Em geordie greep:

POPLOAD ENTREVISTA – BLACK MIDI. Geordie Greep, o vocalista da banda inglesa, fala sobre o novo disco, lançado hoje. E de como é fã de Egberto Gismonti e João Bosco

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* Hoje não é um dia normal no mundo da música. Porque a banda inglesa nada normal Black Midi, trio indie-quebradeira de Londres, botou no mundo seu segundo álbum, “Cavalcade”, o sucessor do barulhento (em vários sentidos) “Schlagenheim”, disco de estreia lançado há dois anos, naquele outro mundo em que vivíamos.

“Cavalcade” está sendo “acusado” de ser mais “melódico”, retilíneo”, menos a balburdia sonora do disco anterior que chapou a cena independente britânica e além, e fazia de “Schlagenheim” uma festa non-stop de experimentações modernas do chamado math rock, post-rock, post-punk e jazz, tudo misturado. Uma enorme jam-session torta da primeira à última faixa.

Traduzindo, é assim: em “Cavalcade”, ao contrário de “Schlagenheim”, você consegue encontrar “músicas normais” nele. De um jeito Black Midi de ser. Mas normais. Ou “mais normais”, coloquemos assim.

“Não é errado dizer isso, não”, disse à Popload o vocalista e guitarrista Georgie Greep, em entrevista por Zoom desde Londres. Geordie é o figura central na foto acima.

“Este álbum, o jeito que as músicas foram colocadas juntas, tem um modo mais tradicional de organização, foi pensado assim. O primeiro disco foi um bando de caras entrando num estúdio e saindo tocando até que algo fizesse um sentido, ainda que vagamente. A gente pegava e falava: ‘Essa parte fica boa, vamos gravá-la como uma canção pronta'”, explicou Greep.

“Para o “Cavalcade’ tivemos uma preocupação mais estrutural com acordes, melodias, essas coisas. Quisemos dar um passo a mais do que no primeiro disco, gravar uma coisa por vez, um músico por vez, para diminuir a aleatoriedade e calcular mais o que queríamos. Ter um maior controle. Isso para nós acabou sendo mais ambicioso, até. A gente não pensou em gêneros na hora de gravar cada canção. Nos preocupamos mais que elas tivessem uma trajetória emocional. Sabe? Algo na linha: ‘Como podemos botar algo mais assustador aqui? Como podemos fazer essa parte mais romântica possível, mais excitante possível?’. Esse tipo de coisa. As músicas novas, em relação ao disco anterior, ganharam então um ar mais melódico mesmo, um aspecto até mais teatral até, dramático.”

Nesta semana, o jornalzão tradicional e americano “New York Times” (o americano aqui tem um peso) adiantou a publicação de uma boa matéria sobre o Black Midi. Bandas inglesas assim, desse tamanho, precisam estar fazendo algo de muito relevante para aparecer no “NYT” assim.

E está. O Black Midi puxa uma certa onda de bandas “fora do normal” da cena britânica, que rompem estruturas e levam o post-punk atual para um outro lugar. Ia falar “organizando” ele. Mas o correto seria “desorganizando”. Grupos como os lindos Black Country, New Road e Squid são praticantes dessa entortada na música nova inglesa começada pelo Black Midi lá em 2018, 2019.

“Cavalcade”, cavalgada em inglês, tem um sentido claro de ocupar o título do “second come” do Black Midi. Geordie Greep conta qual é:

“O nome do álbum tem a ver com a percepção de uma dessas paradas feitas a cavalo, cavalgada mesmo, de tudo o que a envolve, as muitas atrações enfileiradas passando e chamando diferentes atenções dependendo do ponto em que você a está vendo. Num senso assim nem tão profundo pode significar esse álbum, nessa cerimônia de acompanhar música a música uma diferente da outra, na letra e no estilo, passando diante de quem ouve. Como um evento, uma cerimônia. Uma parada.”

O fantasma do segundo disco, que costuma assombrar muitas bandas que “estoura” com o primeiro, seja lá em que nível de estouro, não parece ter sido um problema para o grupo de Londres, segundo seu líder. “Tivemos uma certa dificuldade apenas para criar as músicas. Sair das ideias e transformá-las em algo real, pronto. Uma vez feitas, foi muito agradável gravá-las, mixá-las, mexer em algo. Principalmente tocá-las, entre a gente. Daí ficou tudo mais divertido. E mais fácil que gravar o primeiro disco, até.”

O Black Midi iria tocar no Brasil em 2020, via o lado produtor da Balaclava Records, mas a pandemia veio e acabou com nossa graça de ver uma banda tão moderna aqui no Brasil. Não desistiram da gente, não, né, Geordie. “Não, não. Estamos remarcando para o ano que vem. Espero que dê certo. Vai ser incrível.”

O papo “Brasil” pendeu para, atenção, “música brasileira”. E Geordie Greep, 22 anos e com toda uma herança enorme inglesa para se ocupar, até que manja bem da musicalidade tupi. E com um gosto absurdo.

“Tem umas coisas na música brasileira que eu gosto bastante. Eu não sei direito se essa é a pronúncia correta do nome dele, mas sou muito fã do ‘Eguibert Guismonti’, algo assim, o guitarrista e pianista. Ele é incrível. Eu gosto da música dele porque a forma dela é intelectual, mistura o clássico e o moderno, tem vitalidade e prazer nas frequências que o som dele emite. Às vezes ela soa pretensiosa, mas essa não é a palavra. Música séria define melhor. Mas sem nunca perder uma forte emoção que suas canções passam. Tem um outro músico que eu admiro bastante, João Bosco. Música brasileira desses caras é muito boa.”

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* “Cavalcade”, o segundo álbum do Black Midi, chegou hoje às plataformas de streaming. Na real, ele foi colocado ontem no SoundCloud e ainda ganhou uma audição para fãs, na íntegra, no Youtube da banda, com algum toque de homor, mas tocando o disco todo. Então a gente reproduz essa “listening party” aqui embaixo, porque o “Cavalcade”inteiro está aí.

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* As fotos do Black Midi usadas neste post e na chamada da home da Popload saíram nesta semana ilustrando a reportagem do “New York Times” e são de autoria de Bella Howard.

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