Em dora guerra:

SEMILOAD – Adele e as delícias da música triste

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* Que alegria um belo texto sobre as músicas tristes. Sim, Dorinha Guerra, nossa parceira semanal, CEO da espetacular newsletter musical Semibreve, aproveitou a carona no bombástico e extrointrovertido disco da cantora Adele para refletir por que, afinal de contas, a gente ama uma musiquinha de chorar.
Enxuga essas lágrimas e leia.

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O lançamento (e estouro!) da Adele, infalível, me fez parar em questões quase metafísicas. Mais precisamente, uma reflexão mais antiga que o quadril de Mick Jagger – por que é que a gente gosta tanto de músicas tristes?

Afinal, provocar a si mesmo uma reação potencialmente negativa é meio contraintuitivo e, às vezes, quase burrice. Quem é que quer intensificar sua própria dor, afinal de contas? Mas o buraco é mais embaixo: mesmo se estivermos inicialmente felizes, pode ser que uma boa sofrência te traga alguma reação positiva. E, se você está triste de fato, pode aliviar em alguma medida a sua melancolia. É o que Jerrold Levinson chama – e eu não poderia dizê-lo melhor – de “paradoxo do masoquismo musical”.

Primeiro, vou te dar os argumentos científicos: aparentemente, a música triste induz o aumento de prolactina, hormônio que ajuda a reduzir o sentimento de luto. Se você já não está sentindo luto, você pega sua tristeza negativa e a diminui ainda mais, ficando alegre. Aparentemente, pessoas com maior grau de empatia também curtem mais as músicas badzinhas, sentindo uma tal de “tristeza prazerosa”. Beleza.

Fato é que existe algum prazer na tristeza: senão, não a buscaríamos propositalmente no que consumimos. E, se a gente não buscasse por isso, não teria gente produzindo. Eu sou uma pessoa que foge ativamente de filmes tristes, por exemplo; mas três minutos de uma canção deprê pode ser tudo que eu preciso. Às vezes, ouvir alguém cantar sua própria miséria é de fato prazeroso.

Entrando em argumentos mais filosóficos e menos científicos, talvez tudo comece por aí: ao ouvir uma música triste, você se desloca para outro lugar, outro personagem, que pode cantar/tocar algo que você tenha vivido (ou não). Assim como uma boa sessão de terapia, você tem uma figura com um certo afastamento, que te proporciona a possibilidade de “sentir sentimentos” por outro viés – sei de uma série de pessoas que não consegue sentir a própria dor diretamente, mas precisa de outras válvulas de escape. É só um meio, um atravessamento, que te ajuda a digerir o que nem sempre é digerível (ou que nem você sabe localizar).

Nesses artistas, também colocamos a responsabilidade impossível – e que, de alguma forma, eles parecem dar conta – de traduzir em som ou palavras aquilo que não conseguimos. O luto, por exemplo, é um sentimento cuja descrição parece inviável; ainda assim, existem alguns artistas que se atreveram a cercear o assunto, descrevendo-o em pequenas ou grandes coisas, te ajudando a colocar o sentimento em algum lugar. É um processo de análise, de certa forma (que não dispensa seu analista!).

Dei o exemplo do sentimento mais maluco de todos, mas um deles é e sempre será infalível: o coração partido. A dor mais democrática e avassaladora da vida cotidiana é um assunto repleto de nuances – ainda assim, é comum a todos nós o momento de “curtir a fossa”: ninguém quer ter dor de corno, mas todo mundo quer ouvir música de corno. É delicioso saber que todos nós nos humilhamos igualmente por uma paixão; que todos nós nos sentimos atropelados por ela quando dá errado; e que alguém já colocou em versos tudo aquilo que você sentiu, gostaria de sentir ou vai sentir na vida. Muitas vezes – nos melhores sertanejos –, isso ainda vem com uma dose de humor, compensando tudo com um sorriso e te lembrando que, claro, isso passa.

E tem uma parte importantíssima nisso que é a música de fato e todo o seu poder. Aí entra toda a carga afetiva indescritível que pode ter o acorde certo (ou errado) na hora certa: você não tem nada a ver com a doença horrorosa de idade média que aquele compositor alemão tinha, mas fato é que uma boa música triste instrumental sabe arder, te arrancar em som o que você não sabia nem que tinha nome. E o mais maluco de tudo: sei que, em maior ou menor medida, você sabia distinguir uma música feliz de uma triste mesmo antes de saber andar. É natural, né?

Aliás, o fato de uma sequência de sons poder te provocar uma reação tão visceral é delicioso – tipo um processo de hipnose que você paga por ele e, ainda assim, fica surpreso quando funciona.

“A música pode suspirar e gemer; ela pode congelar ou brincar. Pode rastejar ameaçadoramente ou caminhar com raiva. Ela também pode espelhar mudanças do corpo, como quando um ritmo agitado ou irregular imita um coração agitado ou respiração irregular” – Jenefer Robinson

E claro: às vezes, o que nos atrai não é particularmente a tristeza ou a identificação, mas o drama; a força de um ser humano que é tomado pelo que performa, como uma boa atuação que te comove independentemente do seu humor anterior. Para mim, foi o caso de “To Be Loved”, balada de Adele que não me atraiu pelas letras sobre o divórcio ou decepção amorosa (eu odeio baladas!), mas pela dor que a artista carrega na voz. Muito mais que a alegria, a dor é um aspecto bastante mensurável na performance – quando é bem-feita, então, é de arrepiar.

No fim das contas, a música badzêra é uma celebração do ato musical por completo: da letra, do som, da performance e da emoção em seus extremos. Uma boa canção triste é um espetáculo introspectivo de tudo que a música sabe fazer de melhor – talvez por isso seja tão deliciosa.

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SEMILOAD – Já reparou que o álbum de estreia não significa mais o início de uma carreira?

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* No que a Dora Guerra vai se meter a falar desta vez? Simples… Ela vai fazer uma análise absurdamente necessária de uma coisa aparentemente simples no meio musical que quase ninguém se dá conta: o negócio do “disco de estreia”. E como ele moldou a carreira dos artistas antigamente e bem diferente molda agora. Nossa parceira da supimpa newsletter Semibreve consegue enxergar algo que está tão na nossa cara, mas que a gente deixa passar batido de tão trivial que é. Não para a Dora.

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Já notou o tempo que tem levado para você conhecer o álbum de estreia de alguém?

Billie Eilish, Pinkpantheress, Lil Nas X, a lista é gigante – quando você é um novo artista, ou mesmo um artista que recentemente ganhou visibilidade apesar de uma longa trajetória, o álbum não é mais o início de nada; é quase uma conclusão, a entrega formada e já reativa a alguma recepção.

Falei nestes dias (sempre falo!) sobre como o TikTok consegue dar uma chance a alguns artistas e produtores que estão começando e, por acaso, acabam tendo um viral no currículo; estes, o SoundCloud e o próprio Instagram têm nos dado a oportunidade de conhecer um artista em sua forma mais crua, se descobrindo enquanto nós o descobrimos. Ou seja: não temos mais a expectativa de nos deparar com alguém já assessorado, montadinho – a gente gosta de conhecer o que a pessoa produz no próprio quarto, se virando como pode, antes de receber o preparo de gente grande.

Já reparou? Vários são os músicos no Spotify que só têm uma ou duas faixas no perfil – mas já com um número alto de streams. Tenham eles o apoio de gravadoras e o próprio streaming ou não, o que importa aqui é que ninguém precisa esperar mais o conjunto da obra para decidir se gosta.

E olha que curioso: por mais que os virais sejam frequentes, tenho visto cada dia menos os tais do “one-hit wonder”.

Claro, viralizar com trabalhos incipientes não é o caso para muuuuita gente – mas ainda que sejam raros os exemplos dos “virais de início, álbum depois”, estes já representam uma virada no nosso processo de expansão musical. Da nossa parte, enquanto público, estamos mais abertos: dispostos a nos familiarizar com esses artistas na medida em que eles transitam por diferentes faixas, sem se comprometer necessariamente a uma sonoridade ou marca registrada. No caso de Billie Eilish – veja bem, uma das maiores artistas da atualidade no mundo ocidental –, o espaço de tempo entre “Ocean Eyes”, um de seus primeiros hits, e “When We All Fall Asleep, Where Do We Go”, seu primeiro álbum completo, foi de quatro anos.

Para a indústria musical, quatro anos é uma eternidade; para as redes sociais, pior ainda. Billie não esteve parada durante esse tempo, claro – lançou EPs, emplacou músicas em trilhas sonoras e por aí vai. Ela entrou tão devagarzinho no nosso universo (e ainda assim, de forma tão abrupta) que, quando anunciou seu álbum de estreia, a comoção foi gigantesca.

E aí, você se pegava se perguntando: “Álbum de estreia? Ainda?”.

Ainda, sim. Esse é o pulo do gato. Ao lançar seu primeiríssimo disco, Billie Eilish já tinha o público, o dinheiro, a atenção e a estrutura necessárias para conseguir um álbum coeso – que, de cara, levaria uma porrada de Grammys. Ainda que eu imagine que Billie não tenha sido pobre ou mal conectada em nenhum momento da sua vida, o feito é especialmente impressionante não porque ela “surgiu do nada” ou “fez milagre”, mas porque conseguiu os recursos antes mesmo de sua estreia oficial.

E isso é menos um efeito de estratégia da parte dela e mais um gigantesco sinal dos tempos – tanto é que Billie é só um exemplo de muitíssimos.

O resultado disso costuma ser certeiro. À altura do tal “álbum de estreia”, o artista (e sua equipe) ganharam tempo e conhecimento sobre seus próprios trabalhos; entenderam o que é que o público gosta no artista, o que espera, conseguiram criar expectativa. Por consequência, o disco de estreia deles, hoje, raramente é caótico ou experimental demais (a não ser que seja de propósito). É, na verdade, muitíssimo bem calculado, uma forma mais amadurecida do artista do que se tinha notícia de um primeiro álbum. Hoje, o primeiro disco é uma consolidação de quem o artista é naquele momento – muito mais que uma introdução.

Eu encaro assim: antes, o primeiro álbum era mais uma certidão de nascimento escrita às pressas, empoeirada, com informações que você não vai usar muito mais, como o nome do cartório e do hospital. Hoje, é a carteira de identidade: já com foto, com cara, com uma assinatura que você pode ter tido tempo de decidir como seria, o número de RG que você vai acabar usando para o resto da vida. Quando você faz sua carteira de identidade – mesmo que seja a infantil –, você já teve tempo de viver um pouco e ter que ver o que o mundo pensava de você.

Ainda é apenas uma apresentação de quem você é – não vai te definir por completo, você vai trocar ao longo do tempo e tudo o mais; mas é muito mais palpável, concreto, arrumadinho até. Em um momento em que deixar uma impressão definitiva é extremamente arriscado, o álbum de estreia tardio é a opção mais acertada.

É tipo: “Agora cheguei para valer. Antes eu estava só brincando”.

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SEMILOAD – Fundamentais e nada preocupado em serem fundamentais, o Silk Sonic convida você a dançar

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* “An Evening with Silk Sonic”, primeiro álbum do superduo que traz Bruno Mars e Anderson .Paak, não pode ser encarado como um “lançamento normal”. O disco, que saiu sexta-feira, traz, afinal de contas, de um lado BRUNO MARS. E, do outro, ANDERSON .PAAK, senhoras e senhores.

Mal comparando, desculpe por isso, seria o mesmo que, no indie rock, os Strokes se juntassem aos Arctic Monkeys em 2008 para fazerem uma banda só para fazerem uma formação que homenageasse os Beatles.

E quem melhor para explicar a verdadeira dimensão dessa dupla ou desse disco do que nossa parceira mineira visionária e revisionária Dora Guerra, dona da esperta newsletter Semibreve?

Quem, hein? QUEM?

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Seda pura.

Quem decidiu o nome “Silk Sonic”, por mais direto e levemente cafona que seja, acertou em cheio. A nova dupla, formada por Bruno Mars e Anderson .Paak – dois artistas de proporções gigantescas na música pop mundial –, é exatamente o que você esperaria. Mas, quando o resultado te arranca um sorrisinho, importa se é previsível?

É que, partindo das mesmíssimas influências – aquele soul à la Motown, que mistura breguice, paixão e sensualidade em uma fórmula imbatível –, Mars e .Paak nasceram um para o outro.

Desde pequeno, Bruno Mars é um emulador: quando criança, imitava Elvis Presley e Michael Jackson com sua família em uma atração de cruzeiros. Sua natureza é exatamente essa, a de ser um excelente performer que deixa suas influências escancaradas, desenhadas para quem quiser ver. Suas maiores qualidades esbarram frente a frente com seus defeitos; para apreciar a música de Bruno Mars, você não pode questioná-la demais – só deixar entrar.

Já seu colega Anderson .Paak – que em Silk Sonic serve meio como wingman, meio como membro do mesmo grupo musical – tem uma carreira levemente distinta: apesar de também ser fortemente atravessado por suas referências, .Paak busca disfarçá-las com sua bateria e sorriso infalíveis. Encare desta forma: Mars quer que você o veja ao lado de seus ídolos, um contemporâneo deles; .Paak quer que você o veja como um artista moderno, que leva o legado deles adiante.

Por isso, com risada solta e perfeitamente coreografados, ambos se potencializam – não como opostos-complementares, mas como “quase iguais”-complementares.

Quando você coloca os dois na mesma balança, o resultado pesa para o lado de Mars: “An Evening with Silk Sonic” soa, para ele, como uma continuidade de sua carreira; para Anderson .Paak, soa como um projeto à parte. Não que isso importe – nenhum dos dois artistas está exatamente preocupado com isso. Aliás, nenhum deles está preocupado.

Não existe espaço para isso mesmo. Desde o primeiro single, “Leave the Door Open”, e especialmente no terceiro vídeo da dupla, “Smoking Out the Window”, Silk Sonic é única e exclusivamente bom humor. No universo musical dos dois, o pior problema existente é uma dor de cotovelo bem doída de quem gastou dinheiro demais em uma garota que nem era deles – mas pandemia, Trump, aquecimento global? Aqui não.

Na verdade, isso aqui é uma festa, uma noite com a dupla (mais uma vez, o nome do álbum é bem direto quanto a isso). Com Bootsy Collins (Parliament-Funkadelic) assumindo o posto de Mestre de Cerimônias e o mix às vezes deixando que a bateria tome conta – como é na vida real –, você está convidadíssimo para o rolê, desde que entre na onda.

E aí, Anderson .Paak dá a Bruno Mars tudo que lhe faltava: ainda mais sorriso, companhia nas festas e uma dose extra de ritmo e swing – daqueles que simplesmente não te deixam ficar parado em hipótese alguma. Modulando sempre (sempre!) que há uma oportunidade, Mars canta como nunca nesse disco; em “Put on a Smile”, você se pega várias vezes boquiaberto, lembrando o que ele sabe fazer.

Em seguida – em “777” – o artista assume os vocais agressivos de um bom imitador de James Brown e o brilho vai para a percussão infalível de .Paak. Resumidamente, os dois se complementam porque sabem exatamente como mostrar cada um de seus talentos; alternam holofotes com muita elegância, sem te tirar o foco da música.

Na verdade, são só 31 minutos de festa; o suficiente para que a sonoridade, extremamente nostálgica sem qualquer remorso, não te canse demais. Um álbum do tipo que seus pais e tios vão curtir ao seu lado, para que ninguém se lembre de discutir política. Para você passar um perfume enquanto ouve, buscando a única peça de seda que você tem em casa (e comprou em brechó). Não faz mal: a parte do luxo fica com eles.

Nessa festa, tá todo mundo convidado. E tá todo mundo dançando.

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* E a Dora Guerra convida você ao Twitter dela, o @goraduerra.

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SEMILOAD – Precisamos falar sobre o TikTok na música. Ou a música no TikTok

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* Faltava nossa pensadora musical Dora Guerra, que orquestra a ótima newsletter Semibreve, nossa parceira semanal, botar seus preciosos pingos nos “is” da plataforma revolucionária TikTok, que a seu jeito tem transformado o jeito de se consumir música.

Mesmo tendo o Caetano Veloso como contraponto, o que torna a tarefa mais instigante por tudo o que representa, não falta mais.

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Nestes dias, viralizou um vídeo do “Porta dos Fundos” com o Caetano Veloso, que você deve ter visto por aí. Nele, os personagens de Gregório Duvivier e João Vicente representam empresários marketeiros, típicos, afins de subir os KPIs e outras siglas inglesas, tiktok-zando o Caetano. Choque de gerações. O bom e velho humor em cima de paulista.

Eis que, pouco tempo depois, me deparei com um artigo do Tab UOL – sobre a esquete e, principalmente, sobre o medo do TikTok e da necessidade de se tiktok-zar. Ao longo do artigo, o autor mostra seu espanto com a nova cultura da plataforma, o consumo rápido, a falta de densidade na nossa relação com a arte. Justo? Talvez. Mas eu acho que cabe também discordar – ou, por outro lado, tentar acalmar o autor.

(Lá vou eu, mais uma vez, a defensora da nova geração. Às vezes sinto que é só isso que faço – além de chatear beatlemaníaco).

Algumas coisas são fatos que nem eu posso contestar: 1) o TikTok está, sim, alterando a lógica da indústria musical; 2) músicas estão cada vez menores, diminuindo o espaço que grandes canções de sete minutos outrora tiveram e 3) “Meu Coco” é, realmente, um nome de álbum questionável.

Mas enxergar o TikTok como um vilão vem de um medo misturado com preconceito misturado com resistência. É uma plataforma de vídeos curtos, então claro que trechos curtos de música vão fazer mais sucesso. Todo mundo adora uma dancinha e, portanto, se na sua canção couber uma coreografia, ótimo. Mas isso de música-dançável-não-necessariamente-profunda é um fenômeno novo? Bom, você que me diz: vale lembrar que “Conga Conga Conga” vem dos anos 80.

Há um lugar para canções como a de Caetano – e esse nunca será o do TikTok, o que tanto a plataforma quanto o artista sabem. Primeiro que ninguém precisa do TikTok para fazer sucesso (ajuda, beleza, mas não é imprescindível). Segundo que você não vai à plataforma para pensar sobre canções profundas; na rede, a fração dominante da música tende a ser a sonoridade, o que já propõe uma relação interessante com o que a gente ouve por lá. Aliás, o TikTok teve um histórico de conceder sucesso a pequenos artistas e produtores, com um algoritmo próprio baseado em – pasmem! – o que as pessoas gostam de ouvir e usar de trilha sonora. Isso é mesmo tão assustador?

Beleza, o TikTok tem seus problemas (ao meu ver, mais relacionados à autoria e monetização de artistas); mas, se vai deixar estrago na indústria, é menos por sua existência e mais pela forma que alguns mercenários o interpretam.

Porque aqueles personagens caricatos do vídeo, incômodos pela falta de tato e obsessão com os números, existem. Ô, se existem. Na Faria Lima, você balança uma árvore e caem quatro deles. Mas é muito romântico da nossa parte acreditar que, em outros momentos da carreira de Caetano, empresários de gravadora igualmente sedentos não estavam implorando que ele saísse do tema político, investisse no marketing, fosse no Chacrinha ou qualquer que fosse a plataforma de tamanho proporcional ao TikTok do momento. Basicamente: desde que o mundo é mundo, alguém com coragem suficiente para minar alguém como Caetano Veloso sempre existiu e existirá. Lá no filme do Queen, alguém também olhou para uma obra-prima como “Bohemian Rhapsody” e disse que aquilo ali nunca ia tocar nas rádios. E aí?

A gente tem que respeitar o lugar das coisas – a graça do vídeo não está no que os empresários dizem, mas no fato de que Caetano está lá, atento e atônito, ouvindo o que esses homens têm a dizer.

Explicando o humor na tirinha: é engraçado porque, na vida real, Caetano não precisa disso – não pensou se você vai ler o nome do álbum dele errado, tampouco ficou preocupado em tornar “Anjos Tronchos” um hit. Quem você vê apelando para as estratégias nostálgicas, de meme ou “de entrar no Big Brother”, como citam os empresários no vídeo, são os artistas que estão começando e se divertindo, os que precisam de um hit ou que, a esta altura, querem conquistar uma visibilidade que perderam. É a Lizzo (nativa digital), a Avril Lavigne (cuja carreira ficou nos anos 2000/2010), o Projota (no meio da carreira, sem shows na pandemia).

Aliás, é curioso até que a figura escolhida para o vídeo seja o Caetano – logo ele, que não tem medo do futuro, que cita sambanejo, trap, pagodão em suas músicas. Ele, que vive se modernizando não por necessidade, mas por sede de novidade. Se Caetano quisesse, sim, talvez cedesse à lógica do TikTok como qualquer outro artista pop cedeu à lógica das rádios em qualquer dado momento na história. Isto é, se ele quisesse que sua música fosse o hit do momento. Mas ele não precisa ou quer – e é um desespero tolo acreditar que alguém como Caetano estará algum dia sujeito às métricas de marketing do novo mundo.

Claro, outros artistas estão, sim, sujeitos a essas métricas; por outro lado, vários deles têm hoje muito mais espaço que jamais tiveram (e menos renda, isso eu concordo). O mito da democratização que a internet traz é mito, mas tem sua ponta de verdade; o viral pode ser fabricável, mas também pode vir do povo. Quantas histórias de artistas desacreditados com músicas bem-humoradas não renderam carreiras nos últimos anos, graças ao TikTok e às redes?

O autor acaba o texto dizendo: “Algo se perdeu, algo se quebrou, algo está se quebrando”. É… Talvez. Muita coisa vem se quebrando ultimamente. Mas a gente anda ganhando muita coisa, também – diversificando, nos propondo a dançar, abrindo horizontes. Vamos com calma ao condenar o futuro, mais uma vez. Se tivermos danos a longo prazo causados pelo momento tecnológico (e claro, teremos), a nossa referência disso não é (nem deve ser) os produtores caricatos de grandes gravadoras que, pelo que a gente ouve dizer, sempre foram e sempre serão assim.

No mais, sabe quem não precisa se preocupar? O Caetano.

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* Não misture as redes. Dora Guerra faz dancinha das palavras no Twitter, como @goraduerra.

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SEMILOAD – As marcas que o Youtube tem deixado na música

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* Você deve gostar de música, gostar de vídeo, frequentar bastante a plataforma Youtube, mas talvez de uma forma tão habitual que nunca parou para pensar como todas essas coisas ligadas e podem estar moldando a música como a gente a consome. Mas tem uma pessoa que já parou para pensar nisso e amarrar todas as pontas. Ela mesma. Dora Guerra, da newsletter Semibreve, nossa parceira semanal nesta Semiload.

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A gente vive um momento engraçado: aquele em que você pede a alguém para botar música e, às vezes, isso significa projetar vídeos no Chromecast.

Nesta nossa era do áudio profundamente audiovisual, é curioso pensar em como o YouTube ressignificou nossa relação com a música. A plataforma às vezes parece um palco atualizado de atrações de todo tipo, profundamente garimpável, que te engole por horas; ali na calada e com a deliciosa proposta de ser aberto e gratuito o YouTube vai deixando marcas onde a gente nem espera.

Afinal, para além do arquivo histórico que guarda, o YouTube é uma espécie de vitrine de novas coisas para ouvir, freneticamente atualizada. Pensando em como o site começou – hospedando vídeos caseiros, mal gravados em uma filmadora ou sua webcam velha –, era óbvio que a primeira leva de influência na música viria dos covers. Lembra quando você não dava dois cliques sem esbarrar no cover de alguém para “Sweater Weather”, do The Neighborhood?

Dos primeiros virais e a consolidação da carreira de gente feito Justin Bieber, Shawn Mendes, Anavitória e Mallu Magalhães, o YouTube já é responsável por uma geração que influencia o próprio Youtube; já se autofomenta, por assim dizer. Eu iria além e diria até que a existência da plataforma lançou gêneros musicais inteiros – muitos dos artistas da tal nova MPB, por exemplo, saíram do cover com violão e canto delicado do YouTube para cantar com violão e canto delicado suas próprias músicas autorais; por outro lado, talvez aquela tendência de gravar um vídeo mandando um belting no banheiro possa ter aguçado nossa mania de vozeirões, agudos e reality shows como o “The Voice”. Aliás, o YouTube foi o the voice pré-“The Voice”. E nós fomos os jurados.

E ainda que, hoje, a leva de criadores-de-covers tenha perdido um pouco a visibilidade (acho que o SoundCloud bomba mais nesse sentido hoje em dia, valorizando menos os cantores/instrumentistas e mais os compositores/produtores), o YouTube segue sendo um eterno show de talentos. Nessa oferta saturada de vídeos para assistir, confiamos em alguns curadores para nos oferecer as pessoas certas a ouvir: eles fornecem o nome e o palco (e o canal!). A gente fornece o view e, futuramente, o stream.

Não é à toa que estamos constantemente consumindo o COLORS, o Tiny Desk, o DSCVR, o BBC Radio One, o Cultura Livre (que eu chuto que a galera veja mais no Youtube do que na TV Cultura), o Boiler Room. Nunca foi sobre substituir a experiência de um show, mas expandir a relação que você tem com o artista que consome – ou te sugerir uma nova experiência com um artista que você nem conhecia ainda. Nesse sentido, o YouTube é insubstituível, uma vez que ele preenche a lacuna entre voz e presença com muita inventividade. Ele está lá para te dar o que você não sabia que queria antes de ele existir. Mas, agora, não vive sem.

Esses canais oferecem, de cara, algo que não é nem um vídeo musical nem uma versão precisa do que esse artista é ao vivo. É um constante “prove seu talento” ou, ainda, “quem sabe faz (quase) ao vivo (em um ambiente controlado)”.

Para alguns universos musicais, é a fórmula perfeita: é o caso do rap, por exemplo, que sai dos duelos de MCs e cresce em formatos como o Brasil Grime Show e o Poesia Acústica.

É interessante pensar também como uma música se desdobra no YouTube de forma muito diferente das outras plataformas – isso para não falar das apresentações televisionadas, que também acabam por desaguar por lá. Como parte de estratégias marketeiras, o vídeo musical é só o básico; mesmo outras canções sem o chamado “clipe” têm ganhado visualizers (aqueles vídeos repetitivos breves), lyric videos (famoso vídeo com letra), dance videos (com a coreografia), performance videos (que é uma espécie de “clipe” não-“clipe”).

Pode parecer excessivo – e muitas vezes é –, mas é curioso para a gente enquanto espectador: temos a possibilidade de viver a mesma música em diversas formas diferentes, oferta que o Spotify é incapaz de nos dar exceto pelos remixes.

O YouTube tornou a música imersiva de uma forma que, por um lado, pode ter feito com que a gente não consiga ouvir música sem vê-la; por outro, pode ter fortalecido nossa relação com os artistas, sabendo melhor quem são e curtindo cada nova faceta do mesmo produto. Mesmo com suas limitações, ainda é fomentador de espaços que podem não ser completamente democráticos, mas proporcionam uma visibilidade que gerações anteriores sonhavam ter; fundamentalmente, o YouTube tende a ser sincero no show de talentos.

Ou ainda: em tempos de COLORS, Tiny Desk e outras delícias do YouTube, nunca haveria um Milli Vanilli.

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* Dora Guerra é ativa nos audivisuais no Twitter, como @goraduerra.

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