Em daughters:

Alexis Marshall solo consegue ser mais noise que o Daughters. Saiu o álbum fora do comum “House of Lull . House of When”

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* Nesta sexta-feira, também conhecida como hoje, saiu um dos discos mais esperados do ano para uma certa galera, especialmente no que diz respeito a artistas solo dos EUA. Não, não é o disco da Billie Eilish. Não, não é o disco secreto do Kanye West. É exatamente do lado oposto de tudo isso, na cena americana.
Estamos falando, claro (!?), de “House of Lull . House of When”, de Alexis Marshall – o frontman da nossa queridinha banda de metal industrial experimental descontrol Daughters. Como já contamos em detalhe na nossa entrevista com o Alexis um tempo atrás, o seu primeiro trabalho solo estava gravado desde o ano passado, mas teve o lançamento adiado por conta da pandemia. Agora, com o álbum finalmente em plataformas de streaming, podemos confirmar: é tão bom e esquisito quanto o vocalista nos prometeu.

Primeiramente, devemos avisar que não é um disco do Daughters. Não espere riffs de guitarra. Nem melodias. Nem refrões memoráveis. Aliás, não espere nada – quanto menos você souber sobre o disco, melhor. Saiba que é um trabalho experimental e fora do comum. Durante dez faixas, Alexis Marshall criou uma atmosfera de pesadelo incomparável, cheio de percussões atípicas e vocais exagerados – um pouco mais extremos quando a multiinstrumentista absurda e gótica Língua Ignota contribui em algumas músicas, principalmente intensificando ainda mais a linha vocal de Marshall, aparecendo do nada nas músicas.

Vale a pena uma audição de mente aberta.

Para sentir um pouco do álbum, destacamos dois vídeos excelentes que já saíram para singles deste disco, das músicas “Open Mouth” e “Hounds in the Abyss”.

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POPLOAD ENTREVISTA: Alexis Marshall, do Daughters, se aventura solo. E fala de Neil Young, Greta Van Fleet…

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* No fim do ano passado, Alexis Marshall, vocalista do incrível e nada simples grupo americano Daughters, dono de um dos melhores e mais barulhentos discos da década passada, estava para lançar seu primeiro trabalho solo. Ou, pelo menos, era isso que achávamos. Marcamos uma entrevista para conversar sobre o projeto e a possibilidade de novas músicas noise rock do cultuado Daughters. Aí, 2021 avisou que seria uma reprise de 2020, e lançamentos musicais de todo tipo foram adiados. Ficamos com a entrevista engavetada, aguardando um momento apropriado para postá-la aqui – e parece que ele chegou.

Há poucos dias, Marshall lançou o single “Hounds in the Abyss”, primeira amostra de seu álbum solo, “House of Lull . House of When”, que sai em 23 de julho. A faixa vem acompanhada de um vídeo estiloso em P&B.

Tendo em vista que finalmente temos uma data de lançamento, postamos aqui a conversa do poploader Fernando Scoczynski Filho com Alexis Marshall, que fala sobre o disco novo, trabalhos futuros, Neil Young, Greta Van Fleet e um monte de outras coisas.

Abaixo, a entrevista transcrita e editada. Depois dela, o papo em vídeo, na íntegra.

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– Entrevista – Alexis Marshall (Daughters)
por Fernando Scoczynski Filho

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Popload – Você tem saído de casa e interagido, ou está isolado?
Alexis Marshall –
Temos passado a maior parte do tempo sozinhos, moro na Pensilvânia. É meio entediante, mas tem bastante natureza aqui. Gosto de sair para caminhar aqui, e vejo meus filhos de vez em quando. Subi para gravar no estúdio algumas vezes, mas estou tentando minimizar o contato com pessoas.

Popload – E você adquiriu alguma nova habilidade neste tempo de isolamento?
Marshall –
Não [risos]. Bem que eu gostaria de ter aprendido algo, mas não aprendi. É um tempo esquisito, não parece que há tanto tempo livre para descobrir algo útil. Só tenho reflexões sombrias, tento passar pelos dias. O ano foi meio que apagado, como músico, ou artista. Eu tinha coisas para fazer, shows para tocar, e essas coisas sumiram. Há um medo que vem com a incerteza. As coisas voltarão a serem o que eram?

Popload – E quanto à renda financeira que você esperava ter enquanto artista em 2020?
Marshall –
Bem, basicamente estou usando o dinheiro que tinha economizado. Acabei de lançar um livro de poesia, então isso já é algo. Mas parece que as pessoas… tem o Bandcamp Days. As pessoas estão tentando achar uma forma de ganhar dinheiro. Meus royalties são minúsculos [risos].

Popload – Eu sigo o Geoff Barrow, do Portishead, no Twitter, e ele dá bons exemplos do tanto que artistas ganham no Spotify. Tipo, em um mês dá para ganhar o suficiente para comprar um pão.
Marshall –
É frustrante, mas com o que o Geoff Barrow está preocupado? Ele é do Portishead. E ele também faz um monte de produção de discos. Sei lá. Não tenho problemas com o Spotify. Sei que muita gente odeia, mas por mim tudo bem. Sendo um artista independente, precisamos que as pessoas nos escutem, nos encontrem. O objetivo é fazer com que as pessoas nos vejam quando tocarmos. Agora, eu acho que tem gente com raiva do Spotify porque não há outra renda, para muitos de nós. Mas para mim, em 2019, o Spotify foi ótimo. Eu cresci nos anos 80, e nós fazíamos mixtapes uns para os outros, e nos anos 90 gravávamos CDs em casa. Então, se as pessoas nos descobrirem e ouvirem nossa música, este é o objetivo. Eu acho que coisas como o Bandcamp são mais amigáveis com o usuário, e as pessoas podem se sentir dispostas a pagar por uma música. Mas eu uso Spotify todo dia, e gostaria que os músicos ganhassem mais dinheiro com isso, mas daí custaria 500 dólares por ano uma assinatura. Temos sorte de pessoas gastarem qualquer quantidade de dinheiro em música hoje em dia.

Popload – Eu cresci numa época em que você precisava pagar por um disco para ouvir, não havia acesso de outra maneira. E agora temos acesso a tudo, o tempo todo. Se você fala “o disco novo do Bambara é ótimo”, eu posso escutar instantaneamente. Isso é algo inédito.
Marshall –
Eu não sei se isso é bom ou ruim. Provavelmente uma mistura dos dois. Não esperávamos ter um fim abrupto às turnês. Isso dá muita perspectiva para as pessoas, refletindo sobre o tanto de dinheiro que o Spotify ganha, e quanto os artistas recebem. Para uma banda tipo o Daughters, não temos o poder de um AC/DC que pode esperar anos para gravar um disco, daí recebe um monte de dinheiro. É irônico, porque eles não precisam daquele dinheiro. Nós não conseguimos fazer o mesmo. Se decidíssemos tirar a discografia do Daughters do Spotify, eles não dariam a mínima. É assustador não poder contar com esse dinheiro. Mas, ao mesmo tempo, streaming dá acesso ao que teus amigos te recomendam, a qualquer momento. Isso cortou alguns passos intermediários, e tem pontos bons e ruins.

Popload – Acho que a maneira que os artistas são tratados pela indústria é desequilibrada. Imaginei que a pandemia poderia trazer algum tipo de justiça à indústria. Isso vai acontecer com os cinemas. Porque cinemas que só exibem os mesmos filmes previsíveis, vão acabar fechando, e vai acontecer uma migração para o streaming. Não sei se algo parecido vai acontecer com casas de show e festivais.
Marshall –
Tocamos em muitos festivais grandes em 2019. Eles pagam bem. E eu gosto deles. Tocamos em São Paulo, e só conseguimos ir lá por causa de um festival no Chile que financiou a viagem para a América do Sul. Eu não tenho nenhuma birra com festivais. Eles estão trabalhando como qualquer pessoa. Se o público se importa com a música, eles vão assistir. Eu acho que as pessoas vão se acostumar a ficarem em casa para sempre, ou vão voltar a assistir shows como se nada tivesse acontecido. Eu não tentaria prever o futuro. Mas sinto falta de tocar ao vivo.

Popload – E qual é o status atual do teu LP solo?
Marshall –
Está pronto, mas ainda não foi masterizado, porque há uma fila no estúdio, então vai ter que esperar para ser masterizado. Eu terminei há meses, mas achei que precisava mudar umas coisas ainda. Em abril de 2020, eu achava que estava pronto, mas quanto mais eu ouvia, mais eu queria mudar. Por sorte, eu consegui adiar o lançamento, sem problemas, então deve sair até o meio de 2021.

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Popload – Você compôs todas as músicas no disco?
Marshall –
Bem, o Seth Manchester produziu o disco. A Kristin [Hayter, do Lingua Ignota] tocou no disco. O Jon do Daughters também tocou nele. E o Evan Patterson, do Jaye Jayle. Eu comecei com umas 20 demos, mas decidi que não queria usá-las. Comecei a criar com aquele pessoal, e era um ambiente bem livre, onde qualquer pessoa podia ter ideias e colaborar. Às vezes o Jon tocava bateria por dez minutos, e achávamos algo para criar uma música. Mesma coisa com o Evan, fazendo umas guitarras atmosféricas. Foi um processo colaborativo, e foi muito divertido, não havia estrutura. O Daughters é bem estruturado e planejado, e eu queria fazer o oposto disso, e qualquer pessoa estava livre para fazer o que quisesse com a música.

Popload – A música solo que você lançou, “Nature in Three Movements”, indica o que pode ser esperado do resto do disco?
Marshall –
Sinto que é a única que não se encaixa no disco. Para mim, artisticamente, é uma ponte, entre o trabalho solo que eu fiz e um pouco do Daughters. Achei que isso iria confundir as pessoas. E adoro confundir. Mas não, se as pessoas esperam ouvir essa música dez vezes, não é o que vão ouvir [risos].

Popload – Estou bem curioso, porque não sei o que esperar. Quando vi que você estava gravando algo solo, fiquei com medo que fosse tipo aquele disco de noise do Mike Patton, “Adult Themes for Voice”.
Marshall –
[risos] Eu adoro aqueles discos do Patton! Ele gravou a voz dele em quartos de hotel e lançou. Acho interessante, mas não é algo que quero ouvir no carro enquanto dirijo. Mas eu fiz muitas coisas experimentais, tipo… Fui à loja de materiais de construção e comprei um monte de coisas. Serras, metal, correntes. Eu não sou um guitarrista ou baterista, então a música para mim é o tipo de sons que eu consigo criar de forma interessante. Gravei uns sons de canos entupidos, e outras coisas esquisitas. Eu queria uma vibe meio Einstürzende Neubaten, criando algo com sons perdidos ou achados. Essa foi minha intenção.

Popload – Eu ia perguntar por que você postava tantas fotos de correntes no Instagram, mas agora acho que já entendi.
Marshall –
Sim, a corrente é meu instrumento.

Popload – Você está compondo com o Daughters agora?
Marshall –
Estamos compondo. A intenção era poder gravar neste ano, mas muita coisa aconteceu nas vidas pessoais de cada um. Isso complicou as esperanças artísticas que algumas pessoas tinham. E moramos longe, precisamos viajar para tocarmos juntos. Há muita incerteza e frustração. É uma pena, mas eu não gostaria de lançar um disco agora, porque não posso tocar nem promover. E acho que as pessoas não estão receptivas para discos novos neste ano. As pessoas querem um conforto mais instantâneo.

Popload – Videogames estão bem populares agora.
Marshall –
Eu jogo um jogo idiota dos Simpsons no meu telefone. Eu jogo igual um louco, constantemente, porque não sei mais o que fazer.

Popload – Quando você cria arte, você considera se ela é inovadora ou não?
Marshall –
Não exatamente. Meu primeiro livro de poemas, eu escrevia da maneira que eu achava que poesia deveria ser, e agora eu olho para o que eu escrevi e odeio. As coisas que publiquei nos últimos dois anos me dão mais orgulho. Eu só tive que largar a ideia do que poesia deveria ser. Eu não acho que é uma boa ideia tentar ser diferente. Há um número limitado de acordes e batidas. O que importa é o produto final, se as pessoas vão curtir ou sentir algo. É interessante quando as pessoas criam algo novo. Quando eu li “House of Leaves”, do Mark Danielewski, foi incrível, eu tinha que girar o livro, era interativo. Mas eu quero fazer isso com todo livro que leio? Certamente não. Não tentamos criar algo necessariamente novo com a música do Daughters. A forma como o “You Won’t Get What You Want” foi recebido, foi uma total surpresa para nós. Se tentássemos criar algo que as pessoas gostassem, seria um fracasso. Só fizemos o disco que queríamos, não temos controle das opiniões das pessoas. Só esperamos ganhar o suficiente para pagar o aluguel.

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Popload – O som do Daughters não é necessariamente algo inédito, mas ao mesmo tempo é diferente de qualquer coisa sendo lançada hoje. Eu me incomodo de ouvir bandas tipo o Greta Van Fleet, que não parecem fazer um som honesto, parecem copiar algo que viram no YouTube.
Marshall –
Sim, falta autenticidade ou sinceridade, parece que estão reciclando clichês dos anos 70. Sei lá, parece que as pessoas gostam deles, que bom para eles. Eu não mandaria no gosto das pessoas. Mas eu não escutaria um disco… [risos] Estou tentando não soar como um babaca. Eu não escuto um disco desses como uma obra de arte que vai me inspirar no meu desenvolvimento enquanto ser humano. É rock, preenche o silêncio, mas não me interesso, é chato.

Popload – O Nirvana, por exemplo, não fazia nada necessariamente inovador, mas era honesto. Você escuta hoje e ainda chama atenção.
Marshall –
Sim, e isso diz muito sobre… Não precisa ser um som muito artístico para causar uma reação no ouvinte. Pode ser só honesto. Eu quero ter uma experiência quando escuto algo. É isso que fodeu minha cabeça quando ouvi o disco da Kristin, “Caligula”. Foi uma experiência. Sou fã do Scott Walker, e os últimos discos dele também eram uma experiência. Mesmo assim, às vezes você só quer escutar algo e não se importar. Tipo, eu escuto Iggy Pop, “Lust for Life” e “The Idiot” são incríveis, mas também posso ouvir “Brick by Brick” e foda-se. São coisas diferentes. Uns 15 anos atrás, eu trabalhava numa loja de discos e coloquei um disco do Swans para tocar, provavelmente “Soundtracks for the Blind”. Um cliente chegou para mim e disse: “Eu não entendo esse som”. Não há o que entender, não é uma equação matemática. Se você não gosta, tudo bem.

Popload – Acho que às vezes é bom ter contexto para conseguir curtir algo. Eu demorei para gostar do “Caligula” por exemplo, mas agora acho incrível.
Marshall –
Um cara que eu conheci um tempo atrás descobriu que eu tenho uma banda. Ele chegou para mim e disse, “Então, ouvi tua música, e achei bem ‘interessante’”. Tá bom, ele não gostou, tudo bem. [risos] Agora, você e eu somos ouvintes diferentes, que queremos experiências com os discos, mais do que algo que preencha o silêncio. São tipos de ouvintes diferentes, nenhum está certo nem errado.

Popload – Quando as pessoas próximas de você opinam sobre a tua arte, quem tem a opinião que você mais valoriza?
Marshall –
[longa pausa] Eu tento não esperar muito das reações das pessoas. Isso pode foder com sua cabeça. Se eu esperar uma reação específica de alguém, e não conseguir, vai estragar meu dia. Eu tento não compartilhar meu trabalho com as pessoas dessa maneira. [risos] É engraçado que você mencionou isso, porque recentemente enviei uma ideia de música para o Nick e Jon ouvirem. E nenhum deles comentou o que eu fiz. E eu fiquei puto. Me senti um merda. [risos] E tive que deixar isso de lado. Eu quero me sentir feliz com o que fazemos, não quero mudar algo para agradar outra pessoa.

Popload – Então a tua própria reação é sempre a mais importante?
Marshall –
Sim, claro. Se você faz música para outras pessoas, você provavelmente está…

Popload – …tocando no Greta Van Fleet.
Marshall –
[risos] Não sei, talvez eles amem aquele estilo de música. Eu amo Led Zeppelin. Se eu tocasse guitarra, eu estaria numa banda tipo o Hellacopters, algo divertido. Não vou criticar ninguém. Sinceramente, nem sei direito como é o som do Greta Van Fleet.

Popload – Sim, estou só sendo maldoso.
Marshall –
Isso, estamos zoando, tudo bem.

Popload – Eu os ouvi por curiosidade, e é um som competente, mas não chama minha atenção. Mas fico pensando, e se esse disco saísse em 1969, eu julgaria da mesma forma?
Marshall –
Pois é.

Popload – Eu tenho um disco do Black Crowes que eu amo…
Marshall –
Eu amo o Black Crowes!

Popload – Será que é a internet que nos faz julgar de forma diferente?
Marshall –
Eu acho que tem tanto acesso hoje em dia, e tanta música, e tanto dinheiro, que isso força o ouvinte a ser um consumidor, e descobrir qual arte é o melhor produto. Eu acho que é engraçado quando as pessoas se vestem de certa forma. “Eu só escuto punk” – sim, eu percebi, com essas roupas só podia ser. É algo preguiçoso, esse tipo de identidade… Eu escuto muitos tipos de música, e vou vestir a mesma roupa que eu sempre uso se eu for num show do King Crimson. Eu não estou procurando uma identidade. Se o Metallica lançar um disco que eu odiar, não vou ter uma porra de uma crise de identidade e ficar puto com o Lars Ulrich. Eu só quero gostar de música, e se eu não gostar tudo bem, ninguém me deve nada. Especialmente levando em conta aquela história do Spotify. Eu mal estou pagando pelas músicas que escuto – o problema é ver a música como um produto que tem que agradar. Falavam que os Strokes iam salvar o rock, mas o rock não precisa ser salvo. Eles fazem músicas pop, e tudo bem. Quando o Daughters começou, chamavam a gente de grindcore. Não somos grind, porra. Vocês não podem ficar bravos porque fizemos um disco que não soa como grind. Isso é culpa sua, você que criou expectativas. Me perguntam se Daughters é uma banda de noise, mas eu nem sei, eu só fiz um disco. Você gosta de noise mas não gosta de nós? Foda-se.

Popload – Eu acho curioso que no show do Daughters em São Paulo a plateia era uma das mais respeitosas que eu já presenciei. Me lembrou de shows tipo o Radiohead e o System of a Down. Eu sei que é uma palavra ruim, mas bandas com um som mais “intelectual” parecem atrair um público melhor.
Marshall –
Eu não acho que intelectual seja uma palavra ruim. Significa que pensamos mais na criação da música do que fazer só “verso refrão verso refrão”. Quem se esforça para ouvir um som diferente é um público diversificado. Fico feliz de saber que nosso som é interessante para um público diverso. No começo, tínhamos um som que atraía uma galera que tinha toda a mesma aparência. O acesso à música hoje permite que as pessoas tenham gostos variados. O conceito de música é mais amplo. Eu bati uns martelos e gravei um disco, e as pessoas vão escutar isso… Bem, pelo menos espero que escutem [risos].

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Popload – Você pode falar sobre sua tatuagem que diz “Tough Guys Don’t Dance”?
Marshall –
É um livro do Norman Mailer. Eu levei anos para conseguir ler. A frase “Tough guys don’t dance” aparece no livro, e achei uma frase tão boba, dizer que “caras durões não dançam”, essa ideia americana de que alguém pode ser homem demais para dançar. Então tatuei o título. E eu gosto de dançar – se você me ver no palco, eu danço um monte, então não sou um cara durão. Eu gosto da ironia.

Popload – Na música “The Reason They Hate Me”, você canta “Don’t tell me how to do my job”. O número de pessoas falando como você deve fazer teu trabalho aumentou ou diminuiu depois dessa música?
Marshall –
Bem, eu não tenho um emprego, então não mudou [risos]. Mas essa música é mais uma crítica a pessoas que acham que a arte deve ser feita de certa forma. Jornalistas ruins e tal. Então acho que o número é o mesmo, depende de quantas entrevistas eu faço, ou quantos shows eu toco. Ou seja, não escuto críticas há algum tempo.

Popload – E você, tem algum disco recente que recomenda?
Marshall –
A Kristin está terminando o disco novo da Lingua Ignota, e vai ser incrível, uma obra-prima, extraordinária. O disco novo do Clipping é legal. Acho que agora as pessoas procuram conforto. Eu escuto Ice-T e Scott Walker. E aquele rapper Stitches…

Popload – Vou procurar aqui…
Marshall –
Eu não recomendo que você procure. Eu comecei a escutar ironicamente. Daí comecei a curtir. E fiz uma playlist de umas 12 músicas do Stitches que eu gosto mesmo.

Popload – Essas capas dele…
Marshall –
Normalmente é tudo que eu odeio na música independente. Tipo, emojis na capa. Mas é tão doido. Músicas sobre vender cocaína. É ridículo. Eu também ouvi um monte aquela cover que o Korn fez de “The Devil Went Down to Georgia”, é tão absurda. E a Kristin e eu assistimos “The Bachelor” direto. É algo que não exige muito. Meus amigos do Bambara também fizeram um disco legal… Não sei se foi em 2020 ou não, não tenho mais o conceito de tempo.

Popload – Eu vi o Daughters ao vivo semana passada, é assim que o tempo está parecendo para mim.
Marshall –
[risos] Exatamente, o tempo não existe mais.

Popload – Eu tenho escutado muito “Everybody Knows This Is Nowhere”, do Neil Young.
Marshall –
Outro dia eu estava ouvindo “Harvest Moon” dele, e nem é um disco que eu gosto tanto, mas me deixa tão nostálgico.

Popload – Eu ouvi “On the Beach” pela primeira vez outro dia, não sei como nunca tinha ouvido antes, e adorei.
Marshall –
A discografia dele é ótima. Ele tem um disco de rockabilly [“Everybody’s Rockin’”] que eu amo. Ele tem dois discos meio eletrônicos também [“Reactor” e “Trans”], e aparentemente… Supostamente ele tem um filho no espectro autista, e 30 anos atrás ninguém sabia exatamente do que se tratava. E ele gravou aqueles discos como uma forma de se comunicar com seu filho. Pode ser lenda, mas alguém me contou isso quando descobri os discos, e nunca pesquisei para saber se era verdade. Mas, se é verdade, é interessante.

Popload – Às vezes a lenda é melhor que a história real.
Marshall –
Mas também não quero aparecer numa entrevista como alguém que acredita em qualquer merda [risos].

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O quebrador Daughters faz o vídeo-saideira para seu ano glorioso

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* Admitimos que demoramos para descobrir que o Daughters fez um dos melhores álbum de 2018, o incrível “You Won’t Get What You Want”, lançamento que tirou o grupo de um hiato-limbo de oito anos. O disco saiu em outubro do ano passado. O que chamou nossa atenção foi o vídeo para a faixa “Less Sex”, que saiu em janeiro já deste, que aconteceu ser, apenas, o primeiro vídeo da carreira da banda, que existe desde 2002.

Felizmente, ficamos sabendo da excelente fase atual (volta?) do grupo a tempo de pegar um show deles no Brooklyn, no começo deste ano, e outro em São Paulo, em maio, que com certeza deve aparecer na nossa lista de melhores de 2019.

Agora, com apenas algumas datas restantes de sua extensa turnê de 2019 (muitas com ingressos esgotados), no fim do ciclo do álbum, o Daughters resolveu lançar mais um vídeo para marcar o fim do rolê.

O belíssimo trabalho, para a música “Guest House”, foi dirigido pelo fotógrafo nova-iorquino A.F. Cortés, selecionado pelo Daughters por sua “habilidade ímpar de capturar momentos únicos”. Assim como “Less Sex”, o vídeo vem mais como uma colaboração artística do que uma forma de promover um single. Arriscamos dizer que é o melhor vídeo de 2019 para uma música de 2018 que você verá – de preferência, não no celular, ok?

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O transformador Daughters toca domingo em São Paulo. Quer ir com a gente?

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* Neste domingo, no Fabrique Club, em São Paulo, a banda americana Daughters faz show único no Brasil, e a Popload fortemente recomenda que você esteja lá. Para quem ainda não sabe (tudo bem, um tempo atrás não sabíamos muito também), o Daughters toca um som fantástico, mistura ímpar de noise rock com industrial, e no ano passado lançou o que foi facilmente um dos melhores discos de 2018. O ótimo “You Won’t Get What You Want” foi uma espécie de álbum de reunião para o grupo, que ficou quase uma década parado, e consegue ser o raro disco de retorno que supera seus antecessores.

Não estaríamos recomendando o show do Daughters se fossem apenas uma banda boa no estúdio. Pelo que já vimos por aí, ao vivo, eles conseguem ser caóticos e causar uma catarse imensa na plateia, com músicas tão horrendas, mas tão bacanas ao mesmo tempo.

Para dar uma ideia do que esperar em SP, destacamos aqui um vídeo de um show intimista gravado para a revista Kerrang! – onde o vocalista Alex Marshall passa praticamente o tempo todo no meio da plateia, interagindo, arrumando a roupa de fãs e até mordendo um ou outro.

O vídeo em questão ganhou a simpatia de Krist Novoselic (baixista do Nirvana), que mandou um elogio gratuito para o Daughters no Twitter, dizendo que são “punkers”, aprovando o baixo tocado pelo encarregado da banda e ainda retuitando o show na conta oficial do Nirvana. Também trazemos para você uma playlist com o que possivelmente será o setlist do Daughters em São Paulo.

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* O poploader Fernando Scoczynski Filho, autor do texto acima, armou ainda uma playlist em seu Spotify com selecionadíssimas do Daughter para convencer você a enfrentar um dos grandes shows transformadores do ano. Encara?

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* Daughters no Brasil é uma ação da Balaclava Records. A boa banda Odradek, de Piracicaba, abre a noite. O evento no Facebook, com todas as infos, está aqui.

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* SORTEIO – A POPLOAD tem UM PAR de ingressos para sortear entre os que querem ver na faixa o show do Daughters, no domingo. O esquema é o de sempre. Quem quiser concorrer é só mandar um email para lucio@uol.com.br escrevendo Daughters na linha de assunto. Até o final da tarde de hoje eu anuncio, aqui, quem levou o par de entradas. Vamos?

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* As fotos usadas para este post, tanto aqui como na home da Popload, são de Reid Haithcock.

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“Análise Popload”. O Daughters e a teoria do show “filho único” no Brasil

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* No mês passado, destacamos aqui na Popload o excelente vídeo que os americanos do Daughters lançaram para o single “Less Sex”. Apesar de estarem ativos desde 2002 (com um “breakup” entre 2009 e 2013), era apenas o primeiro registro visual da carreira da banda. A faixa veio do aclamado “You Won’t Get What You Want”, o primeiro disco deles em 8 anos, e uma mistura quase psicopata de noise rock e industrial. Mas, com muito bom gosto, claro. É o tipo de som difícil de digerir, mas mais dificílimo de largar depois que você começa a gostar.

Agora em fevereiro, o Daughters está fazendo turnê pelos EUA, em shows pequenos e com ingressos disputados – muitos já esgotados. Pelo que se comenta por aí, a banda está melhor do que nunca, criando uma atmosfera de “tremenda alegria e tragédia” no show, nas palavras de um jornalista de Washington DC. Boa parte disso se deve, claro, à inclusão do álbum novo no repertório.

E parece que alguém aqui no Brasil está reparando em tudo isso: o selo paulistano Balaclava Records anúncio show do Daughters em São Paulo, no Fabrique Club, para o dia 12 de maio. Ao que tudo indica, vai ser um daqueles imperdíveis shows “filho único”, de grupo que só vem para cá com um alinhamento muito milagroso de fatores logísticos, e provavelmente não volta nunca mais – assim como foi o Dillinger Escape Plan em 2016, o Neurosis em 2017, e nosso Nick Cave & the Bad Seeds em 2018.

Também daria para incluir nessa lista todos os shows que o Nine Inch Nails já cancelou no Brasil, mas isso é uma outra história, mais complexa.

De novo, para quem quer ter uma ideia de como é o Daughters ao vivo, o vídeo abaixo ajuda:

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* As fotos deste post (inclui a da home da Popload) são de Nathaniel Shannon. Ambas de show recente no Brooklyn, em NYC.
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