Em Nirvana:

Ainda o “Nevermind”. Documentário da BBC detalha a “adoção” do Nirvana pela Inglaterra

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* Nevermind 30 Anos. Os EUA demoraram para dar o devida moral ao Nirvana, isso é bem sabido. Enquanto a banda não acontecia em sua terra natal, o Reino Unido já pirava muito em Kurt Cobain e companhia.

A banda visitou a Inglaterra ainda na fase independente com o lançamento de “Bleach”, apavorou no Reading Festival de 1991 pouco antes do “Nevermind” ser lançado e voltou triunfante um ano depois ao mesmo Reading Festival, já como a maior banda de rock do mundo.

“When Nirvana Came to Britain”, documentário que a BBC lançou semana passada e você pode o ver abaixo, detalha essa relação de muito amor e apresenta vários dos momentos icônicos que a banda viveu com a ilha.

É na Inglaterra que Kurt zoa os vocais de “Smells Like Teen Spirit” na TV, cena que abre o documentário, é na Inglaterra que Kurt dispara ao vivo, também na TV, a falar que a Courtney Love é melhor “foda” do mundo. É em Endimburgo, na Escócia, que Kurt e Dave fazem um pequeno show acústico, adiantando em alguns anos a forma que a banda se apresentaria no programa da MTV – tocando músicas como “Dumb”, inédita na época, e “Jesus Don’t Want Me for a Sunbeam”, do Vaselines.

São 59 minutos com depoimentos de ingleses como Simon Neil, do Biffy Clyro, e Steve Lamacq, DJ da BBC, e dos integrantes Dave Grohl e Krist Novoselic. Alguém jogou esse documentário lindão no YouTube. Enquanto não derrubam, tenta ver aí.

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Nevermind 30 Anos – Popcast, o podcast da Popload, lembra o dia em que uma banda normal lançou um disco normal. E depois…

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* Naquele 24 de setembro de 1991, num belo dia de lançamentos qualquer, saía o segundo álbum normal de uma banda normal. Um trio de Seattle chamado Nirvana lançava seu “Nevermind”, sucessor de um disco quase metal chamado “Bleach”, com algumas ideias punk e pop ali no meio, mas ainda assim um disco “masculino”, que ganhou alguns fãs em meio a uma galera que curtia som pesado e estava de ouvidos atentos a um levante indie que estava brotando em Seattle. Tudo numa era pré-internet, bom dizer.

Não rolava digitar “Seattle” ou “grunge” ou “Sub Pop”, o nome do selo em destaque, para fuçar online o que estava acontecendo ali, achar músicas em dois cliques, essas coisas.

Grosso modo e sendo bem simplista, em abril de 1991 o Nirvana então realizou um show em Seattle apenas para arrecadar alguns trocados para encher a van de gasolina e “descer” até Los Angeles, onde descolaram alguém para produzir e mixar o segundo álbum que eles tinham em fita. Para lançar dali cinco meses depois, como foi o que aconteceu. Cinco meses entre descolar grana para combustível e o lançamento do disco. Acabou que o Natal de Kurt, Grohl e Krist naquele mesmo ano já não seria mais o mesmo para sempre.

Essa história está mais ou menos contada no episódio desta semana do Popcast, o podcast da Popload, apresentado por Isadora Almeida e um tal de Lúcio Ribeiro, que insiste até hoje em dizer que o Nirvana é seu Beatles, sua banda predileta da vida, tem quadro na parede da sala, bonequinho de pano de Kurt Cobain, essas coisas. E nesse longevo 1991 estava no olho do furacão onde tudo aconteceu primeiro: a Inglaterra.

O Popcast já está no ar. Tem um caminho aqui embaixo.

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Nevermind 30 Anos – Fetusborg desconstrói “Territorial Pissings”, Alê Gliv simplifica “Polly”

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* Duas versões especiais para o especial da Popload nos 30 anos do histórico “Nevermind”, segundo e inesperadamente revolucionário álbum do Nirvana, lançado em setembro de 1991.

A primeira traz o punk hop Flavio Juliano com seu projeto eletrônico Fetusborg, desconstruindo a já paranóica “Territorial Pissings”, com elementos visuais.

Para Fetus, o Nirvana apareceu em sua vida quando ele morava nos EUA e viu a première do vídeo de “Smells Like Teen Spirit”. “Fiquei vidrado na TV com aquele vídeo. Foi um evento para mim e para meus irmãos. Mas eu fiquei naquilo, porque ouvia mesmo hip hop, na época. Na volta ao Brasil fiz uma banda com meu amigo Ricardo Cifas, a FingerFingerr. Cifas é muito fã de Nirvana, o que acabou influenciando muito no som da nossa banda”, lembra.

A segunda versão é curiosamente caseira e também uma “descomplicação” de uma banda de tantas camadas como o Nirvana, feita em uma sentada no computador pelo historiador e músico Alê Zampieri, o capitão do programa Gliv Rocks, parceiro da Popload TV. Alê Gliv faz sua reinterpretação para “Polly”, outro clássico do “Nevermind”, romântico e sinistro.

“Nirvana me remete à pasta de revistas com o máximo de informações possíveis que eu tive e está guardada até hoje. Às fitas em VHS gravadas da MTV com cada aparição: vídeos nas estreias no ‘Ponto Zero’, apresentações ao vivo, entrevistas e até mesmo propagandas e vinhetas ligadas à banda. E, claro, eu com toda aquela carga emocional na época já deveria ter previsto que ‘A’ banda daquela geração e favorita da minha vida, óbvio, não poderia ir muito mais longe do que foi. Parece que era a peça final dos elementos de tristeza e insatisfação com a vida tão presentes na música do Nirvana. Ironicamente (ou não) músicas que me fizeram. e ainda me fazem, muito feliz”, dá seu depoimento o cara do Gliv Rocks.

Vamos às versões:

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NEVERMIND 30 ANOS – Thunderbird faz cover de “Something in the Way”, do Nirvana

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* Testemunha ocular da bagunça generalizada que o “Nevermind” causou na vida das pessoas que curtiam música em 1991, o roqueiro e ex-VJ da MTV Luiz Thunderbird foi o responsável por lançar, à época, o vídeo de “Smells Like Teen Spirit” na emissora musical brasileira. O famoso vídeo em questão, ainda mais com a força que tinha a MTV à época, não só no Brasil, ajudou muito a catapultar a banda à fama estratosférica.

A pedido da Popload, Thunder, que segura o primeiro disco cheio solo dele para algum momento menos pandêmico, prestou sua contribuição para o nosso especial “Nevermind” com sua versão para a lindaça “Something in the Way”, talvez a música mais, digamos, “pausada” do segundo álbum do banda de Kurt Cobain, o aniversariante do dia.

Abaixo, o depoimento do Thunder lembrando a chegada de “Smells Like Teen Spirit” à MTV e o dia da morte de Cobain.

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Nevermind 30 Anos – Jornalista que mergulhou na alma de Kurt Cobain analisa o segundo álbum do Nirvana

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* Conheci o jornalista Marcelo Orozco no começo dos anos 90 exatamente no olho do furacão do Nirvana e mais exatamente ainda nisso aí mesmo, no ambiente jornalístico. Estávamos juntos quando os primeiros “boatos” de que o roqueiro tinha tirado a própria vida chegaram, deixando de ser “boatos” a cada hora para virar realidade sem aspas alguma.

Nos papos musicais do dia-a-dia, era difícil não falar de música. E Nirvana, “Nevermind” etc vira e mexe vinha pontuar alguma conversa nossa e da galera musicalmente boa que estava junto a nós. Afinal, estávamos vivendo os “nosso Beatles”, na questão “revolução na cara”.

Pouco depois, Marcelo Orozco se enfiou no estudo das letras que Kurt Cobain escreveu para o Nirvana para construir um interessantíssimo livro sobre a banda de Seattle, dos centenas escritos desde aquela época.

Claro, as letras do “Nevermind” estavam ali no livro editado em 2002 para marcar um pré e talvez adiantar um pós-momento de tudo que aconteceu na mente de um cara brilhante e ao mesmo tempo vítima circustancial num espaço de dois anos e pouco, do mero segundo álbum de sua banda até então normal até sua automorte. E que à época foi tudo tão brutal para o bem e para o mal, e aconteceu tudo tão rápido, que se para nós admiradores era difícil entender, imagine para o Cobain.

Então fui saber do Orozco, nestes muitos anos depois da tempestade que causou o “Nevermind”, como ele, um dos caras que considero mais entender de Nirvana no planeta, ainda vê aquele segundo disco lá, daquela banda lá, comandada por aquele cara lá. Com os olhos de 2021.

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por Marcelo Orozco
“Nevermind”, o segundo álbum do Nirvana, foi lançado há exatos 30 anos neste 24 de setembro, mas não ouvi o disco inteiro há 30 anos.

Vi o vídeo de “Smells Like Teen Spirit” na MTV Brasil quando começou a rodar na emissora, mas a obra completa mesmo, o álbum todo em si, só fui ouvir meses depois, já em 1992, quando o vinil saiu aqui no Brasil – na época, eu praticamente não comprava importados em nenhum formato e a internet inexistia.

A partir daí, a banda de Kurt Cobain teve um enorme efeito em mim. Minha banda nos anos 1990. Não foi a última de que gostei, mas foi a que mais me pegou. A ponto de, anos depois, publicar meu único livro, que trazia traduções das letras, análises da relação pessoal do cantor-guitarrista com aquelas músicas, contexto de época etc. Era “Kurt Cobain: Fragmentos de uma Autobiografia”, publicado pela Conrad Editora em abril de 2002.

Um trabalho que me levou a um mergulho de seis meses de pesquisa e escrita dedicada, mais três meses de editoração – um total de nove meses, uma gravidez. Hoje o livro está fora de catálogo há anos. Só em sebos. E não vislumbro uma reedição atualizada.

Mergulhar na psicologia complexa de Cobain requer muita coisa pessoalmente. Minha vida e minha motivação para escrever essa obra eram outras em 2001/02. Estou diferente hoje, não digo melhor nem pior, mas essa investida numa personalidade – apesar de um senso de humor refinado – engolida por drogas, depressão e, infelizmente, suicídio exige muito e desgasta, mesmo que você não queira. Acho que não estou mais a fim de passar por isso outra vez.

Chega de falar de mim e voltemos ao que interessa, o “Nevermind”. Nesta época em que o rock é quase um cachorro morto, em segundo plano em relação ao que a massa ouve aqui e lá fora e (com muitas exceções, mas….) parece ter virado um gênero musical e cultural reacionário, talvez seja difícil entender o efeito daquela união de peso e pop.

Música feita por um bandleader que era ao mesmo tempo bonito, inteligente, louco por música, feminista, progressista, irônico, sarcástico, contestador, sensível. Um “poster boy” com conteúdo é difícil de achar.

O importante é a música. “Nevermind” estourou (1º lugar na parada americana na época e 30 milhões de cópias vendidas até hoje) porque é quase irretocável – só não simpatizo muito com as faixas “Stay Away” e “Lounge Act”, mais fraquinhas que o resto para meu gosto.

É explosivo em “Smells Like Teen Spirit”. É lírico em “Something in the Way”. É porrada em “Territorial Pissings”. É sinistro em “Polly”. É reflexivo em “Lithium”. É apaixonado em “Drain You”. É Beatles e punk e metal e muito mais ao mesmo tempo. Rico. E por isso, 30 anos depois, merece que ainda se fale de um mero álbum de rock.

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