Em Karol Conka:

Top 50 da CENA – Glue Trip vai ao primeiro, com uma “pequena ajuda”. Sérgio Wong emplaca em segundo. Gorduratrans se enterra em terceiro

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* Ah, a música brasileira. Que coisa gigante. Arthur Verocai colando com uma banda independente. Anitta colando pelo mundo. Enquanto isso, um jovem paulistano coloca o rock em cheque com uma criatividade absurda. Tudo isso ao mesmo tempo. Na era do streaming, separados por um clique de distância que é uma trajetória curta, mas quase in. A gente tenta aqui juntar tudo e contar essa história.

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1 – Glue Trip – “Lazy Days” (com Arthur Verocai) (Estreia)
Não tem muito tempo que saiu supermatéria no jornal inglês “Guardian” com o maestro Arthur Verocai. No perfil do autor do clássico “Arthur Verocai”, lançado em 1972 e redescoberto (e sampleado) ano depois, são mencionados algos do seus trabalhos em colaborações luxuosas que vem por aí. Mas esqueceram uma muito chique. Arthur é o convidado de “Lazy Days”, primeiro single que antecipa o novo álbum dos paraibanos da Glue Trip. “Eu estava vivendo um sonho lúcido”, escreve Lucas Moura, guitarra e voz da banda, quando descreve a sessão de estúdio. Sonho mesmo. Tanto que quando a música supostamente acaba, vem uma segunda parte, como quem tentar voltar a dormir para sonhar mais um pouquinho e encontrar aquele sonho de novo. Bom que dá para dar um replay no som. Fique atento, “Nada Tropical”, terceiro disco da banda de João Pessoa, sai ainda neste semestre.

2 – Sérgio Wong – “Filme” (Estreia)
A coleção de frases que o jovem paulistano Sérgio Wong espalha pelo álbum “Mídia” já justificariam seu trabalho. Algumas que a gente foi captando: “Quer me cancelar? Então, cancela aí”, “O rock brasileiro é uma farsa e eu posso provar”. Acontece que musicalmente a coisa também anda muito bem, com Sérgio utilizando o rock para provocar o gênero e seus limites. Em “Alô”, por exemplo, “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana é mencionada de uma maneira que é até difícil nomear – não é paródia, não é versão, seria uma desconstrução? É bonito como ele pesca pequenos elementos de uma música conhecida para criar algo novo. É um aviso que está lá e não está. E essa é uma boa metáfora para o disco. Cara talentoso.

3 – Gorduratrans – “Enterro dos Ossos” (Estreia)
E olha quem está de volta. A dupla Felipe Aguiar (voz e guitarra) e Luiz Felipe Marinho (voz e bateria), que não lançava nada desde 2017, prepara a chegada do terceiro álbum. A banda de noise/shoegaze do Rio não perdeu em nada sua essência, mas parece que eles voltaram ligeiramente mais pop ou com uma produção mais refinada. Calma, não é uma mudança radical, mas tem um colorido novo neste single aí. Repara para ver se não é viagem nossa. Tá bem massa e viciante. Tipo para tocar em rádios legais, se a gente tivesse rádios comerciais legais.

4 – Radio Diaspora – “Ori” (Estreia)
A gente estava dando uma passeada pelo excelente “Floga-se”, do amigo Fernando Augusto Lopes, e caiu neste texto que chamou nossa atenção, sente só: “Escute sua cabeça. Questione sua cabeça. Exploda sua cabeça. Depois de encostar a testa no chão, encha o copo e acenda o cigarro de Padilha. Deixe o caos governar a ordem até que as coisas façam sentido novamente”. É um trecho que Fernando sacou do texto de apresentação de “Ori”, disco da dupla Radio Diaspora, formada por Romulo Alexis (trompete, flautas, percussões, voz, eletrônicos) e Wagner Ramos (bateria, eletrônicos, samples). Até agora só encontramos o disco no Bandcamp dele, mas não vacile: é aquele tipo de som que te tira do lugar mesmo.

5 – Anitta – “Maria Elegante” (com Afro B)
É injusto julgar “Version of Me” pelo que a gente gostaria que ele fosse. A gente queria uma Anitta que escancarasse para o mundo a “Anira” que nós já conhecemos, essa que aparece na capa do álbum. Mas o disco não faz isso. Não abala, tanto quanto gostaríamos, as certezas do mundo pop norte-americano. E como isso não era o objetivo, nossos sonhos que fiquem de lado, não se pensa música assim. “Versions of Me” é um bom resultado da intensa pesquisa de Anitta sobre o mercado dos Estados Unidos, de olho nas tendências que já circulam por lá. A estratégia anda funcionando, vide seu bombástico show no Coachella. É fato: em nossos tempos, nenhum artista brasileiro foi tão longe quando o assunto é música. Se o play no streaming é de brasileiro ou não, importa pouco. Aliás, a gente deveria era aplaudir a estratégia de hackear a cultura dominante em vez de tentar menosprezar essa conquista, uma obsessão boba do nosso jornalismo cultural. Ainda que fique esse amargo gosto do sonho, imaginando coisas, fica a realização concreta e muito bem feita do álbum e da performance no Coachella. E, lógico, são passos a serem dados. E Larissa é estratégica, não duvidamos que ela fique matutando a hora certa de soltar a braba, aquela que americano talvez nem saiba que é possível fazer. O interessante é que mesmo em alguns passos em falso ela sabe muito bem o que está fazendo. E quando dá certo dá muito certo. Pode apostar: Anitta vai ter seu número 1 na Billboard dia destes. Talvez não seja com esse disco, talvez sim. Nosso ponto é: se ela mirou lá, é questão de tempo.

6 – Devotos – “Periferia Fria” (com Criolo) (Estreia)
Das bandas mais importante do punk, Devotos chegou firme em uma ideia muito interessante de um disco que pode surpreender quem só conhece seus sons mais porradas: um álbum dedicado ao reggae – um gênero que sempre atravessou a banda, mas que agora está no centro de suas atenções. Está sensacional. E a gente recomenda muito também o single anterior, que demos bobeira e não jogamos aqui: “Dança da Alma”, com Chico César.

7 – UANA – “Vidro Fumê”
Talvez você se lembre da UANA quando a gente escreveu sobre ela lá em 2021, quando a cantora pernambucana soltou seu single “Mapa Astral”, um super R&B. Ou talvez, se você anda mais desatento, só foi saber dela no sucesso “Quando o DJ Toca”, ótima música do discaço do funkeiro mineiro FBC, que tem participação vocal dela. A exploração sonora da cantora agora avança pelo bregafunk romântico, dando uma forte liga entre influências gringas e brasileiras.

8 – Cícero – “Sem Distância”
Está aí uma música de coração, de peito aberto. Um single lançado sem maiores pretensões no dia de seu aniversário. É como se Cícero encontrasse a solução de nossa eterna ansiedade nestes tempos. Te acalma, vive o agora. Se tem tempestade, você sabe que ela passa.

9 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah (Ao Vivo no Encontro DDGA)” (1)
“Foda, né”, alguém da plateia comenta em um intervalo entre os versos. Essa cena conta um pouco do clima intimista que está presente no EP ao vivo “Encontro DDGA”, registro de uma apresentação de Rico Dalasam em São Paulo. No disco todo a plateia canta tão alto quanto Rico em parte do repertório de seu disco mais recente “Dolores Dala Guardião do Alívio”. A mensagem está nessa recepção do público. É mais forte que um hit, sem dúvida. Outra conexão. Muito interessante que o disco seja tão curtinho… Sabe aqueles ao vivo antigos quando duas horas não cabiam em um LP?

10 – Karol Conká – “Fuzuê” (2)
Massa ver que após o barulho do BBB e todas as tretas que rolaram por lá a música de Karol volte a falar mais alto. Ela manda bem demais para ser menos conhecida pela música do que por um programa de TV chato a beça. Ela voltou. Deixa a música falar.

11 – Saskia – “Quartas de Final aos 45 do Segundo Tempo” (3)
12 – Florais da Terra Quente – “Suco de Umbu” (com Chapéu de Palha) (4)
13 – Narcoliricista – “Bem Pertin” (5)
14 – Marina Sena – “Temporal” (6)
15 – LAZÚLI – “Pomba Gira” (7)
16 – Maglore – “A Vida É uma Aventura” (8)
17 – Valciãn Calixto – “Aquele Frejo” (9)
18 – Helo Cleaver – “Café com Leite” (10)
19 – Messias – “Avenida Contorno” (11)
20 – Labaq – “Dóidóidói” (12)
21 – Pabllo Vittar e Rina Sawayama – “Follow Me” (13)
22 – Jota.pê – “Preta Rainha” com Kabé Pinheiro e Marcelo Mariano (14)
23 – Dududa – “Vou Seu” (15)
24 – Luneta Mágica – “Além das Fronteiras” (16)
25 – Vanguart – “Amor” (17)
26 – HENRI – “Coração de Plástico” (18)
27 – Agnes Nunes – “Não Quero – A COLORS SHOW” (19)
28 – Diogo Strausz – “Deixa a Gira Girar” (20)
29 – Zudizilla – “Oya” (21)
30 – Terno Rei – “Aviões” (22)
31 – Coruja BC1 – “Auxílio Emergencial do Rap” (23)
32 – Duda Beat – “Dar uma Deitchada” (24)
33 – Larissa Luz – “Brinco Só” (25)
34 – Monna Brutal – “Hashtag (com Mu540)” (26)
35 – Afrocidade – “Toma” (27)
36 – B.art – “Mamba Negra” (com Zilladxg) (28)
37 – Urias – “Foi Mal” (29)
38 – Wado – “Aquele Frevo Axé (com Patrícia Marx)” (30)
39 – Gab Ferreira – “faking it” (31)
40 – Luedji Luna – “Banho de Folhas” (Raze Mix) (32)
41 – Febem – “Champions” (33)
42 – Jambu – “Sem Rumo” (34)
43 – Otto – “Peraí Seu Moço” (35)
44 – Ava Rocha – “Papais Panacas” (com Iara Rennó e Saskia) (36)
45 – Bruno Morais – “Onironauta” (37)
46 – Black Alien – “Pique Peaky Blinders” (38)
47 – Supervão – “Primeiro Date” (39)
48 – Julia Mestre – “Meu Paraíso” (com Lux & Tróia) (40)
49 – FBC – “Se Tá Solteira Breaking Beattz remix” (com Mac Júlia) (41)
50 – Bala Desejo – “Lambe Lambe” (42)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a banda Glue Trip, em foto de Bel Gandolfo.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.

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Top 50 da CENA – Rico Dalasam volta ao topão. Karol Conká emplaca o segundo. Saskia se classifica para o terceiro lugar

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* Rico Dalasam no topo de novo. Agora com seu miniálbum ao vivo, a gente se certificou de que estávamos certos em dar novo destaque para músicas que já tivemos uma megaatenção no ano passado. Renovadas ao vivo com o canto da plateia (lembre-se de que estamos falando de um álbum que saiu na pandemia), “DDGA” tem sua força e sentidos multiplicados pela multidão. Primeiro lugar sem mais conversa em uma semana que ainda tem o retorno da Karol Conká aos álbuns, mais um aquecimento da Saskia em direção ao seu novo disco e um início da nossa pesquisa sobre a música do Piauí a partir de uma playlist muito especial que encontramos. Chega junto que a música brasileira não para de soltar as brabas.

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1 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah (Ao Vivo no Encontro DDGA)” (Estreia)
“Foda, né”, alguém da plateia comenta em um intervalo entre os versos. Essa cena conta um pouco do clima intimista que está presente no EP ao vivo “Encontro DDGA”, registro de uma apresentação de Rico Dalasam em São Paulo. No disco todo a plateia canta tão alto quanto Rico em parte do repertório de seu disco mais recente “Dolores Dala Guardião do Alívio”. A mensagem está nessa recepção do público. É mais forte que um hit, sem dúvida. Outra conexão. Muito interessante que o disco seja tão curtinho… Sabe aqueles ao vivo antigos quando duas horas não cabiam em um LP?

2 – Karol Conká – “Fuzuê” (Estreia)
Massa ver que após o barulho do BBB e todas as tretas que rolaram por lá a música de Karol volte a falar mais alto. Ela manda bem demais para ser menos conhecida pela música do que por um programa de TV chato a beça. Ela voltou. Deixa a música falar.

3 – Saskia – “Quartas de Final aos 45 do Segundo Tempo” (Estreia)
A Saskia escreveu no seu Instagram: “Esta musica é sobre o amor e o fim/ É sobre estar impedida no campo e ter que voltar para reverter o placar”. No Bandcamp, abriu mais ainda o jogo: “O amor acaba quando o arbitro apita? Rolou um empate e ninguém decidiu nada nos pênaltis. Todos somos campeões e perdedores de corações”. Falar em metáforas futebolísticas é ganhar uns pontos com a gente, sem dúvida. Estamos ansiosos pelo disco dela que chega logo mais pela Balaclava, ainda que o jogo já esteve ganho, sem dúvidas.

4 – Florais da Terra Quente – “Suco de Umbu” (com Chapéu de Palha) (Estreia)
5 – Narcoliricista – “Bem Pertin” (Estreia)

Coisas que acontecem no Spotify. Semana passada a gente deu o quinto lugar para o Valciãn Calixto (número 9) e foi dar uma fuçada em outras playlists que tinham relacionamento com ele. Caímos em uma montada por Noé Filho, só com músicas do Piauí. É uma seleção com nove horas de bandas e artistas incríveis, vários com lançamentos recentes, tudo muito interessante. A gente resolveu trazer estes dois sons só para começar esse ensaio de um mergulho mais profundo na música do Piauí. Procure saber, viu?

6 – Marina Sena – “Temporal” (Estreia)
No Lollapalooza, a Marina Sena deu um papo de que ama “Temporal”, mas tem poucas chances de apresentar ela por aí porque é uma das músicas menos conhecidas de “De Primeira”, sua estreia solo. Bom, a gente vai tentar dar uma força, tá? Vem hit.

7 – LAZÚLI – “Pomba Gira” (1)
Ju Strassacapa, uma das integrantes do Francisco, El Hombre, adotou um novo nome para sua experiência solo, que casa com seu processo de encontro de um novo nome artístico não binário. A mudança também é sonora, a brisa aqui é bem outra da que Ju despenha na banda, ainda que não tão distante a ponto de causar estranhamento aos fãs. No belo álbum de estreia, “Da Lua”, a música de LAZÚLI cumpre um papel de cura que tem a ver com o processo que inspirou Ju em sua criação. Escute o álbum completo, mas se tiver com presa, escuta também “Me Aconteci”.

8 – Maglore – “A Vida É uma Aventura” (2)
Dá para dizer que os baianos da Maglore encerram um ciclo em quando em 2019 lançaram um álbum ao vivo após quatro de estúdio. Veio a pandemia, alguns singles, teve também o disco solo do vocalista Teago Olivera e agora a banda ensaia o início de uma nova fase, que pelo visto vai investigar muitas das possibilidades dentro da música brasileiras, experimentando como elementos que estão fora do arranjo instrumental básico de uma banda de rock, como esse single já entrega ao remeter muito a coisas dos anos 70.

9 – Valciãn Calixto – “Aquele Frejo” (5)
O incrível músico romântico e macumbeiro piauiense vai lançar em agosto seu novo álbum, que está sendo produzido em Minas Gerais, dada as conexões ricas que se dá na música brasileira atual. Nessas, para preparar nossos corações, Valciãn remexe seu caldeirão de saborosas influências para trazer agora este single de um reggae quase-brega, sempre-gingado, boa para tocar nas rádios que prestem e se prestem à urgência da música nova da CENA. “Aquele Frejo” fala de um relacionamento que nunca existiu, mas deixou marcas. “Eu acho ótimo esse termo e me remete a algo da infância. As mães e as tias da gente quando reclamavam, sempre falavam alguma coisa como: ‘Parem com esse fole, deixem de frejo aí, se não vão tudin apanhar’”, segundo o cantor. “Aquela confusão” seria uma das traduções, mas com o maravilhoso molho nordestino.

10 – Helo Cleaver – “Café com Leite” (4)
Olha a Helo aí. A gente que conhece (e você também, imagino) conhece ela desde sua participação no podcast Vamos Falar Sobre Música e do período que tocou na banda da BRVNKS, fora todo seu rolê no mundo da música independente, fica muito feliz em ver ela assumindo essa posição de colocar para jogo as suas próprias músicas, seu rolê que ela conta que ficou por muito tempo só em rascunhos, culpa da “Priguis”, que dá título ao EP. Ainda bem que ela reagiu e colocou esses sons na rua. Tudo super bonito, a gente merecia escutar.

11 – Messias – “Avenida Contorno” (3)
12 – Labaq – “Dóidóidói” (6)
13 – Pabllo Vittar e Rina Sawayama – “Follow Me” (7)
14 – Jota.pê – “Preta Rainha” com Kabé Pinheiro e Marcelo Mariano (8a)
15 – Dududa – “Vou Seu” (9)
16 – Luneta Mágica – “Além das Fronteiras” (10)
17 – Vanguart – “Amor” (21)
18 – HENRI – “Coração de Plástico” (13)
19 – Agnes Nunes – “Não Quero – A COLORS SHOW” (14)
20 – Diogo Strausz – “Deixa a Gira Girar” (15)
21 – Zudizilla – “Oya” (16)
22 – Terno Rei – “Aviões” (17)
23 – Coruja BC1 – “Auxílio Emergencial do Rap” (19)
24 – Duda Beat – “Dar uma Deitchada” (20)
25 – Larissa Luz – “Brinco Só” (21)
26 – Monna Brutal – “Hashtag (com Mu540)” (22)
27 – Afrocidade – “Toma” (23)
28 – B.art – “Mamba Negra” (com Zilladxg) (24)
29 – Urias – “Foi Mal” (25)
30 – Wado – “Aquele Frevo Axé (com Patrícia Marx)” (26)
31 – Gab Ferreira – “faking it” (27)
32 – Luedji Luna – “Banho de Folhas” (Raze Mix) (28)
33 – Febem – “Champions” (29)
34 – Jambu – “Sem Rumo” (30)
35 – Otto – “Peraí Seu Moço” (31)
36 – Ava Rocha – “Papais Panacas” (com Iara Rennó e Saskia) (32)
37 – Bruno Morais – “Onironauta” (33)
38 – Black Alien – “Pique Peaky Blinders” (34)
39 – Supervão – “Primeiro Date” (35)
40 – Julia Mestre – “Meu Paraíso” (com Lux & Tróia) (36)
41 – FBC – “Se Tá Solteira Breaking Beattz remix” (com Mac Júlia) (37)
42 – Bala Desejo – “Lambe Lambe” (38)
43 – brvnks – “holy motors” (39)
44 – China – “Carnaval Infinito” (40)
45 – Walfredo em Busca da Simbiose – “Traumas de Estimação” (41)
46 – Mc Hariel – “Pirâmide Social” (42)
47 – Gloria Groove – “BONEKINHA” (43)
48 – Do Amor – “A Morte do Amor” (44)
49 – Francisco, el Hombre e Sebastianismos – “Um Dia por Vez” (45)
50 – Gabriel Ventura – “O Teste” (46)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, o rapper Rico Dalasam.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.

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Agora em podcast, Mano Brown se mostra grande entrevistador. Primeiro episódio trouxe Karol Conká como convidada

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* Resenhar podcast é uma tarefa do jornalismo musical? Talvez, hein. O poploader Vinicius Felix tem umas anotações para levantar após escutar a estreia de Mano Brown no seu podcast “Mano a Mano”, que é um produto original do Spotify e terá semanalmente, por 16 episódios, sempre um convidado. O texto acabou virando uma reflexão sobre mídia, racismo e sobre o rapper dos Racionais em si e menos uma resenha do podcast, que para inaugurar a nova falação do Brown traz uma conversa com a polêmica rapper curitibana Karol Conká.

Captura de Tela 2021-08-26 às 5.01.15 PM

Mano Brown tem uma história tortuosa com entrevistas. Justamente por isso ver ele se mostrar um grande entrevistador em seu podcast “Mano a Mano” não surpreende em nada. Parece mais a realização de um sonho. “Era assim que eu queria ser entrevistado”, ele parece dizer. Pelo menos foi isso que eu teorizei na minha cabeça após os primeiros minutos da conversa do rapper apresentador com a hoje extrafamosa Karol Conká. Cheguei a dar um pause para anotar algumas ideias.  

Em parte, é mentira que ele e os Racionais MC’s são avessos a entrevistas. Em parte, é verdade. A explicação é simples.

Se tivessem segurança que suas palavras seriam respeitadas e que as perguntas corretas fossem feitas, Brown teria dados as melhores entrevistas desde que os Racionais se inventaram como quarteto e escreveram sua primeira música como um grupo de rap. Mas, na imprensa brasileira, ainda muito estruturalmente racista – vide a contínua associação de artistas negros com questões de crimanalidade, um problema visível que artistas brancos não têm que enfrentar -, um grupo com a radicalidade dos Racionais, que vai ao cerne da questão brasileira – uma colônia da colônia que segue exterminando índios, negros e pobres e glorifica seus maiores vilões em estátuas -, não teria vez.

A fuga da imprensa não foi marketing, charme, fama de mal – ainda que tenha sido tudo isso também. Esse escape foi uma estratégia de sobrevivência. Quando dizem que ele tem fama de ser avesso a entrevistas, esquecem sua responsabilidade nessa história.
 
As perguntas certas não são as perguntas fáceis, são as reais – mas não temos uma imprensa tão realista quanto Brown. Pior, ainda há uma dificuldade em entender a sensibilidade do poeta.

Muitas vezes suas complexas narrativas parecem reduzidas a uma voz única e em primeira pessoa, que fala por toda a periferia, sendo que ele produziu exatamente o oposto disso – suas músicas dão a amplitude da periferia, sua literatura dá a complexidade da realidade e chega próximo do retrato mais fiel possível – algo que explica em parte seu sucesso e popularidade.

Ele não poderia ser o porta voz de todos, porque ele vem justamente avisar da realidade que escapa da lógica racista – “Ei, aqui o pessoal precisa bem mais do que tom de pele para se unir”; “Ei, você não sabe que tem um outro país dentro deste país”. Isso para ficar no recados que Brown deu para quem vive no centro.

Na entrevista do “Roda Viva”, programa da TV Cultura, esse um clássico, querem entrevistar justamente o porta-voz, não o poeta – ainda que a participação de Rappin Hood, Ferréz e de Maria Rita Kehl faça alguma justiça. Na maioria das vezes, todos os entrevistadores dão sinais de que entenderam tudo errado. Querem saber do Brown difícil, do Brown que amansou, do que ele pensa, em quem ele vota. E as cotas, Brown? A radicalidade, a beleza e a complexidade da obra ficam de canto. 

Lógico, algumas exceções são históricas. Thaíde fez uma grande entrevista com Brown. André Caramante tem a grande entrevista com todos os Racionais reunidos. E a melhor de todas, a do programa “Freestyle”, tocada por Marcílio Gabriel – conduzida com respeito, conhecimento e sobre arte. É Marcílio que pega disco a disco e devolve pra Brown uma pergunta maravilhosa: o que você sonhava aqui? Levantando a bola para que finalmente Brown pudesse reavaliar seus álbuns. Sem esquecer de Tatiana Ivanovici, que entrevistou Brown durante a feitura de uma batida e nos deu acesso ao seu lado de produtor – um papo 100% sobre arte.

E, sendo justo, muitos outros bons jornalistas conseguiram fazer bons papos com ele – ainda que muitas vezes querendo escutar de Brown um recado, uma ordem, um próximo passo, uma análise da conjuntura – muitas vezes essa missão foi cumprida sem soar desrespeitosa. Mas outras não foi. No próprio podcast, Brown chega a lembrar a vez que foi a uma palestra e as pessoas ficaram chateadas com sua resposta sobre cotas. Ele, um defensor das cotas, apresentou a complexidade da questão ao lembrar que existem muito negros inteligentes que são contra elas, uma resposta que irritou a plateia e os produtores da palestra. “É preciso essa pergunta?”, ele questiona.

Todas essas ideias voltam ao podcast “Mano a Mano”, essa grande novidade. Ao Brown diante de uma convidada polêmica. Ele chega a admitir no fim da entrevista que tinha medo inclusive de colaborar com uma situação que colocasse Karol em mais tretas. E ele resolve tudo com as perguntas certas – pergunta a idade, a cidade, se coloca no mesmo lugar da entrevistada, mostra sua admiração, pergunta da sua arte. Quando encontra as fragilidades dela, devolve com as suas – generosidade, afeto, entende?

As perguntas mais duras que faz são as perguntas reais. Quase como um psicólogo, alguém acertou ao comparar no Twitter. Por que aceitar participar do BBB? Por que acreditar no que os outros pensam da gente? Imagino que Karol saiu de lá com a sensação de ter dado a entrevista que nunca teve chance de dar. E Brown de tocar o papo que poucas vezes encarou quando estava do outro lado do balcão. Aliás, nesse espaço relaxado e real, Brown de alguma maneira também fala sobre si de maneira inédita, conta das brigas dos Racionais, sobre sua dureza, teoriza sobre a Globo que nem bem resolveu seu racismo e já quer ensinar a militar. Fãs dele não podem deixar de escutar. Como cultuador da banda, são meus momentos favoritos, ainda que o foco dos episódios também sejam outros.

Ah, não posso encerrar sem elogiar a presença também, no “Mano a Mano”, de Semayat Oliveira, que orienta Brown jornalisticamente durante o papo e traz uma visão que acrescenta à conversa em bons momentos – como quando se levanta a questão do pardo ou das mulheres negras serem sempre fortes.

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* A imagem da chamada na home da Popload para este post é de Pedro Dimitrow.

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Popnotas – O documentário tombado da Karol Conká. O menor show do mundo na “Tiny Desk”. O volume dois do Boogarins. E as homenagens do Kid Cudi ao Kurt Cobain

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– A hoje nacionalmente polêmica rapper curitibana Karol Conká, que há poucos meses saiu algo cancelada do programa global “Big Brother Brasil”, do qual participou, com taxa de votação altíssima, está ganhando um mimo da emissora carioca, para ajudá-la na retomada de sua carreira. Vem aí o documentário “A Vida Depois do Tombo”, título muito bom que brinca não só com seu episódio no famoso reality quanto com seu maior sucesso, o single “Tombei”, de 2014. O doc sai no final do mês, dia 29, na Globoplay, prometendo “bastidores de seu novo projeto”, além do impacto do reality show em sua carreira.

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– O menor show do mundo só poderia ter acontecido dentro da série “Tiny Desk”, do conglomerado de rádios americanas NPR. Esta performance especial foi feita, ainda que para a “Tiny Desk”, dentro da versão virtual do South by Southwest deste ano. E foi protagonizada pelo inovador trio de hip hop experimental Clipping., de Los Angeles. Foram seis músicas tinies em 15 minutos. Tipo impressionante de tão pequeno este show.

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– Banda indie brasileira de alto padrão musical ainda que lançando demos, outtakes ou sonorizando memórias, o Boogarins acaba de lançar o volume 2 de seu “Manchaca”, disco que remonta à temporada que o quarteto goiano passou na casa de mesmo nome em Austin, Texas, em 2016, que resultaria no EP “La Vem a Morte”, de 2017, e no álbum “Sombrou Dúvida”, de 2019. O volume 1 foi lançado em agosto do ano passado. Este “Manchaca: A Compilation of Boogarins Memories, Demos and Outtakes from Austin, TX – Vol. 2” traz 12 faixas, sendo a última delas a “Far and Safe”, versão em inglês da famosa “Te Quero Longe”), que teve letra reformulada e vocal de Erika Wennerstrom, da banda Heartless Bastards, de Ohio. Contamos essa história aqui, há umas semanas. Abaixo, o disco todo.

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– O importante rapper americano Kid Cudi foi a atração de anteontem do programa “Saturday Night Live”. No “SNL”, Cudi apresentou ao vivo duas músicas de seu sétimo disco, “Man on the Moon III: The Chosen”, lançado em dezembro: “Tequila Shots” e “Sad People”, esta última com o rapper cantando com um vestido floral, em um tributo a Kurt Cobain, ex-Nirvana, cujo 27º aniversário da morte por suicídio se deu semana passada. Várias vezes Cobain apareceu em palco ou capa de revista usando vestido. “Sad People” traz uma letra que pede carinho e amor a pessoas abatidas pela tristeza, na linha “mental health” que se espalhou pela música, em vários gêneros. Na primeira música interpretada pelo rapper, “Tequila Shots”, ele cantou com uma camiseta do saudoso comediante Chris Farley, ex-“SNL”, morto também nos anos 90, este por overdose de drogas. Por cima da camiseta, Kid Cudi vestia um desses sweaters de lã, verde, também uma marca de vestimenta de Cobain. Confira as duas performances com todas as homenagens, abaixo.

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* A imagem que ilustra a chamada para este post na home da Popload é uma montagem tirada do site musical americano “Consequence of Sound”. E traz Kid Cudi e Kurt Cobain usando vestidos florais parecidos.

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CENA – Festival Rec-Beat e o magistral não-Carnaval estrelado por Mateus Aleluia, O Terno e outros não-foliões

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* O domingo de não-Carnaval brasileiro foi animado, ainda que virtualmente, pela edição 2021 do tradicionalíssimo festival pernambucano Rec-Beat, um dos mais importantes do calendário independente nacional, a nossa famosa CENA.

O Rec-Beat sempre foi, e é há 25 anos, a resistência indie dentro do colossal período de Carnaval no Nordeste brasileiro, no caso o renomado de Recife. E, escrito por linhas pandêmicas tortas, o Rec-Beat 2021, ainda que na internet, brilhou sozinho.

Foram cinco horas de shows de cenários lindos gravados entre Recife e São Paulo, de artistas como Céu, Luiza Lian, MC Troia entre outros. Está tudo no canal do Youtube do evento.

A gente aqui quer chamar a atenção para três dessas apresentações.

Captura de Tela 2021-02-15 às 10.47.04 AM

1. Uma que NÃO aconteceu, que foi o da rapper curitibana Karol Conká, apresentação gravada que não foi ao ar devido a polêmicas envolvendo a rapper no programa global Big Brother Brasil.
2. A performance do especialíssimo músico baiano Mateus Aleluia, veterano da banda sessentista Tincoãs e que no ano passado lançou um brilhante terceiro disco solo, “Olorum”. Para o Rec-Beat, Aleluia fez um show em trio (foto acima), com seu violão e sua voz elevada acompanhados de piano e percussão. O concerto, de 40 minutos, foi gravado na linda Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no largo do Paissandu, no Centro de São Paulo.
3. Também no centrão paulistano foi registrada a apresentação do grupo O Terno, de Tim Bernardes, para o festival recifense. O show foi gravado no Viaduto Santa Ifigênia e marcou a primeira aparição dO Terno tocando juntos mesmo desde que a pandemia se instaurou.
Repara na belezura das duas apresentações, abaixo. De Mateus Aleluia e de O Terno. Dois sons perfeitos para um não-Carnaval. Bravo, Rec-Beat.

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