Em kid vinil:

Tributo doloroso: ouça o último programa de rádio de Kid Vinil

>>

Captura de Tela 2017-05-22 às 10.01.51 PM

* A música brasileira, principalmente a de viés independente, perdeu na última sexta-feira o grande Kid Vinil, jornalista, radialista, executivo de gravadora, cantor de sucesso, DJ, um monte de outras coisas, tudo ligado, em sua maioria, ao som que a gente gosta. Gosta porque aprendeu a gostar muito por causa de Kid Vinil, que desde os anos 70 atuava na música e acabou virando uma espécie de mensageiro/professor do punk, pós-punk, música alternativa, indie britânico e todas as ondas boas que se seguiram.

Kid Vinil, ou Antonio Carlos Senefonte, morreu aos 62 anos, de parada cardíaca, depois de ficar um mês em coma após passar mal durante um show no interior de Minas Gerais. Três dias antes dessa apresentação, Kid gravou seu último programa de rádio, na 89FM de São Paulo, onde mantinha um horário de bons sons às quinta-feiras.

No derradeiro “Programa do Kid Vinil”, em 13 de abril, Kid fez uma de suas várias edições em homenagem aos 40 anos do punk, gênero que ajudou a “trazer” para o Brasil. Recebeu como convidado Walter Thiago, especialista em punk e dono da loja de discos London Calling, do Centro de São Paulo, nome inspirado em disco da banda Clash.

Aliás, o Clash, que o Kid Vinil mostrou para muuuuuuita gente naqueles difíceis final dos anos 70 e começo dos 80, quando o Brasil era um país de canto do mundo e informação aqui demorava anos para chegar, foi a última banda que ele tocou num programa de rádio. É muito simbólico.

Ouça o último dos programas do Kid Vinil neste planeta. Punk e Clash, uma bela despedida para ele.

A chamada em vídeo do Kid Vinil para seu último programa na 89FM, com o Walter Thiago como convidado:

>>

Morre um dos caras mais importantes para a new music, de onde viemos e para onde vamos. RIP, Kid Vinil!

>>

* Cacete, esta doeu. Morreu hoje o apresentador, roqueiro, conhecedor, professor, empresário, colecionador e muito gente-fina Kid Vinil, um dos caras mais atuantes no Brasil para esse tipo de música que nos alimenta, pela qual sites como este militam. Kid estava em coma induzido há quase um mês, depois de tretas de saúde ligadas a diabetes que o derrubaram em cima de um palco, quando fazia show no interior de Minas Gerais. Kid nunca mais voltou dessa. E não voltará mais.

Não sei nem direito o que dizer, neste momento, mas o Kid Vinil em um programa que tinha na Antena 1, nos anos 80, me mostrou Smiths pela primeira vez. Minha vida e minha carreira foi moldada, acho, depois desse fato. Disse isso para ele por volta de 1 milhão de vezes, acho. Ele ria.

Ouso dizer que a Popload, pelo menos uma parte dela, deve sua existência a Kid Vinil. Seja por seu papel como jornalista e empresário de música. Seus textos na Folha e Estadão, quando não tinham muitos textos sobre o que a gente gosta em jornais grandes. Ele na MTV comandando Lado B. Dirigindo gravadora, sendo gerente artístico na importante fase da Trama Musical. Comandando o velho “Fábrica do Som”, na Cultura. Ou o “Som Pop” na mesma casa. Sempre carregando a bandeira da música independente.

Kid, na real, foi o primeiro indie do Brasil. Indie-mesmo. Indie punk, indie pós-punk, indie new music sempre. Indie mesmo com uma banda fanfarrona como o Magazine, que lhe deu verdadeira fama nacional no meio da era do pop rock anos 80 que dominou o Brasil. A começar pelo nome de sua banda, inspirada na assombrosa banda do punk e principalmente pós-punk inglês, de Manchester.

Colecionador de discos, um dos meus últimos contatos pessoais frente a frente com Kid foi porque ele me fez uma encomenda de viagem que me irritou até bastante. Trazer um monte de vinil para ele da gravadora do Jack White, a Third Man Records, em uma ida minha ao South by Southwest, no Texas. Maior peso, pô.

Ah, sei lá. Muito chato pessoas como o Kid Vinil, que além de tudo era um dos caras mais doces para se conhecer, irem embora. Numa época de tanto anti-heróis deste país bizarro e zuado, vai-se o Herói do Brasil.

RIP, Kid!

kid-vinil-e-cantor-compositor-radialista-apresentador-jornalista-colecionador-de-discos-e-versatil-como-sao-paulo-1453568547235_1920x1280

>>

Ajuda ao Herói do Brasil: o Kid Vinil precisa de você! (campanha encerrada)

>>

180417_kidvinil2


***

UPDATE – Kid Vinil já está em São Paulo e a campanha de arrecadamento, bem-sucedida, está encerrada! Agora é torcer pela recuperação total do Kid.

***

O indie nacional ficou em estado de choque no último final de semana quando explodiu na internet a notícia de que o incrível Kid Vinil passou por um problema de saúde após uma apresentação na cidade de Conselheiro Lafaiete, no interior de Minas Gerais.

Desde o incidente, Kid ficou em coma induzido no Hospital e Maternidade São José, na cidade mineira. Resultados de exames são aguardados para saber o que aconteceu, de acordo com pessoas próximas ao artista.

As últimas notícias, atualizadas na manhã de hoje, são de que Kid foi transferido em um avião com UTI móvel para a cidade de São Paulo, onde ele será internado no Hospital da Luz, na Vila Mariana, nesta tarde, para prosseguir com o tratamento.

A família de Kid iniciou uma campanha para arrecadar R$ 15 mil, que seriam os custos do traslado. Embora o valor não tenha sido atingido, a campanha continua aberta para doações (dados no fim do post).

Kid Vinil tem 62 anos e iniciou a carreira de músico no grupo Verminose, que mais tarde mudaria o nome para Magazine, de grande sucesso nos anos 80. Fora sua história no palco, Kid é um dos principais propagadores da música independente no Brasil, desde os Smiths. Radialista cultuado, ele tem em seu currículo reportagens históricas para veículos como Folha de São Paulo e Estadão, além de ter sido apresentador do Lado B da MTV, diretor de gravadora independente (Trama) e tudo mais.

A Popload deixa aqui suas vibrações positivas ao amigo Kid Vinil e toda sua família. E que o herói do Brasil saia dessa ainda mais forte.

As doações para a ajuda no tratamento podem ser realizadas através de depósito na conta da sobrinha de Kid, Raquel Senefonte Carreteio.

Banco Bradesco
Agência: 1742-6
C/c: 0035453-8
CPF: 316.814.478-94

>>

Brasil acorda para o Record Store Day. Superfeira de discos do MIS terá 70 expositores, algumas bandas e um Kid Vinil

>>

* Coisa muito séria nos EUA e Inglaterra, o Record Store Day agora em abril agita o mercado da música, em especial o de discos e mais especial ainda o de loja de discos, com grandes e pequenos artistas se envolvendo de forma efetiva, seja U2, seja Parquet Courts. São preparados para a data lançamentos especiais em edições limitadas, relançamentos de discos famosos em versões de luxo, programação de shows pequenos dentro das lojas e tudo mais.

O Record Store Day nasceu como um movimento das lojas de discos independentes americanas em 2007 e sempre ocorre no terceiro sábado do mês de abril. A ideia surgiu em um encontro de donos de record stores em Baltimore, para discutir sua sobrevivência em tempos de música virtual, em que até superlojas tipo Virgin, Tower Records e HMV foram à falência como tais. Hoje, o Record Store Day lá é uma organização com sede, diretoria e CNPJ.

Screen Shot 2015-04-08 at 15.29.45

O Brasil, com a sobrevivência de pequenas lojas indies de São Paulo e o surgimento de algumas novas na esteira da importante revitalização do vinil e dos estabelecimentos enquanto ponto de encontro com bar e palco para shows, tenta há algum tempo pular na barca do Record Store Day, com iniciativas ainda que tímidas durante estes últimos anos. Mas agora a coisa parece que pode decolar. O Museu da Imagem e do Som, o MIS, na avenida Europa, resolveu abraçar a causa que até então acontecia modesta no underground.

Então, no dia 18, sábado da outra semana, em parceria com Locomotiva Discos (loja agitadora de Marcio Custódio, no Centro de SP), o MIS em sua área externa com entrada para o auditório e o foyer organiza um feirão de discos para comemorar a data, com entrada gratuita. Serão cerca de 70 expositores para fazer acontecer venda, troca e compra de CDs novos e usados, raros, importados e nacionais.

Screen Shot 2015-04-08 at 16.29.53

O padrinho do evento não podia ser mais bem escolhido. Ou pelo menos ter o melhor nome para a ocasião. O expert em discos, produtor, jornalista, empresário, colecionador, músico e outras tantas alcunhas sonoras Kid Vinil vai ser o “mestre-de-cerimônias” deste Record Store Day brasileiro. Kid aproveitará o evento para autografar sua biografia, “Kid Vinil – O Herói do Brasil”, que está sendo lançada. Ele autografará ainda o compacto em vinil de “Beatriz”, canção de sua atual banda, o Kid Vinil Xperience.

O feirão de discos do RSD brasileiro acontecerá das 12h às 20h e terá pocket-shows de bandas e artistas grupos independentes, a serem anunciados. O conhecido Romulo Fróes é um deles.

O evento tem um… evento criado no Facebook, aqui.

* RECORD STORE DAY BRASILEIRO – É óbvio que temos um chão a percorrer para termos um RSD no mesmo nível, mas esse feirão dentro de uma instituição como o MIS é bem importante para o mercado independente de discos daqui.
Coisas legais e/ou diferentes estarão disponíveis no Record Store Day no MIS, como:
– algumas cópias do álbum “Molhado de Suor”, disco de 1974 de Alceu Valença (raro, original da época, primeira prensagem, R$ 390,00)
– “Tropicália: ou Panis et Circencis”, primeira edição, 1968, original de época, em mono, autografado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, R$ 700,00)
– Mutantes/Mutantes, primeira edição desse álbum, em mono, R$ 650,00).
Serão lançados neste dia, na feira, discos como:
– o álbum duplo “Girls in Peacetime Want to Dance”, do Belle & Sebastian
– “Tudo Esclarecido”, da cantora Zélia Duncan
– “Vitória”, recém-lançado álbum do Dead Fish depois de um hiato de cinco anos
– “Convoque Seu Buda”, do Criolo

>>

Especial Popload "1994": Kid Vinil conta o que aconteceu há 20 anos

>>

* Kid Vinil, um dos maiores estudiosos e entendedores dos caminhos sonoros deste país, mostra sua visão do que foi 1994 para a música jovem. Kid é testemunha ocular do que aconteceu naqueles primeiros anos dos 90. Fora que, em música, foi empresário, teve banda, produziu, foi apresentador de TV, radialista, é DJ, coleciona vinil, trabalhou em gravadora, escreveu para jornais e revistas. Ele sabe bem do que está falando. E é assim que viu 1994:

especialpopload94_2

“Em 1994 eu era DJ de uma rádio em São Paulo chamada 97FM e tinha um programa noturno que tocava as novidades da época. Este ano representou muito para o rock, inclusive por ser o da morte da figura icônica de Kurt Cobain. A geração grunge havia aberto olhos e ouvidos dos responsáveis pelas grandes gravadoras com o estouro do Nirvana e Pearl Jam e tudo ainda estava muito quente em 1994, que viu surgir também com razoável sucesso uma sequência de subprodutos do grunge e bandinhas pré-fabricadas como Stone Temple Pilots e “Nirvana wannabees” como os australianos do Silverchair, que viria a estourar no ano seguinte, assim como os genéricos britânicos Bush, que atormentaram nossas orelhas neste ano com seu disco de estreia.

“Um grupo que me chamou atenção logo no primeiro videoclipe, por incrível que pareça, foi o neopunk do Green Day. Contrário aos genéricos do grunge, eu sentia no Green Day uma pegada punk 77 mais autêntica e menos forçada. “Dookie” é um grande álbum de estreia. Eu não era tão chegado a Offspring e Blink 182.

“As grandes gravadoras estavam desesperadas por um novo movimento de rock que agitasse como foi o grunge. O modelo independente de gravadoras e selos, como o Sub Pop de Seattle no final dos 80 e inicio dos 90, animaram as grandes corporações musicais a sair à luta em busca de novos artistas na cena mais alternativa. A Warner, por exemplo, além do Green Day, descobriu o Weezer e emplacou de cara seu disco de estreia.

“Ainda assim selos independentes como a Matador seguiam “incomodando” as grandes gravadoras com bandas como Pavement, Guided By Voices, Pizzicato Five e Yo La Tengo. O que antes era desprezado pelas majors naquele momento parecia ser a salvação da lavoura.

“Beck foi outro exemplo de artista que saiu da cena alternativa e estourou numa grande gravadora. O indie rock começava a impor respeito, principalmente no mercado americano. O Sonic Youth não era mais visto como outsider e passou a gravar numa major como a Geffen Records.

“O rap e o hip hop deixavam de ser apenas um estilo popular de música negra para se impor como uma das mais fortes culturas de todos os tempos, graças a Beastie Boys e Public Enemy, que pavimentaram o percurso de rappers como Nas, Wu Tang Clan e Notorious B.I.G.

“A cena britânica sempre me entusiasmou e o britpop foi minha grande aposta nos programas de rádio. Lembro quando o “New Musical Express” colocou o Oasis pela primeira vez na capa como banda revelação. Eu mostrei para o diretor da rádio e disse: “Esses caras vão estourar”. Dito e feito!

“Indiferentes à cena americana, os ingleses em 94 exploravam uma tendência muito mais pop influenciada pelo punk e pelos grupos dos anos 60 (Kinks, Who, Beatles). O Britpop foi uma resposta dos ingleses ao grunge, tanto que Oasis e Blur só aconteceram na Améria de 1995 para frente.

“Um turbilhão de ideias pipocavam nas mentes brilhantes da geração indie britânica. 1994 marcou o surgimento de estilos como trip hop, assim como tendencias eletrônicas mais apuradas como Orbital e Future Sound of London.

“Eu diria que 1994 foi um ano sui generis para o rock e tremendamente influente para os dias de hoje. Para uma geração que tanto se espelha nos anos 90, vale a pena voltar atrás e descobrir os grandes álbuns lançados naquele ano.”

>>