Em dora guerra:

SEMILOAD – Paramore x Olivia Rodrigo. Martinho da Vila x Adele. E a questão do plágio na música

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* Lá vai a Dora Guerra, a dona da nossa newsletter predileta (mas tão predileta que virou nossa parceira), se meter na velha questão, ou no vespeiro, do que é plágio, o que é “homenagem”, “referência” na música. Mas com um olhar “fresh” e um posicionamento bem claro. Dora, a senhorita Semibreve, tendo à luz essas pendengas recorrentes de Olivia Rodrigo copiando ou “copiando” Paramore e nosso sambista Martinho da Vila “inspirando” a megastar pop Adele, acha que…

Bom, vai ler o que ela acha, que é melhor.

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Vou me meter em uma discussão complexa, subjetiva e que requer um conhecimento musical profundo – do qual tenho só a superfície. É, né… Meu tipo preferido de discussão.

Recentemente, dois “processinhos” musicais me chamaram a atenção: o do Paramore com a Olivia Rodrigo, em que os compositores de “Misery Business” conseguiram créditos como compositores de “good 4 u”. E, claro, o famigerado novo processinho de Toninho Geraes sobre Adele, dizendo que houve plágio de “Mulheres” na canção “Million Years Ago”, da inglesa. O curioso é que um caso afetou a minha percepção do outro – até eu perceber que são coisas bem diferentes.

Eu sou parcial: tento rejeitar todo tipo de acusação de plágio na música, a não ser que seja óbvia ou delineada para mim. Primeiro, porque tento acreditar no melhor das pessoas (e na consciência destas, caso o plágio seja intencional). Segundo, em uma nota menos utópica, me assusta a complexidade das discussões de autoria, originalidade e por aí vai. Onde acaba o autêntico e começa o derivativo? Não estamos todos referenciando alguma outra coisa, o tempo todo, em nossas criações?

Esse é o meu incômodo na discussão “Misery Business” x “good 4 u”, por exemplo. E o pedido de créditos na música. Os créditos foram dados como “interpolação” – termo usado para designar uma referência que não é um sample direto, mas uma citação reinterpretada; feito o que Ariana Grande fez em “7 Rings”. Eu já tinha a sensação de que, apesar de as músicas lembrarem uma a outra, não existia de fato uma interpolação. Não há uma citação tão direta, ainda que a inspiração seja explícita (e, quando vi um nerd musical como Adam Neely assinar embaixo, tive mais confiança para afirmar essa percepção). Ao aceitar e ceder os créditos, Olivia Rodrigo e seu produtor Dan Nigro parecem assumir a culpa no cartório, o que me incomodou mais ainda. Culpa de quê?

Convenhamos, a inspiração de Olivia é clara; em nenhum momento ela busca esconder esse tipo de referência ou se colocar sob a fachada de original. O que a gravadora exige como direitos autorais, por interpolação ou cópia, tem mais de homenagem. Não é tanto uma música “clone” da outra – é mais uma música “filha” da outra. Não digo que o Paramore esteja errado, mas me parece até bizarro cobrar créditos de uma adolescente cujo único objetivo pareceu ser exatamente fazer um tributo a quem veio antes.

Por isso, existem duas diferenças primordiais entre o caso de Olivia Rodrigo e o da Adele: a primeira é que, em se tratando do tamanho e público dos artistas, Olivia e Paramore são extremamente comparáveis (muito mais que o segundo exemplo). E a outra é que, em termos de estilo, referências visuais e mais, o brasileiro e a inglesa não têm muito a ver – já Paramore e Olivia Rodrigo, sim.

No caso Adele x Martinho/Toninho, o buraco é muito mais embaixo (e eu admito que, a princípio, eu não levei o processo tão a sério). Sem que Toninho Geraes desenhasse essa referência, poucos de nós havíamos feito a ligação – parece que poucos dos ouvintes mundiais de “Million Years Ago” (Adele) ouvem “Mulheres” (Martinho da Vila) com frequência (eu mesma prefiro “Chasing Pavements” e “Disritmia”, respectivamente). Apesar do seu brilhantismo, Martinho não tem uma proporção sequer equiparável à de Adele; não tem a mesma fortuna, o mesmo sucesso internacional/contemporâneo, os mesmos prêmios. Então, a discussão deixa de ser exclusivamente sobre autoria e passa a ser, também, sobre visibilidade.

É desleal: enquanto qualquer sample, paródia ou interpolação de faixa gringa famosa em forró não passa despercebida por nós, uma possível inspiração (ou, se bobear, uma cópia) como essa vinha passando em branco, escondendo todos os seus traços. Tudo sob a fachada – muitas vezes dada pela mídia – da compositora originalíssima (ainda que muito derivativa de outras fontes).

Não é curioso que Adele seja bem aquela clássica referência da artista incontestável, na qual muita gente gosta de se apoiar?

Pois é. Não sou eu o juiz a dizer se é plágio, mas considerando que não há conexão de país, gênero musical ou qualquer referência implícita ou explícita, a linha que une Martinho da Vila e Adele é somente musical – daí, a questão mais urgente. Um exemplo: se Adele fizesse uma bossa nova “inspirada nos fundadores desta”, você saberia exatamente de onde ela partiu mesmo que não citasse nomes. Aí, claro, poderia valer um processinho por direitos autorais se a música fosse inspirada demais – mas meio que só significaria que ela foi mais cover que autoral; não que, necessariamente, se apropriou da criação de outro com a intenção de parecer que a criou sozinha.

Resumindo, eu adoro o reaproveitamento que acontece no mundo da música – adoro o uso quase desenfreado de samples e interpolações e inspirações, a ideia de que você sempre pode transformar o novo em algo ainda mais novo, flexioná-lo, reinventá-lo, redecorá-lo. Mas, ao partir de algum lugar, é necessário entender de onde você vem e de onde vem o outro. É preciso tratar referências com uma reverência: com carinho, cuidado e respeito por quem trilhou o caminho direta ou indiretamente até onde você está. Não existe homenagem que apague o homenageado em vez de iluminá-lo; isso vai contra qualquer harmonia no reino musical. E, quando você se apropria da qualidade do trabalho de outra pessoa e some com os traços dela, acho que isso é sim passível de um belo processo judicial.

Precisamos saber diferenciar os dois tipos de referência – a boa da má –, saber honrar o tributo, também, para não deixar que o processo criativo perca com tudo isso.

A regra não é minha – é de Lavoisier. Cabe à gente entender o limite dela.

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* Dora Guerra pratica seu processo criativo também no Twitter, como @goraduerra.

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SEMILOAD – Juliette BBB e a arte de lançar um disco

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* Nesta semana aconteceu o superlançamento do EP (!) da ex-BBB Juliette, com um aparato de comunicação como se o disco fosse a edição do histórico disco do Metallica, para citar um badalado lançamento de hoje.

Juliette, uma das mulheres mais faladas no Brasil, está mesmo podendo, desde que deixou a casa do reality da Globo. Ela só cresce e aparece, ainda mais. Primeiro dominou as redes, os comerciais de TV, ganhou livro. E agora chegou ao disco. Que começou a ser feito sem ela, porque ela ainda estava presa no programa.

Sem querer julgar aqui se o disco é bom ou não, chamou atenção da nossa pensadora pop Dora Guerra, parceira da Popload e dona da seminal “Semibreve”, a newsletter de música mais legal do Brasil, a forma como o disco foi feito. O que isso pode significar não só para seus fãs como para ela mesma, enquanto uma artista que quer fazer um nome na música, como parece ser o caso.

Nessas, Dora aproveitou o disco de Juliette para, a partir dele, construir sua deliciosa reflexão sobre a relação artista e obra desde sempre na música pop, seja qual for o tamanho do artista.

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Todo o papo em torno daquele EP da ex-BBB Juliette me lembrou de algumas (várias) discussões que eu já vi por aí. Queria tentar levantar algumas – mas hoje, especificamente, não tô a fim de receber ameaças de morte, ok? A conversa não é para avaliar o disco simplesmente. É muito além.

À la autobiografia escrita por ghost writer em dois meses, o EP de Juliette e sua estratégia comercial escancaram uma realidade que alguns estão cansados de conhecer. E outros tomaram um susto. Composto por um time de compositores e produtores e com faixas pré-gravadas mesmo antes de Juliette sair do reality, o EP deixou claro: goste ou não do resultado, ele foi arquitetado em nome da personagem, baseado em sua imagem na mídia e sem muita colaboração criativa sua.

Mas essa estratégia, por si só, não é necessariamente um demérito. Na verdade, Juliette foi, nesse sentido, equiparável a grandes pop stars – Ariana Grande, Rihanna, Britney Spears –, váaarios artistas sertanejos de renome e tudo o mais. Só tem um time de compositores quem pode. E, em muitos casos, isso não compromete o resultado final. Se o artista consegue te convencer que aquela música foi feita por ele, de que importa se não foi?

Um vídeo que eu curto – “The Case of Non-Descript Artists” – trata um pouco sobre as várias categorias de artistas que assinam músicas que amamos: há os intérpretes/vocalistas, os performers, os compositores, por aí vai. Muitas vezes, essas categorias se sobrepõem, especialmente à medida que os artistas vão se sentindo confortáveis em explorar outras partes do processo.

E existe quem faz, majoritariamente, só um ou outro deles – mas de forma tão genial que não cabe a nós questionar. É o caso de Beyoncé, que enquanto performer é tão gigantesca que a canção em si vem em segundo plano, ainda que seja uma vocalista fenomenal; ou daquela série de compositores geniais que são vocalistas medianos ou pelo menos esquisitos, feito Bob Dylan, Patti Smith, até nosso Chico. Tem até quem é um grande performer e não necessariamente um cantor virtuoso, feito Mick Jagger e Madonna. Ah, claro: existem os músicos virtuosíssimos, com treinamento formal, ouvido absoluto, sinestesia e que tocam três pianos usando somente os pés – mas, curiosamente, não têm a presença de palco que muito doidão tem por aí.

É. Música é muito mais que cálculo, mais que só estudo: tem um fator artístico difícil de precisar, complicado de prever (que muitas vezes o público saca melhor que qualquer empresário de meia tigela, daqueles que você vê em filmes e pensa “esse cara vai se arrepender”). E assim, eu truco todo mundo que acha que tem um sucesso em mãos só porque fulaninho é famoso. Sucesso até tem. Mas tem legado?

Aliás, está cheio de músico já famoso que ainda não chega lá. O problema que o cara do vídeo “The Case of…” aponta – e que eu reforço – é, na verdade, quando um artista não cabe em nenhuma dessas categorias (os tais “non-descript artists”). Não são nem grandes vocalistas/musicistas, não são grandes performers, nem grandes compositores). São artistas cuja identidade fica difícil de localizar, porque você não se guia nem pela performance vocal, nem pela presença de palco, nem pelas letras, nem por nada; pode ser que um desses vá bem em uma ou outra canção, mas você não tem essa garantia em todas. Não significa que sejam artistas ruins, mas são aqueles que não emplacam de fato – você vê, claramente, que falta algo. No vídeo, essa parte leva exemplos como Maroon 5 (hoje) e Bebe Rexha.

Veja bem: são artistas que podem ter músicas boas, hits até. Mas a sensação de modo geral é a de que suas músicas são maiores que eles – eles ficam meio apagadinhos, ofuscados pela própria faixa. São esses artistas que lembram que a máquina-produtora-de-hits, do time de compositores e tudo o mais, consegue garantir uma grana ao artista, mas não garante uma obra-prima.

Já sabe onde eu estou indo com isso, né? Pois é. O EP de Juliette é uma explicação perfeita da questão dos “non-descript artists” – e digo isso porque, mesmo sem ser uma artista formada, ela já se posicionou como tal, apoiada por gigantes da indústria.

O problema do miniálbum que também leva o nome de Juliette não é necessariamente a falta de contribuição criativa da agora-cantora, mas o fato de que as músicas tomam conta dela, não o contrário; mesmo sua personalidade efusiva, responsável por garantir que Juliette chegasse onde chegou, pouco transparece nas músicas genéricas feitas por outrem. Ela é a prova de que uma voz afinada, ainda que ajude, não garante nada a ninguém (acredite, eu demorei a entender essa parte até para minha própria tentativa de ser musicista). Carisma também é ótimo, mas, se não se traduz em performance, não se sustenta. Já presença midiática, então, parece uma promessa incontestável de sucesso – mas é outra falácia da indústria.

Ainda que pareça, não estou aqui para detonar Juliette – não tô aqui para detonar ninguém, na verdade. O caso de Juliette só me lembrou que, em se tratando de música, o buraco é sempre mais embaixo. Não só é um erro confiar em supostos “grandes nomes garantidos”, como arrisco dizer que música é constantemente uma surpresa: os maiores não são pessoas que você necessariamente veria na rua e imaginaria que seriam tudo o que são. A Lady Gaga é menor que eu; o Caetano era um jovem meio feio. e Milton… Bom, nada no mundo te prepararia para o que sai de dentro de Milton Nascimento.

Afinal, não é essa a graça?

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SEMILOAD – Mas o que o Kanye West realmente está fazendo?

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* Chega de falar de Kanye West e seu “Donda”, né? Puts, acho que não, viu. O disco, para muito aléééém da discussão se as músicas são boas ou não, se é chato porque é muito longo ou ideal que fosse só um single, tem tantas camadas que a impressão que dá é que não estamos enxergando tudo o que ele quer passar.
Mas a gente tenta, não é, Dora Guerra? A moça da incrível newsletter “Semibreve“, nossa parça semanal, arrisca dizer que em breve, também por causa de “Donda”, ela, nós e você vamos estar fazendo música juntos com o Kanye West.
Mais ou menos isso!

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Por mais que eu deteste ficar falando de Kanye – às vezes eu até cedo, daí ele vai lá e me apronta uma de chamar Marilyn Manson e DaBaby ao seu show –, um assunto específico me chamou muito a atenção (esquece o disco; talvez em outro momento eu decida opinar sobre ele, mas por enquanto tenho certeza que você já leu maravilhas e ofensas sobre o álbum-que-é-longa-metragem). Então vamos lá, sem exaltar o Kanye, mas pensar um pouco sobre o que ele anda fazendo.

Semana passada, Kanye West anunciou o Donda Stem Player – um dispositivo cheio de luzinhas que, basicamente, permite a você “customizar” as músicas do álbum “Donda” (ou outras músicas, aliás) com todos os canais abertos – você edita os vocais, os instrumentais, mixa tudo ali naquela espécie de tamagotchi de 2021.

O que foi chamado por uns de “revolucionário”, na verdade não é novo, nem muda tudo – só talvez tenha uma visibilidade diferente por levar seu nome e fama juntos. Pois é, disponibilizar os stems (projetos de suas músicas) não é uma ideia exclusiva de Kanye: outros artistas já liberaram suas stems até de graça, inclusive. De cabeça, lembro de uma proposta similar do Glass Animals feita logo no ano passado, no auge pandêmico – só não tinha a verba para fazer um gadget feito West.

Mas, na minha humilde opinião, a popularização dessa ideia – capitalização em cima dela, até – cimenta um processo diferente na relação artista-música-público. O stem player, um objeto que torna a música literalmente manipulável, representa a epítome do “do it yourself”: a obra de um artista é tão sua, mas tão sua, que é disponibilizada para você alterá-la e brincar com ela a sua forma. Isso significa assumir que sua música não é um produto final, mas vivo, reativo ao que o público pode interpretar dele. Se você pensar, não é um raciocínio muito diferente da estratégia do projeto “Donda” em ser apresentado algumas vezes ao público de formas diferentes, antes de seu verdadeiro lançamento, nas “listening parties”.

Vale lembrar que abrir o processo não é uma decisão fácil ou necessariamente comum – pode condizer com a trajetória de Kanye, mas não é o caso da trajetória de muitos. Para vários grandes artistas, a tendência é a contrária: se fechar em seu processo criativo, anunciá-lo e lançá-lo somente quando finalizado, com todas as arestas aparadas (o que faz sentido, convenhamos, em um momento que muitos artistas estão tentando se separar de sua existência enquanto celebridades, focando ao máximo no isolamento criativo).

Mas tem até a ver com a estratégia dos álbuns de remixes e reimagineds (essa nova moda de emprestar suas músicas para outros artistas fazerem dela o que bem entenderem). Claro que, nesses casos, a proposta é aberta para colegas e não ao público geral (ou artistas menores, pelo menos); mas já é uma manifestação de um olhar diferente para o que constitui a música – ela não é o arranjo ou quem canta, tampouco acaba quando você a ouve; é aquela melodia, harmonia e o je ne sais quoi, que podem se desdobrar em inúmeras outras reinterpretações, feitas inclusive por pessoas diversas.

Mas considerando a participação/colaboração de gente como a gente no todo, “Donda” – que contou com a participação de público mesmo antes de ser finalizado – é, sim, um projeto que pode apontar para um futuro da música diferente.

Em tempos de discussões subjetivíssimas e cada dia mais complicadas sobre autoria – que nos forçam a discutir de onde vêm cada coisa, o que é original (se é que isso ainda existe) –, encarar a música como um organismo vivo e aberto é uma espécie de contraproposta, que rejeita a autoria como uma discussão necessária. No caso de disponibilizar os stems, por exemplo, um artista do porte de Kanye pode se colocar menos como o controlador de tudo e mais como uma espécie de maestro, convidando influências de todos os lados e apresentando seu trabalho, de cara, como editável.

É uma visão que confia no público, dividindo com ele o peso dessa criação. Como alternativa ao formato tradicional, essa proposta me lembra o que Radiohead fez lá em 2007, disponibilizando o álbum “In Rainbows” para qualquer um baixar por qualquer preço. A sensação que dá é que, com o tempo, os artistas tentam constantemente eliminar os mediadores que existem entre eles e nós: dizendo “Não” aos mercenários do Spotify, “Não” aos malucos de gravadora ou quaisquer engravatados que queiram decidir quanto devemos pagar e quanto eles devem receber. São só eles, suas criações, nossos ouvidos (às vezes, nossas mãos) e nossa vontade de interagir com o que eles têm a nos oferecer.

No caso de Kanye – para alguém viciado em falar ou pensar em si como Deus –, é perfeito: ele nos dá a matéria prima, nós podemos criar outras coisas a partir dela, também; criador, criatura, novas criações. Não é uma revolução palpável, uma inovação inesquecível ou uma mudança permanente na trajetória da música – mas é, talvez, um passo rumo a um caminho inusitado que outras pessoas já vinham trilhando.

Daqui para a frente, a gente acompanha. Cria junto, se puder. E vê no que dá.

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* Dora Guerra cria conteúdos opinativos também no Twitter, como @goraduerra.

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SEMILOAD – Parece que os shows reais vêm aí. Primeira pergunta: será? Segunda pergunta, mais filosófica: o que faz um grande show ser isso… um grande show?

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* Você deve se lembrar de shows, não? Aquela coisa de ir ver uma banda ou artista se apresentarem num palco e tal. Faz tempo, sabemos. Mas pareeeeeeeeece que eles podem voltar em breve (toc toc toc). Nos erre, delta.

Já que pelo menos estão nos deixando sonhar com eles novamente, nossa intrépida newsletteira Dora Guerra, da parceira brilhante Semibreve, vasculha suas memórias afetivas para lembrar de grandes shows que ela viu. Mas não um mero “dropping names” de grupos e cantoras/cantores.

Como Dorinha vai sempre por caminhos que não são os óbvios, ela vai buscar se entender sobre o que faz um grande show ser isso mesmo… um grande show.

O resultado é esse cursinho rápido preparatório para o que vem por aí em forma de “long read”.

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Com todo o otimismo e saudosismo de um país em vacinação, venho pensando em shows do futuro e do passado. Mas, precisamente, o que faz um grande show?

Um grande show não tem nada a ver com tamanho de espaço, tampouco é perfeitamente previsível: ao entregar seu ingresso, você nunca sabe se está prestes a ver um. Mesmo que você espere – tem alguns artistas que, por definição, fazem excelentes apresentações –, o grande show consegue te deixar de queixo caído.

É, ele pode ser esperado, mas jamais previsível.

Um grande show te convence de uma série de coisas: primeiro, que a banda ali em cima é absurdamente atraente, todos os seus membros (frequentemente você muda de ideia depois de vê-los fora do palco); segundo, que a música é realmente boa, mesmo que você a tenha ouvido pela primeira vez; e, por último, que se sua vida existia antes dessa banda em questão, agora não deveria mais – este último pode passar com a euforia, mas os bons nunca passam.

O grande show tem alma, sangue, suor. Convida e abraça o erro e o improviso, porque são eles que ligam o palco à plateia e afirmam: “Isto aqui, só vocês viveram”. Uma cumplicidade mútua, mesmo que fingida. E, afinal, sob os holofotes e a aglomeração, ninguém percebe notas erradas: celebramos tudo que sai do script, desde que não seja desagradável aos ouvidos.

O grande show, afinal, não é sobre ouvidos, é sobre corpo. O Queen entendeu esse recado perfeitamente com a famosa ideia de “We Will Rock You”. Os blocos de Carnaval não ficam atrás. Afinal, em um grande show, a banda não é só músicos no palco; aqueles são só os maestros, mas músicos somos todos. E aí temos um coro de vozes, palmas e pés a nossa disposição, atentos e aguardando comando.

O grande show te faz esquecer do que acontece lá fora, como se o único acontecimento no mundo fosse aquela arena ou aquela pequena casa de shows. E te torna unido a um coletivo, alinhado cosmicamente de forma complicada até para o mais cético – o tipo de energia alinhada que as motociatas do presidente sonham, só sonham em ter. Naquele senso de unidade, no grande show, você topa pular, empurrar, gritar, chorar. E se pega encarando o palco – ou o telão – com uma expressão atônita, em uma experiência que é ao mesmo tempo só sua, mas também de todos a sua volta (principalmente do fulano que você empurrou durante o mosh). Na sua cabeça, um pensamento prevalece: “Não quero esquecer esta sensação ou este momento jamais”.

É que o grande show te tira toda e qualquer barreira, te deixa à flor da pele. Quando você vê, já é tarde demais: você está à mercê da música, entregue ao que os músicos querem fazer de você. Os maestros – os bons maestros – sabem te conduzir entre euforia, tristeza, tesão, raiva e puro caos.

Do grande show, não resta nada. Quase literalmente, porque você sai dele tonto, exaurido, adrenalinado. Confio que o grande artista sai da mesma forma, depois de deixar tudo no palco. Em luto, você acaba se segurando a cada grande momento do que viveu, numa espécie de barganha com seu cérebro: vou repassar essas cenas pra você não esquecê-las. Os grandes, grandes mesmo, até te dão uma falsa sensação de que você finalmente compreendeu algo importante e imprescindível para a sua vida (“Preciso me tornar guitarrista”, “Tenho que me mudar para esta cidade”, “Nunca mais perco nenhum show deles”). Com o tempo, claro, você percebe que eram conclusões ainda embriagadas.

Pouco a pouco, você perde uma ou outra cena na sua cabeça, esquece que músicas foram cantadas. Do grande show, a única coisa que resta a longo prazo é aquela certeza infalível que você tem todas as vezes: “Este aqui é o melhor show da minha vida”. Eu mesma já tive uns 13 melhores-shows-da-vida; mas o bom é que ninguém está contando.

É que o grande show te lembra: a música é poderosíssima, infalível, transcendental. E você, perto dela, é nada.

P.S.: com timing curioso, este texto foi parcialmente inspirado por um dos grandes shows a que fui – Lorde no Popload Festival de 2018 (foto lá em cima). Aquela Dora não fazia ideia que um dia escreveria aqui.

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* Dora Guerra “atua” também no Twitter, como @goraduerra. Já foi lá?

SEMILOAD – Quem tem medo da música pop?

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* Dora Guerra é impressionante em seu timing. Uma semana depois que a superpop Billie Eilish lança um disco bomástico com trip-hops e viagens roqueirinhas e eletrônicas travestidas em “música fácil” e NO MESMO DIA em que a rapper cantora ou a cantora rapper Lizzo anuncia uma nova era no… pop?, a moça da newsletter “Semibreve” pousa aqui na POPload com o assunto necessário. E que amarra todas as pontas soltas do “status quo” da música que a gente gosta.

A discussão, sim, é antiga. Provavelmente ela tenha ajudado Kurt Cobain ter feito o que fez, lá atrás. Mas talvez esse papo nunca tenha feito tanto sentido como agora, por tudo quem tem implicado: Olivia Disney Rodrigo tem uns indies legais ou não tem? Billie Eilish não é gênia demais para a idade dela? Músicas do disco novo do Jungle não cabem numa festa de néon no Cine Joia e num clube de jazz na mesma medida? Taylor Swift virou “alta-cultura indie” ou é impressão? A citada Lizzo é uma rapper ou cantora pop? Ou as duas coisas?

A†e dá uma arrepiada, aqui.

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Eu. Eu tenho medo da música pop.

Amar o pop não é fácil mesmo para mim, que me rendi a ele. Para bom fã de música, significa frequentemente deixar o orgulho de lado. E vai contra o que muitos de nós fomos ensinados – nós, que fugíamos do mainstream, não queríamos ser posers. Éramos viciados em dizer “Conheci isso antes de ficar famoso”.

Para o indie, amar o pop é uma dificuldade por inúmeros motivos – quando você se acostuma a idolatrar o independente e se sentir um alecrim dourado pelo seu gosto musical, o negócio degringola. Mas é tolice pensar que, em 2021, exista alguma escapatória: o indie é pop, o pop é indie, Billie Eilish é pop com cara de indie, Phoebe Bridgers se mistura com Taylor Swift, Bon Iver também.

Isso assusta? Assusta. Para mim, persiste a ideia de que estou cedendo a uma lógica mercadológica que faz de tudo para ter meu consumo – e o tem. Simples: eu me sinto uma vendida.

E, claro, com a nossa eterna insistência em nos definir pelo que ouvimos – com os Wrappeds do Spotify, pôsteres nas paredes, camisetas de banda –, encaramos música como encaramos roupas; ao mesmo tempo que queremos fugir à moda principal, para nos convencer de que temos personalidades/gostos próprios e conseguimos resistir às últimas tendências, é impossível não se interessar por algo comum à maioria.

Mais precisamente: Dua Lipa toca. Você vai dizer que não gosta e não dança?

Talvez o meu – e talvez o seu – medo de música pop venha acompanhado do temor de priorizar o comercial sobre o artístico; de seguir valorizando o gigantesco, o rico, o consolidado, em detrimento do pequeno que luta para sobreviver. Mas isso não existe: dá para amar ambos, valorizar ambos, curtir música. Como tudo na vida, a música não é um assunto tão preto-no-branco assim.

Mas talvez o medo venha de raciocínios ainda mais enraizados e preconceituosos, que a gente acatou depois de ler e ouvir muita crítica musical maniqueísta. Você lembra bem: aquela que classifica por gênero musical a música “boa” da “ruim”. Que vê na indústria cultural apenas… indústria.

Vale lembrar que essa é uma linha de pensamento muito conveniente e seletiva – que tira das divas pop o valor que atribui aos “gênios” de outrora. Os Beatles eram gênios, Britney jamais seria. Afinal, qual seria o mérito de uma música que raramente é complexa em estrutura, que não é “para pensar”, feita a inúmeras mãos para um público majoritariamente feminino e LGBTQIA+?

Aí que tá. Ver o pop como um gênero musical pouco complexo, ter medo dele, se afastar dele é menosprezá-lo, novamente. Claro, o fio condutor da música pop é o espetáculo: é uma música feita para encantar, te prender com o excesso de brilho. O bom pop é o entretenimento em seu auge, mas jamais isolado da sociedade – sobretudo hoje. Frequentemente, o pop é uma bússola clara de por onde os aspectos sociais caminham (Madonna que o diga).

Ou seja: não é só que o pop merece estudo e análise, mas ignorá-lo é perder uma parte fundamental de uma das culturas que mais circulam na nossa fração de mundo.

O pop é uma potência, que transcende a música para alcançar a moda, a fotografia, o cinema, as referências culturais de todo tipo; com recurso suficiente para construir narrativas atraentes, formas mais digestíveis de pequenas revoluções. Simples: de Rihanna a Pabllo Vittar, Michael Jackson a Anitta, o pop muda o mundo – ou potencializa algumas mudanças há muito necessárias.

E, muito mais que os Beatles que insisti em amar durante a adolescência, eu fui profunda e irrevogavelmente formada por música pop – e eu sei que muitos de vocês também. Eu sou cada um dos vídeos musicais que cresci assistindo, sou o CD de “Dangerously in Love” da Beyoncé, sou até o Show das Poderosas. Pessoalmente, o pop me formou como gente, como mulher, como fã de música, me deu noção de um mundo para além do meu próprio – um mundo que faz de tudo para te fornecer um grande espetáculo. E, no fim, se tem algo que eu realmente sei falar sobre… é o pop.

Tudo bem. O pop é gostoso demais. E depois que a gente aceita isso, as coisas ficam muito mais fáceis.

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* Dora Guerra “atua” também no Twitter, como @goraduerra. Já foi lá?

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