Em charanga do frança:

Top 50 da CENA: Ninguém rela na Jadsa, em um inédito primeiro lugar repetido. E no alto ainda temos no ranking uma charanga, uma californiana e o melhor do não-Carnaval

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* Uma semana um pouco diferente por aqui e talvez seja pelos efeitos carnavalescos do feriado de não-Carnaval. Estamos confusos um pouco.
Para começar, repetimos nosso primeiro lugar da semana passada. Será que isso é inédito aqui? Não lembramos. Mas até vamos repetir a arte.
Falta de criatividade? Não mesmo. É que a Jadsa segue firme com a música mais relevante do momento na nossa humilde opinião. Você tem que escutar essa mina para já.

A outra questão é que estamos com menos novidades que o normal. Por causa da semana tão específica do calendário brasileiro, ainda que o que mais perto de Carnaval que chegamos foi o lançamento do documentário do Castor de Andrade, este é um período geralmente morno de novidades musicais fora do samba, das charangas, dos blocos. Ou estamos perdendo algo? Avisa a gente se pans.

Mas deu para compor bem, até, o top 10 dentro do Top 50. O que garante aquela playlist gostooooosa.

topjadsaquadrada

1 – Jadsa – “A Ginga do Nêgo” (1)
Há um quê de divino e de mântrico no primeiro single da guitarrista e cantora baiana Jadsa, “A Ginga do Nêgo”. Acredite quando ler que a música serve para “abrir caminhos” para o primeiro álbum da artista, “Olho de Vidro”, que sai no dia 26 de março. “A Ginga do Nêgo” é atravessada por uma guitarra cortante, evoca Exu, orixá da encruzilhada, o mensageiro da comunicação entre os vivos e as divindades, tem um baixo potente de Caio Terra e certamente deixaria orgulhoso Itamar Assumpção. Que musica gigante, embora com menos de dois minutos de duração.

2 – A Espetacular Charanga do França – “Cadê Rennan?” (Estreia)
Sem poder ir para a rua, A Espetacular Charanga do França aproveitou para soltar um disquinho novo onde tentaram sem sucesso escapar de um som carnavalesco. Esse “fracasso” está no nome do disco, “Nunca Não É Carnaval”. Acabou que o título ganhou significado duplo por conta da pandemia que persiste. Das boas músicas, vale muito esta homenagem a Rennan da Penha que se refere bastante ao funk de BH.

3 – Winter – “Violet Blue” (Estreia)
Se no Top 10 Gringo desta semana demos destaque ao Jevon, um inglês que é quase brasileiro, vamos dar atenção aqui para a Winter, projeto de Samira Winter, curitibana que vive na Califórnia, nos EUA – e é quase mais deles que nossa. É que a gente não deixa. “Violet Blue” é uma viagem deliciosa pela voz de Winter e por uma guitarra que parece se desintegrar e se recompor em uma distorção amalucada.

4 – Pluma – “Mais do Que Eu Sei Falar” (Estreia)
A gente já conversou por aqui sobre esse grupo novo e esperto que saiu de um TCC – todos estudavam produção e a banda extrapolou o curso. Tem este single deles aqui que deixamos passar em 2020, mas agora escutamos e amamos demais.

5 – Tagore – “Tatu” (2)
No ano passado, falamos aqui que o músico pernambucano Tagore preparava seu novo álbum, “Maya”. 2020 acabou e nada do disquinho. Mas agora parece que vai e eis “Tatu”, o primeiro single deste novo trabalho. Pelo inspirado refrão “Tatu, tá tudo muito louco”, você já tem um grau da viagem. Um som para aliviar as pressões do mundo ali de fora.

6 – Jamés Ventura – “Ser Humano” (3)
Experiente rapper da cena paulista, Jamés Ventura, que viu o movimento crescer de perto na rua, anda em seu melhor momento. Após lançar em 2019 o excelente “Espelho” e um EP no ano passado, agora ele já chega com dois singles que mantém o alto nível: “Ser Humano”, nossa escolha, e “Mentiras”. Procurem. Pode não ser o rapper mais badalado do momento, mas quem conhece do assunto sempre indica o som do cara.

7 – Jovem Dionísio – “Copacabana” (4)
Parece uma música que falava de uma certa praia de um outro estado brasileiro, mas é “apenas” a nova do Jovem Dionísio, banda curitibana que a gente sempre posta por aqui e que parece estar em grande fase. Um remix de sucesso de um som da banda colocou os caras com um milhão de ouvintes mensais no Spotify. Acha pouco perto dos grandalhões do pop brasileiro? Pois é um número quase irreal na CENA.

8 – Píncaro – “Leito de Migalhas” (5)
Projeto de Roger Valença, ex-integrante da banda Onagra Claudique. Impossível não ficar impactado de cara com a faixa que abre o álbum “Um Delírio Madrepérola”. Em seus cinco minutos e pouco, “Leite de Migalhas” arrepia pelos diferentes climas, pela bela voz de Roger e por um violão daqueles que você escuta a mão passando pelas cordas, sabe?

9 – Atalhos – “A Tentação do Fracasso” (6)
“Um ótimo dreampop veloz, de pegada oitentista.” Deste jeito que a gente elogiou o single anterior da dupla paulista com conexões argentinas Atalhos, formada pelo vocalista Gabriel Soares e pelo guitarrista Conrado Passarelli. A história se repete aqui em “A Tentação do Fracasso”. A letra que não entrega tanto assim sobre o que se canta é um playground para diferentes interpretações.

10 – Edgar – “Prêmio Nobel” (7)
A gente gosta de dar nossa opinião suuuuuperanalítica, mas aqui vale abrir espaço ao artista. Edgar escreveu um belo texto sobre sua nova composição e seu novo vídeo: “Imagine que o menino João e a menina Ágata poderiam muito bem terem ganhado um prêmio Nobel de literatura ou ciências, Marielle Franco um prêmio Nobel da paz. Diversas vidas que são arrancadas do seu destino todos os dias por uma necropolítica que nos extermina como se fôssemos presas fáceis. No filme “Bacurau” algumas pessoas se identificam com aquele Brasil distante e perto ao mesmo tempo. Só Jesus salva, e nesse filme ele vem armado com diversos inocentes que foram mortos pelas mãos do governo, para poder proteger os trabalhadores e estudantes que moram na favela. Em toda favela tem um prêmio Nobel. Que a polícia caça e mata.”

11 – Jup do Bairro – “O Corre” e “O Corre” (Bixurdia Remix) (8)
12 – BK – “Mudando o Jogo” (9)
13 – Antônio Neves e Ana Frango Elétrico – “Luz Negra” (10)
14 – BaianaSystem e BNegão – “Reza Forte” (11)
15 – Compositor Fantasma – “Pedestres Violentas” (12)
16 – Zé Manoel – “Saudade da Saudade” (13)
17 – Gustavo Bertoni e Apeles – “Ricochet” (14)
18 – Jair Naves – “Todo Meu Empenho” (15)
19 – Kamau – “Nada… De novo” (16)
20 – Letrux – “Dorme Com Essa (Delirei)” (17)
21 – MC Fioti – “Bum Bum Tam Tam” (18)
22 – Rincon Sapiência – “Tem Que Tá Veno” (Verso Livre) (19)
23 – MC Carol – “Levanta Mina” (20)
24 – Marrakesh – “To Comprehend” (21)
25 – Marabu – “Capítulo 5: Sereno” (22)
26 – Dom Pescoço – “Delicadinho” (23)
27 – Dizin – “Human Bomb (Explode)” (24)
28 – Criolo – “Fellini” (25)
29 – Linn da Quebrada – “quem soul eu” (26)
30 – Cambriana – “Induction Bread” (27)
31 – Maglore (feat. Josyara) – “Liberta” (28)
32 – Wry – “Absoluta Incerteza” (29)
33 – Rico Dalasam e Jup do Bairro – “Reflex” (30)
34 – YMA – “White Peacock” (31)
35 – Ana Frango Elétrico – “Mulher Homem Bicho” (32)
36 – Luedji Luna – “Chororô” (33)
37 – Black Alien – “Chuck Berry” (34)
38 – Vovô Bebê – “Bolha” (35)
39 – Sabotage e MC Hariel – “Monstro Invisível” (36)
40 – Emicida e Gilberto Gil – “É Tudo Pra Ontem” (37)
41 – Liniker – “Psiu” (38)
42 – Tuyo – “Sonho da Lay” (39)
43 – KL Jay – “Território Inimigo” (40)
44 – Boogarins – “Cães do Ódio” (44)
45 – Dexter, Djonga, Coruja BC1, KL Jay, Will – “Voz Ativa” (45)
46 – Mateus Aleluia – “Amarelou” (46)
47 – Valciãn Calixto – “Nunca Fomos Tão Adultos” (47)
48 – Negro Leo – “Tudo Foi Feito pra Gente Lacrar” (48)
49 – Don L – “Kelefeeling” (49)
50 – Mahmundi – “Nós De Fronte” (50)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a guitarrista baiana Jadsa.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

Vai ter Carnaval (mais ou menos): A Espetacular Charanga do França está na rua (virtual)

credito Rodrigo Fonseca 01

Segunda-feira de Carnaval é o dia em que A Espetacular Charanga do França vai às ruas. Neste ano não vai ser diferente. Mas não, eles não são iguais aos irresponsáveis que estão pulando por aí ignorando a pandemia. A celebração é virtual em diversos braços. Vamos começar pelo primeiro deles, o álbum “Nunca Não É Carnaval”, que está sendo lançado, veja você, nesta segunda de Carnaval.

O título pensando por Thiago França – o França da Charanga, do Metá Metá e arredores, como ele mesmo diz – até funciona para a situação que vivemos, este Carnaval sem Carnaval, mas não foi bem assim que ele foi pensado. Como a Charanga é tanto um bloco quanto uma banda que corre independente do bloco, Thiago pensou lá em 2019 em um disco que colocasse o grupo em uma outra pegada, que funcionasse em “outros palcos”, como ele escreve em um texto sobre o novo álbum. De alguma forma, escapar do Carnaval.

Acontece que durante a feitura do disco, Thiago percebeu: a missão deu errado. “Quando me dei conta, tudo que tinha até ali estava relacionado ao Carnaval de alguma forma, mesmo que não fosse do jeito mais direto e reto, literal, mas era esse Carnaval que a Charanga pegou para si, que não está cristalizado estático no tempo, é aberto a possibilidades, que se renova, incorpora e recria, ainda mais estando em São Paulo, caldeirão cultural, onde a gente absorve coisas que nem imagina. Carnaval aqui tem punk rock, Caetano Veloso, Rita Lee, toque de candomblé e até soundsystem”, escreve o músico.

Daí nasce o título do disquinho, que ia sair em 2020, mas acabou adiado pela pandemia, que ainda não sossegou um ano depois de seu início. “Nunca Não É Carnaval” tem releitura para “Oba Iná”, de Douglas Germano, e uma série de composições de Thiago que tomam por inspiração o funk de BH (“Cadê Rennan”), Gerônimo Santana (no ijexá-afoxé em homenagem a Ogum e Iemanjá “Megê”), pagode dos anos 90 (“Pedra 90”) e Ivete Sangalo com os arranjos do Letieres Leite (“Ladeira Véia”).

Outros braços da festa

Parte do “Festival Tô Me Guardando” promovido pela Prefeitura Municipal de São Paulo através da Secretaria Municipal de Cultura, Thiago apresenta dois episódios especiais sobre o Carnaval em seu podcast “Sabe Som?” nos dia 19 e 26 de fevereiro. O primeiro episódio é sobre o Carnaval de São Paulo com a participação de Guilherme Varela (Saia de Chita), Carlota Joaquina (Agora Vai) e Zé Cury (Me Lembra Que Eu Vou) e o segundo é sobre a história da Charanga. No dia 27 de fevereiro, às 15h, Thiago França dá uma aula sobre instrumentos de sopro em seu canal do YouTube. No mesmo canal, mas no dia seguinte, o bloco apresenta uma live com um repertório carnavalesco de marchinhas, releituras e o repertório do disco novo. Ainda no dia 28 rola uma intervenção artística pelo trajeto que o bloco faz na Santa Ceclília tocada pelo artista multidisciplinar curitibano Rimon Guimarães e o músico Kiko Dinucci.

* A imagem que ilustra este post é de Rodrigo Fonseca. A que está na home da Popload chamando este texto é de Alexandre Pereira.

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