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Top 50 da CENA – FEBEM lidera o ranking (de novo), Aquino e a Orquestra Invisível devolve a leveza ao top 3 e o Boogarins não larga de ser lindo. E podia ser Moons, NoPorn e Jair Naves que estaria tudo bem

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* No episódio desta semana do TOP 50 da CENA, a gente ainda mostra uma certa obsessão pelo disco novo do rapper FEBEM e volta a premiá-lo com o topo usando mais uma faixa do seu grande álbum “Jovem OG”. Voltamos também a se espantar com as conexões indies que andam deixando paulistas com cara de carioca e vice-versa. Voltamos novamente a nos derreter pelo Boogarins e seu trabalho de sobras onde sobram tesouros a serem garimpados. Mas, olha só, também desbravamos novos territórios, já que não gostamos de ficar na mesma, não.

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1 – FEBEM – “Crime” (Estreia)
Quantos jovens estariam encarcerados no Brasil se lidássemos com a questão das drogas de uma maneira mais inteligente que o combate violento que extermina parte da nossa juventude, especialmente periférica e negra? Quando FEBEM comenta “Dizem que cometemos crime” ele pensa essa perspectiva ao sentir que sua existência é criminalizada – por isso que ele começa o refrão com os versos “Uns finge, outros vive o crime”. Como responder a uma violência dessas desde o berço? “Na vida algumas coisa é como um Golf GTI/ Não cura minha dor, mas mesmo assim vou adquirir.”

2 – Aquino e a Orquestra Invisível – “Os Prédios Cinzas e Brancos da Av. Maracanã” (Estreia)
Cara, o que acontece no Rio de Janeiro que a CENA local não para de dar bons frutos, hein? E o mais doido é que é tudo um som meio estranho que lembra muito coisas paulistanas. Um Rio mais da cidade do que da praia. Um Rio mais cinza. Mais de falar do que (se) mostrar. Nessas entra o som desse trio tijucano que consegue aliar uma longa narrativa de solidão com um dos refrões mais melancólicos e bonitos do ano.

3 – Boogarins – “Supernova” (4)
No disco de sobras e sonhos do Boogarins, eis uma música que poderia estar fácil em um dos álbuns oficiais dos meninos. Talvez caiba numa lista de melhores deles? É muito? “Supernova” é bonitaça demais, por onde se olhe. Na letra, na dinâmica que vai se alterando sutilmente pelos versos, na voz suave do Dinho. E na mensagem da música: “Se tudo está pronto, que resta eu inventar? O novo é qualquer lugar”.

4 – Moons – “Love Hurts” (Estreia)
Mal lançaram um bom EP, os mineiros do Moons resolveram soltar um single que é dos melhores trabalhos da banda. A gente imagina aqui um Jeff Buckley pirando nesse som superclimático que vai crescendo, ali numa das montanhas próximas a Belo Horizonte, onde nem um café quentinho vai aplacar essa ferida de amor.

5 – NoPorn – “Festa No Meu Quarto” (Estreia)
O mítico electrosexy duo NoPorn adaptado aos novos tempos. Instituição das melhores festas paulistanas, a dupla hoje formada por Liana Padilha e Lucas Freire leva a pista para outro lugar, um mais íntimo, seu quarto, nosso quarto, de quem estiver disposto a aceitar o convite charmoso do duo enquanto pandemias e lockdowns ou meio-lockdowns perdurar. Sabe a onda de cantar falando, Florence Shaw? Dá uma ligada na Liana.

6 – Jair Naves – “Vai” (Estreia)
Na dolorida e talvez de amplos sentidos “Vai”, Jair consegue reunir um som que soa quase “estragado” – tanto que faz a gente checar se o computador não está travando – com talvez o que seja uma de suas canções mais “certinhas”, com a melodia vocal e instrumental se encaixando docemente. Bonito. E a gente fica na dúvida, aqui. Será que ele está mesmo comentando um relacionamento aí?

7 – FEBEM – “México” (1)
Se na música lá de cima FEBEM comenta a dualidade da palavra “crime” no Brasil, “México” tem a esperta sacada em inverter um lugar comum do rap – em linhas gerais, não temos um rapper versando sobre o crime, mas o inverso. Ou quase, já que o final da música adiciona um mistério sobre o narrador e nubla as ideias. Para pegar o filme completo, só escutando o disco todo. O que não é nenhum trabalho, acredite.

8 – Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo – “Delícia/Lúxuria” (2)
Mais algumas conexões da CENA carioca atual com a CENA paulistana de outrora, tudo junto e misturado e fazendo o maior sentido. Mas aqui no sentido contrário da coisa, já que temos uma banda de paulistas, herdeiros do grupo Rumo, soando muito como os novos cariocas que soam como paulistas do grupo Rumo, para completar o interessante rolê geográfico-temporal. Entende?

9 – Carmem Red Light – “Faith No More” (Estreia)
Carmem Red Light, artista trans brasileira radicada na Europa há mais de 20 anos, mexe com muitas coisas em seu neste single. Ela, que nasceu em Cajazeiras, no interior da Paraíba, e hoje é cidadã londrina, assume um lado “Marilyn Manson encontra David Bowie” e ainda mexe com religião e sexualidade. O som é soturno? Sim, mas por que não seria, dadas as circunstâncias todas?

10 – Jadsa – “Olho de Vidro” (3)
Quantas semanas de Jadsa já no Top 10?

11 – Giovanna Moraes – “Boogarins’ Are You Crazy?” (8)
12 – Lupe de Lupe – “Resplendor” (5)
13 – Yannick Hara – “Raça Humana” (6)
14 – Jota Ghetto – “Vagabounce” (7)
15 – Uana – “Mapa Astral” (9)
16 – Mayí – “Sedenta” (10)
17 – BaianaSystem – “Reza Frevo” (11)
18 – Hierofante Púrpura – “Tbm Sou Hipster” (12)
19 – Jadsa – “Sem Edição” (13)
20 – Thiago Elniño – “Dia De Saída” (14)
21 – Luna Vitrolira – “Aquenda” (15)
22 – FBC – “Gameleira” (16)
23 – Rico Dalasam – “Última Vez” (17)
24 – YMA – “White Peacock” (18)
25 – Frank Jorge e Kassin – “Tô Negativado” (19)
26 – Mbé – “Aos Meus” (20)
27 – Giovanna Moraes – “Tudo Bem?” (21)
28 – Rico Dalasam – “Estrangeiro” (22)
29 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (23)
30 – Jadsa – “Lian” (24)
31 – Djonga – “Eu” (25)
32 – Lupe de Lupe – “Cabo Frio” (26)
33 – LEALL – “Pedro Bala” (27)
34 – Barro e Luísa e os Alquimistas – “De Novo” (29)
35 – Filipe Ret – “F* F* M*” (30)
36 – Jadsa – “Raio de Sol” (31)
37 – BNegão – “Salve 2 (Ribuliço Riddim)” (32)
38 – Vanessa Krongold – “Dois e Dois” (33)
39 – Ale Sater – “Peu” (34)
40 – Jupiter Apple – “AJ1” (35)
41 – Apeles – “Eu Tenho Medo do Silêncio” (36)
42 – Lupe de Lupe – “Goiânia” (37)
43 – Rohmanelli – “Viúvo” (38)
44 – Boogarins -“Far and Safe” (39)
45 – Rincon Sapiência – “Som do Palmeiras” (40)
46 – Monna Brutal – “Neurose” (41)
47 – Luna França – “Terapia” (42)
48 – Yannick Hara – “Antidepressivos” (43)
49 – Ale Sater – “Nós” (44)
50 – Jadsa – “A Ginga do Nêgo” (45)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a banda carioca Aquino e a Orquestra Invisível.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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TOP 50 DA CENA – Em ranking total 2021, o domínio é delas: Jadsa, Giovanna Moraes e Sophia Chablau assumem o top e devem ficar ali por algum tempo, parece

1 - cenatopo19

* A gente tem trabalhado muito escavando esta CENA, andamos reparando por aqui. Estamos no final das águas de março ainda (ainda?) e em nossa busca semanal por música nova já encontramos mais de 50 músicas de 2021 que merecem sua atenção. Sim, se a gente não está equivocado, pela primeira vez em 2021 temos um TOP 50 com 100% das músicas feitas neste ano. Quando a gente fala que a CENA brasileira não está de brincadeira, é fato. Não é opinião, não.

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1 – Jadsa – “Sem Edição” (Estreia)
A gente escreveu um tanto sobre o novo álbum da guitarrista baiana Jadsa, “Olho de Vidro”. Por aqui, desta vez, deste disco rico a gente destaca “Sem Edição”, um som que troca ideia com muito do que a gente comenta no texto, especialmente a capacidade de Jadsa de colocar muitas perspectivas na mesma conversa. Por aqui, Gal e Tulipa Ruiz interagem de igual para igual enquanto a música vem em forma de um mantra que cresce e acelera, uma brincadeira em um jazz que orgulharia João Gilberto e Itamar Assumpção, o grande homenageado do álbum.

2 – Giovanna Moraes – “Boogarins’ Are You Crazy?” (Estreia)
Outro disco de camadas, umas claras de primeira ouvida e outras que vêm de encontro a você conforme o tempo de saboreá-lo vai se intensificando, é “III”, lançamento recente da multiartista paulistana Giovanna Moraes. Aqui, uma sagacidade sua foi premiada aqui. Os Boogarins deram a sopa de largar um instrumental em seu álbum de sobras e a Giovanna foi lá e meteu uma letra sua. Agora a música é bem dela.

3 – Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo – “Delícia/Lúxuria” (Estreia)
Potente o encontro da banda indie paulistana com a produção da carioca Ana Frango Elétrico. Nada a ver, mas tuuuudo a ver. É especial o quanto no momento mais pop da música o instrumental fica ainda ainda mais doido. Talvez seja isso que estamos precisando.

4 – FBC – “Gameleira” (Estreia)
O rapper mineiro Fabiano Soares, o FBC, impressiona com sua consciência fora dos padrões sobre o rolê todo. Consciência do hip hop em si, do cotidiano (seu e nosso), da política e da comunicação nas redes. Desse seu novo EP, produzido pelo VHOOR, a gente destaca, entre tantos bons momentos, esse hip hop atabacado de reflexão sobre tradições, tanto na letra quanto no beat.

5 – Rico Dalasam – “Última Vez” (Estreia)
Este é o terceiro som do novo álbum do Rico Dalasam que a gente coloca aqui no top 50. Já abordamos uma das canções mais políticas do disco, a mais radiofônica e agora uma mais sobre relacionamento interracial, onde um lado não assume o outro, em um dos desdobramentos que seguem sendo abordados em outras músicas, como “Brailler” e “Mudou Como?”.

6 – YMA – “White Peacock” (Estreia)
Agora “White Peacock”, lançada como single no final de 2020, não é só aquele som da YMA com um solo de sax fora de série, mas é também um single dela com um dos vídeos mais bem produzidos do ano. Uma história circular meio amalucada e muito bem filmada, produção lindona mesmo. Yma is back. Será?

7 – Frank Jorge e Kassin – “Tô Negativado” (Estreia)
Professor do indie brasileiro, a lenda gaúcha Frank Jorge aparece aqui em companhia do produtor carioca Kassin. Um encontro que deu jogo. “Nunca Fomos Tão Lindos” concentra o balanço pop de Frank entre sua marcada jovem-guarda e sua guinada forte ao tecnobrega com as invencionices sonoras de Kassin.

8 – Mbé – “Aos Meus” (1)
A gente ficou chapado ao entrar em contato com o trabalho de Luan Correia, o produtor, pesquisador e engenheiro de som carioca, da Rocinha, que funciona aqui como Mbé, palavra que em yorubá significa “ser” e “existir”. Seu experimentalismo, como ele diz, surge da necessidade de significações para a vida negra, mas deixando de lado o sentimento da marginalização e subalternidade social. Ou seja, o experimentalismo aqui é por uma vida, muito além das limitações da música experimental. Entre recortes, samples, Mbé busca novos horizontes no experimentalismo. Na faixa de abertura, repare no quanto é dito em tão pouco espaço. Os recortes, as falas repetidas que são silenciadas, seguidas de uma Antônio Abujamra que dão devido contexto. Tudo está dito e em apenas 46 segundos. Que convite ao álbum. Vai nessa.

9 – Giovanna Moraes – “Tudo Bem?” (2)
Olha ela de novo. Um amigo gringo nosso, ao ouvir “III”, o novo disco de Giovanna Moraes, comentou que este som específico, “Tudo Bem?”, o lembrava uma pegada Portishead, sons meio enigmáticos embalando voz que alterna momentos de (des)controle emocional. A gente primeiro soltou um “whaaaat?”, mas depois foi escutar mais uma vez com essa referência bonita em mente e não é que tem algum sentido? Podemos estar enganados, mas à medida que a canção cresce Giovanna vai cantando mais entorpecida, um pouco bêbada, e acaba a música repetindo, já total entregue, as mesmas coisas que disse no começo. Como se ela fosse dormir daí, esgotada, depois de a canção encerrada. Nessas, esse (des)controle de emoções dentro de uma música, típico de Giovanna, não só o ato de estar cantando uma letra, remete a Fiona Apple. Que especial, tudo.

10 – Rico Dalasam – “Estrangeiro” (3)
Olha ele de novo. Este disco do Rico… A gente emplacou um terceiro som dele ali em cima, porque merece. A predileta da semana passada era a radiofônica “Estrangeiro”, uma das favoritas dos fãs e um dos hits do disco. Que se mantém aqui, gloriosa, nas “dez mais”. Mas olha o 11º lugar?

11 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (4)
12 – Jadsa – “Lian” (5)
13 – Djonga – “Eu” (6)
14 – Lupe de Lupe – “Cabo Frio” (7)
15 – LEALL – “Pedro Bala” (8)
16 – Barro e Luísa e os Alquimistas – “De Novo” (9)
17 – Felipe Ret – “F* F* M*” (10)
18 – Jadsa – “Raio de Sol” (11)
19 – BNegão – “Salve 2 (Ribuliço Riddim)” (12)
20 – Vanessa Krongold – “Dois e Dois” (13)
21 – Ale Sater – “Peu” (14)
22 – Jupiter Apple – “AJ1” (15)
23 – Apeles – “Eu Tenho Medo do Silêncio” (16)
24 – Lupe de Lupe – “Goiânia” (17)
25 – Rohmanelli – “Viúvo” (18)
26 – Boogarins -“Far and Safe” (19)
27 – Rincon Sapiência – “Som do Palmeiras” (20)
28 – Monna Brutal – “Neurose” (21)
29 – Luna França – “Terapia” (22)
30 – Yannick Hara – “Antidepressivos” (23)
31 – Ale Sater – “Nós” (24)
32 – Jadsa – “A Ginga do Nêgo” (25)
33 – Sessa – “Grandeza” (26)
34 – Artur Ribeiro – “Fragmentação” (27)
35 – Garotas Suecas – “Tudo Bem” (29)
36 – Winter – “Violet Blue” (30)
37 – Pluma – “Mais do Que Eu Sei Falar” (31)
38 – Tagore – “Tatu” (32)
39 – Kill Moves – “Perfect Pitch” (33)
40 – DJ Grace Kelly – “PPK” (34)
41 – Jamés Ventura – “Ser Humano” (35)
42 – Edgar – “Prêmio Nobel” (39)
43 – Jup do Bairro – “O Corre” e “O Corre” (Bixurdia Remix) (40)
44 – BK – “Mudando o Jogo” (41)
45 – Antônio Neves e Ana Frango Elétrico – “Luz Negra” (42)
46 – BaianaSystem e BNegão – “Reza Forte” (43)
47 – Zé Manoel – “Saudade da Saudade” (45)
48 – Gustavo Bertoni e Apeles – “Ricochet” (46)
49 – Kamau – “Nada… De novo” (48)
50 – Letrux – “Dorme Com Essa (Delirei)” (49)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a cantora e guitarrista baiana Jadsa.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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Top 50 da CENA – O ser e existir do impressionante Mbé vencem a prova do líder. Mas o ser e existir da também impressionante Giovanna Moraes vêm perto, em segundo. E Rico Dalasam, o dominador, ainda manda nas “dez mais”

1 - cenatopo19

* Semaninha de poucos mas bem bons lançamentos. Ou de descobertas recentes. Ou de melhores entendimentos. Ou de solavancos necessários em audições vacilantes. A CENA brasileira está um organismo vivo incontrolável e imparável. Que bom!!! Leia os textinhos (e “ões”), bota a playlist para rodar e seja esticado e puxado para todos os lados pela transformadora música independente brasileira atual.

giotopquadrada

1 – Mbé – “Aos Meus” (Estreia)
Não repara na nossa emoção, é que a gente ficou chapado ao entrar em contato com o trabalho de Luan Correia, o produtor, pesquisador e engenheiro de som carioca, da Rocinha, que funciona aqui como Mbé, palavra que em yorubá significa “ser” e “existir”. Seu experimentalismo é muito bem explicado por ele próprio, anota essa ideia: “O experimentalismo surge da necessidade de significações para a vida negra, mas deixando de lado o sentimento da marginalização e subalternidade social. Desde que os nossos primeiros ancestrais chegaram aqui, grandes líderes e intelectuais negras e negros guerreiam para criar um novo olhar para as nossas experiências e a nossa amefricanidade. Ou seja, o experimentalismo aqui é por uma vida, muito além das limitações da música experimental”. Pegou a ideia? Entre recortes, samples, Mbé busca esses novos horizontes. Na faixa de abertura, repare no quanto é dito em tão pouco espaço. Os recortes, as falas repetidas que são silenciadas, seguidas de uma fala de Antônio Abujamra que dão devido contexto. Tudo está dito e em apenas 46 segundos. Que convite ao álbum. Vem nessa.

2 – Giovanna Moraes – “Tudo Bem?” (Estreia)
Um amigo gringo nosso, ao ouvir “III”, o novo disco da cantora e faz-tudo paulistana Giovanna Moraes, comentou que este som específico, “Tudo Bem?”, o lembrava uma pegada Portishead, sons meio enigmáticos embalando voz que alterna momentos de controle emocional. A gente primeiro soltou um “whaaaat?”, mas depois foi escutar mais uma vez com essa referência bonita em mente e não é que tem algum sentido? Caramba. Este som é um indie-downtempo que logo derruba a interrogação da pergunta do título. Mas que pode estar mentindo na troca do “?” pelo “!”. Podemos estar enganados, mas à medida que a canção cresce Giovanna vai cantando mais entorpecida, um pouco bêbada. São as coisas fazendo um efeito. Gênia. A missão do segundo disco, que aqui é o terceiro, mas o segundo em português, foi concluída com méritos.

3 – Rico Dalasam – “Estrangeiro” (Estreia)
Não precisamos repetir o textão de semana passada, que você ainda pode ler no 4° lugar aí embaixo, mas o disco do Rico Dalasam segue mexendo com a gente. A predileta da vez é a radiofônica “Estrangeiro”, uma das favoritas dos fãs e um dos hits do disco.

4 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (1)
Dez anos atrás, artistas do universo LGBTQI+ sofriam muito mais com a invisibilidade do que ainda sofrem hoje. Rico Dalasam com certeza viu de perto parte da atitude de mudança no mercado. Nas TVs e festivais, de repente, todo o jogo estava mais receptivo a artistas antes ignorados. Talvez esse movimento tenha moldado positivamente muitas cabeças, derrubado muitos de nossos preconceitos, mas qual a efetividade dele no todo? Quantas empresas abraçaram essas mudanças de imagem sem abraçarem políticas efetivas de combate a nossa estrutura que marginaliza a população LGBTQI+, por exemplo? Por que passamos a comprar melhor, mas não passamos a votar melhor, para ficar em um só exemplo? Se no público a sensação desse processo já é nauseante – dada a óbvia falta de resultados práticos a partir de um mero “consumismo consciente” -, nos artistas LGBTQI+ a pancada é ainda maior: como pensar em arte nessa lógica que parece muito afeita a vender suas ideias, mas ao mesmo tempo pouco interessada nas consequências delas na transformação da sociedade e na defesa real de seus corpos? Ser artista ou um carreirista? Na briga com essa lógica, Rico, por exemplo, comprou tretas que com certeza não deixaram sua trajetória mais suave. Em 2019, escreveu com preocupação um texto na revista “Carta Capital” sobre algumas de suas aflições quanto a isso: “Nunca esteve tão próxima, e por que não dizer homogênea, a produção cultural que emancipa o povo da produção cultural comprometida em deter o povo”. Seu segundo álbum, esse “Dolores Dala Guardião do Alívio”, o primeiro em quase cinco anos, é um tanto sobre as consequências de passar por esse moedor de almas. Dá para sair mais forte na outra ponta da máquina? Em “Expresso Sudamericah”, por exemplo, Rico versa sobre ter quebrado “a régua que mede” seu talento, que soa como um recado a uma tentativa de moldá-lo em algo mais palatável para o grande consumo, e comenta sobre como seus sonhos gigantes vão muito além de ter hit. “Tô desenhando um coração/ Onde todo dia apagam um monte”, ele escreve antes de se jogar no belo refrão onde localiza sua luta não só no Brasil mas neste “Expresso Sudamericah”, o continente que muitas vezes esquecemos que é o nosso também. E, em um exercício de quebra da quarta parede, ainda no refrão, ele parece olhar para o ouvinte e dizer: “Alô, parceiro passageiro”. Estamos juntos, Rico.

5 – Jadsa – “Lian” (2)
Um dos discos mais importante da CENA brasileira neste ano, que foi tomando forma do colosso que é a partir de seus três singles sequenciais lançados, sai na próxima sexta-feira. Este é o terceiro deles. E, dele também, desse disco “Olho de Vidro”, a cantora e guitarrista baiana Jadsa emplaca sua terceira música no nosso Top 50. A incrível “Lian” tem a participação E É SOBRE Luiza Lian, cantora de SP, de um jeito que Jadsa dá uma espécie de continuação em seu projeto de fazer música boa e ao mesmo tempo referencial à música independente brasileira que, já tínhamos observado em “Raio de Sol”, que agora está na 11ª posição deste ranking.

6 – Djonga – “Eu” (3)
Após ter feito um show durante a pandemia, Djonga teve que lidar com uma campanha de cancelamento brutal. Se por um lado dá para entender bem a decepção dos fãs, de outro é evidente que o revide que ele recebeu por seu erro é desproporcional em relação a sua luta. A perseguição intensa sofrida por Djonga parece casar mais com uma cobrança desnivelada causada em parte por nosso racismo estrutural, que obriga que a população negra precise ser dez, mil vezes melhor. Seu novo álbum, “Nu”, não versa só sobre esse assunto, mas é um tópico que parece estar pelas músicas todas e que foi mais bem resolvida em “Eu”, que tem no refrão o verso: “Humano demais pra ser tão bom pra você”. Como se o rapper mineiro quisesse dizer “Quem te fez tão bom assim?”, parafraseando Mano Brown numa certa música chamada “Negro Drama”.

7 – Lupe de Lupe – “Cabo Frio” (4)
Segundo single da banda mineira, tirado do álbum “Trator”, previsto para sair em maio deste ano pela Balaclava, a faixa “Cabo Frio” não é tão polêmica quanto “Goiânia”, mas nem por isso é mais fácil ou simples. É um relato de dores complicadas de se encarar enquanto crescemos, aquela sensação de desconexão com o resto do mundo que todo mundo parece carregar um pouco em diferentes intensidades. Desta vez quem canta e ilustra a capa do single é Renan Benini.

8 – LEALL – “Pedro Bala” (5)
“Escupido a Machado” é o nome do primeiro álbum do rapper carioca LEALL, uma referência a uma fala do Mano Brown sobre sua história de vida, onde os ensinamentos constroem, mas os erros custam caro. “Pedro Bala”, segundo som do disco, é um pouco sobre isso, mas também sobre o cerco que se apresenta na vida dos jovens negros do Brasil. Um cerco material, mas também do imaginário – aspecto perverso do racismo estrutural brasileiro que consegue culpar suas vítimas na ida e na volta. Embora a referência do título seja do personagem criado por Jorge Amado em “Capitães de Areia”, a gente relembrou aqui do “Pedro Pedreiro” de Chico Buarque, outro personagem da música brasileira que sofre com as questões do imaginário.

9 – Barro e Luísa e os Alquimistas – “De Novo” (Estreia)
Um som otimista. A gente precisa deles de vez em quando, né? Ainda que o papo da música seja de um casal, a canção acaba sendo sobre nosso desejo de retorno, não de um relacionamento, mas de rua, de festa, de um pouco de alegria em condições que a pandemia tirou da gente.

10 – Felipe Ret – “F* F* M*” (Estreia)
Quer saber mais deste título? Vale escutar a música toda, não cabe aqui. Mas Ret tem esse mérito de reunir recado e diversão ao mesmo tempo. Até porque o direito de uma vida melhor incluí aproveitar ela do jeito que você bem entende, não? Exaltar isso é uma forma de lutar.

11 – Jadsa – “Raio de Sol” (6)
12 – BNegão – “Salve 2 (Ribuliço Riddim)” (7)
13 – Vanessa Krongold – “Dois e Dois” (8)
14 – Ale Sater – “Peu” (9)
15 – Jupiter Apple – “AJ1” (10)
16 – Apeles – “Eu Tenho Medo do Silêncio” (11)
17 – Lupe de Lupe – “Goiânia” (12)
18 – Rohmanelli – “Viúvo” (13)
19 – Boogarins -“Far and Safe” (14)
20 – Rincon Sapiência – “Som do Palmeiras” (15)
21 – Monna Brutal – “Neurose” (16)
22 – Luna França – “Terapia” (17)
23 – Yannick Hara – “Antidepressivos” (18)
24 – Ale Sater – “Nós” (19)
25 – Jadsa – “A Ginga do Nêgo” (20)
26 – Sessa – “Grandeza” (21)
27 – Artur Ribeiro – “Fragmentação” (22)
28 – A Espetacular Charanga do França – “Cadê Rennan?” (23)
29 – Garotas Suecas – “Tudo Bem” (24)
30 – Winter – “Violet Blue” (25)
31 – Pluma – “Mais do Que Eu Sei Falar” (26)
32 – Tagore – “Tatu” (27)
33 – Kill Moves – “Perfect Pitch” (28)
34 – DJ Grace Kelly – “PPK” (29)
35 – Jamés Ventura – “Ser Humano” (30)
36 – Jovem Dionísio – “Copacabana” (31)
37 – Píncaro – “Leito de Migalhas” (32)
38 – Atalhos – “A Tentação do Fracasso” (33)
39 – Edgar – “Prêmio Nobel” (34)
40 – Jup do Bairro – “O Corre” e “O Corre” (Bixurdia Remix) (35)
41 – BK – “Mudando o Jogo” (36)
42 – Antônio Neves e Ana Frango Elétrico – “Luz Negra” (37)
43 – BaianaSystem e BNegão – “Reza Forte” (38)
44 – Compositor Fantasma – “Pedestres Violentas” (39)
45 – Zé Manoel – “Saudade da Saudade” (40)
46 – Gustavo Bertoni e Apeles – “Ricochet” (41)
47 – Jair Naves – “Todo Meu Empenho” (42)
48 – Kamau – “Nada… De novo” (43)
49 – Letrux – “Dorme Com Essa (Delirei)” (44)
50 – MC Fioti – “Bum Bum Tam Tam” (45)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a cantora paulistana Giovanna Moraes.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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