Em Karol Conka:

Agora em podcast, Mano Brown se mostra grande entrevistador. Primeiro episódio trouxe Karol Conká como convidada

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* Resenhar podcast é uma tarefa do jornalismo musical? Talvez, hein. O poploader Vinicius Felix tem umas anotações para levantar após escutar a estreia de Mano Brown no seu podcast “Mano a Mano”, que é um produto original do Spotify e terá semanalmente, por 16 episódios, sempre um convidado. O texto acabou virando uma reflexão sobre mídia, racismo e sobre o rapper dos Racionais em si e menos uma resenha do podcast, que para inaugurar a nova falação do Brown traz uma conversa com a polêmica rapper curitibana Karol Conká.

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Mano Brown tem uma história tortuosa com entrevistas. Justamente por isso ver ele se mostrar um grande entrevistador em seu podcast “Mano a Mano” não surpreende em nada. Parece mais a realização de um sonho. “Era assim que eu queria ser entrevistado”, ele parece dizer. Pelo menos foi isso que eu teorizei na minha cabeça após os primeiros minutos da conversa do rapper apresentador com a hoje extrafamosa Karol Conká. Cheguei a dar um pause para anotar algumas ideias.  

Em parte, é mentira que ele e os Racionais MC’s são avessos a entrevistas. Em parte, é verdade. A explicação é simples.

Se tivessem segurança que suas palavras seriam respeitadas e que as perguntas corretas fossem feitas, Brown teria dados as melhores entrevistas desde que os Racionais se inventaram como quarteto e escreveram sua primeira música como um grupo de rap. Mas, na imprensa brasileira, ainda muito estruturalmente racista – vide a contínua associação de artistas negros com questões de crimanalidade, um problema visível que artistas brancos não têm que enfrentar -, um grupo com a radicalidade dos Racionais, que vai ao cerne da questão brasileira – uma colônia da colônia que segue exterminando índios, negros e pobres e glorifica seus maiores vilões em estátuas -, não teria vez.

A fuga da imprensa não foi marketing, charme, fama de mal – ainda que tenha sido tudo isso também. Esse escape foi uma estratégia de sobrevivência. Quando dizem que ele tem fama de ser avesso a entrevistas, esquecem sua responsabilidade nessa história.
 
As perguntas certas não são as perguntas fáceis, são as reais – mas não temos uma imprensa tão realista quanto Brown. Pior, ainda há uma dificuldade em entender a sensibilidade do poeta.

Muitas vezes suas complexas narrativas parecem reduzidas a uma voz única e em primeira pessoa, que fala por toda a periferia, sendo que ele produziu exatamente o oposto disso – suas músicas dão a amplitude da periferia, sua literatura dá a complexidade da realidade e chega próximo do retrato mais fiel possível – algo que explica em parte seu sucesso e popularidade.

Ele não poderia ser o porta voz de todos, porque ele vem justamente avisar da realidade que escapa da lógica racista – “Ei, aqui o pessoal precisa bem mais do que tom de pele para se unir”; “Ei, você não sabe que tem um outro país dentro deste país”. Isso para ficar no recados que Brown deu para quem vive no centro.

Na entrevista do “Roda Viva”, programa da TV Cultura, esse um clássico, querem entrevistar justamente o porta-voz, não o poeta – ainda que a participação de Rappin Hood, Ferréz e de Maria Rita Kehl faça alguma justiça. Na maioria das vezes, todos os entrevistadores dão sinais de que entenderam tudo errado. Querem saber do Brown difícil, do Brown que amansou, do que ele pensa, em quem ele vota. E as cotas, Brown? A radicalidade, a beleza e a complexidade da obra ficam de canto. 

Lógico, algumas exceções são históricas. Thaíde fez uma grande entrevista com Brown. André Caramante tem a grande entrevista com todos os Racionais reunidos. E a melhor de todas, a do programa “Freestyle”, tocada por Marcílio Gabriel – conduzida com respeito, conhecimento e sobre arte. É Marcílio que pega disco a disco e devolve pra Brown uma pergunta maravilhosa: o que você sonhava aqui? Levantando a bola para que finalmente Brown pudesse reavaliar seus álbuns. Sem esquecer de Tatiana Ivanovici, que entrevistou Brown durante a feitura de uma batida e nos deu acesso ao seu lado de produtor – um papo 100% sobre arte.

E, sendo justo, muitos outros bons jornalistas conseguiram fazer bons papos com ele – ainda que muitas vezes querendo escutar de Brown um recado, uma ordem, um próximo passo, uma análise da conjuntura – muitas vezes essa missão foi cumprida sem soar desrespeitosa. Mas outras não foi. No próprio podcast, Brown chega a lembrar a vez que foi a uma palestra e as pessoas ficaram chateadas com sua resposta sobre cotas. Ele, um defensor das cotas, apresentou a complexidade da questão ao lembrar que existem muito negros inteligentes que são contra elas, uma resposta que irritou a plateia e os produtores da palestra. “É preciso essa pergunta?”, ele questiona.

Todas essas ideias voltam ao podcast “Mano a Mano”, essa grande novidade. Ao Brown diante de uma convidada polêmica. Ele chega a admitir no fim da entrevista que tinha medo inclusive de colaborar com uma situação que colocasse Karol em mais tretas. E ele resolve tudo com as perguntas certas – pergunta a idade, a cidade, se coloca no mesmo lugar da entrevistada, mostra sua admiração, pergunta da sua arte. Quando encontra as fragilidades dela, devolve com as suas – generosidade, afeto, entende?

As perguntas mais duras que faz são as perguntas reais. Quase como um psicólogo, alguém acertou ao comparar no Twitter. Por que aceitar participar do BBB? Por que acreditar no que os outros pensam da gente? Imagino que Karol saiu de lá com a sensação de ter dado a entrevista que nunca teve chance de dar. E Brown de tocar o papo que poucas vezes encarou quando estava do outro lado do balcão. Aliás, nesse espaço relaxado e real, Brown de alguma maneira também fala sobre si de maneira inédita, conta das brigas dos Racionais, sobre sua dureza, teoriza sobre a Globo que nem bem resolveu seu racismo e já quer ensinar a militar. Fãs dele não podem deixar de escutar. Como cultuador da banda, são meus momentos favoritos, ainda que o foco dos episódios também sejam outros.

Ah, não posso encerrar sem elogiar a presença também, no “Mano a Mano”, de Semayat Oliveira, que orienta Brown jornalisticamente durante o papo e traz uma visão que acrescenta à conversa em bons momentos – como quando se levanta a questão do pardo ou das mulheres negras serem sempre fortes.

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* A imagem da chamada na home da Popload para este post é de Pedro Dimitrow.

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Popnotas – O documentário tombado da Karol Conká. O menor show do mundo na “Tiny Desk”. O volume dois do Boogarins. E as homenagens do Kid Cudi ao Kurt Cobain

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– A hoje nacionalmente polêmica rapper curitibana Karol Conká, que há poucos meses saiu algo cancelada do programa global “Big Brother Brasil”, do qual participou, com taxa de votação altíssima, está ganhando um mimo da emissora carioca, para ajudá-la na retomada de sua carreira. Vem aí o documentário “A Vida Depois do Tombo”, título muito bom que brinca não só com seu episódio no famoso reality quanto com seu maior sucesso, o single “Tombei”, de 2014. O doc sai no final do mês, dia 29, na Globoplay, prometendo “bastidores de seu novo projeto”, além do impacto do reality show em sua carreira.

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– O menor show do mundo só poderia ter acontecido dentro da série “Tiny Desk”, do conglomerado de rádios americanas NPR. Esta performance especial foi feita, ainda que para a “Tiny Desk”, dentro da versão virtual do South by Southwest deste ano. E foi protagonizada pelo inovador trio de hip hop experimental Clipping., de Los Angeles. Foram seis músicas tinies em 15 minutos. Tipo impressionante de tão pequeno este show.

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– Banda indie brasileira de alto padrão musical ainda que lançando demos, outtakes ou sonorizando memórias, o Boogarins acaba de lançar o volume 2 de seu “Manchaca”, disco que remonta à temporada que o quarteto goiano passou na casa de mesmo nome em Austin, Texas, em 2016, que resultaria no EP “La Vem a Morte”, de 2017, e no álbum “Sombrou Dúvida”, de 2019. O volume 1 foi lançado em agosto do ano passado. Este “Manchaca: A Compilation of Boogarins Memories, Demos and Outtakes from Austin, TX – Vol. 2” traz 12 faixas, sendo a última delas a “Far and Safe”, versão em inglês da famosa “Te Quero Longe”), que teve letra reformulada e vocal de Erika Wennerstrom, da banda Heartless Bastards, de Ohio. Contamos essa história aqui, há umas semanas. Abaixo, o disco todo.

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– O importante rapper americano Kid Cudi foi a atração de anteontem do programa “Saturday Night Live”. No “SNL”, Cudi apresentou ao vivo duas músicas de seu sétimo disco, “Man on the Moon III: The Chosen”, lançado em dezembro: “Tequila Shots” e “Sad People”, esta última com o rapper cantando com um vestido floral, em um tributo a Kurt Cobain, ex-Nirvana, cujo 27º aniversário da morte por suicídio se deu semana passada. Várias vezes Cobain apareceu em palco ou capa de revista usando vestido. “Sad People” traz uma letra que pede carinho e amor a pessoas abatidas pela tristeza, na linha “mental health” que se espalhou pela música, em vários gêneros. Na primeira música interpretada pelo rapper, “Tequila Shots”, ele cantou com uma camiseta do saudoso comediante Chris Farley, ex-“SNL”, morto também nos anos 90, este por overdose de drogas. Por cima da camiseta, Kid Cudi vestia um desses sweaters de lã, verde, também uma marca de vestimenta de Cobain. Confira as duas performances com todas as homenagens, abaixo.

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* A imagem que ilustra a chamada para este post na home da Popload é uma montagem tirada do site musical americano “Consequence of Sound”. E traz Kid Cudi e Kurt Cobain usando vestidos florais parecidos.

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CENA – Festival Rec-Beat e o magistral não-Carnaval estrelado por Mateus Aleluia, O Terno e outros não-foliões

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* O domingo de não-Carnaval brasileiro foi animado, ainda que virtualmente, pela edição 2021 do tradicionalíssimo festival pernambucano Rec-Beat, um dos mais importantes do calendário independente nacional, a nossa famosa CENA.

O Rec-Beat sempre foi, e é há 25 anos, a resistência indie dentro do colossal período de Carnaval no Nordeste brasileiro, no caso o renomado de Recife. E, escrito por linhas pandêmicas tortas, o Rec-Beat 2021, ainda que na internet, brilhou sozinho.

Foram cinco horas de shows de cenários lindos gravados entre Recife e São Paulo, de artistas como Céu, Luiza Lian, MC Troia entre outros. Está tudo no canal do Youtube do evento.

A gente aqui quer chamar a atenção para três dessas apresentações.

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1. Uma que NÃO aconteceu, que foi o da rapper curitibana Karol Conká, apresentação gravada que não foi ao ar devido a polêmicas envolvendo a rapper no programa global Big Brother Brasil.
2. A performance do especialíssimo músico baiano Mateus Aleluia, veterano da banda sessentista Tincoãs e que no ano passado lançou um brilhante terceiro disco solo, “Olorum”. Para o Rec-Beat, Aleluia fez um show em trio (foto acima), com seu violão e sua voz elevada acompanhados de piano e percussão. O concerto, de 40 minutos, foi gravado na linda Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no largo do Paissandu, no Centro de São Paulo.
3. Também no centrão paulistano foi registrada a apresentação do grupo O Terno, de Tim Bernardes, para o festival recifense. O show foi gravado no Viaduto Santa Ifigênia e marcou a primeira aparição dO Terno tocando juntos mesmo desde que a pandemia se instaurou.
Repara na belezura das duas apresentações, abaixo. De Mateus Aleluia e de O Terno. Dois sons perfeitos para um não-Carnaval. Bravo, Rec-Beat.

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POPNOTAS TRETAS E TRISTEZAS – A morte da enorme Sophie e os “cancelamentos” de Karol Conká e Marilyn Manson

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– Fim de semana triste para a música. A cantora, produtora, compositora e DJ escocesa SOPHIE (foto abaixo) morreu após um lamentável acidente na Grécia. Ela tinha 34 anos. Segunda nota publicada pela gravadora Future Cassic no sábado, SOPHIE caiu de um local alto enquanto tentava ver melhor a lua cheia, na noite anterior. Primeira artista trans a ser indicada ao Grammy com seu álbum de estreia, “Oil of Every Pearl’s Un-Insides” (2018), além de trabalhos com artistas como Charlie XCX e Madonna, SOPHIE mexeu com as estruturas da música pop e da música eletrônica em criações que questionavam os limites do que é muito avançado para ser popular e vice-versa. “Poucos artistas traduziram tão bem a sobrecarga de estímulos sensoriais, a deformação da imagem virtual e nosso déficit de atenção generalizado”, escreveu o jornalista e crítico musical GG Albuquerque⁣⁣. Outra análise sensível da obra de SOPHIE vem no comentário da escritora Vrinda Jagota quando resenhou o álbum de SOPHIE na lista dos 200 melhores dos anos 10 pelo site indie americano “Pitchfork”. “SOPHIE construiu um mundo totalmente novo, onde nosso eu mais autêntico é aquele que construímos, reinventamos e lançamos ao mundo todos os dias.” R.I.P, Sophie.

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Hilton Valentine, guitarrista da formação original do The Animals, importante banda inglesa dos anos 60 liderada por Eric Burdon, morreu aos 77 anos. É dele o dedilhado de guitarra que deu à versão de “House of the Rising Sun”, do Animals, um toque único – em suas palavras, apenas um adicional que ele quis dar à sequência de acordes que Bob Dylan usava para a música. Dona de muitas versões e arranjos, a tradicional canção do folclore norte-americano tem na versão roqueira dos ingleses talvez seu registro mais conhecido. A causa da morte de Valentine não foi revelada. A notícia foi dada a amigos no sábado pela esposa do guitarrista, Germaine Valentine.

– Situação complicada aqui fora vive a rapper curitibana Karol Conká que está lá dentro da casa do programa global “Big Brother Brasil”. O festival pernambucano Rec-Beat pensa em suspender a exibição de uma performance que Conká gravou como atração da edição 2021 virtual do evento, por conta de declarações dela no programa da Globo. As falas de Karol Conká no BBB21 repercutiram bem mal nas redes sociais por serem consideradas xenófobas. A curitibana fez críticas ao jeito de como outra participante do programa, a paraibana Juliette, se expressa. “Eu sou de Curitiba. Eu tenho muita educação com as pessoas”, disse Conká, sexta-feira passada no programa. A participação da rapper no tradicional festival independente brasileiro dentro do Carnaval pernambucano está marcada para acontecer no dia 14 de fevereiro, na data única de realização do Rec-Beat e o que seria o “domingo do Carnaval”. O evento, nordestino, soltou uma nota dizendo que não com compactua com o posicionamento da curitibana e que avalia a suspensão da exibição de seu show gravado no festival. Que não chegou à decisão final ainda porque Karol Conká está confinada na casa da Globo, sem comunicação, e o contrato dela com o festival envolve vários agentes.

– Outra polêmica de cancelamento, envolvendo gente da música (e cinema). Agora internacional e sobre abusos psicológicos, sexuais e de violência. A atriz Evan Rachel Wood desabafou hoje em suas redes sociais revelando que foi abusada por anos pelo astro Marilyn Manson com quem teve um longo e famoso relacionamento, entre 2006 e 2010. Wood usou seus Stories no Instagram para fazer a acusação dizendo que estava cansada de medo de retaliações, difamações e chantagem: “O nome do meu abusador é Brian Warner, também conhecido mundialmente como Marilyn Manson. Ele começou a me assediar quando eu ainda era uma adolescente e abusou terrivelmente de mim por anos. Eu sofria lavagem cerebral e fui manipulada à submissão”. E pediu para que outras supostas vítimas de Manson se manifestassem, o que gerou vários depoimentos nesse sentido. Os abusos, segundo os relatos, incluíam ameaças físicas e psicológicas, que chegavam a níveis absurdos como: matar animais de estimação de amigos que ele tinha proibido de entrar em contato, punir a vítima se ela dormisse antes das 3 da manhã e acordá-la com música altíssima. E ainda pedir para a namorada, judia, comprar memorabilia nazista. A lista segue de forma assustadora e tem pelo menos outras quatro mulheres acusando o músico de abusos vários, além de Evan Rachel Wood. Marilyn Manson até agora não se manifestou sobre o assunto. Em 2016, em uma entrevista à revista “Rolling Stone”, a atriz disse que havia sido estuprada duas vezes “alguns anos atrás”, uma por um namorado e outra por um dono de bar, sem citar nomes. Em fevereiro de 2018, ela foi à polícia para relatar uma violência doméstica e uma tentativa de estupro. Sobre esses depoimentos, ela teria negado que teria sido Marilyn Manson, com quem havia se relacionado de 2006 a 2010, o autor da violência. Na época desses depoimentos de Evan Rachel Wood, um representante de Marilyn Manson soltou uma nota afirmando que “Infelizmente vivemos numa época em que as pessoas acreditam que o que elas lêem na Internet seja verdade e se sente à vontade de falar o que quiserem ser terem nenhuma evidência do que ocorreu. Os eventos disso podem ser catastróficos e gerar essas fake news é completamente irresponsável”. Daí, hoje, Wood resolveu dar o nome de Manson como seu abusador. Treta feia.

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TOP 50 DA CENA – Letrux “manobra” a CENA e vem para o topo. O encantador Mateus Aleluia chega para… encantar. No mais, temos Nuven, Ella, Perdido…

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* Letrux fez a magia (bruxaria). Com a “desculpa” de lançar um vídeo, sacou a música “Vai Brotar” de seu belo disco deste ano, ali do meio de outras músicas legais, e botou ela numa evidência que, quando tirada do álbum para brilhar sozinha, fica gigante. E roubou o topo, que é só dela nesta semana.
E que coisa linda é a chegada à CENA de um disco novo do grande Mateus Aleluia, baiano 76 anos, dando umas lições de vida em forma de música?
E, como se não bastasse, nossas “dez +” da semana tem hip hop, dream pop, nova MPB, eletrônica. Pensa que playlist linda e representativa isso tudo forma.
É o estado de coisas da CENA brasileira, ali, documentada em canções.

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1 – Letrux – “Vai Brotar” (Estreia)
A manutenção de um disco depende em parte de nós, em parte do artista. Letrux lança o vídeo de “Vai Brotar” e nos lembra do ótimo álbum que pegou a gente lá no começo do ano. E em particular, de uma música. E, mais particular ainda, desta letra. “Você ficou cínico com o tempo/ Eu fiquei muito mais espiritualizada/ Acreditando em carta, sonho e passe”. Só nós achamos que “Vai Brotar” tem uma vibe grandiosa meio Arcade Fire?
2 – Mateus Aleluia – “Amarelou” (Estreia)
A beleza de um disco de Mateus Aleluia em 2020 é um presente que ilumina este ano esquisito. Aqui, na produção de Ronaldo Evangelista e com músicos da CENA por perto, como Thiago França, Sérgio Machado, entre outros, a conversa de Mateus se aproxima da nova geração, que já se ligou na importância dele e dos Tincoãs. “Amarelou” ainda conta com ele: João Donato.
3 – Thiago Nassif – “Voz Única Foto Sem Calcinha” (1)
Estamos de cara com esse disco que ainda reúne Negro Leo, Ana Frango Elétrico, Arto Lindsay, Vinicius Cantuária. Esta que escolhemos (poderiam ser outras) lembra os discos do Caetano com a banda Cê. Thiago parece pegar aquela vibe onde Caetano deixou e botou mais barulhinhos. E aproveitamos e matamos a saudade da voz da Ana Frango em uma inédita. Essa cena do Rio…
4 – Ovo ou Bicho – “Moços” (2)
Essa cena do Rio… parte 2. A conexão está escancarada. O Thiago Nassif é quem mixou esse som do ótimo quarteto do Rio, que chama a atenção em uma viagem que tem doses tropicais do Mutantes e um pique Doors na brisa que a música vira lá para o meio dela.
5 – Elza Soares e Flávio Renegado – “Negão Negra” (3)
Elza é sempre obrigatória. Em um acerto desses, então. A união dela com o rapper mineiro Flávio deu jogo. Uma pancada que sabe carregar versos delicados como “Todos os dias me levanto/Olho no espelho sempre me encanto/Com o meu cabelo e a cor da pele dos ancestrais”.
6 – Nuven (ft. Ale Sater), “Par de Ondas” (Estreia)
Tudo funciona de forma bonita aqui. Música, batidas, voz, vídeo, fotografia, letra, edição. A realidade sintética da música do Nuven e a realidade melancólica que sai da boca de Sater, da forma que sai, levam a uma pegada de autoconhecimento através da solidão.
7 – Ella from the Sea – “Side by Side” (Estreia)
Single que puxa o EP dessa cantora paulistana que usa a música como terapia para a alma. Algumas soluções ela também encontra no tarot. O nõo se chama “Moon” à toa. A vibe aqui é “Grimes vai para os ano 80 e entra para o Cocteau Twins”. Atmosfera é tão densa que dá para cortá-la com uma faca.
8 – Pedro Pastoriz – “Dolores” (Estreia)
“Dolores” é a faixa de abertura do álbum solo de Pedro, que faz a voz, o banjo e o violão na conhecida banda indie-bluegrass Mustache & Os Apaches. Aqui estamos em seu terceiro álbum solo, “Pingue-Pongue com o Abismo”. O nome pode assustar, mas vale escutar.
9 – Marcelo Perdido – “Bastante” (Estreia)
O disco curto de Marcelo, que saiu por um certo selo CENA, nos capturou, lógico. A cinematográfica e também breve “Bastante” é nosso destaque da vez. Um disco de se ouvir em um gole só este, mas não de se beber só uma vez.
10 – Yannick Hara (ft Big the Kiid e Asaph) – “Vida Offline” (Estreia)
Yannick escreveu aqui quase todos os dramas de uma geração angustiada e online. Algumas músicas vêm em camadas. Esta não: é na lata.
11 – Negro Leo – “Tudo Foi Feito pra Gente Lacrar” (4)
12 – Hellbenders – “Pra Entreter” (5)
13 – Autoramas – “Boneco” (6)
14 – Jup do Bairro – Pelo Amor de Deize (7)
15 – Rincon Sapiência – “Malícia” (8)
16 – Raça – “Domingo” (9)
17 – Ana Frango Elétrico – “Caspa” (10)
18 – CESRV – ” Mix It Up” (11)
19 – Tuyo – “Sem Mentir” (12)
20 – Francisco – “Vitória-Rege” (13)
21 – Nevilton – “Irradiar” (14)
22 – Gustavo Bertoni – “Sit Down, Let’s Talk” (15)
23 – Wado – “Arcos” (16)
24 – Amen Jr. – “Ladeira Abaixo” (17)
25 – Vella – “Delírio Besta” (18)
26 – Karol Conka – “Tempos Insanos” (20)
27 – Jadsa – “Quietacalada” (21)
28 – Hiran – “Gosto de Quero Mais” (22)
29 – Giovanna Moraes – “Sai por Inteira” (23)
30 – ATR e Luedji Luna – “Batom” (26)
31 – JP – “Chorei Dendê” (27)
32 – Rohmanelli – “Do Jeito Que o Mundo Está” (29)
33 – Kunumí MC – “Xondaro Ka’aguy Reguá (Guerreiro da Floresta)” – (31)
34 – Duda Brack – “Contragolpe” (32)
35 – Compositor Fantasma – “Não Sabendo Que Era Impossível” (33)
36 – Don L – “Kelefeeling” (34)
37 – Mahmundi – “Nós De Fronte” (35)
38 – Rico Dalasam – “Mudou Como?” (36)
39 – ÀIYÉ – “Pulmão” (38)
40 – Os Amanticidas – “Paisagem Apagada” (39)
41 – Coruja BC1 – “Baby Girl” (40)
42 – Edgar – “Carro de Boy” (41)
43 – Douglas Germano – “Valhacouto” (42)
44 – Kiko Dinucci – “Veneno” (43)
45 – Jhony MC – F.A.B. (44)
46 – Cícero – “Às Luzes” (45)
47 – Djonga – “Procuro Alguém (46)
48 – Vovô Bebê – “Êxodo” (48)
49 – Troá! – “Bicho” (49)
50 – Febem, Fleezus e CESRV – “Terceiro Mundo” (50)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a cantora carioca Letrux, a primeira a repetir o cartaz desta seção com foto diferente.
*** Este ranking é formulado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix, talvez o maior estudioso da nossa CENA. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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