Em jadsa:

Top 50 da CENA – Jadsa segue 100%. Ou seria 10%? Hierofante Púrpura vem na cola com sua complexidade simples. E o BaianaSystem belisca o 3º lugar com um frevo

1 - cenatopo19

* Nesta semana tem história no Top 50 da CENA. Só que se a gente contar aqui o que é, logo de cara, vai ser um spoiler tão grande que vai dar uma estragada no andamento, então leia as novidades todas para decifrar esse mistério – um tanto dele está no título, é verdade. Mas vai descendo para entender melhor.

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1 – Jadsa – “Olho de Vidro” (Estreia)
A gente gostou desse hábito de repetir os vencedores de uma semana na outra. E, sejamos honestos, o disco da Jadsa merece mesmo essa celebração. Com essa citação aqui, ela se torna talvez a artista com mais menções no top 50 ao mesmo tempo. São cinco, ou seja, dez por cento da lista é Jadsa. Brinca com esta baiana, brinca.

2 – Hierofante Púrpura – “Tbm Sou Hipster” (Estreia)
O Hierofante Púrpura, digamos adepto de uma certa psicodelia indie rural, não é e nunca foi uma banda simples, embora essa “Tbm Sou Hipster” até pareça enganosamente uma música “normal”. É tipo uma trombada de Beastie Boys com MF Doom aprontando algazarras em cima de um sample em loop de um disco da Tropicália. Brinca com estes paulistas, brinca.

3 – BaianaSystem – “Reza Frevo” (Estreia)
Que bonita jornada o BaianaSystem inventou neste quarto disco. A obra em três atos se encerra com uma versão frevo da música que abriu o rolê lá no primeiro ato, a excelente “Reza Forte”. Aqui com a participação de Thiago França, a banda retoma o tema em uma citação instrumental que deixa o viajante mergulhado em memórias do disco que acabou de escutar.

4 – Giovanna Moraes – “Boogarins’ Are You Crazy?” (2)
Outro disco de camadas, umas claras de primeira ouvida e outras que vêm de encontro a você conforme o tempo de saboreá-lo vai se intensificando, é “III”, lançamento recente da multiartista paulistana Giovanna Moraes. Aqui, uma sagacidade sua foi premiada. Os Boogarins deram a sopa de largar um instrumental em seu álbum de sobras e a Giovanna foi lá e meteu uma letra sua. Agora a música é bem dela.

5 – Jadsa – “Sem Edição” (1)
“Sem Edição” é um som que mostra a capacidade de Jadsa de colocar muitas perspectivas na mesma conversa. Por aqui, Gal e Tulipa Ruiz interagem de igual para igual enquanto a música vem em forma de um mantra que cresce e acelera, uma brincadeira em um jazz que orgulharia João Gilberto e Itamar Assumpção, o grande homenageado do álbum.

6 – Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo – “Delícia/Lúxuria” (3)
Potente o encontro da banda indie paulistana com a produção da carioca Ana Frango Elétrico. Nada a ver, mas tuuuudo a ver. É especial o quanto no momento mais pop da música o instrumental fica ainda ainda mais doido. Talvez seja isso que estamos precisando. E logo mais tem o disco cheio, esse sim estamos precisando.

7 – Thiago Elniño – “Dia De Saída” (Estreia)
Que sacada do Thiago em colocar a bela voz do Zé Manoel para cantar um refrão destes: “Quando a gente sair daqui/ Eu não quero ter que lembrar/ Dos dias que as lágrimas regaram dores/Que o tempo não vai conseguir apagar”. No rap, uma ideia forte sobre suas potências tão invisibilizada pelo racismo.

8 – Luna Vitrolira – “Aquenda” (Estreia)
Este trabalho da pernambucana Luna Vitrolira é um bom capítulo de um gênero às vezes deixado de lado por aqui, que é o spoken word. Vale dar uma sacada pela qualidade do texto de Luna e pela experiência em aplicar muito bem suas escritas em diversos gêneros musicais.

9 – FBC – “Gameleira” (4)
O rapper mineiro Fabiano Soares, o FBC, impressiona com sua consciência fora dos padrões sobre o rolê todo. Consciência do hip hop em si, do cotidiano (seu e nosso), da política e da comunicação nas redes. Deste seu novo EP, produzido pelo VHOOR, a gente destaca, entre tantos bons momentos, esse hip hop atabacado de reflexão sobre tradições, tanto na letra quanto no beat.

10 – Rico Dalasam – “Última Vez” (5)
Este é o terceiro som do novo álbum do Rico Dalasam que a gente coloca aqui no top 50. Já abordamos uma das canções mais políticas do disco, a mais radiofônica e agora uma mais sobre relacionamento interracial, onde um lado não assume o outro, em um dos desdobramentos que seguem sendo abordados em outras músicas, como “Brailler” e “Mudou Como?”.

11 – YMA – “White Peacock” (6)
12 – Frank Jorge e Kassin – “Tô Negativado” (7)
13 – Mbé – “Aos Meus” (8)
14 – Giovanna Moraes – “Tudo Bem?” (9)
15 – Rico Dalasam – “Estrangeiro” (10)
16 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (11)
17 – Jadsa – “Lian” (12)
18 – Djonga – “Eu” (13)
19 – Lupe de Lupe – “Cabo Frio” (14)
20 – LEALL – “Pedro Bala” (15)
21 – Barro e Luísa e os Alquimistas – “De Novo” (16)
22 – Felipe Ret – “F* F* M*” (17)
23 – Jadsa – “Raio de Sol” (18)
24 – BNegão – “Salve 2 (Ribuliço Riddim)” (19)
25 – Vanessa Krongold – “Dois e Dois” (20)
26 – Ale Sater – “Peu” (21)
27 – Jupiter Apple – “AJ1” (22)
28 – Apeles – “Eu Tenho Medo do Silêncio” (23)
29 – Lupe de Lupe – “Goiânia” (24)
30 – Rohmanelli – “Viúvo” (25)
31 – Boogarins -“Far and Safe” (26)
32 – Rincon Sapiência – “Som do Palmeiras” (27)
33 – Monna Brutal – “Neurose” (28)
34 – Luna França – “Terapia” (29)
35 – Yannick Hara – “Antidepressivos” (30)
36 – Ale Sater – “Nós” (31)
37 – Jadsa – “A Ginga do Nêgo” (32)
38 – Sessa – “Grandeza” (33)
39 – Artur Ribeiro – “Fragmentação” (34)
40 – Garotas Suecas – “Tudo Bem” (35)
41 – Winter – “Violet Blue” (36)
42 – Pluma – “Mais do Que Eu Sei Falar” (37)
43 – Tagore – “Tatu” (38)
44 – Kill Moves – “Perfect Pitch” (39)
45 – DJ Grace Kelly – “PPK” (40)
46 – Jamés Ventura – “Ser Humano” (41)
47 – Edgar – “Prêmio Nobel” (42)
48 – Jup do Bairro – “O Corre” e “O Corre” (Bixurdia Remix) (43)
49 – BK – “Mudando o Jogo” (44)
50 – Antônio Neves e Ana Frango Elétrico – “Luz Negra” (45)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a cantora e guitarrista baiana Jadsa.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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TOP 50 DA CENA – Em ranking total 2021, o domínio é delas: Jadsa, Giovanna Moraes e Sophia Chablau assumem o top e devem ficar ali por algum tempo, parece

1 - cenatopo19

* A gente tem trabalhado muito escavando esta CENA, andamos reparando por aqui. Estamos no final das águas de março ainda (ainda?) e em nossa busca semanal por música nova já encontramos mais de 50 músicas de 2021 que merecem sua atenção. Sim, se a gente não está equivocado, pela primeira vez em 2021 temos um TOP 50 com 100% das músicas feitas neste ano. Quando a gente fala que a CENA brasileira não está de brincadeira, é fato. Não é opinião, não.

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1 – Jadsa – “Sem Edição” (Estreia)
A gente escreveu um tanto sobre o novo álbum da guitarrista baiana Jadsa, “Olho de Vidro”. Por aqui, desta vez, deste disco rico a gente destaca “Sem Edição”, um som que troca ideia com muito do que a gente comenta no texto, especialmente a capacidade de Jadsa de colocar muitas perspectivas na mesma conversa. Por aqui, Gal e Tulipa Ruiz interagem de igual para igual enquanto a música vem em forma de um mantra que cresce e acelera, uma brincadeira em um jazz que orgulharia João Gilberto e Itamar Assumpção, o grande homenageado do álbum.

2 – Giovanna Moraes – “Boogarins’ Are You Crazy?” (Estreia)
Outro disco de camadas, umas claras de primeira ouvida e outras que vêm de encontro a você conforme o tempo de saboreá-lo vai se intensificando, é “III”, lançamento recente da multiartista paulistana Giovanna Moraes. Aqui, uma sagacidade sua foi premiada aqui. Os Boogarins deram a sopa de largar um instrumental em seu álbum de sobras e a Giovanna foi lá e meteu uma letra sua. Agora a música é bem dela.

3 – Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo – “Delícia/Lúxuria” (Estreia)
Potente o encontro da banda indie paulistana com a produção da carioca Ana Frango Elétrico. Nada a ver, mas tuuuudo a ver. É especial o quanto no momento mais pop da música o instrumental fica ainda ainda mais doido. Talvez seja isso que estamos precisando.

4 – FBC – “Gameleira” (Estreia)
O rapper mineiro Fabiano Soares, o FBC, impressiona com sua consciência fora dos padrões sobre o rolê todo. Consciência do hip hop em si, do cotidiano (seu e nosso), da política e da comunicação nas redes. Desse seu novo EP, produzido pelo VHOOR, a gente destaca, entre tantos bons momentos, esse hip hop atabacado de reflexão sobre tradições, tanto na letra quanto no beat.

5 – Rico Dalasam – “Última Vez” (Estreia)
Este é o terceiro som do novo álbum do Rico Dalasam que a gente coloca aqui no top 50. Já abordamos uma das canções mais políticas do disco, a mais radiofônica e agora uma mais sobre relacionamento interracial, onde um lado não assume o outro, em um dos desdobramentos que seguem sendo abordados em outras músicas, como “Brailler” e “Mudou Como?”.

6 – YMA – “White Peacock” (Estreia)
Agora “White Peacock”, lançada como single no final de 2020, não é só aquele som da YMA com um solo de sax fora de série, mas é também um single dela com um dos vídeos mais bem produzidos do ano. Uma história circular meio amalucada e muito bem filmada, produção lindona mesmo. Yma is back. Será?

7 – Frank Jorge e Kassin – “Tô Negativado” (Estreia)
Professor do indie brasileiro, a lenda gaúcha Frank Jorge aparece aqui em companhia do produtor carioca Kassin. Um encontro que deu jogo. “Nunca Fomos Tão Lindos” concentra o balanço pop de Frank entre sua marcada jovem-guarda e sua guinada forte ao tecnobrega com as invencionices sonoras de Kassin.

8 – Mbé – “Aos Meus” (1)
A gente ficou chapado ao entrar em contato com o trabalho de Luan Correia, o produtor, pesquisador e engenheiro de som carioca, da Rocinha, que funciona aqui como Mbé, palavra que em yorubá significa “ser” e “existir”. Seu experimentalismo, como ele diz, surge da necessidade de significações para a vida negra, mas deixando de lado o sentimento da marginalização e subalternidade social. Ou seja, o experimentalismo aqui é por uma vida, muito além das limitações da música experimental. Entre recortes, samples, Mbé busca novos horizontes no experimentalismo. Na faixa de abertura, repare no quanto é dito em tão pouco espaço. Os recortes, as falas repetidas que são silenciadas, seguidas de uma Antônio Abujamra que dão devido contexto. Tudo está dito e em apenas 46 segundos. Que convite ao álbum. Vai nessa.

9 – Giovanna Moraes – “Tudo Bem?” (2)
Olha ela de novo. Um amigo gringo nosso, ao ouvir “III”, o novo disco de Giovanna Moraes, comentou que este som específico, “Tudo Bem?”, o lembrava uma pegada Portishead, sons meio enigmáticos embalando voz que alterna momentos de (des)controle emocional. A gente primeiro soltou um “whaaaat?”, mas depois foi escutar mais uma vez com essa referência bonita em mente e não é que tem algum sentido? Podemos estar enganados, mas à medida que a canção cresce Giovanna vai cantando mais entorpecida, um pouco bêbada, e acaba a música repetindo, já total entregue, as mesmas coisas que disse no começo. Como se ela fosse dormir daí, esgotada, depois de a canção encerrada. Nessas, esse (des)controle de emoções dentro de uma música, típico de Giovanna, não só o ato de estar cantando uma letra, remete a Fiona Apple. Que especial, tudo.

10 – Rico Dalasam – “Estrangeiro” (3)
Olha ele de novo. Este disco do Rico… A gente emplacou um terceiro som dele ali em cima, porque merece. A predileta da semana passada era a radiofônica “Estrangeiro”, uma das favoritas dos fãs e um dos hits do disco. Que se mantém aqui, gloriosa, nas “dez mais”. Mas olha o 11º lugar?

11 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (4)
12 – Jadsa – “Lian” (5)
13 – Djonga – “Eu” (6)
14 – Lupe de Lupe – “Cabo Frio” (7)
15 – LEALL – “Pedro Bala” (8)
16 – Barro e Luísa e os Alquimistas – “De Novo” (9)
17 – Felipe Ret – “F* F* M*” (10)
18 – Jadsa – “Raio de Sol” (11)
19 – BNegão – “Salve 2 (Ribuliço Riddim)” (12)
20 – Vanessa Krongold – “Dois e Dois” (13)
21 – Ale Sater – “Peu” (14)
22 – Jupiter Apple – “AJ1” (15)
23 – Apeles – “Eu Tenho Medo do Silêncio” (16)
24 – Lupe de Lupe – “Goiânia” (17)
25 – Rohmanelli – “Viúvo” (18)
26 – Boogarins -“Far and Safe” (19)
27 – Rincon Sapiência – “Som do Palmeiras” (20)
28 – Monna Brutal – “Neurose” (21)
29 – Luna França – “Terapia” (22)
30 – Yannick Hara – “Antidepressivos” (23)
31 – Ale Sater – “Nós” (24)
32 – Jadsa – “A Ginga do Nêgo” (25)
33 – Sessa – “Grandeza” (26)
34 – Artur Ribeiro – “Fragmentação” (27)
35 – Garotas Suecas – “Tudo Bem” (29)
36 – Winter – “Violet Blue” (30)
37 – Pluma – “Mais do Que Eu Sei Falar” (31)
38 – Tagore – “Tatu” (32)
39 – Kill Moves – “Perfect Pitch” (33)
40 – DJ Grace Kelly – “PPK” (34)
41 – Jamés Ventura – “Ser Humano” (35)
42 – Edgar – “Prêmio Nobel” (39)
43 – Jup do Bairro – “O Corre” e “O Corre” (Bixurdia Remix) (40)
44 – BK – “Mudando o Jogo” (41)
45 – Antônio Neves e Ana Frango Elétrico – “Luz Negra” (42)
46 – BaianaSystem e BNegão – “Reza Forte” (43)
47 – Zé Manoel – “Saudade da Saudade” (45)
48 – Gustavo Bertoni e Apeles – “Ricochet” (46)
49 – Kamau – “Nada… De novo” (48)
50 – Letrux – “Dorme Com Essa (Delirei)” (49)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a cantora e guitarrista baiana Jadsa.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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CENA – Que disco é este? A estreia sem limites da Jadsa: entrevista e opinião

1 - cenatopo19

* Quem acompanha o Top 50 da CENA reparou que estávamos beeeeeem ansiosos pelo disco da Jadsa, “Olho de Vidro”, que finalmente foi lançado nesta sexta-feira. A baiana, de 26 anos – aniversário que ela celebrou nesta semana, inclusive -, foi nos conquistando single a single. Daqui, a sensação era de bastante expectativa: seria o melhor disco do ano da música nova nacional? O que faz um disco ser melhor ou mais importante que outros, afinal de contas? É a música pela música? De todo modo, para não nos alongarmos em discussões filosóficas, já adiantamos aqui a conclusão do poploader Vinícius Felix, nosso especialista de CENA, que assina o texto abaixo, mistura de entrevista com opinião. Sim, para ele, até aqui, é o disco do ano. Poxa, mas é março, amigo, não está cedo? Para Felix, não está, não. Abaixo, ele tenta deixar claro por que esse álbum diz tanto e faz tanto à CENA e qual a razão de ele ser uma obra que não aparece por aí todo dia.

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Fazer música é correr o risco de cair em alguns lugares comuns ou vícios. Vícios de linguagem, de forma, de timbres. Moldar seu som pela moda, país ou mercado. Pense, por exemplo, nos limites econômicos que atravessam uma gravação. Em outras palavras, é complicado ser original, se fazer entender, produzir algo que te represente de fato. Conseguir esse feito no primeiro trabalho, então, é algo que mesmo alguns dos grandes artistas não alcançaram.

E ouso dizer que Jadsa aprontou isso em seu primeiro álbum, “Olho de Vidro”. Ainda que não seja a estreia dela em estúdio, por conta de outros projetos e um EP, mesmo que o percurso dela até aqui já tenha sido longo e registrado em vídeos pelo YouTube, o impacto deste disco é de chegada e de chegar com tudo.

Pessoalmente, conheci Jadsa pelo single “Olho de Vidro”, sem ter visto nada dela antes. De cara senti algo ali original. Lembrava passado, presente, futuro, Brasil, sons do mundo. A guitarra ecoava Itamar Assumpção e ecoava The Edge. Tudo ao mesmo tempo, mas não de um jeito centrista bobo, esse tal argumento de “nem de esquerda, nem de direita”. Esse equilíbrio encontrado por Jadsa é radical.

Está no movimento que aparece, por exemplo, em suas letras que lembram mantras. Diversas vezes em “Olho de Vidro” versos se repetem já soando completamente diferentes na volta. Pegue a faixa de abertura “Mergulho”, em que ela deixa todos versos da músicas se apresentarem de três maneiras diferentes, sendo que na primeira vez ela nem chega a mencionar todas as palavras. Na explicação de Jadsa: “É mântrico, mas não um mantra de ficar em transe. E, sim, um mantra de se acelerar e romper as barreiras, atravessar as encruzilhadas”. Aqui com certeza, imagino eu, João Gilberto sorriria para Jadsa da mesma maneira que sorriu para Caetano quando se apresentaram juntos. Exagero? Talvez nem tanto.

Lembrando Caetano, inclusive, Jadsa deixa pontas de canções que não são suas pelo disco, assim como o baiano fez em “Transa”. E, assim ainda como Veloso, Jadsa coloca a velha e a nova geração em par de igualdade, aproxima essas gerações, dá igualdade. Por “Olho de Vidro” se escuta versos antigos e novos: Roberto e Erasmo, Tulipa Ruiz, Luiza Lian, Itamar andam pelas mesmas esquinas com Jadsa dando uma piscadela ao publico, um “Tá ligado nisso?”.

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Trocando uma ideia rápida nesta semana com Jadsa, descobri que seu plano de trabalho se encaixava na minha leitura. “Quando me perguntam por que o disco é pensado no Itamar, eu enxergo isso, mas não no som, e sim nessa tentativa de preservar os griôs, os antepassados. E botando para frente essa parada de uma maneira tecnológica, atualizado, senão ninguém vai acompanhar. A gente tem que acompanhar para chegar nas pessoas, todas as idades. ‘Olho De Vidro’ é basicamente isso, enxergar através e além, estar vendo lá na frente e estar vendo lá atrás também e trazendo para o agora”.

E aqui que vejo um ponto de Jadsa que está bem fora da curva. Sua abordagem está longe do som pelo som, porque para ela som é ação política também. Ela sacou a viagem de Itamar – um toque que fica mais evidente em “Selva”, talvez a hora mais séria do álbum. No nosso papo ela ainda volta a tratar som como um lugar de proteção. Em “Mangostão” as esquinas de Salvador tocam ÀTTØØXXÁ, Ava Rocha e arrocha. “Quando ouço arrocha em São Paulo me sinto em casa”, ela comenta. Som é memória também. E memória é proteção.

Não por acaso, uma das músicas leva o nome de Luiza Lian. A faixa, “Lian”, é um abraço de Jadsa na compositora paulistana pelo carinho que o som de Luiza fez na vida de Jadsa quando ela estava vindo viver em São Paulo. Luiza sem saber acolheu a baiana. “Quando a Jadsa me contou que fez essa música num momento que tava chegando a São Paulo, fiquei me sentindo o próprio sound of reggae em ‘I’m Alive’, de Caetano”, escreveu Luiza no Twitter, que ainda participa da faixa em sua homenagem. “Quando convidei Luiza para estar na música do álbum comigo, só disse: esteja presente, não precisa fazer nada”, comenta a baiana.

Sendo feito desde 2016, tudo parece ter se encaixado para que Jadsa chegasse, no fim, ao álbum que sempre desejou. Ela tomou uma série de nãos do mesmo edital que aprovou seu disco. Em vez de desistir, trabalhou mais ainda no conceito durante o processo de espera. A mudança de Salvador para São Paulo, conhecer a cena, conhecer os músicos que acompanham ela neste disco. Tudo isso aconteceu nesse período de seguidas recusas. Irônico. Se tivesse dado certo antes teria dado errado, sabe? “Olho de Vidro” não seria tão especial quanto é agora.

“E eu só ia fazendo, fui compondo para Luiza sem conhecer ela, pensava no Kiko Dinucci sem ter trocado um ‘oi’ com ele”, ela comenta. Luiza Lian e Kiko Dinucci, que estão em seu disco, por muito tempo só habitaram a imaginação de Jadsa. É desse tipo de energia e ação que estamos conversando. Imaginar um mundo novo e construir ele com seus parceiros. Talvez o recado de Jadsa seja: não só sonhe, mas sonhe melhor, sonhe com o que parece impossível. Para alguém que não nasceu em família de músicos, era uma novata em São Paulo, ter um primeiro álbum com tantas participações especiais, de Aline Falcão, Ana Frango Elétrico, Filipe Massumi, João Meirelles, sintetizador, Josyara, Kiko Dinucci, Luiza Lian, Raíssa Lopes e Sérgio Machado, soava como delírio. Não é mais. Ou como a própria Jadsa canta em “Selva”: Some/ Se junte à gente/ Não hesite/ Exista sem limite.

“Olho de Vidro” é isso. Ele mesmo, um disco sem limites.

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* As fotos de Jadsa usadas para este post, inclusive a da cada de “Olho de Vidro”, é de João Meirelles.

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Top 50 da CENA – O ser e existir do impressionante Mbé vencem a prova do líder. Mas o ser e existir da também impressionante Giovanna Moraes vêm perto, em segundo. E Rico Dalasam, o dominador, ainda manda nas “dez mais”

1 - cenatopo19

* Semaninha de poucos mas bem bons lançamentos. Ou de descobertas recentes. Ou de melhores entendimentos. Ou de solavancos necessários em audições vacilantes. A CENA brasileira está um organismo vivo incontrolável e imparável. Que bom!!! Leia os textinhos (e “ões”), bota a playlist para rodar e seja esticado e puxado para todos os lados pela transformadora música independente brasileira atual.

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1 – Mbé – “Aos Meus” (Estreia)
Não repara na nossa emoção, é que a gente ficou chapado ao entrar em contato com o trabalho de Luan Correia, o produtor, pesquisador e engenheiro de som carioca, da Rocinha, que funciona aqui como Mbé, palavra que em yorubá significa “ser” e “existir”. Seu experimentalismo é muito bem explicado por ele próprio, anota essa ideia: “O experimentalismo surge da necessidade de significações para a vida negra, mas deixando de lado o sentimento da marginalização e subalternidade social. Desde que os nossos primeiros ancestrais chegaram aqui, grandes líderes e intelectuais negras e negros guerreiam para criar um novo olhar para as nossas experiências e a nossa amefricanidade. Ou seja, o experimentalismo aqui é por uma vida, muito além das limitações da música experimental”. Pegou a ideia? Entre recortes, samples, Mbé busca esses novos horizontes. Na faixa de abertura, repare no quanto é dito em tão pouco espaço. Os recortes, as falas repetidas que são silenciadas, seguidas de uma fala de Antônio Abujamra que dão devido contexto. Tudo está dito e em apenas 46 segundos. Que convite ao álbum. Vem nessa.

2 – Giovanna Moraes – “Tudo Bem?” (Estreia)
Um amigo gringo nosso, ao ouvir “III”, o novo disco da cantora e faz-tudo paulistana Giovanna Moraes, comentou que este som específico, “Tudo Bem?”, o lembrava uma pegada Portishead, sons meio enigmáticos embalando voz que alterna momentos de controle emocional. A gente primeiro soltou um “whaaaat?”, mas depois foi escutar mais uma vez com essa referência bonita em mente e não é que tem algum sentido? Caramba. Este som é um indie-downtempo que logo derruba a interrogação da pergunta do título. Mas que pode estar mentindo na troca do “?” pelo “!”. Podemos estar enganados, mas à medida que a canção cresce Giovanna vai cantando mais entorpecida, um pouco bêbada. São as coisas fazendo um efeito. Gênia. A missão do segundo disco, que aqui é o terceiro, mas o segundo em português, foi concluída com méritos.

3 – Rico Dalasam – “Estrangeiro” (Estreia)
Não precisamos repetir o textão de semana passada, que você ainda pode ler no 4° lugar aí embaixo, mas o disco do Rico Dalasam segue mexendo com a gente. A predileta da vez é a radiofônica “Estrangeiro”, uma das favoritas dos fãs e um dos hits do disco.

4 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (1)
Dez anos atrás, artistas do universo LGBTQI+ sofriam muito mais com a invisibilidade do que ainda sofrem hoje. Rico Dalasam com certeza viu de perto parte da atitude de mudança no mercado. Nas TVs e festivais, de repente, todo o jogo estava mais receptivo a artistas antes ignorados. Talvez esse movimento tenha moldado positivamente muitas cabeças, derrubado muitos de nossos preconceitos, mas qual a efetividade dele no todo? Quantas empresas abraçaram essas mudanças de imagem sem abraçarem políticas efetivas de combate a nossa estrutura que marginaliza a população LGBTQI+, por exemplo? Por que passamos a comprar melhor, mas não passamos a votar melhor, para ficar em um só exemplo? Se no público a sensação desse processo já é nauseante – dada a óbvia falta de resultados práticos a partir de um mero “consumismo consciente” -, nos artistas LGBTQI+ a pancada é ainda maior: como pensar em arte nessa lógica que parece muito afeita a vender suas ideias, mas ao mesmo tempo pouco interessada nas consequências delas na transformação da sociedade e na defesa real de seus corpos? Ser artista ou um carreirista? Na briga com essa lógica, Rico, por exemplo, comprou tretas que com certeza não deixaram sua trajetória mais suave. Em 2019, escreveu com preocupação um texto na revista “Carta Capital” sobre algumas de suas aflições quanto a isso: “Nunca esteve tão próxima, e por que não dizer homogênea, a produção cultural que emancipa o povo da produção cultural comprometida em deter o povo”. Seu segundo álbum, esse “Dolores Dala Guardião do Alívio”, o primeiro em quase cinco anos, é um tanto sobre as consequências de passar por esse moedor de almas. Dá para sair mais forte na outra ponta da máquina? Em “Expresso Sudamericah”, por exemplo, Rico versa sobre ter quebrado “a régua que mede” seu talento, que soa como um recado a uma tentativa de moldá-lo em algo mais palatável para o grande consumo, e comenta sobre como seus sonhos gigantes vão muito além de ter hit. “Tô desenhando um coração/ Onde todo dia apagam um monte”, ele escreve antes de se jogar no belo refrão onde localiza sua luta não só no Brasil mas neste “Expresso Sudamericah”, o continente que muitas vezes esquecemos que é o nosso também. E, em um exercício de quebra da quarta parede, ainda no refrão, ele parece olhar para o ouvinte e dizer: “Alô, parceiro passageiro”. Estamos juntos, Rico.

5 – Jadsa – “Lian” (2)
Um dos discos mais importante da CENA brasileira neste ano, que foi tomando forma do colosso que é a partir de seus três singles sequenciais lançados, sai na próxima sexta-feira. Este é o terceiro deles. E, dele também, desse disco “Olho de Vidro”, a cantora e guitarrista baiana Jadsa emplaca sua terceira música no nosso Top 50. A incrível “Lian” tem a participação E É SOBRE Luiza Lian, cantora de SP, de um jeito que Jadsa dá uma espécie de continuação em seu projeto de fazer música boa e ao mesmo tempo referencial à música independente brasileira que, já tínhamos observado em “Raio de Sol”, que agora está na 11ª posição deste ranking.

6 – Djonga – “Eu” (3)
Após ter feito um show durante a pandemia, Djonga teve que lidar com uma campanha de cancelamento brutal. Se por um lado dá para entender bem a decepção dos fãs, de outro é evidente que o revide que ele recebeu por seu erro é desproporcional em relação a sua luta. A perseguição intensa sofrida por Djonga parece casar mais com uma cobrança desnivelada causada em parte por nosso racismo estrutural, que obriga que a população negra precise ser dez, mil vezes melhor. Seu novo álbum, “Nu”, não versa só sobre esse assunto, mas é um tópico que parece estar pelas músicas todas e que foi mais bem resolvida em “Eu”, que tem no refrão o verso: “Humano demais pra ser tão bom pra você”. Como se o rapper mineiro quisesse dizer “Quem te fez tão bom assim?”, parafraseando Mano Brown numa certa música chamada “Negro Drama”.

7 – Lupe de Lupe – “Cabo Frio” (4)
Segundo single da banda mineira, tirado do álbum “Trator”, previsto para sair em maio deste ano pela Balaclava, a faixa “Cabo Frio” não é tão polêmica quanto “Goiânia”, mas nem por isso é mais fácil ou simples. É um relato de dores complicadas de se encarar enquanto crescemos, aquela sensação de desconexão com o resto do mundo que todo mundo parece carregar um pouco em diferentes intensidades. Desta vez quem canta e ilustra a capa do single é Renan Benini.

8 – LEALL – “Pedro Bala” (5)
“Escupido a Machado” é o nome do primeiro álbum do rapper carioca LEALL, uma referência a uma fala do Mano Brown sobre sua história de vida, onde os ensinamentos constroem, mas os erros custam caro. “Pedro Bala”, segundo som do disco, é um pouco sobre isso, mas também sobre o cerco que se apresenta na vida dos jovens negros do Brasil. Um cerco material, mas também do imaginário – aspecto perverso do racismo estrutural brasileiro que consegue culpar suas vítimas na ida e na volta. Embora a referência do título seja do personagem criado por Jorge Amado em “Capitães de Areia”, a gente relembrou aqui do “Pedro Pedreiro” de Chico Buarque, outro personagem da música brasileira que sofre com as questões do imaginário.

9 – Barro e Luísa e os Alquimistas – “De Novo” (Estreia)
Um som otimista. A gente precisa deles de vez em quando, né? Ainda que o papo da música seja de um casal, a canção acaba sendo sobre nosso desejo de retorno, não de um relacionamento, mas de rua, de festa, de um pouco de alegria em condições que a pandemia tirou da gente.

10 – Felipe Ret – “F* F* M*” (Estreia)
Quer saber mais deste título? Vale escutar a música toda, não cabe aqui. Mas Ret tem esse mérito de reunir recado e diversão ao mesmo tempo. Até porque o direito de uma vida melhor incluí aproveitar ela do jeito que você bem entende, não? Exaltar isso é uma forma de lutar.

11 – Jadsa – “Raio de Sol” (6)
12 – BNegão – “Salve 2 (Ribuliço Riddim)” (7)
13 – Vanessa Krongold – “Dois e Dois” (8)
14 – Ale Sater – “Peu” (9)
15 – Jupiter Apple – “AJ1” (10)
16 – Apeles – “Eu Tenho Medo do Silêncio” (11)
17 – Lupe de Lupe – “Goiânia” (12)
18 – Rohmanelli – “Viúvo” (13)
19 – Boogarins -“Far and Safe” (14)
20 – Rincon Sapiência – “Som do Palmeiras” (15)
21 – Monna Brutal – “Neurose” (16)
22 – Luna França – “Terapia” (17)
23 – Yannick Hara – “Antidepressivos” (18)
24 – Ale Sater – “Nós” (19)
25 – Jadsa – “A Ginga do Nêgo” (20)
26 – Sessa – “Grandeza” (21)
27 – Artur Ribeiro – “Fragmentação” (22)
28 – A Espetacular Charanga do França – “Cadê Rennan?” (23)
29 – Garotas Suecas – “Tudo Bem” (24)
30 – Winter – “Violet Blue” (25)
31 – Pluma – “Mais do Que Eu Sei Falar” (26)
32 – Tagore – “Tatu” (27)
33 – Kill Moves – “Perfect Pitch” (28)
34 – DJ Grace Kelly – “PPK” (29)
35 – Jamés Ventura – “Ser Humano” (30)
36 – Jovem Dionísio – “Copacabana” (31)
37 – Píncaro – “Leito de Migalhas” (32)
38 – Atalhos – “A Tentação do Fracasso” (33)
39 – Edgar – “Prêmio Nobel” (34)
40 – Jup do Bairro – “O Corre” e “O Corre” (Bixurdia Remix) (35)
41 – BK – “Mudando o Jogo” (36)
42 – Antônio Neves e Ana Frango Elétrico – “Luz Negra” (37)
43 – BaianaSystem e BNegão – “Reza Forte” (38)
44 – Compositor Fantasma – “Pedestres Violentas” (39)
45 – Zé Manoel – “Saudade da Saudade” (40)
46 – Gustavo Bertoni e Apeles – “Ricochet” (41)
47 – Jair Naves – “Todo Meu Empenho” (42)
48 – Kamau – “Nada… De novo” (43)
49 – Letrux – “Dorme Com Essa (Delirei)” (44)
50 – MC Fioti – “Bum Bum Tam Tam” (45)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a cantora paulistana Giovanna Moraes.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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Top 50 da CENA – No ranking do textão, Rico Dalasam vai expresso ao primeiro lugar. Djonga traz o disco novo e o questionamento. Jadsa não para com as músicas incríveis. E muito mais

1 - cenatopo19

* Vamos sem enrolação ao Top 50 da CENA desta semana, porque, olha, escrevemos bastante desta vez. Nos empolgamos. Ao mesmo tempo que estamos muito sensíveis a tudo que nos acontece à volta. Tem textão para o primeiro lugar, além de outros bem maiores que os nossos tradicionais “recados” nas outras posições. É que os lançamentos da semana pediram. Várias músicas tocando em assuntos delicados em um passo de amadurecimento importante de muitos dos nossos artistas da CENA.

ricoquadrado

1 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (Estreia)
Dez anos atrás, artistas do universo LGBTQI+ sofriam muito mais com a invisibilidade do que ainda sofrem hoje. Rico Dalasam com certeza viu de perto parte da atitude de mudança no mercado. Nas TVs e festivais, de repente, todo o jogo estava mais receptivo a artistas antes ignorados. Talvez esse movimento tenha moldado positivamente muitas cabeças, derrubado muitos de nossos preconceitos, mas qual a efetividade dele no todo? Quantas empresas abraçaram essas mudanças de imagem sem abraçarem políticas efetivas de combate a nossa estrutura que marginaliza a população LGBTQI+, por exemplo? Por que passamos a comprar melhor, mas não passamos a votar melhor, para ficar em um só exemplo? Se no público a sensação desse processo já é nauseante – dada a óbvia falta de resultados práticos a partir de um mero “consumismo consciente” -, nos artistas LGBTQI+ a pancada é ainda maior: como pensar em arte nessa lógica que parece muito afeita a vender suas ideias, mas ao mesmo tempo pouco interessada nas consequências delas na transformação da sociedade e na defesa real de seus corpos? Ser artista ou um carreirista? Na briga com essa lógica, Rico, por exemplo, comprou tretas que com certeza não deixaram sua trajetória mais suave. Em 2019, escreveu com preocupação um texto na revista “Carta Capital” sobre algumas de suas aflições quanto a isso: “Nunca esteve tão próxima, e por que não dizer homogênea, a produção cultural que emancipa o povo da produção cultural comprometida em deter o povo”. Seu segundo álbum, esse “Dolores Dala Guardião do Alívio”, o primeiro em quase cinco anos, é um tanto sobre as consequências de passar por esse moedor de almas. Dá para sair mais forte na outra ponta da máquina? Em “Expresso Sudamericah”, por exemplo, Rico versa sobre ter quebrado “a régua que mede” seu talento, que soa como um recado a uma tentativa de moldá-lo em algo mais palatável para o grande consumo, e comenta sobre como seus sonhos gigantes vão muito além de ter hit. “Tô desenhando um coração/ Onde todo dia apagam um monte”, ele escreve antes de se jogar no belo refrão onde localiza sua luta não só no Brasil mas neste “Expresso Sudamericah”, o continente que muitas vezes esquecemos que é o nosso também. E, em um exercício de quebra da quarta parede, ainda no refrão, ele parece olhar para o ouvinte e dizer: “Alô, parceiro passageiro”. Estamos juntos, Rico.

2 – Jadsa – “Lian” (Estreia)
Parece que o disco mais importante da CENA brasileira no ano, aparentemente, está se formando aos poucos na nossa cara, para nossos ouvidos. Até o dia 26, quando “Olho de Vidro” finalmente sai. Dele, a cantora e guitarrista baiana Jadsa emplaca sua terceira música no nosso Top 50. “Lian”, o incrível novo single, tem a participação E É SOBRE Luiza Lian, cantora de SP, de um jeito que Jadsa dá uma espécie de continuação em seu projeto de fazer música boa e ao mesmo tempo referencial à música independente brasileira que já tínhamos observado em “Raio de Sol”, na sexta posição deste ranking.

3 – Djonga – “Eu” (Estreia)
Após ter feito um show durante a pandemia, Djonga teve que lidar com uma campanha de cancelamento brutal. Se por um lado dá para entender bem a decepção dos fãs, de outro é evidente que o revide que ele recebeu por seu erro é desproporcional em relação a sua luta. A perseguição intensa sofrida por Djonga parece casar mais com uma cobrança desnivelada causada em parte por nosso racismo estrutural, que obriga que a população negra precise ser dez, mil vezes melhor. Seu novo álbum, “Nu”, não versa só sobre esse assunto, mas é um tópico que parece estar pelas músicas todas e que foi mais bem resolvida em “Eu”, que tem no refrão o verso: “Humano demais pra ser tão bom pra você”. Como se o rapper mineiro quisesse dizer “Quem te fez tão bom assim?”, parafraseando Mano Brown numa certa música chamada “Negro Drama”.

4 – Lupe de Lupe – “Cabo Frio” (Estreia)
Segundo single da banda mineira, tirado do álbum “Trator”, previsto para sair em maio deste ano pela Balaclava, a faixa “Cabo Frio” não é tão polêmica quanto “Goiânia”, mas nem por isso é mais fácil ou simples. É um relato de dores complicadas de se encarar enquanto crescemos, aquela sensação de desconexão com o resto do mundo que todo mundo parece carregar um pouco em diferentes intensidades. Desta vez quem canta e ilustra a capa do single é Renan Benini.

5 – LEALL – “Pedro Bala” (1)
“Escupido a Machado” é o nome do primeiro álbum do rapper carioca LEALL, uma referência a uma fala do Mano Brown sobre sua história de vida, onde os ensinamentos constroem, mas os erros custam caro. “Pedro Bala”, segundo som do disco, é um pouco sobre isso, mas também sobre o cerco que se apresenta na vida dos jovens negros do Brasil. Um cerco material, mas também do imaginário – aspecto perverso do racismo estrutural brasileiro que consegue culpar suas vítimas na ida e na volta. Embora a referência do título seja do personagem criado por Jorge Amado em “Capitães de Areia”, a gente relembrou aqui do “Pedro Pedreiro” de Chico Buarque, outro personagem da música brasileira que sofre com as questões do imaginário.

6 – Jadsa – “Raio de Sol” (2)
O congraçamento da CENA brasileira em seu momento fértil dos últimos anos se dá à perfeição em “Raio de Sol”, o novo single da guitarrista baiana Jadsa com participações de Ana Frango Elétrico e Kiko Dinucci. Segunda música a ser apresentada de “Olho de Vidro”, o álbum a ser lançado, “Raio de Sol” é tão boa quanto o single anterior, a “A Ginga do Nego”, que você encontra mais abaixo, na sexta posição. E mais cheia de significados. A canção une a musicalidade da Bahia (Jadsa), Rio (Frango) e São Paulo (Kiko). Tem o samba, a MPB de vanguarda, o rock, psicodelia, “lá-lá-lás”, pausa, mudança de andamento. Vem disco do ano – sim, a gente trabalha nesse pique. Sai dia 26.

7 – BNegão – “Salve 2 (Ribuliço Riddim)” (Estreia)
Vem por aí o primeiro disco solo, solo mesmo, do BNegão. Aliás, discos solos. O primeiro deles, que chega no final do primeiro semestre, será um álbum que revisita músicas suas e de outras bandas, como Moleque de Rua, Guará e Ratos de Porão. No final do ano, vem um de inéditas. Marcando o inicio desta nova fase do rapper, sem o apoio dos Seletores de Frequência, ele lançou hoje o single “Salve 2 (Ribuliço Riddim)”, que registra seu mantra mais recente de abertura de shows e lives em um som – e que talvez você reconheça de outro lugar, no caso, “Salve”, que está no disco “O Futuro Não Demora”, do BaianaSystem.

8 – Vanessa Krongold – “Dois e Dois” (Estreia)
Além da bela música do álbum solo da Vanessa, que por quase 20 anos frequentou bandas indies paulistanas como Maybees e Ludov, vale ver o vídeo dela sobre empoderamento do desejo feminino. E que traz cenas de shibari em um olhar contemporâneo para a arte milenar japonesa sobre dominação e submissão em uma possível metáfora mais ampla sobre como lidamos com nossos relacionamentos. Como aqui o lance é mais música que vídeo, recomendamos bem também o som, puro e simples.

9 – Ale Sater – “Peu” (Estreia)
Parte do EP solo que Ale prepara para o dia 19 de março, “Peu” é uma balada levada por um violão delicado que cita oceanos e ilhas. Na música, ele recomenda a esse alguém chamado Peu, mais novo, que o certo a fazer, entre outras coisas, é “compreender a marcha e seguir o jogo”. Peu talvez seja um filho fictício recebendo conselhos de um tutor. Ou será uma conversa consigo mesmo?

10 – Jupiter Apple – “AJ1” (Estreia)
Gravado em 1999, “The Apartament Jazz” é um disco instrumental perdido de Flávio Basso, aka Júpiter Maçã, aka Júpiter Apple. Parte do material se tornou a trilha sonora de um pequeno filme de Júpiter que leva o mesmo nome. Aqui, nesta “AJ1”, ele demonstra sua competência e domínio completo de conceitos do jazz, música eletrônica e sua especialidade, a psicodelia.

11 – Apeles – “Eu Tenho Medo do Silêncio” (3)
12 – Lupe de Lupe – “Goiânia” (4)
13 – Rohmanelli – “Viúvo” (5)
14 – Boogarins -“Far and Safe” (6)
15 – Rincon Sapiência – “Som do Palmeiras” (7)
16 – Monna Brutal – “Neurose” (8)
17 – Luna França – “Terapia” (9)
18 – Yannick Hara – “Antidepressivos” (10)
19 – Ale Sater – “Nós” (11)
20 – Jadsa – “A Ginga do Nêgo” (12)
21 – Sessa – “Grandeza” (13)
22 – Artur Ribeiro – “Fragmentação” (14)
23 – A Espetacular Charanga do França – “Cadê Rennan?” (15)
24 – Garotas Suecas – “Tudo Bem” (16)
25 – Winter – “Violet Blue” (17)
26 – Pluma – “Mais do Que Eu Sei Falar” (18)
27 – Tagore – “Tatu” (19)
28 – Kill Moves – “Perfect Pitch” (20)
29 – DJ Grace Kelly – “PPK” (21)
30 – Jamés Ventura – “Ser Humano” (22)
31 – Jovem Dionísio – “Copacabana” (23)
32 – Píncaro – “Leito de Migalhas” (24)
33 – Atalhos – “A Tentação do Fracasso” (25)
34 – Edgar – “Prêmio Nobel” (26)
35 – Jup do Bairro – “O Corre” e “O Corre” (Bixurdia Remix) (27)
36 – BK – “Mudando o Jogo” (28)
37 – Antônio Neves e Ana Frango Elétrico – “Luz Negra” (29)
38 – BaianaSystem e BNegão – “Reza Forte” (30)
39 – Compositor Fantasma – “Pedestres Violentas” (31)
40 – Zé Manoel – “Saudade da Saudade” (32)
41 – Gustavo Bertoni e Apeles – “Ricochet” (33)
42 – Jair Naves – “Todo Meu Empenho” (34)
43 – Kamau – “Nada… De novo” (35)
44 – Letrux – “Dorme Com Essa (Delirei)” (36)
45 – MC Fioti – “Bum Bum Tam Tam” (37)
46 – Rincon Sapiência – “Tem Que Tá Veno” (Verso Livre) (38)
47 – MC Carol – “Levanta Mina” (39)
48 – Marabu – “Capítulo 5: Sereno” (40)
49 – Criolo – “Fellini” (41)
50 – Linn da Quebrada – “quem soul eu” (42)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, o rapper Rico Dalasam.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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