Em dora guerra:

SEMILOAD – Os truques do incrível Lil Nas X, o controlador da nova música

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* Nesta semana o grande evento musical foi o lançamento da canção nova do rapper, cantor e personalidade de internet Lil Nas X, “Montero (Call Me by Your Name)”.
Mas, pera, essa música já não tinha sido lançada? Por partes. Como assim partes?
A coisa não é tão simples quando o assunto é Lil Nas X e seu modo de lançar músicas e conduzir sua carreira. Você consegue acompanhar?
Para tentar entender qual é desse cara brilhante da nova música, convocamos a esperta Dora Guerra, da newsletter parceira Semibreve, que enxerga tão longe que vai desvendar para nós aqui todos os truques incríveis de Nas. Será que todos?

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Com o impacto gigantesco de “Call Me By Your Name”, que é assunto principal na maior parte dos sites gringos sobre música e nos fóruns religiosos, estive me perguntando por que o Lil Nas X era tudo isso. Eu conseguia SENTIR que ele era tudo isso, mas queria achar os argumentos certos.

Em um momento em que os popstars estão se sentindo mais confortáveis com suas sexualidades – expondo-as, explorando-as, não vivendo somente delas, mas dispondo-as quando querem –, Lil Nas X não é o primeiro rapper cis, preto e homossexual a dar as caras (tem uma galera já trilhando esse caminho: Kevin Abstract, Tyler The Creator e afins). É o primeiro, talvez, com esse nível de impacto e com uma relação tão tranquila entre virilidade e feminilidade.

Mas reduzir Lil Nas X à exposição de sua sexualidade é contraproducente – por mais que seja o papo que ele mesmo trouxe, isso por si só não explica a força dele. Sinceramente? Ele é um caso incrível de marketing e gestão de carreira; do tipo que eu faria um textão no LinkedIn se eu fosse outra pessoa com muito menos bom gosto.

Desde o início da sua explosão midiática – com o sucesso inacreditável de “Old Town Road” –, Nas (o pequeno) usa as redes sociais com maestria: é extremamente acessível, bem-humorado e, principalmente, um livro aberto. Seu produto principal não é a música, mas sua personalidade. Seguindo a linha de diversas outras celebridades, ele nos dá a ilusão muito bem construída de que está no controle de tudo que leva seu nome. E, como qualquer jovem inquieto nas redes sociais, ele não desaparece por completo, mas se mantém sempre relevante de alguma forma.

Esse marketing muitíssimo bem estruturado – que liga Lil Nas X a sua música, vídeos e tweets de forma intrínseca –, culminou em uma estratégia de lançamento como eu nunca vi.

Existem diversas formas de divulgar um futuro lançamento e, nos últimos tempos, a expectativa é cada vez menor. Contando com o fato de que todos nós – exceto a Sarah do BBB – estaremos em casa com a disponibilidade de ouvir o que é lançado, os artistas já não precisam espaçar ou fazer grandes anúncios adiantados para garantir que a gente saiba. É quase sempre assim: “Opa! A música nova sai amanhã, o disco sai semana que vem”. E o elemento-surpresa já é tão pouco surpreendente que, na verdade, o inesperado é esperar.

No caso de “Call Me by Your Name”, o truque foi este: deixar a gente esperando, por muito tempo – feito a Rihanna e o Frank Ocean fazem, com o contraponto de nunca realmente entregar. É normal, mas não é: para um artista pequeno, não existe muito propósito em dar pequenas prévias de uma música e não entregá-la por completo; para um artista do porte do Lil Nas X, isso até acontece, mas raramente com essa divulgação deliberadamente caseira.

Em outras palavras: há quase um ano (!!!), a música “Call Me By Your Name” era “vazada” pelo próprio artista, de tal forma que já havia uma compilação de trechos formando a música completa no Youtube. Seu TikTok era composto por vários vídeos com conotações completamente diferentes: memes com Hannah Montana (uma alusão a sua idade, inclusive), zoações com outros artistas ou simplesmente Lil Nas brincando com peitos falsos. O único fator em comum era, invariavelmente, a presença dessa música (até então, não-lançada) como trilha sonora.

Eram dicas, que já sugeriam possíveis (diversos!) usos da faixa no TikTok e em outras redes sociais; mais do que isso, que fizeram fãs implorarem pela música completa e não nos deixaram esquecer que essa música um dia sairia. Principalmente, dicas que ressaltavam o estilo do artista de conduzir tudo “com suas próprias regras”, brincando com a ideia de que sua gravadora inclusive não estaria a par da situação. Sabemos que é pouco provável – tudo deve ter sido arquitetado em conjunto com a gravadora –, mas isso não importa: com seu carisma, Lil Nas X tira tudo de letra.

Já era uma estratégia admirável, mas o resultado final ainda foi impressionante. Sabendo que tínhamos a música quase inteira, ele nos entrega (finalmente) a surpresa completa, contrabalanceando a divulgação caseira com um vídeo absurdo, repleto de referências, polêmico e até político – e se sabíamos muito da música, sabíamos pouquíssimo do vídeo até este sair. Assim, com um trabalho visual de botar qualquer cristão fervoroso para tremer, a falta de ineditismo da música passou batida.

Por fim, ele se blinda de qualquer possível crítica: se levando a sério quando menos esperamos, não se levando a sério quando não precisa. Por um lado, recebemos um vislumbre de um “Montero” mais vulnerável – em print de nota de celular –, desabafando brevemente sobre sua relação com a sua sexualidade; por outro, seu canal segue tendências do YouTube sem parecer forçado, enquanto o artista zoa Justin Bieber e enfrenta (com humor) um processinho da Nike no Twitter. Continuando o que começou, Lil Nas X está sempre online, rindo de si mesmo enquanto se divulga sem dó.

Sempre aparentemente espontâneo e, sem parecer, sempre no controle – com tudo tão bem arquitetado e funcionando, Lil Nas X está longe de ser um caso de one-hit wonder.

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SEMILOAD – Hook, drop, toquinho. Como a música vem se reinventando na Era TikTok

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* Nosso “The Long Read” de hoje, articulado por nossa parceira Dora Guerra, autora da newsletter mais necessária da música nova que eu conheço, a Semibreve, vai falar exatamente dessas transformações que essa música nova tem passado para se adaptar aos tempos atuais. Você sabe do que estamos falando: stream, Tik Tok, consumo digital desenfreado. Está preparado para o fim do refrão? Você curte os “hooks” das canções do Weeknd?
Não? Então a SEMILOAD vai te preparar.

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Música é como qualquer outra arte em tempos digitais. Não só não tem fórmula perfeita, como muda o tempo todo – principalmente quando precisa se vender. De uns tempos pra cá, a mudança vem sendo notável.

Eu mesma comentei ano passado sobre dois pontos já muito claros na música atual: o primeiro é a diminuição do tempo das canções (pop, especialmente). A partir do momento em que os artistas ganham por número de streams – ou seja, quantas vezes a música foi ouvida –, torna-se necessário encontrar formas de fazer você ouvir novamente. Se a música é longa, você não vai ficar ouvindo em loop; é matemática simples. O resultado é aquelas faixas minúsculas, com 2 minutos ou menos, que frequentemente acabam antes que você consiga digeri-las.

O outro ponto, que eu trouxe com músicas como “Blinding Lights”, do Weeknd (foto acima), é a inserção de um refrão (ou algo que lembra o refrão) logo no início da faixa – pensando que um stream, para o Spotify, conta só se você ouviu pelo menos 30 segundos da música. Isso fica claro em váaaarias músicas, a exemplo da viral “Girl like Me”, da Shakira/Black Eyed Peas. Logo a gente, com atenção tão difusa, precisa ser convencida a ouvir algo interessante antes de decidir tacar um “skip”. Melhor já entregar o ouro, certo?

(E bote ouro nisso).

Pois é. Eis que surgiu um ótimo artigo (como sempre, porque esses caras são incríveis) do Nate Sloan e Charlie Harding – a dupla Switched On Pop – para o “New York Times”. Nele, os músicos-musicólogos analisam as novas tendências com um olhar ainda mais atualizado. Otimistas, celebram o fim de uma certa estrutura tradicional, de verso-pré refrão-refrão.

Nisso, os autores já me desbancam (ou sustentaram meu ponto?) afirmando que o refrão, hoje, nem sempre precisa existir. O argumento deles é o seguinte: o que existe agora – e é um termo inclusive utilizado por compositores – é o “hook” no lugar do “chorus”; em bom português, tem que existir um gancho, que não necessariamente é um refrão de alguns versos cantado várias vezes ao longo da música.

Esse gancho pode ser, inclusive, o famoso “drop” – aqui eles listam “We Found Love” como um exemplo de hit da última década, já pautado em uma nova lógica. E, de fato, o ponto alto da faixa não é o momento em que Rihanna (foto na home) canta o verso que dá nome à música, mas quando a canção cai no clímax eletrônico. Sabe do que eu tô falando?

Pois eu cubro a aposta de Nate & Charlie e ainda acrescento: essa espécie de drop pode ser simplesmente uma viradinha, que é suficiente para tiktokers e afins. O drop é muito comum em músicas derivadas do EDM (e foi extremamente comum nos anos 2010) e ainda reaparece em canções populares, feito nas músicas do Major Lazer.

Mas às vezes não precisa ser tudo isso. O que a música precisa ter é um ponto em que ela se transforma – ou até pausa: só o “Stop, wait a minute”, de Uptown Funk, já é hit no TikTok. É nesse momento que os virais são criados: você dá tudo que as pessoas querem, fornecendo um clímax rápido para uma transição audiovisual. E, mesmo que você não esteja preocupado em viralizar, é um aspecto interessantíssimo de qualquer forma: nada te destaca melhor de uma multidão de músicas previsíveis que uma surpresa bem construída.

Mas outro gancho fortíssimo – e que a galera sacou aqui no Brasil talvez com muito mais antecedência e sucesso que os americanos – é aquela melodia pegajosa. Não necessariamente a do refrão: uma mais marcante, um gancho real, como no que muita gente por aí chama sabiamente de “toquinho” (lê-se tóquinho; não confundir com o artista Toquinho).

Nada supera a força de uma melodia infalível, que conversa com os vocais, mas não é a mesma que a deles. Esse é um elemento que o funk e o piseiro já incorporaram há muito tempo, recuperando a “flauta envolvente que mexe com a mente” de Bach para tornar uma música inesquecível. Um salve pro Mc Fióti.

Aliás, não estamos inventando a roda aqui – esse é um recurso clássico. Mas ele vem aparecendo com frequência, especialmente no início da faixa. Voltando ao exemplo de “Blinding Lights”: o que te conquista é aquela melodia com tratamento anos 80, muito antes de ouvir o Weeknd cantar.

E, se você analisar bem a história do “toquinho” e do drop, vai encontrar um personagem essencial para a nova música: o produtor. Não é à toa que DJs e produtores passaram a se tornar estrelas também – quando as canções eram naquele formatinho clássico de banda, era difícil precisar a contribuição do produtor; você valorizava mais os compositores, que muitas vezes eram (ou fingiam ser) a própria banda. Hoje, Calvin Harris e Rihanna dividem créditos porque sabemos que não foi ela quem deu o toque principal da música. E, de repente, nomes feito Mark Ronson, Diplo, Timbaland, Pharrell não importam só para quem tá dentro da indústria: são beeem conhecidos pela gente, também.

Nada disso é de agora. O produtores não ficaram importantes: sempre foram; esses elementos todos sempre existiram também em alguma medida. Mas a combinação desses fatores – tamanho da música, estrutura mais solta, melodia marcante logo no início – é um combo extremamente atual. ou ainda: “Light My Fire”, dos Doors, seria uma música a cara dos anos 2020 se, para início de conversa, tivesse um terço da duração (e um clipe nonsense com feat. da Doja Cat).

Afinal, vale fazer tudo isso e seguir fórmula para ganhar dinheiro? Para os românticos, respeitar fórmulas pode soar como um enterro da criatividade; o que é verdade, em partes. Mas, para mim, o curioso é que não se trata somente de uma estratégia de mercado: são truques psicológicos, que buscam entender não só como driblar o algoritmo, mas como fazer algo que soe atraente para o público de agora (e isso já é beeeem diferente do que soava atraente há uma década).

É, afinal, dar aos fãs o que eles querem ouvir de novo, de novo e de novo.

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SEMILOAD – Lana, não está faltando nada no seu disco novo, não?

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* Bom, hoje é Lana’s Day. Fica tudo meio turvo para o restante dos humanos musicais quando sai um disco da musa americana dos romances trâgicos mas glamurosos. O site inglês “NME” deu todas as suas estrelas disponíveis para o álbum “Chemtrails over the Country Club”. O “rigoroso” site americano “Pitchfork” deu uma booooa nota 7.5 (para os padróes pitchforkianos).
Mas e nós? Gostamos do disco?
Hummmmm.
Em conversa com Dora Guerra, que semanalmente faz a incrível newsletter Semibreve e agora armou até um site para se apresentar melhor, descobrimos que ela gostou até mais que a gente do novo da Lana. Então, pela nossa paixão eterna pela cantora, vamos deixar a Dora entregar nosso sincero parecer combinado sobre “Chemtrails over the Country Club”, em forma de pensata.
Nós, a Popload e a Semibreve (ou, enfim, a SEMILOAD), concordamos que é um verdadeiro disco dA Lana del Rey. Mas, que está faltando alguma coisa nele para ser UM VERDADEIRO DISCO DA LANA DEL REY, isso está…

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Inevitável: Lana Del Rey não consegue deixar de ser Lana Del Rey.

Esse é seu maior fardo e sua maior vantagem – há nove anos, Lana cria sua própria realidade etérea, nostálgica de uma época que só existiu na televisão e não na vida real. Aquele universo que, infalivelmente, glamouriza cada segundo de melancolia. Para quem compra a viagem, ela nunca falha. Para quem não tem o costume de fazer o trajeto, ele tende a ser cansativo. Mas é sempre um caminho similar – bonito, contemplativo, frequentemente pouco funcional.

Eu não sou uma viajante que sempre paga por esse ingresso. Quando Lana passou por “Norman Fucking Rockwell” – um trajeto que, sobre o piano, andava por territórios como o da feminilidade, da vulnerabilidade e de um país em pedaços –, foi a primeira vez que me perdi de fato na paisagem. Refiz a viagem diversas vezes; entendi, finalmente, o grande apelo de uma cantora já influente, combinada com um produtor que a compreendia.

Achei que, por isso, eu já estaria mais treinada ao chegar onde chegamos: no trajeto “Chemtrails over the Country Club”. Mas houveram percalços no caminho, como a própria Lana – tão imersa em si mesma que, na eterna tentativa de dizer algo certo, acaba dizendo a coisa errada. Já cheguei com o coração fechado. Mas segue o diário de viagem, ainda assim.

“Chemtrails” (álbum) começa igual, mas diferente. Nós não conhecíamos Lana como uma cantora de falsete, mas conhecíamos essa sonoridade. E você se pega em um déjà-vu infinito, que funciona cada vez menos.

As melodias parecem ser as mesmas; os temas com certeza são. É como se Lana estivesse se citando o tempo todo: em “Wild at Heart”, você fica esperando a melodia de “Hope Is a Dangerous Thing…” e praticamente a recebe. Não se mexe em time que (quase) ganha Grammy… Certo?

Para muitos artistas, a música funciona melhor quando explicada; quando conhecemos os detalhes de quem a pessoa é, do que ela está falando, do quão real é a letra. Não é o caso de Lana. Quanto mais ela se abre, mais lembramos que suas músicas são puramente abstratas. Recordo que, quando ela apareceu, a internet se perguntava quem era ela de fato; eu ouvia histórias mirabolantes de cirurgias plásticas, pais milionários, uma trajetória digna de atriz de cinema dos anos 50. Quase uma década depois, a fantasia de Lana Del Rey já se dissipou – e, quando ela afirma que é “selvagem”, fica difícil acreditar. Vira uma música de promessas, de alguém que não necessariamente é o que canta, mas que acredita fielmente que é. E quando ela recita frases como “Not all those who wander are lost”, frase de tatuagem em letra cursiva, não parece que haverá nada de realmente profundo no trabalho.

Mas, sempre que estive prestes a desistir, Lana provou que ainda pode mostrar outras facetas. Ela visita o trip hop em “Dark But Just a Game” (minha preferida, sem dúvidas) e, de repente, você se interessa de novo. E percebe: não é a vibe Lana que cansa, desde que ela venha com outros formatos. Outras coisas novas aparecem – isso fica nítido em faixas como “Tulsa Jesus Freak”, que explora autotune e uma bateria também meio Massive Attack. Experimentações combinam com ela; flertes com outros gêneros também. Ao fim de “Dance Til We Die”, de repente encontramos um rock/blues delicioso, com instrumentos de sopro e tudo – me deu vontade de um disco inteiro assim, mais vivo. Mas o momento logo acaba e eu concluo: Lana boa é a que experimenta.

As grandes estrelas do álbum são os arranjos, com instrumentos muitas vezes tocados pelo produtor Jack Antonoff. São músicas cheias de elementos e detalhes, construindo um corpo pra tudo que a artista narra. É uma herança provável de faixas como “Mariners Apartment Complex”, mas que ocupa faixas inteiras. E a mágica de um bom produtor acontece: o que provavelmente começou como desabafos em um diário é, de novo, transformado em um universo à parte. Com novas vozes – de Nikki Lane, Weyes Blood, Zella Day – muitíssimo bem recebidas nesses cenários, incluindo em um cover de Joni Mitchell, estrategicamente colocado no fim: se você não entendeu para onde estávamos indo, Lana desenha.

Mais uma vez, Lana Del Rey não consegue deixar de ser ela mesma – tão confiante e literal em sua visão que raramente nos proporciona algo de novo. Para quem sempre amou a viagem, o resultado é exultante; para alguém como eu, que se empolgou só com o último passeio, algo fica faltando. Mas o que sempre está lá é a identidade infalível, sonora e visual.

O que nunca faltará a Lana Del Rey é… Lana Del Rey. E, assim, ela se basta.


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SEMILOAD – Daft Punk inventou tudo. Sem ter inventado nada

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* Nosso “the looong read” desta semana, patrocinada pela ótima newsletter Semibreve, de Dora Guerra, fala do fim de Daft Punk, não tem como escapar. Dora comenta sobre o inventivo legado que o duo francês deixou na música, sem exatamente ter inventado nada. Fecha a tampa da “morte” da dupla que sempre agradou eletrônicos, roqueiros e poppers praticamente na mesma proporção, ao trazer um olhar de quem nasceu quando o duo já tinha um álbum lançado e foi crescendo enquanto o Daft Punk evoluia. É engraçado e ao mesmo tempo representativo dos gostos musicais dividir o impacto do fim de uma instituição sonora como o Daft Punk com alguém que tinha dois meses de vida quando eu vi pela primeira vez a banda ao vivo. Porque isso dá a dimensão do impacto das músicas e dos conceitos todos que o Daft Punk despejou na música para diversas turmas de diversas gerações. O que explica por que o anúncio do final de carreira da dupla, feito na última segunda, doeu tanto.

Fala aí, Dorinha.

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Será que o Daft Punk inventou alguma coisa?

Não que seja fácil inventar alguma coisa depois de 21 séculos de sociedade. Fica meio complicado: a roda já foi inventada, o conceito de “original” é uma ideia um pouco maluca. Mas a duplinha francesa, responsável por uma fração importantíssima – e mainstream – da música eletrônica/pop dos últimos 28 anos, acelerou e impulsionou muita coisa. Isso sim a gente pode dizer.

Por exemplo, o Daft Punk não inventou a música eletrônica, nem a associação desta com temas robóticos-computacionais e a estética futurista. Isso tudo a gente tinha desde o Kraftwerk; e música eletrônica é, naturalmente, algo que nos remete a um filme cyberpunk sobre a dominação dos robôs (afinal, é uma espécie de dominação dos robôs). O que os franceses fizeram, no caso, foi só encapsular isso em dois capacetes misteriosos – inspirando Deadmau5 e afins no meio do caminho.

E não necessariamente viam isso com maus olhos: na verdade, era quase irônica a ligação deles com robôs, visto que a música do duo era bastante humana, frequentemente bem-humorada. Eles faziam o eletrônico da forma mais “analógica” possível – menos laptops, mais sintetizadores antigões – e, por baixo dos capacetes, é quase como se estivessem sorrindo o tempo todo.

Outra marca bastante registrada (para mim) foi a voz efeituda. Essa também está longe de ser uma invenção do Daft Punk: o vocoder também estava desde o Kraftwerk, Afrika Bambaataa e afins. Já o talkbox, seu primo, é geralmente atribuído como marca registrada de Roger Troutman e o grupo Zapp, láaaa nos anos 70 – e tem um pouquinho de talkbox em muita coisa, hoje: tem em Bruno Mars, tem em Dua Lipa, tem em mó galera.

Mas se, nos anos 2000, você ligasse a rádio (ou a tv, ou seu dispositivo auditivo de preferência) e ouvisse essa voz robótica, sabia à distância que aquele era o Daft Punk. Estamos falando de um momento em que os DJs/produtores ainda não eram as superestrelas que vieram se tornando nos anos seguintes: a década de 2010 acelerou esse crescimento estelar, o caminho dos Calvin Harris aos Aloks. Mas, já nessa época, o Daft Punk reinventava a música eletrônica estabelecendo suas marcas registradas, shows históricos (feito o icônico Coachella de 2006) e um mistério anticultura de celebridade que os blindou do desnecessário.

Anticultura de celebridade, mas extremamente cultura de celebridade: nada atiça mais a gente que um mistério, e o Daft Punk soube disso com carinho durante toda a sua trajetória. Quanto maiores eles se tornavam, mais preparavam o suspense sobre o que faziam, sabendo que poucos de nós os reconheceriam sem capacetes – mas que, uma vez vestidos, eles tinham toda a nossa atenção. Foi assim até o tal epílogo de segunda-feira, o anúncio de separação: sumidos há anos, os dois nos deixaram especulando sobre um próximo álbum quando, na verdade, preparavam um adeus.

“Quando você sabe como um truque de mágica é feito, é tão deprimente. Nós nos concentramos na ilusão porque revelar como se faz instantaneamente desliga a sensação de excitação e inocência.” – Thomas Bangalter (o Daft. ou o Punk?) na ótima cover story do site “Pitchfork”.

Mesmo recusando o status de figuras públicas convencionais, a carreira do Daft Punk foi muito estabelecida em parcerias com grandes figuras públicas – de forma quase equiparável a um Gorillaz, o duo foi o que foi estendendo as mãos; fazendo feats. com hibridismo suficiente para funcionar com cada colaborador, mas não em demasiado para perder o fator Daft Punk no meio do caminho. Eram os outros artistas que experimentavam um gostinho Daft Punk, não o contrário.

Foi esse combo que proporcionou um momento Michael Jackson merecidíssimo ao The Weeknd, com números feito “I Feel It Coming”; conversou com Julian Casablancas, provavelmente partindo de ídolos do rock em comum e criando a mistura perfeita entre ambos. E claro, de forma inesquecível, Daft Punk colaborou com Kanye West produzindo coisas sensacionais (para além de “Stronger”!) como Blkkk Skkkn Head.

A dupla era uma jukebox de suas próprias influências, honrando ídolos sem considerá-los datados – às vezes, convidando-os para fazer o que sabem ao vivo, em vez de sempre sampleá-los simplesmente. O resultado é claro: dar play em um álbum do Daft Punk é entrar em diversas eras, ter uma experiência sensorial muito além de auditiva e ir para o passado e o futuro ao mesmo tempo. “Something about Us”, de 2001, é tão anos 70 quanto seria anos 2020; justamente por esse deslocamento no tempo, por nunca estar na moda demais, mas sempre à frente, é que o Daft Punk fez seu nome.

Afinal, foram eles que trouxeram o inconfundível disco de Nile Rodgers às paradas em 2013, mesclando-o com Pharrell em um mix que nasceu para ser sucesso – e que adiantaria, como ninguém, o que viria na música pop nos anos seguintes. Eles, sim, eram a futura nostalgia.

E na verdade, o “Random Access Memories” foi tão grandioso pra 2013 – uma sacada tão bem resolvida, vencedora até de álbum do ano –, que oito anos depois descobrimos que era o álbum final da dupla, a última impressão que os franceses querem deixar. Assim, de forma extremamente coerente, o último golpe do Daft Punk foi nos pegar de surpresa de novo – sendo convictos na sua própria identidade até o fim, incorrigíveis. Foi um movimento planejado como tudo em suas carreiras, com uma comunicação completamente controlada por eles.

É… Do início ao fim, foram eles que deram as cartas.

Feito dois robôs que calcularam a curva de sua trajetória e optariam, matematicamente, por parar no auge. Daft Punk não deixou espaço para que o seu trabalho começasse a se saturar, forçando uma relevância passada ou tentando correr atrás de tendências. Fica um trabalho (quase) impecável, um legado já extenso no mainstream, uma legião de fãs que atendem pelo nome de Skrillex, David Guetta e zilhões de anônimos como nós. Mudando a música. Com o privilégio de manter as vidas pessoais praticamente intactas.

Talvez essa seja a invenção do Daft Punk.

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SEMILOAD – TikTok? Clubhouse? Como o Tumblr, na surdina virtual, explica a música de hoje

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* Ok, vivemos a era do TikTok e essa acolhida fulminante ao Clubhouse, que parece bem legal aos anseios modernos ao mesmo tempo que levanta umas suspeitas de sua importância duradoura, nos fez querer botar uns pingos nos is, em relação ao que a gente mais gosta: a música. E a Dorinha Guerra, nossa pensadora think tank predileta, autora da newsletter mais necessária da música nova, a Semibreve, tem uma outra coisa para falar sobre o tema. Ou muitas coisinhas, já que o delicioso texto dela é nosso The Long Read predileto.

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Semana passada, bati um papo aqui sobre um tal de indie-mental health – um movimento de músicos (majoritariamente no “indie”) que vem levantando pautas sobre saúde mental, com muito menos medo dessa vulnerabilidade do que tempos atrás.

Esse movimento é, inegavelmente, relacionado a uma mudança geracional: percebo claramente que meus amigos têm muito menos dificuldade com terapia, fragilidades e possíveis transtornos do que a geração dos meus pais e afins. Além disso, dá para enxergar um processo no próprio mundo da música, que atravessa momentos mais introspectivos e autorreflexivos. Mas um culpado dessa história – um culpado de muitas mudanças na música e na cultura, na verdade – é o site social Tumblr.

O Tumblr mudou a cultura pop talvez na mesma proporção que o TikTok o faz, mas com uma relação menos clara e imediata. Não é de hoje que redes sociais causam mudanças significativas na música – e quando um Clubhouse da vida surge, todo mundo corre atento para esperar o impacto que a plataforma vai causar. Mas, em alguns casos, essa influência é mais subjetiva e não tão fácil de localizar.

É o caso do Tumblr: um espaço mais denso, misterioso e até subestimado. Com sua carinha de plataforma confessional – uma extensão da ideia de blog –, mas aspectos sociais específicos, o Tumblr reproduz uma estética bastante cuidada, com gifs, imagens e vídeos tratados com atenção.

Seu público é majoritariamente composto por adolescentes que encontram algumas de suas coisas preferidas por lá: identificação com outros de todo o mundo e anonimato/privacidade. Naturalmente, é por si só um terreno fértil para a cultura pop e sua relação direta com fãs em qualquer lugar do mundo. Formador de fandoms, gostos e consciências.
Um legado essencial do Tumblr (quase óbvio, à primeira vista) é estético – é isso que o faz tão bem-sucedido, movendo milhares de usuários a reblogar algo simplesmente porque é bonito, fotográfico.

Afinal, temos muito a culpar no Tumblr por mesclar todas essas épocas e linguagens visuais em uma mesma timeline. No meu próprio Tumblr de 2012 (que absolutamente não vou expor aqui), eu orbitava entre 1960 e 2010 com a mesma fluidez, reblogando fotos dos Beatles em Hamburgo e posts com letras do XX. Esse era um dos méritos da plataforma: fazia qualquer época parecer palpável, nos relembrando constantemente que era possível fazer uma rápida viagem no tempo. E o passeio temporal não é um problema, mas a regra musical é clara: no Tumblr, música deve ser constantemente ostentada, extremamente visual e ela diz quem você é o tempo todo. Algo feito exibir uma coleção de LPs, mas mais imagético e constante.

E a rede tem seus filmes, séries e capas de discos preferidos (“500 Dias com Ela” que o diga: inventou a romantização do ato de falar sobre The Smiths no elevador). Compilando tudo, o Tumblr serve como uma espécie de máquina do tempo a um falso vintage, de uma época inexistente; dentro da plataforma, é possível romantizar qualquer coisa. Entre cenas clássicas, melancólicas e desabafos amorosos, você acaba por glamourizar inclusive seu próprio sofrimento adolescente.

A nata desse universo estético nos últimos anos (e que não o larga, jamais) é a própria Lana Del Rey – “Video Games” é exatamente a representação etérea, caseira e romantizada do sofrimento de um relacionamento problemático. No vídeo, tem uma dose de tudo: imagens filmadas em casa, as de stock atuais, efeitos de filme antigo e diversas cenas em que a gente projeta toda a história. Aliás, cada pedaço daquele vídeo é reblogável, projetável, romantizável; assim ela o fez durante toda a sua carreira, repetindo a fórmula de sucesso estendendo esse universo, mas jamais o abandonando. E, assim, tornou relacionamentos abusivos o tema de versos bonitos e vídeos nostálgicos.

Para além de Lana e discípulos, a estética Tumblr se estende no universo musical e deixa suas pegadas em todo canto: afinal, na plataforma, os posts são interessantíssimos e sempre atraentes, com recursos gráficos minimalistas; são pseudoanalógicos, íntimos, cheios de granulados e desabafos. Haja capa de disco e single que se inspira nisso – um exemplo perfeito é a capa do “ye”, do Kanye West (aquilo ali poderia ser facilmente um post do Tumblr, e coincidentemente, é um exemplo também dessa “nova” preocupação com saúde mental). Mas a lista continua eternamente: capas da Florence + The Machine, dos discos do Twenty One Pilots, do Mac DeMarco, até de Recomeçar, do Tim Bernardes… O indie (ou o que quer parecer indie) e o Tumblr naturalmente se atraem.

Mas outra consequência essencial da rede – e que resulta, de modo geral, em uma mudança importante no cenário da cultura pop – é o fato de que ela serviu como incubadora de uma juventude diferente; talvez justamente porque ela aprendeu a se reconhecer diferente. Um estudo chamado New Rules for #20gayteen explora bem esse aspecto: a plataforma funciona como uma bolha LGBTQ+, extremamente autocelebratória e sedenta por produtos culturais que a representa. Daí vem muito do próprio Harry Styles, que deixa pequenas pistas para um fandom se debruçar sobre, dissecar até.

Esses discursos atravessam a própria música e, desta vez, você consegue acompanhar a discussão de modo público – pode ver, ao vivaço, quais letras são exaltadas e o que funciona. Surgem as teorias da conspiração sobre casais homossexuais, aplicadas a cantores que nunca sequer se assumiram LGBTQ+ – surge Larry Stylinson, Taylor Swift e Dianna Agron, essa coisa toda. Aos poucos, formou-se um público que entende o que é “queerbaiting” (e decide se o aceita), que exige representatividade e entende seu lugar.

Se os artistas e a indústria estão diferentes hoje, é que rolou um fenômeno anterior fortíssimo: o público mudou muito, antes de tudo.
Não só no sentido de compreender gênero/sexualidade, mas em todos os sentidos de identidade: vários outros estudos corroboram essa ideia do Tumblr enquanto um lugar em que consciências se formam – com um feminismo jovem, celebração de todos os corpos, tudo isso.

Com uma potência que só a internet pode proporcionar, a plataforma serviu como um liquidificador de tudo que você vê espalhado na Gen Z e afins: papos de saúde mental, sexualidades, arte, nostalgia, melancolia, introspecção. Claro, coisas que, em uma ou outra medida, são tipicamente adolescentes – mas talvez, graças ao Tumblr, os mesmos padrões tenham marcado uma mesma geração em nível mundial.

Afinal, um Tumblr da vida explica essa leva inteira (na qual eu ando me aprofundando) de artistas queer/indie mental health/lo-fi de letras minúsculas que veio em seguida – uma galera que, muito provavelmente, descobriu muito de quem era e do que gostava na plataforma. Convenhamos: basta ver um vídeo do Troye Sivan para ter certeza de que ele já teve um Tumblr.
Mas não só: a lista é longa. King Princess, Claud, Olivia Rodrigo, Lorde, WILLOW, até Manu Gavassi. Quando você traça um padrão entre todos esses artistas – e pensa no que os influenciou até aqui –, existe esse culpado pouco mencionado, mas que merece uma atenção especial. Sem o tumblr, não existiria muito do que há de bom na música – pelo menos não tão encorpado quanto é.

E eu posso provar.

Ou ainda: basicamente, o Tumblr explica a playlist lorem inteirinha.

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* As imagens usadas neste post e na chamada da home da Popload são do vídeo de Lana Del Rey para a música “Video Games”, seu primeiro hit.

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