Em is this it:

“Is This It” – 20 anos. O legado e a “maldição” do disco de estreia dos Strokes (Parte 2)

>>

* Seguimos aqui fazendo tributos ao marcaaaaante “Is This It”, um dos discos das nossas vidas, você incluído, sabemos. Na continuação do post sobre as lembranças do mundo 20 anos atrás, quando os Strokes lançaram seu álbum de estreia, o “Is This It”, tratamos do legado e da “maldição” desse disco que mudou algumas coisinhas tanto na música quanto nas nossas vidas no geral.

É a parte 2 de um texto enorme do jornalista e músico Daniel Setti sobre o disco, que integra um projeto editorial dele a virar livro do brasileiro que vive em Barcelona, envolvendo ainda grandes álbuns da história do rock. Enorme de tamanho, enorme de bom. E Setti, ainda que na parte 2, volta lá para o começo, quando os Strokes surgiram.

Captura de Tela 2021-08-01 às 9.27.16 PM

por Daniel Setti

Berço esplêndido
A história da formação dos Strokes serviria de roteiro a uma dessas séries hipsters ambientadas na Grande Maçã. Quiçá uma versão masculina de “Girls”, mas com os personagens dispondo das contas bancárias das protagonistas de “Gossip Girl” ou “Sex and the City”. Quem sabe, então, um “High Maintenance” com maconha mais cara.

Filho de John Casablancas, dono da agência de modelos Elite, e da ex-manequim dinamarquesa Jeanette Christiansen, o futuro vocalista Julian Casablancas era uma espécie de repetente fodão na escola particular Dwight, colada ao Central Park; Nick Valensi, o favorito das garotas e depois guitarrista, virou seu BFF já na adolescência, enquanto o soon-to-be baterista Fabrizio Moretti, filho de italiano com brasileira e nascido no Rio de Janeiro, cumpria na turma o papel do menino certinho e discreto que quer se encaixar.

Julian achou uma boa ideia recrutar dois amigos de infância de igual pedigree social, Nikolai Fraiture (baixo), que conhecia do – atenção – Liceu Francês de Nova York e, posteriormente, já em 1998, Albert Hammond Jr., chapa dos tempos em que estudou num – uau – internato na Suíça. O bem-relacionado clã estava completo.

A aparição de Albert trouxe não apenas a segunda guitarra, elemento importantíssimo na sonoridade strokiana, como também o direcionamento de figurino ultracool que tanto marcaria o grupo. O guitarrista compareceu “vestido de Strokes” na audição em que conseguiria a vaga, impressionando os demais. Também fez a alegria dos companheiros quando seu pai, o cantor setentista inglês Albert Hammond, pagou pelo equipamento de ensaio.

Hype em nível inédito
Entre o primeiro show, a 14 de setembro de 1999 na casa noturna Spiral, e a assinatura do contrato com o Rough Trade, mais mítico dos selos independentes britânicos, foram poucos e loucos meses. O boca-a-boca causado pelas apresentações em picos como o Mercury Lounge se propagou graças à então incipiente ferramenta do hype da internet.

A badalação foi tanta que eles logo perceberam que poderiam passar dois anos recusando ofertas para aparecer na televisão e batendo o pé sobre a não obrigatoriedade de rodar videoclipes. Por decisão da banda, soberbamente ciente da expectativa que estava causando, este grande début ocorreria nada menos que no programa “Saturday Night Live”, já em 19 de janeiro de 2002, com Jack Black apresentando e tudo mais.

“Só precisei de dez segundos escutando o EP para contratá-los”, conta Geoff Travis, dono da Rough Trade, no livro “Meet Me in the Bathroom” (2017), de Lizzy Goodman, sobre a cena nova-iorquina dos anos 2000. Então vivendo um período de relativo declínio, operando mais como booker de shows do que como dono de gravadora, Travis renasceu para o mundo indie com a nova descoberta.

Num piscar de olhos já estavam a bordo também Jim Merlis, ex-assessor de imprensa do Nirvana, e o manager porra-louca Ryan Gentles, caso raro de agente a ostentar a mesma idade e sede de farra dos integrantes da banda para quem presta serviços. Sobre a mesa já repousava um contrato da RCA – que venceu a disputa com várias outras gravadoras – para o mercado norte-americano. Com apenas 20 mil dólares de orçamento, entre março e abril de 2001 Julian e colegas se trancaram no Estúdio Transporterraum, o mesmo onde fora registrada a demo, do então pouco conhecido Mark Ronson.

Depois de uma tentativa frustrada com o gabaritado produtor inglês Gil Norton (do mítico “Doolittle”, álbum lançado pelos Pixies em 1989), mandaram buscar mais uma vez Gordon Raphael. Sem usar mais de 11 canais em nenhuma faixa e distorcendo a voz de Julian em um amplificador de guitarra, ele garantiu que o material não fosse muito diferente do EP. Era um som quente, lo-fi, incomum na virada do milênio, e que depois seria imitado à exaustão. Um burocrata da RCA chegou a chiar após ouvir a versão final, chamando-a de amadora. Mas a história mostraria quem estava com a razão.

Enfim, nas lojas
Em 30 de julho “Is This It” saía exclusivamente na Austrália – aproveitando turnê do grupo pelo país -, chegando ao Reino Unido no final de agosto e aos EUA em 9 de outubro. O lançamento estava previsto inicialmente para 25 de setembro, mas foi adiado por causa dos ataques às Torres Gêmeas, que Albert e Julian viram ao vivo da janela do apartamento que dividiam. Atordoados, marcaram ensaio na mesma noite. Após acompanhar os louváveis trabalhos dos policiais posteriormente ao atentado, a banda decidiu tirar da edição norte-americana em CD a garageira “New York City Cops”, sobre o assassinato de um imigrante guineano pelas mãos da polícia nova-iorquina, e cujo refrão é “gambés de Nova York não são muito espertos”. “When It Started” entrou em seu lugar.

Devido ao vazamento das tracks, “Is This It” foi um dos pioneiros entre os discos que o público ouviu durante meses sem conhecer a capa. Com o sucesso que aquelas músicas faziam antes mesmo de seu lançamento, a responsabilidade que pesava sobre sua representação visual era grande. E foi correspondida em grande estilo pela imagem do fotógrafo Colin Lane. Nas curvas e na luva negra da modelo nua, Lane captou o espírito dos Strokes, traduzindo num clique a excitação atrevida, sensual e carismática dos sons por eles produzidos.

Dá até pena de quem teve que comprar a primeira edição lançada nos Estados Unidos que, por causa de um exagerado temor dos envolvidos ao conservadorismo do país, saiu com capa alternativa protagonizada por partículas subatômicas e, claro, infinitamente menos interessante. O público brasileiro também foi obrigado a levar para casa essa versão (com o prêmio de consolação da inclusão de “New York City Cops” no repertório).

Canalizando Nova York
No fabuloso livro “Rip It Up and Start Again” (2005), de Simon Reynolds, o produtor inglês Martin Rushent, conhecido por maravilhas do synthpop como “Dare!”, do Human League (1981), revela que um dos segredos para se criar um grande álbum pop é pensar as gravações de forma que o ouvinte seja capaz de memorizar e cantarolar não só os vocais, mas todas as partes do arranjo.

“Is This It” é um dos poucos discos que passariam no crivo de Rushent segundo esse critério, do começo ao fim. Uma simples audição de seus 36 minutos e 27 segundos é suficiente para que se interiorize cada ritmo básico e decidido de Fab – um importante resgate das batidas hipnoticamente dançantes da era new wave -, o baixo cálido e expressivo de Nikolai (na faixa-título ele emula o estilo de Paul McCartney) e, principalmente, as guitarras; tanto as mais convictamente roqueiras (Nick) quanto as mais processadas por efeitos e de melodias grudentas (Albert). Vale notar que a entourage do combo incluía JP Bowersock, professor de guitarra de Albert, idolatrado pelos rapazes a ponto de ser creditado como “guru” e fotografado como “um dos nossos” no encarte (juntamente com os igualmente não-integrantes Raphael e Gentles).

Com tantos elementos atraindo a nossa atenção, quase nem precisava que as composições ou a voz que as entoam fossem tão boas. O “problema” é que eram. Apreciador da geração Seattle e de entidades alternativas como Guided By Voices, o grupo acabou soando na verdade como uma versão terceiro milênio dos ícones das cenas protopunk e punk da Nova York dos anos 1970. Seus integrantes não estavam especialmente familiarizados com nomes daquela geração, como Television, e Nick achava o venerado antro CBGB um lugar “nojento”. Julian até que estava em sua fase de imersão em Velvet Underground na época da concepção do álbum. Mas, mesmo assim, ele cuidou para que as composições – que assina sozinho – falassem de relacionamentos por meio de prosa e léxico atualizados. Ou seja, as letras eram claramente identificadas com a linguagem dos jovens de 20 e poucos anos do começo do século 21, e não dos anos 1970.

Fato é que, ainda que de forma involuntária, se produziu alguma espécie de canalização de um certo “espírito de Nova York”, com Lou Reed, Blondie e até algo de Ramones fornecendo genes para o DNA strokiano. Com a diferença – e uma importante diferença – que nenhuma dessas “vacas sagradas” jamais reuniu tantas gemas pop roqueiras irresistíveis em um mesmo álbum. Julian canta como um Lou mais ágil e despretensioso, sobretudo em maravilhas da talha de “Modern Age”, cuja melodia vai nos cativando numa calma que contrasta com o galope apressado do surdo de Fabrizio. “Quando fizemos ‘Modern Age’, sabíamos que tínhamos encontrado o nosso som; depois fizemos ‘Last Nite’”, conta Nikolai em “Meet Me in the Bathroom”.

E não para. “Soma”, com sua cadência deliciosa, “Barely Legal” – do verso “Para que fique claro, fica só entre você e eu”, “Someday”, de ritmo híbrido entre a Motown e os Pretenders (“Sua cabeça não está legal”, canta Julian). É uma melhor do que a outra. Quando se chega no maior hit da banda, “Last Nite” (o segundo single, quinto lugar na parada alternativa da “Billboard”), um dos grandes hinos da década, lá já se foram sete canções irrepreensíveis. E ainda sobram outras quatro que não poderiam ter ficado de fora de jeito nenhum, como “Hard to Explain” (o primeiro single, lançado ainda em junho) e “Trying Your Luck”, outras duas pontuadas por guitarrinhas infernalmente grudentas. Isso sem contar os sensacionais finais bruscos das faixas, uma piada interna disfarçada de autossabotagem que acabou virando elemento estilístico a ser estudado.

Legado e “maldição”
“Is This It” chacoalhou a música pop e abriu portas para artistas que idolatravam os Strokes e que, talvez mais bem preparados para a fama que eles, venderiam mais e chegariam a multidões mais vastas. Como por exemplo Kings of Leon, pupilos que convidariam para abrir os shows da turnê do segundo trabalho – o ótimo “Room on Fire” (2003) -, ou os Killers, fãs confessos do grupo.

Entre as figuras carimbadas da cena nova-iorquina, o LP é tratado como uma unanimidade. Até o egocêntrico, competitivo e ranzinza James Murphy, do LCD Soundsystem, autor de uma das obras-primas do período (“Sound of Silver”, de 2007), defende que o trono de álbum da década seja ocupado por “Is This It”. Como efeito colateral, nascia uma espécie de “maldição” que, 20 anos depois, a banda não chegou perto de quebrar, sabendo que jamais igualará seu primeiro trabalho em qualidade e repercussão.

Já na altura da produção do terceiro disco, “First Impressions of the Earth” (2005), o desgaste do jetset e a pressão por ser o principal nome do “movimento” abalariam as estruturas do quinteto, que prosseguiria ente hiatos cada vez mais longos – “The New Abnormal”, LP de 2020 premiado com o Grammy de Melhor Disco de Rock, é apenas o sexto trabalho em duas décadas – shows sonolentos e projetos paralelos difusos.

Julian passou a odiar turnês, porque não conseguia compor entre voos e hotéis. Albert desenvolveu uma caricata trajetória de roqueiro junkie, passando por heroína, cocaína e cetamina. Teve que sofrer intervenção de família e amigos, o que quase matou a banda de forma definitiva. Mas, com tudo isso e depois de tanto tempo, o “Is This It” permanece como o melhor disco de rock do século 21 e – por que não? – um dos maiores de todos os tempos.

*****

** Daniel Setti é um jornalista, músico, DJ e curador musical paulistano radicado em Barcelona desde 2006. Em São Paulo, foi baterista das bandas Jumbo Elektro e TchucbandioniS, tocou com Elza Soares e o saudoso rapper americano Guru e ajudou a criar o selo Reco-Head. Em Barcelona, presenciou 14 edições do Primavera Sound, cobrindo metade delas como jornalista. Atualmente atualmente toca na banda Elora.

Confira os conteúdos criados por Daniel em seu Instagram (@danielsetti), leia os seus textos no grande site de ideias culturais e publicações digitais Medium, saiba mais sobre seu trabalho como curador musical para marcas por meio de suas listas no Spotify e ouça os seus DJ sets no Mixcloud.

>>

Bandas indies inglesas recriam o histórico “Is This It”, disco de estreia dos Strokes, faixa a faixa

>>

* O site inglês de música independente “DIY” fez uma homenagem incrível para a passagem do aniversário de 20 anos do “Is This It”, da banda nova-iorquina Strokes. O maravilhoso álbum de estreia do grupo de Julian Casablancas, um dos “culpados” da revolução do novo rock dos anos 2000, saiu na Austrália no dia 30 de julho de 2001, uma história de lançamento de disco confusa de sua era, explicada aqui.

O “DYI” reuniu uma galera nova do indie inglês para recriar, cada um a seu modo, e uma a uma, as 11 músicas marcantes que formam o “Is This It”. As bandas Yard Act, Black Honey e FUR são alguns dos nomes mais conhecidos dentre os desconhecidos que contrituíram com essa homenagem aos Strokes, mais ou menos do mesmo tamanho que era a banda americana lá no passado, quando apareceu na cena.

Veja a lista de músicas desse “Is This It” 2021 e todos os vídeos produzidos pelo ótimo “DIY”.

A nossa favorita neste tributo? A “Hard to Explain”, com o Yard Act. A gente adora esse quarteto de Leeds. Agora, o que são lindos, vídeo e versão do Buzzard Buzzard Buzzard para “Soma”? A “Alone Together” é uma coisa bonita também. Enfim, vai lá logo aos vídeos.

WOOZE – Is This It
Black Honey – The Modern Age
Buzzard Buzzard Buzzard – Soma
FUR – Barely Legal
Master Peace – Someday
FEET – Alone, Together
Demob Happy – Last Nite
Yard Act – Hard to Explain
King Nun – New York City Cops
Zuzu – Trying Your Luck
Pixey – Take It or Leave It

>>

Há 20 anos, na Austrália (!!), saía o “Is This It”, o disco de estreia da banda nova-iorquina The Strokes, de altas conexões brasileiras. O quanto você se lembra da história toda?

>>

* Há exatos 20 anos, no dia 30 de julho de 2001, era lançado às pressas e na Austrália o primeiro disco de um certo grupo de Nova York chamado The Strokes. O álbum, que viria logo depois na esteira de um comentadíssimo EP de estreia que pegou a cena roqueria desprevinida, foi o abençoado “Is This It”. E nossa vida e a vida do pop da época e a vida do rock independente por bons anos, em algumas escalas variáveis, não seria mais a mesma. Foi a tal da revolução do “novo rock”, que devolveu uma certa sujeirinha às guitarras e um novo ânimo descomunal às cenas americana, inglesa, europeia como um todo, no mundo inteiro. O termo “cool” foi o mais associado aos Strokes, a seu disco dèbut e ao que viria depois. O tal “The History of Cool”.

É papo para longas conversas, que na real a gente já tem desde perto de a Popload ter sido criada, em 2000, e crescer absurdamente logo após para o que ela se tornou hoje, graças muito aos Strokes e ao “Is This It”.

O fato de o álbum ter sido lançado em 30/7/2001 na Austrália é porque o mundo pré-Strokes era diferente, em muitos sentidos. A internet era outra. O iPod (eu falei iPod!) estava ainda por chegar às nossas vidas. A distribuição de arquivos em mp3 pela rede estava engatinhando. Então o disco teve lançamento em dias diferentes, olha que loucura. Mesmo para quem viveu aqueles anos, é até difícil organizar a mente para explicar para as “pessoas de hoje”.

O “Is This It” sairia em 22 de agosto no Japão, 27 do mesmo mês na Inglaterra, em ambos os casos linkados estrategicamente a apresentações em festivais grandes desses períodos nesses lugares. Nos EUA, saiu dia 9 de outubro, empurrado para a frente (seria meados de setembro) por causa dos ataques terroristas do 11 de Setembro, na própria cidade deles, o que acarretou até em mudança de capa e troca de uma das faixas. Treta. No Brasil, seguiu a data americana.

Mas, vale dizer, esse lançamento de 30 de julho australiano bagunçou toda essa estratégia esperta, porque a indústria musical ainda não enxergava a internet, pensa. E o disco, termo novinho naquele 2001 bagunçado, “viralizou”. Do tamanho que dava para “viralizar”.

Perceba que a importância do “Is This It” para o rock não foi “SÓ” sua coleção de músicas espetaculares, seu sangue novo e sua capacidade de transformação. O disco ajudou a afundar de vez o pensamento caquético de gravadoras gananciosas. Olha outra conversa enorme que esse disco provoca, mas que desta vez vamos passar à margem.

Aqui na Popload estamos fazendo, no Popcast, o nosso podcast, um especial sobre o marcante “Is This It”. E nestas páginas vamos trazer também novidades desta efeméride tão importante, a partir de hoje.

Como este belo panorama de época e importância histórica em forma de texto, que vamos publicar em duas partes, a partir de hoje. A escrita é do jornalista e músico Daniel Setti, brasileiro radicado em Barcelona. O texto sobre o “Is This It” faz parte de um projeto editorial dele maior, que envolve outros grandes discos da história do rock, a caminho de virar um livro.

Mas que foi adiantado aqui na Popload por conta deste aniversário de 20 anos do álbum, certamente um dos favoritos da vida de Setti, da Popload e de muita gente que lê a Popload.

A parte dois vem em breve. Bom avisar, porque lendo a primeira você vai querer o desfecho desse caos lindo que o “Is This It” nos causou.

strokes20012

por Daniel Setti
Não importa que os Strokes já não importem mais tanto. Precisamos sempre agradecer a esses garotos brancos nova-iorquinos bem nascidos por terem gravado “Is This It”. O disco de estreia da banda, cujo lançamento completa 20 anos neste dia 30 de julho, projetou o rock de volta aos holofotes do mundo pop. E o fez com energia de um furacão, puxando um cordão de bandas de grande qualidade e diversidade, que deram o tom da música na década de 2000. De Noel Gallagher a Dr. Dre, passando por Lou Reed e James Murphy, não foram poucos os famosos que se tornaram fãs, rendidos a sua energia quase que fisicamente palpável e sua complexa simplicidade.

Cada década com o seu “Nevermind”

De certa forma, “Is This It” é o “Nevermind” dos anos 2000. E, mais do que uma coincidência, o fato de os dois álbuns terem sido lançados nos primeiros anos de suas respectivas décadas é sintomático. Por um lado, a ruptura proporcionada pelo Nirvana em 1991 era mais necessária, porque no final dos anos 1980 a situação do rock no mainstream realmente se encontrava em um ponto crítico – hard rock farofa e poperô dominavam as paradas; por outro, no crepúsculo dos 1990, com boybands, nu-metaleiros e Britneys dando as cartas, um R&B cada vez mais tedioso e a eletrônica como uma das únicas válvulas de escape de renovação, o rock também precisava de uma injeção de adrenalina para não fazer feio no boom do milênio.

O paralelo deve ser traçado, diga-se, guardando as devidas proporções e considerando os contextos dos surgimentos dos dois discos. Em 1991 a indústria fonográfica estava próxima do seu auge financeiro, e até azarões como Kurt Cobain poderiam se tornar uma febre de vendas, alcançando o primeiro milhão de unidades vendidas nos Estados Unidos dois meses após lançarem seus discos. Já em 2001, no meio da revolução engatilhada pelo Napster nem dois anos antes, o salve-se-quem-puder da nova ordem outorgava a poucos a sorte de se tornar um “fenômeno da internet”.

Strokes foi um dos primeiros deles. A trupe beneficiou-se do vazamento das faixas de seu trabalho de estreia, gerando um burburinho promocional descomunal à época ao longo dos meses anteriores ao seu lançamento. Mas, por causa exatamente das mudanças radicais trazidas pelo formato mp3, demoraria uma década até superar 1 milhão de cópias vendidas, em fevereiro de 2011. Eles não tiraram o Michael Jackson do topo das paradas, como fez o Nirvana, tampouco seu disco figura entre os 30 mais vendidos da história, como é “Nevermind”. Os tempos já eram outros.

Reviravolta cínica

Mas o que aproxima mesmo esses dois lançamentos, numa perspectiva histórica, são os terremotos estético-musicais que causaram. Toda uma década de rock foi pautada em função do sucesso do trio de Seattle, e toda uma outra geração se mediu de acordo com a influência do quinteto de Nova York.

Exaustas de cobrirem Limp Bizkit e já se resignando com uma novidade insossa como o Coldplay, as imprensas musicais norte-americana e britânica soltaram rojões quando o EP demo “The Modern Age”, de 29 de janeiro de 2001, começou a circular pelas redações, trazendo as primeiras versões da adorável faixa-título, além de “Last Nite” e “Barely Legal”. As gravações haviam sido feitas ao vivo em estúdio por Gordon Raphael, um produtor semidesconhecido e louco por equipamentos analógicos, em troca de grana para uma passagem para sua cidade, Seattle.

Os Messias haviam chegado. A revista inglesa “New Music Express” ofereceu a versão em download como exclusividade, uma inovação daquele momento, e em pouco tempo os sites de compartilhamento levaram os arquivos a milhões de computadores espalhados pelo planeta. Para delírio dos jornalistas, os integrantes ainda por cima eram todos recém-saídos da puberdade, gatos, com a pele bem cuidada, penteados de destaque e atendendo por nomes pomposos como Fabrizio e Nikolai, e sobrenomes latinos aristocráticos da laia de um Valenzi ou um Casablancas. Um deles conseguia ser “exótico” a ponto de ser brasileiro. E fundamental: vinham de onde vinham.

Nova York no centro outra vez

Meca das mecas da música, Nova York ditara os rumos da modernidade sonora em praticamente todo o século 20 – de Charlie Parker a Grandmaster Flash, de Velvet Underground a Chic – mas, fora exceções como Beastie Boys ou Jon Spencer Blues Explosion, havia dado uma bela duma adormecida na década de 1990.

Não por acaso, foi o período em que o prefeito Rudolph Giuliani – ele mesmo, o que depois se tornaria capacho de Donald Trump – instaurou sua política de “tolerância zero”. Suas medidas aplacaram a violência da metrópole, mas, zero tolerantes também com festas e salas de show, arrastaram junto parte considerável da lendária cultura boêmia e musical local. Nesse cenário, em que eventos dançantes como Tiswas e Motherfucker eram também foco de resistência, se formatou a cena que teria os Strokes como maior expoente.

Era o início de uma grande reviravolta sonora e comportamental, embora mais cínica do que a promovida pela turma de Seattle. Suscitou rivalidades superficiais, mais fabricadas do que reais, como Strokes × White Stripes (o equivalente não-nova-iorquino), Strokes x Libertines (a inevitável “resposta inglesa”), Manhattan × Brooklyn, “Spin” × “Rolling Stone”. Até o casal-símbolo, Fab Moretti e Drew Barrymore, era mil vezes mais domesticado, afável e menos perigoso do que um Kurt-Courtney.

Mas não foram poucos os nomes que dali brotaram para a música. Interpol, Walkmen, Yeah Yeah Yeahs e até os menos puramente roqueiros LCD Soundsystem e TV on the Radio vieram no rastro dos Strokes, só para citar algumas das bandas surgidas na cidade na primeira metade dos anos 2000, a surfar na onda do novo rock. Depois ainda despontariam Vampire Weekend, Grizzly Bear, MGMT e outras. Nova York era novamente o centro do mundo pop, com o epicentro inicialmente fincado em Manhattan e depois migrando ao Brooklyn.

Como efeito colateral a ambos, da mesma forma que o grunge gerou o Silverchair e o Creed, o “novo rock” nova-iorquino do século 21 tem sua parcela de culpa indireta. Pela inspiração que infringiu a toda uma classe de bundões sem imaginação, que fizeram com que, no final daquela década, já não suportássemos mais o revival do pós-punk. O que era vanguarda virou um modelo cansativo: todas as batidas deveriam ter a “urgência” disco-rock, os vocais eram obrigatoriamente chorosos, os teclados grandiloquentes, e as letras que não fossem meio engraçadinhas, irônicas, eram gongadas.

(CONTINUA…)

*****

strokesisthisit

*****

** Daniel Setti é um jornalista, músico, DJ e curador musical paulistano radicado em Barcelona desde 2006. Em São Paulo, foi baterista das bandas Jumbo Elektro e TchucbandioniS, tocou com Elza Soares e o saudoso rapper americano Guru e ajudou a criar o selo Reco-Head. Em Barcelona, presenciou 14 edições do Primavera Sound, cobrindo metade delas como jornalista. Atualmente atualmente toca na banda Elora.

Confira os conteúdos criados por Daniel em seu Instagram (@danielsetti), leia os seus textos no grande site de ideias culturais e publicações digitais Medium, saiba mais sobre seu trabalho como curador musical para marcas por meio de suas listas no Spotify e ouça os seus DJ sets no Mixcloud.

>>

Popcast : Popload fala sobre como os Strokes surfaram no avanço tecnológico, na série especial “20 anos do ‘Is This It’”

>>

* O jornalista e escritor Ricardo Alexandre é o convidado da semana do especial sobre o primeiro disco dos Strokes, o histórico “Is This It”, que o Popcast, o podcast da Popload, está realizando agora em e por todo julho, mês em que o importante álbum da banda nova-iorquina foi lançado, há 20 anos. O episódio está no ar desde o final de semana.

Neste quarto episódio do Popcast, apresentado por Isadora Almeida e Lúcio Ribeiro, Ricardo Alexandre lembra como a onda do novo rock, pequena revolução deflagrada pelo grupo de Julian Casablancas, se aproveitou, para propagar, dos novos conceitos como Napster, iPod e um melhor domínio dos downloads de mp3s.

Ricardo, que foi editor da revista Bizz em seu último suspiro como publicação mensal da editora Abril (os Strokes foram uma grande capa em 2005, por causa de sua primeira visita ao Brasil), citou ainda que a banda foi personagem de um podcast da revista à época. Estamos falando de 2005, veja bem.

Semana que vem tem o último dessa série.

strokespopcast

***

* Claro, no Spotify trazemos a playlist especial Strokes, com algumas músicas do disco, versões ao vivo, outtakes e algumas músicas de bandas que influenciaram o grupo de Julian Casablancas e seu álbum de estreia.

>>

Popcast:Popload conta bastidores da primeira vinda dos Strokes ao Brasil, na série especial “20 anos do ‘Is This It'”

>>

* O terceiro episódio do especial Strokes do podcast da Popload, o Popcast, já está no ar. Neste mês de julho, com convidados engrossando o assunto com os apresentadores Isadora Almeida e Lúcio Ribeiro, o Popcast está contando histórias em torno do primeiro álbum do grupo nova-iorquino The Strokes, o histórico “Is This It”, que comemora neste mês 20 anos de seu lançamento.

O convidado da vez é o multitarefas Ronaldo Lemos, advogado, professor universitário (inclusive em universidades americanas e chinesas), apresentador de TV e, no caso que nos toca aqui, foi um dos curadores do festival Tim Festival, envolvido em trazer os Strokes pela primeira vez ao país em 2005, para dois shows no Rio de Janeiro, um em SP e outro em Porto Alegre.

WhatsApp Image 2021-07-16 at 10.29.04

Ronaldo revelou bastidores dessa edição do Tim Festival, como aconteceu de procurarem os Strokes para esses shows, fora outros papos muito incríveis sobre o talvez mais querido grande festival de nova música que o Brasil já teve.

Lembrando que no primeiro episódio da série tivemos a presença do jornalista Thiago Ney, que morava em Londres naquele começo de 2001, quando os Strokes explodiram por lá, assistindo de camarote e com ingresso caríssimo comprado de cambista o começo da revolução. O segundo programa trouxe a Anitta Felix, fundadora do primeiro fã-clube oficial dos Strokes no Brasil, reconhecidíssimo pela banda, naquele que então virou um episódio de conversas entre três fãs.

Especial número 3 dos 20 anos do álbum “Is This It”, dos Strokes, com Ronaldo Lemos, já no ar. E, claro, confira a playlist sobre a série.

***

* Claro, no Spotify trazemos a playlist especial Strokes, com algumas músicas do disco, versões ao vivo, outtakes e algumas músicas de bandas que influenciaram o grupo de Julian Casablancas e seu álbum de estreia.

>>