos a eles…”, diz o texto presente no museu virtual que acompanha o disco. Destacar apenas uma canção do álbum, com esta bonita “Soluar”, é pretensão demais – vale mais a experiência completa. Separe uma hora e meia e mergulhe.

2 – BK – “Cidade do Pecado” (Estreia)
“Cidade Do Pecado” traz BK em parceria com o produtor JNXV$. A faixa-título apresenta um personagem em um relacionamento novo. Na conversa, as questões que a riqueza traz são levantadas pelo casal, em uma escrita cuidadosa na troca de vozes – vale escutar várias vezes para tentar entender quem diz o quê. Ainda que seja um EP, também vale escutar na íntegra e na ordem correta, pois as músicas desenvolvem uma história mais longa e que se conecta. Interessante. (Estreia)

3 – Alfamor – “Semente”
O mais novo reggae rasgado da sempre politizada gaúcha-paulistana-baiana Alfamor é uma delícia. E contundente também. Traz uma luz de Jah sobre as mulheres, de diferentes territórios, etnias, idades, corpos e origens sociais. Propõe usar o amor como escudo protetor, diz a letra. O vídeo é muito bonito e representativo de tudo isso.

4/5 – Don L – “volta da vitória” e “favela venceu” (1)
No ano em que a nossa música mais falou de sonhos que possam mudar os dias tristes do Brasil, “Roteiro para Aïnouz Vol.2”, novo álbum de Don L, talvez seja o que reúne mais elementos não só de sonho, mas também de caminhos para essa luta e principalmente para quais são os objetivos dela. Tá ruim? Massa, mas e aí? O que colocar no lugar? E com o rapper cearense não tem ideia nublada ou vaga. O crime tem culpado e não é acidente. Don L sabe que o projeto do Brasil deu certo, uma vez que esse projeto envolve massacrar minorias, destruir terras e territórios, ciênca, culturas e muito mais. Sua meta? Derrotar o inimigo, sem concessões, sem conchavo. Se perder, já ganhou, porque lutou do lado certo. Se vier a vitória de uma construção do novo país, precisa só ajudar a apontar novos caminhos. Mais interessante ainda é que, na perspectiva apresentada no álbum, essa luta não será ganha lá no futuro. Ela já foi vencida: Don L conta a história a partir do dia seguinte. Parafraseando Emicida: “Se isso não te motivar a deixar de sonhar com um outro mundo, eu não sei mais o que pode te motivar, chapa”.

6 – Chapéu de Palha – “Elo” (Estreia)
A dupla do Chapéu de Palha, formada por Giovanna Póvoas e Helder Cruz, conquistou a gente ao longo deste ano e traz agora toda sua doçura direto de Manaus em sua estreia em álbum, “Cais”. Para quem gosta de bonitas harmonias vocais, tranquilidade e violão, é tiro certo.

7 – Salvador da Rima, Felp 22 e DJ Cia – “Nike & Lacoste” (Estreia)
Dos nomes mais pesados da história do rap nacional, DJ Cia (RZO, Sabotage, Racionais) faz a cama sonora ideal para os jovens Salvador da Rima e Felp 22 brilharem em alta velocidade. Encontro de gerações de respeito.

8 – BADSISTA – “Bandida” (3)
Na revolução de Don L, só posso esperar que a balada do dia seguinte tenha um set madrugada adentro da Badsista. Se a produtora paulista quiser folgar no dia, algo muito justo, a gente coloca “Gueto Elegance”, seu primeiro álbum, para tocar por algumas horas. Que tal?

9 – Aláfia – “Quintal” (4)
A poderosa banda paulista Aláfia retoma as atividades após seu álbum lançado em 2019 e quebra este curto período sem novidades com um single que pode dar a pista dos próximos passos. “Quintal” tem tudo a ver com o tema das novidades desta edição. Nas palavras divulgadas pelo grupo, “a essência do quintal é ecossistema. A quintessência do quintal é o requinte da convivência”.

10 – Coruja BC1 – “Brasil Futurista” (5)
Uma das coisas mais interessantes do novo álbum do Coruja BC1 é que ele investiu em formatos diferentes para suas canções. Em muitas músicas, fica o destaque para estrofes mais curtas, com pique de refrão, e um forte investimento em refrões, pré-refrões, que deixam o álbum na mente de cara. Tudo isso sem enfraquecer a ideia, lógico. Não é porque tem menos texto que tem menos texto, sacou? E isso rola na potente “Brasil Futurista”. “O seu Brasil futurista/ Vive na idade média/ Fazendo média com comédia.”

11 – Vieira – “Fluente” (participação Bixarte, A Fúria Negra, Benkes) (6)
12 – Thiago França – “O Futuro um Dia Volta” (7)
13 – Eliminadorzinho – “Verde” (8)
14 – Tainá – “Brilho” (9)
15 – Pluma – “Revisitar” (10)
16 – Céu – “Bim Bom” (11)
17 – FBC – “Se Tá Solteira” (12)
18 – Fresno – “Casa Assombrada” (13)
19 – Luiza Brina, Sara Não Tem Nome e Julia Branco – “Exausta” (16)
20 – Vuto – “22 a Queima Roupa” (17)
21 – Gab Ferreira – “Karma” (18)
22 – Alessandra Leão – “Borda da Pele” (20)
23 – brvnks – “as coisas mudam” (21)
24 – Rabo de Galo, DJ Ubunto e Luedji Luna – “Me Abraça e Me Beija” (22)
25 – Vandal – “BALAH IH FOGOH” (24)
26 – Alice Caymmi – “Serpente” (25)
27 – Taxidermia – “Taxidermia Punk” (26)
28 – Juçara Marçal – “Ladra” (27)
29 – Criolo – “Cleane” (28)
30 – Caetano Veloso – “Não Vou Deixar” (29)
31 – Marina Sena – “Pelejei” (30)
32 – Prettos – “Oyá/Sorriso Negro” (31)
33 – Liniker – “Mel” (32)
34 – Valciãn Calixto – “Exu Não É Diabo (Èsù Is Not Satan)” (34)
35 – Bebé – “Sinais Elétricos na Carne” (35)
36 – Tasha e Tracie – “Lui Lui” (36)
37 – GIO – “Sangue Negro” (37)
38 – Linn Da Quebrada – “I míssil” (38)
39 – Rodrigo Amarante – “Maré” (39)
40 – Amaro Freitas – “Sankofa” (40)
41 – Pabllo Vittar – “Não É Papel de Homem” (41)
42 – Edgar – “A Procissão dos Clones” (42)
43 – Tuyo – “Toda Vez Que Eu Chego em Casa” (43)
44 – Jadsa – “Mergulho” (44)
45 – FEBEM – “Crime” (45)
46 – Boogarins – “Supernova” (46)
47 – Mbé – “Aos Meus” (47)
48 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (48)
49 – LEALL – “Pedro Bala” (49)
50 – Lupe de Lupe – “Brasil Novo” (50)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, o músico Mateus Aleluia.
*** Este ranking é formulado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix, talvez o maior estudioso da nossa CENA. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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Top 50 da CENA – O topo da nova música é da velha geração. Jards Macalé, João Donato e Caetano Veloso mandam no ranking

1 - cenatopo19

* Quando a gente fala da potência da CENA brasileira e suas novidades parece que estamos falando só de artistas novos. Não é bem assim, claro. Nossos artistas mais velhos estão sempre mostrando o quanto ainda têm a apresentar e principalmente o quanto é preciso prestar atenção no que eles estão dizendo, do alto de sua sabedoria. Essa enorme força está provada nos novos lançamentos de João Donato, Jards Macalé e Caetano Veloso. Trabalhos de músicas inéditas, sobre o hoje. Fortes e presentes.

E, enquanto escrevíamos este Top 50, veio a notícia do falecimento do músico Letieres Leite, um dos maiores. Arranjador e instrumentista, Letieres é fundador da Orkestra Rumpilezz e tem a mão em obras de Hermeto Pascoal, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Timbalada, Paulo Moura, Ivete Sangalo, Maria Bethânia, Naná Vasconcelos, Daniela Mercury, Olodum – a lista é enorme. Gigante. É dele uma importante lição sobre música brasileira trazida em uma faixa de Zé Manoel: “Toda música brasileira é afro-brasileira”. R.i.p.

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1 – João Donato e Jards Macalé – “Côco Táxi” (Estreia)
Nus já na capa. E que capa. Jards e João. João e Jards. Juntos. Pela primeira vez. Em músicas inéditas, essa parceria de homens de diferentes gerações parece que sempre existiu. É uma sensação que bate de cara: “Jards e João? Escutei tudo”, como se já existissem vários álbuns da dupla. Tudo soa natural, belo e pronto por aqui. É a habilidade dos dois mestres. “Côco Táxi”, por exemplo, é um veículo cubano que ambos usaram em diferentes momentos da vida em visitas a Cuba. É a metáfora perfeita para o álbum.

2 – Caetano Veloso – “Não Vou Deixar” (Estreia)
Um beat de rap, modernoso, com interlúdio experimental e tudo. É assim que se apresenta “Não Vou Deixar”. O recado de Caetano aqui pode ter múltiplos alvos. Um Relacionamento? O Bolsonarismo? A gente entendeu que talvez o recado mesmo seja para o neoliberalismo e sua energia de querer derrubar toda a potência do Brasil. Essa vontade de ser norte-americano que existe por aí. Caetano acredita ao longo de “Meu Coco”, seu novo álbum, que a saída de salvação do mundo é brasileira. E isso vem da superação definitiva da tragédia da colonização, que ainda se reproduz na atualidade em forma da desigualdade e do racismo. Violências que impedem o Brasil de cumprir seu destino de salvar o mundo.

3 – Rabo de Galo, DJ Ubunto e Luedji Luna – “Me Abraça e Me Beija” (Estreia)
O duo Rabo de Galo (formado por Peu Araujo e Bruno Komodo) e o DJ Ubunto vai regrar o álbum “Atrás do Pôr do Sol” (1988) de Lazzo Matumbi, artista de Salvador e uma das vozes mais importantes da cidade. O primeiro single deste trabalho traz duas regravações de oito, tem a clássica “Me Abraça e Me Beija”, com participação de Luedji Luna no voz. A ideia de retrabalhar um álbum quase perdido na história da música brasileira, ausente no Spotify, por exemplo, tem essa missão de resolver essa injustiça. Vamos escutar “Atrás do Por do Sol”?

4 – Stefanie e Gigante no Mic – “Coroa de Flores” (Estreia)
Rapper de longa estrada, ainda que com trabalho solo recente, Stefanie chega muito bem ao lado do companheiro em uma homenagem as vítimas da Covid. Ambos tiveram perdas pessoais na pandemia e a música fala disso, mas também fala das perdas de todos. Na segunda metade, quando o beat fica mais pesado, o recado passa a ser aos que ainda estão por aqui e que estão dando bobeira, um alerta sobre.

5 – Vandal – “BALAH IH FOGOH” (Estreia)
Das mais conhecidas do rapper de Salvador, “BALAH IH FOGOH” ganhou até uma releitura pesada na mão do BaianaSystem. Ainda há novas rimas de Djonga, além do próprio Vandal acelerando o flow original na sua parte. “Só quero minha moeda, nada deles.” Aliás, Vandal acabou de soltar uma nova mixtape que merece sua atenção. Se liga.

6 – Pluma – “Transbordar” (Estreia)
A banda paulista Pluma segue produzindo músicas deliciosas em clima meio pop, meio quase jazz e experimental. “Transbordar”, por exemplo, chega a “travar” a ponto de deixar você noiado se é o seu computador que está com algum problema. Quem diria que um TCC, motivo que uniu a banda, daria tão certo.

7 – Chapéu de Palha – “Domingo” (Estreia)
O duo Giovanna Póvoas e Helder Cruz, de Manaus, faz um pop delicado e bonito. Daquele que tenta te tirar do agito e da loucura e te colocar num lugar bom, como um bom “Domingo”.

8 – Francisco, El Hombre – “Loucura” (Estreia)
“A melhor cura é uma boa loucura”, canta a banda na abertura de seu novo álbum, “Casa Francisco”. “Loucura” é sobre ter coragem de se arriscar, de se jogar no mundo. É a única forma de ver se a gente consegue fazer o que sonha. Não é um processo sem dor, às vezes alguém tem que te dar um empurrão, te assusta e aí você descobre que é capaz de ser melhor, de ser o que é.

9 – Johnny Hooker – “Amante de Alguel” (Estreia)
Sabe aquele brega que nasce com cara de clássico? Johnny consegue isso com seu novo single, “Amante de Aluguel”, que é daquelas que na primeira repetição você já saí cantando. Que poder.

10 – Don L – “Na Batida da Procura Perfeita” (1)
Tem um verso antigo do Don L que avisa: “Faz da vida um filme próprio, não um filme antigo”. Fazer o próprio filme é uma tarefa árdua. Se você tentar terá sorte se só te chamarem de maluco. Simbólico que “Você não queria um filme diferente?” seja a frase que abre sua nova música, esta aqui. No filme próprio que constrói, Don começa a dar conta de que perceber o que há de errado no mundo é bem diferente de mudar o que há de errado no mundo. Nessa distância entre reflexão e ação cabe um milhão de coisas. E nesse caminho Don já topou com as contradições (“Eu sou comunista e curto carros”), com o cansaço (“Uma luta contra o mundo/ Pra fazer parte do mundo que cê luta contra”), o tema da vez é a procura pelo que se quer de fato. Ou uma redefinição de metas e objetivos. Ricos? Imagina a gente livre, ele pondera. Temos aqui uma música que toca na questão da terra como luta primordial ao lembrar o mito guarani da busca por uma terra sem males (“Yvy Marã”). A senha é a palavra “busca”. E mais: mal não é algo abstrato, mas engloba criações dos homens brancos que massacraram a população indígena. A invenção da propriedade privada é um desses males, para ficar em um só problema. Sonhar por um filme diferente é parte essencial de conseguir armar esse filme diferente. E é uma questão que escapa ainda para muita gente, que tem deixado de sonhar, como se no máximo desse para dar uma melhorada em um roteiro ruim. Cadê nossa criatividade? E se tá ruim, massa, todo mundo entendeu, mas que filme diferente é esse? Don deu sua sugestão.

11 – Céu – “Chega Mais” (2)
12 – Alice Caymmi – “Serpente” (3)
13 – Juçara Marçal – “Ladra” (4)
14 – Criolo – “Cleane” (5)
15 – Coruja Bc1 e Salgadinho – “Bolhas” (6)
16 – Sant – “Prantos” (7)
17 – Francisco, El Hombre – “Solo Muere El Que Se Olvida” (8)
18 – Marina Sena – “Pelejei” (9)
19 – Felipe S – “Violento Monumento” (10)
20 – Terno Rei e Samuel Rosa – “Resposta” (11)
21 – Taxidermia – “Lava” (12)
22 – The Baggios – “Barra Pesada” (13)
23 – Tagore – “Maya” (17)
24 – Caetano Veloso – “Anjos Tronchos” (18)
25 – Marissol Mwaba – “Marte” (19)
26 – Prettos – “Oyá/Sorriso Negro” (20)
27 – Liniker – “Mel” (21)
28 – Luana Flores – “Lampejo da Encruza” (24)
29 – Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo – “Fora do Meu Quarto” (25)
30 – Rei Lacoste – “Tutorial de Como Ser Amador” (26)
31 – Valciãn Calixto – “Exu Não É Diabo (Èsù Is Not Satan)” (27)
32 – Bebé – “Sinais Elétricos na Carne” (28)
33 – Majur – Ogunté (29)
34 – Tasha e Tracie – “Lui Lui” (30)
35 – GIO – “Sangue Negro” (33)
36 – Linn Da Quebrada – “I míssil” (34)
37 – Rodrigo Amarante – “Maré” (35)
38 – Amaro Freitas – “Sankofa” (36)
39 – Pabllo Vittar – “Não É Papel de Homem” (37)
40 – Edgar – “A Procissão dos Clones” (38)
41 – Tuyo – “Toda Vez Que Eu Chego em Casa” (39)
42 – Jadsa – “Mergulho” (40)
43 – FEBEM – “Crime” (41)
44 – Boogarins – “Supernova” (44)
45 – JOCA, Sain, Jonathan Ferr, BENO, Theo Zagrae – “Água Fresca” (19)
46 – Jota Ghetto – “Vagabounce” (46)
47 – Mbé – “Aos Meus” (47)
48 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (48)
49 – LEALL – “Pedro Bala” (49)
50 – Lupe de Lupe – “Brasil Novo” (50)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a dupla João Donato e Jards Macalé.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.

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POPLOAD ENTREVISTA: Tem live nesta quinta com a dupla Chapéu de Palha, de Manaus

1 - cenatopo19

* Conhece o duo Chapéu de Palha? Estamos falando de Giovanna Póvoas e Helder Cruz, da cidade de Manaus, que desde 2019 levam esse projeto que começou com gravações amadoras jogadas no Soundcloud. Do trabalho caseiro aos estúdios mais profissionais, vem um pop harmônico e bonito de um encontro de violão com as vozes casadas de Giovana e Helder. De 2019 para cá, eles já acumulam singles e EPs que estão sendo bem tocados nas plataformas de streaming e preparam seu primeiro álbum.

Convidamos a dupla para o nosso Popload Entrevista para entender melhor esse rolê todo amazônico. A conversa rola ao vivo nesta quinta-feira, HOJE, a partir das 19h, na Popload TV, o nosso canal de YouTube. Como sempre, todo mundo está convidado para participar ativamente do papo.

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