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Top 50 da CENA – O ser e existir do impressionante Mbé vencem a prova do líder. Mas o ser e existir da também impressionante Giovanna Moraes vêm perto, em segundo. E Rico Dalasam, o dominador, ainda manda nas “dez mais”

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* Semaninha de poucos mas bem bons lançamentos. Ou de descobertas recentes. Ou de melhores entendimentos. Ou de solavancos necessários em audições vacilantes. A CENA brasileira está um organismo vivo incontrolável e imparável. Que bom!!! Leia os textinhos (e “ões”), bota a playlist para rodar e seja esticado e puxado para todos os lados pela transformadora música independente brasileira atual.

giotopquadrada

1 – Mbé – “Aos Meus” (Estreia)
Não repara na nossa emoção, é que a gente ficou chapado ao entrar em contato com o trabalho de Luan Correia, o produtor, pesquisador e engenheiro de som carioca, da Rocinha, que funciona aqui como Mbé, palavra que em yorubá significa “ser” e “existir”. Seu experimentalismo é muito bem explicado por ele próprio, anota essa ideia: “O experimentalismo surge da necessidade de significações para a vida negra, mas deixando de lado o sentimento da marginalização e subalternidade social. Desde que os nossos primeiros ancestrais chegaram aqui, grandes líderes e intelectuais negras e negros guerreiam para criar um novo olhar para as nossas experiências e a nossa amefricanidade. Ou seja, o experimentalismo aqui é por uma vida, muito além das limitações da música experimental”. Pegou a ideia? Entre recortes, samples, Mbé busca esses novos horizontes. Na faixa de abertura, repare no quanto é dito em tão pouco espaço. Os recortes, as falas repetidas que são silenciadas, seguidas de uma fala de Antônio Abujamra que dão devido contexto. Tudo está dito e em apenas 46 segundos. Que convite ao álbum. Vem nessa.

2 – Giovanna Moraes – “Tudo Bem?” (Estreia)
Um amigo gringo nosso, ao ouvir “III”, o novo disco da cantora e faz-tudo paulistana Giovanna Moraes, comentou que este som específico, “Tudo Bem?”, o lembrava uma pegada Portishead, sons meio enigmáticos embalando voz que alterna momentos de controle emocional. A gente primeiro soltou um “whaaaat?”, mas depois foi escutar mais uma vez com essa referência bonita em mente e não é que tem algum sentido? Caramba. Este som é um indie-downtempo que logo derruba a interrogação da pergunta do título. Mas que pode estar mentindo na troca do “?” pelo “!”. Podemos estar enganados, mas à medida que a canção cresce Giovanna vai cantando mais entorpecida, um pouco bêbada. São as coisas fazendo um efeito. Gênia. A missão do segundo disco, que aqui é o terceiro, mas o segundo em português, foi concluída com méritos.

3 – Rico Dalasam – “Estrangeiro” (Estreia)
Não precisamos repetir o textão de semana passada, que você ainda pode ler no 4° lugar aí embaixo, mas o disco do Rico Dalasam segue mexendo com a gente. A predileta da vez é a radiofônica “Estrangeiro”, uma das favoritas dos fãs e um dos hits do disco.

4 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (1)
Dez anos atrás, artistas do universo LGBTQI+ sofriam muito mais com a invisibilidade do que ainda sofrem hoje. Rico Dalasam com certeza viu de perto parte da atitude de mudança no mercado. Nas TVs e festivais, de repente, todo o jogo estava mais receptivo a artistas antes ignorados. Talvez esse movimento tenha moldado positivamente muitas cabeças, derrubado muitos de nossos preconceitos, mas qual a efetividade dele no todo? Quantas empresas abraçaram essas mudanças de imagem sem abraçarem políticas efetivas de combate a nossa estrutura que marginaliza a população LGBTQI+, por exemplo? Por que passamos a comprar melhor, mas não passamos a votar melhor, para ficar em um só exemplo? Se no público a sensação desse processo já é nauseante – dada a óbvia falta de resultados práticos a partir de um mero “consumismo consciente” -, nos artistas LGBTQI+ a pancada é ainda maior: como pensar em arte nessa lógica que parece muito afeita a vender suas ideias, mas ao mesmo tempo pouco interessada nas consequências delas na transformação da sociedade e na defesa real de seus corpos? Ser artista ou um carreirista? Na briga com essa lógica, Rico, por exemplo, comprou tretas que com certeza não deixaram sua trajetória mais suave. Em 2019, escreveu com preocupação um texto na revista “Carta Capital” sobre algumas de suas aflições quanto a isso: “Nunca esteve tão próxima, e por que não dizer homogênea, a produção cultural que emancipa o povo da produção cultural comprometida em deter o povo”. Seu segundo álbum, esse “Dolores Dala Guardião do Alívio”, o primeiro em quase cinco anos, é um tanto sobre as consequências de passar por esse moedor de almas. Dá para sair mais forte na outra ponta da máquina? Em “Expresso Sudamericah”, por exemplo, Rico versa sobre ter quebrado “a régua que mede” seu talento, que soa como um recado a uma tentativa de moldá-lo em algo mais palatável para o grande consumo, e comenta sobre como seus sonhos gigantes vão muito além de ter hit. “Tô desenhando um coração/ Onde todo dia apagam um monte”, ele escreve antes de se jogar no belo refrão onde localiza sua luta não só no Brasil mas neste “Expresso Sudamericah”, o continente que muitas vezes esquecemos que é o nosso também. E, em um exercício de quebra da quarta parede, ainda no refrão, ele parece olhar para o ouvinte e dizer: “Alô, parceiro passageiro”. Estamos juntos, Rico.

5 – Jadsa – “Lian” (2)
Um dos discos mais importante da CENA brasileira neste ano, que foi tomando forma do colosso que é a partir de seus três singles sequenciais lançados, sai na próxima sexta-feira. Este é o terceiro deles. E, dele também, desse disco “Olho de Vidro”, a cantora e guitarrista baiana Jadsa emplaca sua terceira música no nosso Top 50. A incrível “Lian” tem a participação E É SOBRE Luiza Lian, cantora de SP, de um jeito que Jadsa dá uma espécie de continuação em seu projeto de fazer música boa e ao mesmo tempo referencial à música independente brasileira que, já tínhamos observado em “Raio de Sol”, que agora está na 11ª posição deste ranking.

6 – Djonga – “Eu” (3)
Após ter feito um show durante a pandemia, Djonga teve que lidar com uma campanha de cancelamento brutal. Se por um lado dá para entender bem a decepção dos fãs, de outro é evidente que o revide que ele recebeu por seu erro é desproporcional em relação a sua luta. A perseguição intensa sofrida por Djonga parece casar mais com uma cobrança desnivelada causada em parte por nosso racismo estrutural, que obriga que a população negra precise ser dez, mil vezes melhor. Seu novo álbum, “Nu”, não versa só sobre esse assunto, mas é um tópico que parece estar pelas músicas todas e que foi mais bem resolvida em “Eu”, que tem no refrão o verso: “Humano demais pra ser tão bom pra você”. Como se o rapper mineiro quisesse dizer “Quem te fez tão bom assim?”, parafraseando Mano Brown numa certa música chamada “Negro Drama”.

7 – Lupe de Lupe – “Cabo Frio” (4)
Segundo single da banda mineira, tirado do álbum “Trator”, previsto para sair em maio deste ano pela Balaclava, a faixa “Cabo Frio” não é tão polêmica quanto “Goiânia”, mas nem por isso é mais fácil ou simples. É um relato de dores complicadas de se encarar enquanto crescemos, aquela sensação de desconexão com o resto do mundo que todo mundo parece carregar um pouco em diferentes intensidades. Desta vez quem canta e ilustra a capa do single é Renan Benini.

8 – LEALL – “Pedro Bala” (5)
“Escupido a Machado” é o nome do primeiro álbum do rapper carioca LEALL, uma referência a uma fala do Mano Brown sobre sua história de vida, onde os ensinamentos constroem, mas os erros custam caro. “Pedro Bala”, segundo som do disco, é um pouco sobre isso, mas também sobre o cerco que se apresenta na vida dos jovens negros do Brasil. Um cerco material, mas também do imaginário – aspecto perverso do racismo estrutural brasileiro que consegue culpar suas vítimas na ida e na volta. Embora a referência do título seja do personagem criado por Jorge Amado em “Capitães de Areia”, a gente relembrou aqui do “Pedro Pedreiro” de Chico Buarque, outro personagem da música brasileira que sofre com as questões do imaginário.

9 – Barro e Luísa e os Alquimistas – “De Novo” (Estreia)
Um som otimista. A gente precisa deles de vez em quando, né? Ainda que o papo da música seja de um casal, a canção acaba sendo sobre nosso desejo de retorno, não de um relacionamento, mas de rua, de festa, de um pouco de alegria em condições que a pandemia tirou da gente.

10 – Felipe Ret – “F* F* M*” (Estreia)
Quer saber mais deste título? Vale escutar a música toda, não cabe aqui. Mas Ret tem esse mérito de reunir recado e diversão ao mesmo tempo. Até porque o direito de uma vida melhor incluí aproveitar ela do jeito que você bem entende, não? Exaltar isso é uma forma de lutar.

11 – Jadsa – “Raio de Sol” (6)
12 – BNegão – “Salve 2 (Ribuliço Riddim)” (7)
13 – Vanessa Krongold – “Dois e Dois” (8)
14 – Ale Sater – “Peu” (9)
15 – Jupiter Apple – “AJ1” (10)
16 – Apeles – “Eu Tenho Medo do Silêncio” (11)
17 – Lupe de Lupe – “Goiânia” (12)
18 – Rohmanelli – “Viúvo” (13)
19 – Boogarins -“Far and Safe” (14)
20 – Rincon Sapiência – “Som do Palmeiras” (15)
21 – Monna Brutal – “Neurose” (16)
22 – Luna França – “Terapia” (17)
23 – Yannick Hara – “Antidepressivos” (18)
24 – Ale Sater – “Nós” (19)
25 – Jadsa – “A Ginga do Nêgo” (20)
26 – Sessa – “Grandeza” (21)
27 – Artur Ribeiro – “Fragmentação” (22)
28 – A Espetacular Charanga do França – “Cadê Rennan?” (23)
29 – Garotas Suecas – “Tudo Bem” (24)
30 – Winter – “Violet Blue” (25)
31 – Pluma – “Mais do Que Eu Sei Falar” (26)
32 – Tagore – “Tatu” (27)
33 – Kill Moves – “Perfect Pitch” (28)
34 – DJ Grace Kelly – “PPK” (29)
35 – Jamés Ventura – “Ser Humano” (30)
36 – Jovem Dionísio – “Copacabana” (31)
37 – Píncaro – “Leito de Migalhas” (32)
38 – Atalhos – “A Tentação do Fracasso” (33)
39 – Edgar – “Prêmio Nobel” (34)
40 – Jup do Bairro – “O Corre” e “O Corre” (Bixurdia Remix) (35)
41 – BK – “Mudando o Jogo” (36)
42 – Antônio Neves e Ana Frango Elétrico – “Luz Negra” (37)
43 – BaianaSystem e BNegão – “Reza Forte” (38)
44 – Compositor Fantasma – “Pedestres Violentas” (39)
45 – Zé Manoel – “Saudade da Saudade” (40)
46 – Gustavo Bertoni e Apeles – “Ricochet” (41)
47 – Jair Naves – “Todo Meu Empenho” (42)
48 – Kamau – “Nada… De novo” (43)
49 – Letrux – “Dorme Com Essa (Delirei)” (44)
50 – MC Fioti – “Bum Bum Tam Tam” (45)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a cantora paulistana Giovanna Moraes.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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Top 50 da CENA – No ranking do textão, Rico Dalasam vai expresso ao primeiro lugar. Djonga traz o disco novo e o questionamento. Jadsa não para com as músicas incríveis. E muito mais

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* Vamos sem enrolação ao Top 50 da CENA desta semana, porque, olha, escrevemos bastante desta vez. Nos empolgamos. Ao mesmo tempo que estamos muito sensíveis a tudo que nos acontece à volta. Tem textão para o primeiro lugar, além de outros bem maiores que os nossos tradicionais “recados” nas outras posições. É que os lançamentos da semana pediram. Várias músicas tocando em assuntos delicados em um passo de amadurecimento importante de muitos dos nossos artistas da CENA.

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1 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (Estreia)
Dez anos atrás, artistas do universo LGBTQI+ sofriam muito mais com a invisibilidade do que ainda sofrem hoje. Rico Dalasam com certeza viu de perto parte da atitude de mudança no mercado. Nas TVs e festivais, de repente, todo o jogo estava mais receptivo a artistas antes ignorados. Talvez esse movimento tenha moldado positivamente muitas cabeças, derrubado muitos de nossos preconceitos, mas qual a efetividade dele no todo? Quantas empresas abraçaram essas mudanças de imagem sem abraçarem políticas efetivas de combate a nossa estrutura que marginaliza a população LGBTQI+, por exemplo? Por que passamos a comprar melhor, mas não passamos a votar melhor, para ficar em um só exemplo? Se no público a sensação desse processo já é nauseante – dada a óbvia falta de resultados práticos a partir de um mero “consumismo consciente” -, nos artistas LGBTQI+ a pancada é ainda maior: como pensar em arte nessa lógica que parece muito afeita a vender suas ideias, mas ao mesmo tempo pouco interessada nas consequências delas na transformação da sociedade e na defesa real de seus corpos? Ser artista ou um carreirista? Na briga com essa lógica, Rico, por exemplo, comprou tretas que com certeza não deixaram sua trajetória mais suave. Em 2019, escreveu com preocupação um texto na revista “Carta Capital” sobre algumas de suas aflições quanto a isso: “Nunca esteve tão próxima, e por que não dizer homogênea, a produção cultural que emancipa o povo da produção cultural comprometida em deter o povo”. Seu segundo álbum, esse “Dolores Dala Guardião do Alívio”, o primeiro em quase cinco anos, é um tanto sobre as consequências de passar por esse moedor de almas. Dá para sair mais forte na outra ponta da máquina? Em “Expresso Sudamericah”, por exemplo, Rico versa sobre ter quebrado “a régua que mede” seu talento, que soa como um recado a uma tentativa de moldá-lo em algo mais palatável para o grande consumo, e comenta sobre como seus sonhos gigantes vão muito além de ter hit. “Tô desenhando um coração/ Onde todo dia apagam um monte”, ele escreve antes de se jogar no belo refrão onde localiza sua luta não só no Brasil mas neste “Expresso Sudamericah”, o continente que muitas vezes esquecemos que é o nosso também. E, em um exercício de quebra da quarta parede, ainda no refrão, ele parece olhar para o ouvinte e dizer: “Alô, parceiro passageiro”. Estamos juntos, Rico.

2 – Jadsa – “Lian” (Estreia)
Parece que o disco mais importante da CENA brasileira no ano, aparentemente, está se formando aos poucos na nossa cara, para nossos ouvidos. Até o dia 26, quando “Olho de Vidro” finalmente sai. Dele, a cantora e guitarrista baiana Jadsa emplaca sua terceira música no nosso Top 50. “Lian”, o incrível novo single, tem a participação E É SOBRE Luiza Lian, cantora de SP, de um jeito que Jadsa dá uma espécie de continuação em seu projeto de fazer música boa e ao mesmo tempo referencial à música independente brasileira que já tínhamos observado em “Raio de Sol”, na sexta posição deste ranking.

3 – Djonga – “Eu” (Estreia)
Após ter feito um show durante a pandemia, Djonga teve que lidar com uma campanha de cancelamento brutal. Se por um lado dá para entender bem a decepção dos fãs, de outro é evidente que o revide que ele recebeu por seu erro é desproporcional em relação a sua luta. A perseguição intensa sofrida por Djonga parece casar mais com uma cobrança desnivelada causada em parte por nosso racismo estrutural, que obriga que a população negra precise ser dez, mil vezes melhor. Seu novo álbum, “Nu”, não versa só sobre esse assunto, mas é um tópico que parece estar pelas músicas todas e que foi mais bem resolvida em “Eu”, que tem no refrão o verso: “Humano demais pra ser tão bom pra você”. Como se o rapper mineiro quisesse dizer “Quem te fez tão bom assim?”, parafraseando Mano Brown numa certa música chamada “Negro Drama”.

4 – Lupe de Lupe – “Cabo Frio” (Estreia)
Segundo single da banda mineira, tirado do álbum “Trator”, previsto para sair em maio deste ano pela Balaclava, a faixa “Cabo Frio” não é tão polêmica quanto “Goiânia”, mas nem por isso é mais fácil ou simples. É um relato de dores complicadas de se encarar enquanto crescemos, aquela sensação de desconexão com o resto do mundo que todo mundo parece carregar um pouco em diferentes intensidades. Desta vez quem canta e ilustra a capa do single é Renan Benini.

5 – LEALL – “Pedro Bala” (1)
“Escupido a Machado” é o nome do primeiro álbum do rapper carioca LEALL, uma referência a uma fala do Mano Brown sobre sua história de vida, onde os ensinamentos constroem, mas os erros custam caro. “Pedro Bala”, segundo som do disco, é um pouco sobre isso, mas também sobre o cerco que se apresenta na vida dos jovens negros do Brasil. Um cerco material, mas também do imaginário – aspecto perverso do racismo estrutural brasileiro que consegue culpar suas vítimas na ida e na volta. Embora a referência do título seja do personagem criado por Jorge Amado em “Capitães de Areia”, a gente relembrou aqui do “Pedro Pedreiro” de Chico Buarque, outro personagem da música brasileira que sofre com as questões do imaginário.

6 – Jadsa – “Raio de Sol” (2)
O congraçamento da CENA brasileira em seu momento fértil dos últimos anos se dá à perfeição em “Raio de Sol”, o novo single da guitarrista baiana Jadsa com participações de Ana Frango Elétrico e Kiko Dinucci. Segunda música a ser apresentada de “Olho de Vidro”, o álbum a ser lançado, “Raio de Sol” é tão boa quanto o single anterior, a “A Ginga do Nego”, que você encontra mais abaixo, na sexta posição. E mais cheia de significados. A canção une a musicalidade da Bahia (Jadsa), Rio (Frango) e São Paulo (Kiko). Tem o samba, a MPB de vanguarda, o rock, psicodelia, “lá-lá-lás”, pausa, mudança de andamento. Vem disco do ano – sim, a gente trabalha nesse pique. Sai dia 26.

7 – BNegão – “Salve 2 (Ribuliço Riddim)” (Estreia)
Vem por aí o primeiro disco solo, solo mesmo, do BNegão. Aliás, discos solos. O primeiro deles, que chega no final do primeiro semestre, será um álbum que revisita músicas suas e de outras bandas, como Moleque de Rua, Guará e Ratos de Porão. No final do ano, vem um de inéditas. Marcando o inicio desta nova fase do rapper, sem o apoio dos Seletores de Frequência, ele lançou hoje o single “Salve 2 (Ribuliço Riddim)”, que registra seu mantra mais recente de abertura de shows e lives em um som – e que talvez você reconheça de outro lugar, no caso, “Salve”, que está no disco “O Futuro Não Demora”, do BaianaSystem.

8 – Vanessa Krongold – “Dois e Dois” (Estreia)
Além da bela música do álbum solo da Vanessa, que por quase 20 anos frequentou bandas indies paulistanas como Maybees e Ludov, vale ver o vídeo dela sobre empoderamento do desejo feminino. E que traz cenas de shibari em um olhar contemporâneo para a arte milenar japonesa sobre dominação e submissão em uma possível metáfora mais ampla sobre como lidamos com nossos relacionamentos. Como aqui o lance é mais música que vídeo, recomendamos bem também o som, puro e simples.

9 – Ale Sater – “Peu” (Estreia)
Parte do EP solo que Ale prepara para o dia 19 de março, “Peu” é uma balada levada por um violão delicado que cita oceanos e ilhas. Na música, ele recomenda a esse alguém chamado Peu, mais novo, que o certo a fazer, entre outras coisas, é “compreender a marcha e seguir o jogo”. Peu talvez seja um filho fictício recebendo conselhos de um tutor. Ou será uma conversa consigo mesmo?

10 – Jupiter Apple – “AJ1” (Estreia)
Gravado em 1999, “The Apartament Jazz” é um disco instrumental perdido de Flávio Basso, aka Júpiter Maçã, aka Júpiter Apple. Parte do material se tornou a trilha sonora de um pequeno filme de Júpiter que leva o mesmo nome. Aqui, nesta “AJ1”, ele demonstra sua competência e domínio completo de conceitos do jazz, música eletrônica e sua especialidade, a psicodelia.

11 – Apeles – “Eu Tenho Medo do Silêncio” (3)
12 – Lupe de Lupe – “Goiânia” (4)
13 – Rohmanelli – “Viúvo” (5)
14 – Boogarins -“Far and Safe” (6)
15 – Rincon Sapiência – “Som do Palmeiras” (7)
16 – Monna Brutal – “Neurose” (8)
17 – Luna França – “Terapia” (9)
18 – Yannick Hara – “Antidepressivos” (10)
19 – Ale Sater – “Nós” (11)
20 – Jadsa – “A Ginga do Nêgo” (12)
21 – Sessa – “Grandeza” (13)
22 – Artur Ribeiro – “Fragmentação” (14)
23 – A Espetacular Charanga do França – “Cadê Rennan?” (15)
24 – Garotas Suecas – “Tudo Bem” (16)
25 – Winter – “Violet Blue” (17)
26 – Pluma – “Mais do Que Eu Sei Falar” (18)
27 – Tagore – “Tatu” (19)
28 – Kill Moves – “Perfect Pitch” (20)
29 – DJ Grace Kelly – “PPK” (21)
30 – Jamés Ventura – “Ser Humano” (22)
31 – Jovem Dionísio – “Copacabana” (23)
32 – Píncaro – “Leito de Migalhas” (24)
33 – Atalhos – “A Tentação do Fracasso” (25)
34 – Edgar – “Prêmio Nobel” (26)
35 – Jup do Bairro – “O Corre” e “O Corre” (Bixurdia Remix) (27)
36 – BK – “Mudando o Jogo” (28)
37 – Antônio Neves e Ana Frango Elétrico – “Luz Negra” (29)
38 – BaianaSystem e BNegão – “Reza Forte” (30)
39 – Compositor Fantasma – “Pedestres Violentas” (31)
40 – Zé Manoel – “Saudade da Saudade” (32)
41 – Gustavo Bertoni e Apeles – “Ricochet” (33)
42 – Jair Naves – “Todo Meu Empenho” (34)
43 – Kamau – “Nada… De novo” (35)
44 – Letrux – “Dorme Com Essa (Delirei)” (36)
45 – MC Fioti – “Bum Bum Tam Tam” (37)
46 – Rincon Sapiência – “Tem Que Tá Veno” (Verso Livre) (38)
47 – MC Carol – “Levanta Mina” (39)
48 – Marabu – “Capítulo 5: Sereno” (40)
49 – Criolo – “Fellini” (41)
50 – Linn da Quebrada – “quem soul eu” (42)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, o rapper Rico Dalasam.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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Top 50 da CENA – Rapper carioca Leall manda a reall. Apeles chega mais. Lupe de Lupe quer encrenca. Rincon Sapiência também, de certo modo. Pah!

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* Numa queda produtiva, semana passada pensamos alto sobre as dificuldades da CENA brasileira em seguir lançando músicas e discos em tempos tão impróprios. Mas também ressaltamos que nossa CENA está das mais fortes e tem sabido caminhar na adversidade. Não deu outra. Semana de boas e poderosas canções. Tem um dos raps mais pesados do ano, tem experimentação sobre a função do artista, tem hip hop marqueteiro e apareceu até uma “diss track” indie. Cada ponto está mais explicado nos textinhos. Vamos a eles e a nossa já tradicional playlist, que dá a real dimensão de tudo.

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1 – LEALL – “Pedro Bala” (Estreia)
“Escupido a Machado” é o nome do primeiro álbum do rapper carioca LEALL, uma referência a uma fala do Mano Brown sobre sua história de vida, onde os ensinamentos constroem, mas os erros custam caro. “Pedro Bala”, segundo som do disco, é um pouco sobre isso, mas também sobre o cerco que se apresenta na vida dos jovens negros do Brasil. Um cerco material, mas também do imaginário – aspecto perverso do racismo estrutural brasileiro que consegue culpar suas vítimas na ida e na volta. Embora a referência do título seja do personagem criado por Jorge Amado em “Capitães de Areia”, a gente relembrou aqui do “Pedro Pedreiro” de Chico Buarque, outro personagem da música brasileira que sofre com as questões do imaginário.

2 – Jadsa – “Raio de Sol” (2)
O congraçamento da CENA brasileira em seu momento fértil dos últimos anos se dá à perfeição em “Raio de Sol”, o novo single da guitarrista baiana Jadsa com participações de Ana Frango Elétrico e Kiko Dinucci. Segunda música a ser apresentada de “Olho de Vidro”, o álbum a ser lançado, “Raio de Sol” é tão boa quanto o single anterior, a “A Ginga do Nego”, que você encontra mais abaixo, na sexta posição. E mais cheia de significados. A canção une a musicalidade da Bahia (Jadsa), Rio (Frango) e São Paulo (Kiko). Tem o samba, a MPB de vanguarda, o rock, psicodelia, “lá-lá-lás”, pausa, mudança de andamento. Vem disco do ano – sim, a gente trabalha nesse pique. Amanhã tem outra música dela a ser lançada. Curioso para saber nosso comportamento diante dela no Top 50 da semana que vem.

3 – Apeles – “Eu Tenho Medo do Silêncio” (Estreia)
Indie alta-cultura da CENA paulistana, o caprichoso Apeles vai se virando para se manter ocupado e criativo em tempos pandêmicos. Este single, que não vai fazer parte de nenhum álbum, nem do próximo EP dele, é resultado de um trabalho de reconstrução constante por arranjos diferentes em busca de experimentações. Vale reparar nos versos que ele colocou para tocarem ao contrário dentro da música: “Uma alusão ao sentimento de que precisamos ressignificar na raiz qual a função, hoje em dia, da arte na sociedade”, diz ele. Trabalho caprichado este – tanto que tentamos desvendar o tal verso e não conseguimos. Que truque será que ele usou?

4 – Lupe de Lupe – “Goiânia” (Estreia)
Evento um tanto quanto raro na CENA indie brasileira, o Lupe de Lupe tem aqui uma “diss track”, prática famosa dentro do hip hop americano principalmente, daquelas faixas de um artista construídas para falar mal de outro, falar mal da cena, falar mal de uma pessoa. No caso uma banda mineira espinafrando, veladamente ou não, uma das cenas independentes mais movimentadas do Brasil, a da capital de Goiás. A letra é pesada e versa dentro da cultura do cancelamento irrestrito ou da questão da “passada de pano”. Seja dando nomes aos bois ou não entregando o que se sabe ou acredita saber. Cita os sertanejos locais e o grande festival Bananada. A música em si é boa. Começa indie tipo Cake, com um fundo repetitivo de guitarra para servir de cama ao discurso da letra “dedo-na-cara”, e perto do fim, em clímax, crescendo, vira um hardcore de tom mais denunciador desta perspectiva MG vs. GO clara/não clara.

5 – Rohmanelli – “Viúvo” (Estreia)
Em denso toque eletrônico, até na voz, Rohmanelli vai fundo em uma questão complexa aqui sobre um relacionamento dos mais complicados: o nosso conosco mesmo. Quais amarras descartar? Como ser fiel a si mesmo? Treta pessoal musicada.

6 – Boogarins -“Far and Safe” (Estreia)
“Far and Safe” é a versão com letra em inglês de “Te Quero Longe”, som do álbum “Sombrou Dúvida” (2019), cantada pela Erika Wennerstrom, mais conhecida no underground americano como dona da banda Heartless Bastards, de Ohio. A readequação da letra é de autoria de John Schmersal (do Brainiac, integrante da última fase do Caribou). Se a gente entendeu certo, a gravação do instrumental é a mesma da versão original, mas comparando as duas parece que a nova está mais calibrada sonoramente. Não sabemos com certeza, mas deu essa impressão. O legal é que as duas são boas, seja em Goiânia, seja em Austin.

7 – Rincon Sapiência – “Som do Palmeiras” (Estreia)
A homenagem que o Rincon Sapiência escreveu para o tetracampeonato do Palmeiras na Copa do Brasil é uma propaganda de marca de roupa esportiva, nem devia estar aqui, mas tem o talento puro do hip hop nacional ali, se você perceber bem. Fora que mexeu bastante com um dos autores deste top 50. Então concordamos que a música merecia uma menção aqui, para além de clubismos. A sampleada do hino é classe, a cadência é boa, a letra empolga qualquer um, se você não ver só cores. Futebol evoca espírito esportivo e o momento é do Palmeiras, que tem o luxo de contar com o talento do Rincon para celebrar a fase. Os muitos músicos de outros times _e os outros times em si_ que lutem.

8 – Monna Brutal – “Neurose” (1)
Pega a vibe da rapper Monna Brutal já na chegada de “Neurose”, faixa do recém-lançado álbum “2.0.2.1.”: “Hoje eu acordei na neurose, quero botar fogo em tudo/ Estapear o presidente, dar um tiro em algum puto/ Derrubar umas estátuas, queimar instituições/ Saquear alguns comércios, dar prejuízo a patrões”. Esse é o clima da música. Partir para cima. Ação. Movimento. E tudo fica ainda melhor quando o som chega a um discurso editado da ex-presidenta Dilma que parece uma convocação à rebeldia – na real, a fala era contra os protestos violentos, mas o trecho recortado que viralizou.

9 – Luna França – “Terapia” (3)
O lindo segundo single da cantora entre muitas-outras-coisas Luna França aterrissa de bico nesta onda forte da música nova, aqui e lá, que é o indie-mental health, do qual temos falado bastante na Popload. Na canção, ela descreve um sentimento feio, em suas palavras, ou seja, faz terapia em tempo real mesmo. “Escrevi essa letra como se estivesse escrevendo um diário e refletindo sobre essa sensação de posse que é real e até bem comum. A gente não quer ver a pessoa triste, mas também não quer ver mais feliz que a gente.” Forte. Como é a canção em si.

10 – Yannick Hara – “Antidepressivos” (4)
Ainda no campo da mental health, Yannick Hara aborda por aqui outro aspecto da questão: o abuso de remédios como uma forma de afastar toda e qualquer dor (inclusive a da alma), uma forma de camuflar alguns problemas. O clima do som pega um tanto de The Cure nos momentos mais sombrios, uma vibe ointentista, céu nublado e um frio lá fora. E um frio mais doído lá dentro.

11 – Ale Sater – “Nós” (5)
12 – Jadsa – “A Ginga do Nêgo” (6)
13 – Sessa – “Grandeza” (7)
14 – Artur Ribeiro – “Fragmentação” (8)
15 – A Espetacular Charanga do França – “Cadê Rennan?” (9)
16 – Garotas Suecas – “Tudo Bem” (10)
17 – Winter – “Violet Blue” (11)
18 – Pluma – “Mais do Que Eu Sei Falar” (12)
19 – Tagore – “Tatu” (13)
20 – Kill Moves – “Perfect Pitch” (14)
21 – DJ Grace Kelly – “PPK” (15)
22 – Jamés Ventura – “Ser Humano” (16)
23 – Jovem Dionísio – “Copacabana” (17)
24 – Píncaro – “Leito de Migalhas” (18)
25 – Atalhos – “A Tentação do Fracasso” (19)
26 – Edgar – “Prêmio Nobel” (20)
27 – Jup do Bairro – “O Corre” e “O Corre” (Bixurdia Remix) (21)
28 – BK – “Mudando o Jogo” (22)
29 – Antônio Neves e Ana Frango Elétrico – “Luz Negra” (23)
30 – BaianaSystem e BNegão – “Reza Forte” (24)
31 – Compositor Fantasma – “Pedestres Violentas” (25)
32 – Zé Manoel – “Saudade da Saudade” (26)
33 – Gustavo Bertoni e Apeles – “Ricochet” (27)
34 – Jair Naves – “Todo Meu Empenho” (28)
35 – Kamau – “Nada… De novo” (29)
36 – Letrux – “Dorme Com Essa (Delirei)” (30)
37 – MC Fioti – “Bum Bum Tam Tam” (31)
38 – Rincon Sapiência – “Tem Que Tá Veno” (Verso Livre) (32)
39 – MC Carol – “Levanta Mina” (33)
40 – Marabu – “Capítulo 5: Sereno” (34)
41 – Criolo – “Fellini” (35)
42 – Linn da Quebrada – “quem soul eu” (36)
43 – Wry – “Absoluta Incerteza” (37)
44 – Rico Dalasam e Jup do Bairro – “Reflex” (38)
45 – YMA – “White Peacock” (39)
46 – Ana Frango Elétrico – “Mulher Homem Bicho” (40)
47 – Luedji Luna – “Chororô” (41)
48 – Black Alien – “Chuck Berry” (42)
49 – Vovô Bebê – “Bolha” (43)
50 – Sabotage e MC Hariel – “Monstro Invisível” (44)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a rapper carioca Leall.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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