Em martinho da vila:

SEMILOAD – Paramore x Olivia Rodrigo. Martinho da Vila x Adele. E a questão do plágio na música

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* Lá vai a Dora Guerra, a dona da nossa newsletter predileta (mas tão predileta que virou nossa parceira), se meter na velha questão, ou no vespeiro, do que é plágio, o que é “homenagem”, “referência” na música. Mas com um olhar “fresh” e um posicionamento bem claro. Dora, a senhorita Semibreve, tendo à luz essas pendengas recorrentes de Olivia Rodrigo copiando ou “copiando” Paramore e nosso sambista Martinho da Vila “inspirando” a megastar pop Adele, acha que…

Bom, vai ler o que ela acha, que é melhor.

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Vou me meter em uma discussão complexa, subjetiva e que requer um conhecimento musical profundo – do qual tenho só a superfície. É, né… Meu tipo preferido de discussão.

Recentemente, dois “processinhos” musicais me chamaram a atenção: o do Paramore com a Olivia Rodrigo, em que os compositores de “Misery Business” conseguiram créditos como compositores de “good 4 u”. E, claro, o famigerado novo processinho de Toninho Geraes sobre Adele, dizendo que houve plágio de “Mulheres” na canção “Million Years Ago”, da inglesa. O curioso é que um caso afetou a minha percepção do outro – até eu perceber que são coisas bem diferentes.

Eu sou parcial: tento rejeitar todo tipo de acusação de plágio na música, a não ser que seja óbvia ou delineada para mim. Primeiro, porque tento acreditar no melhor das pessoas (e na consciência destas, caso o plágio seja intencional). Segundo, em uma nota menos utópica, me assusta a complexidade das discussões de autoria, originalidade e por aí vai. Onde acaba o autêntico e começa o derivativo? Não estamos todos referenciando alguma outra coisa, o tempo todo, em nossas criações?

Esse é o meu incômodo na discussão “Misery Business” x “good 4 u”, por exemplo. E o pedido de créditos na música. Os créditos foram dados como “interpolação” – termo usado para designar uma referência que não é um sample direto, mas uma citação reinterpretada; feito o que Ariana Grande fez em “7 Rings”. Eu já tinha a sensação de que, apesar de as músicas lembrarem uma a outra, não existia de fato uma interpolação. Não há uma citação tão direta, ainda que a inspiração seja explícita (e, quando vi um nerd musical como Adam Neely assinar embaixo, tive mais confiança para afirmar essa percepção). Ao aceitar e ceder os créditos, Olivia Rodrigo e seu produtor Dan Nigro parecem assumir a culpa no cartório, o que me incomodou mais ainda. Culpa de quê?

Convenhamos, a inspiração de Olivia é clara; em nenhum momento ela busca esconder esse tipo de referência ou se colocar sob a fachada de original. O que a gravadora exige como direitos autorais, por interpolação ou cópia, tem mais de homenagem. Não é tanto uma música “clone” da outra – é mais uma música “filha” da outra. Não digo que o Paramore esteja errado, mas me parece até bizarro cobrar créditos de uma adolescente cujo único objetivo pareceu ser exatamente fazer um tributo a quem veio antes.

Por isso, existem duas diferenças primordiais entre o caso de Olivia Rodrigo e o da Adele: a primeira é que, em se tratando do tamanho e público dos artistas, Olivia e Paramore são extremamente comparáveis (muito mais que o segundo exemplo). E a outra é que, em termos de estilo, referências visuais e mais, o brasileiro e a inglesa não têm muito a ver – já Paramore e Olivia Rodrigo, sim.

No caso Adele x Martinho/Toninho, o buraco é muito mais embaixo (e eu admito que, a princípio, eu não levei o processo tão a sério). Sem que Toninho Geraes desenhasse essa referência, poucos de nós havíamos feito a ligação – parece que poucos dos ouvintes mundiais de “Million Years Ago” (Adele) ouvem “Mulheres” (Martinho da Vila) com frequência (eu mesma prefiro “Chasing Pavements” e “Disritmia”, respectivamente). Apesar do seu brilhantismo, Martinho não tem uma proporção sequer equiparável à de Adele; não tem a mesma fortuna, o mesmo sucesso internacional/contemporâneo, os mesmos prêmios. Então, a discussão deixa de ser exclusivamente sobre autoria e passa a ser, também, sobre visibilidade.

É desleal: enquanto qualquer sample, paródia ou interpolação de faixa gringa famosa em forró não passa despercebida por nós, uma possível inspiração (ou, se bobear, uma cópia) como essa vinha passando em branco, escondendo todos os seus traços. Tudo sob a fachada – muitas vezes dada pela mídia – da compositora originalíssima (ainda que muito derivativa de outras fontes).

Não é curioso que Adele seja bem aquela clássica referência da artista incontestável, na qual muita gente gosta de se apoiar?

Pois é. Não sou eu o juiz a dizer se é plágio, mas considerando que não há conexão de país, gênero musical ou qualquer referência implícita ou explícita, a linha que une Martinho da Vila e Adele é somente musical – daí, a questão mais urgente. Um exemplo: se Adele fizesse uma bossa nova “inspirada nos fundadores desta”, você saberia exatamente de onde ela partiu mesmo que não citasse nomes. Aí, claro, poderia valer um processinho por direitos autorais se a música fosse inspirada demais – mas meio que só significaria que ela foi mais cover que autoral; não que, necessariamente, se apropriou da criação de outro com a intenção de parecer que a criou sozinha.

Resumindo, eu adoro o reaproveitamento que acontece no mundo da música – adoro o uso quase desenfreado de samples e interpolações e inspirações, a ideia de que você sempre pode transformar o novo em algo ainda mais novo, flexioná-lo, reinventá-lo, redecorá-lo. Mas, ao partir de algum lugar, é necessário entender de onde você vem e de onde vem o outro. É preciso tratar referências com uma reverência: com carinho, cuidado e respeito por quem trilhou o caminho direta ou indiretamente até onde você está. Não existe homenagem que apague o homenageado em vez de iluminá-lo; isso vai contra qualquer harmonia no reino musical. E, quando você se apropria da qualidade do trabalho de outra pessoa e some com os traços dela, acho que isso é sim passível de um belo processo judicial.

Precisamos saber diferenciar os dois tipos de referência – a boa da má –, saber honrar o tributo, também, para não deixar que o processo criativo perca com tudo isso.

A regra não é minha – é de Lavoisier. Cabe à gente entender o limite dela.

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* Dora Guerra pratica seu processo criativo também no Twitter, como @goraduerra.

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