Em pabllo vitar:

SEMILOAD – Sobre artistas twitteiros, artistas instagrammers, artistas tiktokers…

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* O artista enquanto comunicador de si mesmo, o artista enquanto influencer e o artista enquanto “pessoa normal” são assuntos fascinantes no mundo conectado de hoje. A gente, que não sai do computador e do celular, vê isso mais e mais todos os dias, de modo fragmentado. Estava precisando alguém aparecer para amarrar tudo isso numa pensata pertinente.

Não está mais. Dora Guerra, a dona da sempre atenta newsletter Semibreve, parceira semana da Popload com esta Semiload, jogou uma luz sobre artistas que sabem usar a internet a seu favor. E como isso faz uma bela diferença não só para o surgimento de um “artista total” como para a música em geral.

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Estamos num momento interessante de “virada” das coisas – aquele momento em que uma geração diferente, com comportamentos muito particulares a sua época, começa a assumir o posto de geração mais influente. Sabe do que eu estou falando? Dos artistas de 20/30 que sabem o que é a internet – e, por isso, sabem bem o que fazer com ela.

Não é só questão de idade, claro: é questão de escolha também. E personalidade. Alguém como a Anitta, por exemplo, pode parecer ser um caso de quem domina as redes como ninguém. Mas não é bem assim: ela se comunica na internet não como uma nativa, e sim como uma influencer; entende a internet como um lugar de escolher como e o que anunciar, ultimamente se limitando a anúncios marketeiros, um pedacinho do luxo de sua vida pessoal ou discussões políticas. Se você quer saber um pouco antes sobre o próximo single, festas caseiras ou que roupa ela usou no Met Gala, você a segue. Mas só.

Anitta está longe de ser um caso isolado. A cada dia que passa, os artistas estão mais reclusos, na verdade – transformando suas redes sociais única e exclusivamente em instrumentos de trabalho, mesmo quando nos dão a honra de uma selfie comum. Por isso, quando aparece alguém nascido, crescido e criado na internet – que sabe fazer dela o que bem entende, como uma extensão não só de sua carreira como de sua personalidade –, isso chama a atenção.

É, eu estou falando (entre outros) do Lil Nas X, claro. É por isso que ele é o papo do ano: não só por sua música, pelo efeito social e tudo o mais; mas pelo carisma e naturalidade em fazer o que faz. Aos 22 anos, o artista sabe mesclar suas redes sociais com o marketing de seu trabalho de forma quase indissociável, não só interagindo com memes como fabricando-os ele mesmo (ou sua equipe). É impossível rir dele quando você está constantemente rindo com ele: com Lil Nas, não existe conversa da qual ele não faça parte, piada que ele não esteja por dentro, replicando ou estendendo. Quando comparado com alguns artistas – que claramente não se familiarizam com os formatos nem sequer tem interesse neles –, a diferença é nítida: mais que popstar, Lil Nas é um nativo da internet.

Isso não significa que ele é melhor que os outros em seu trabalho, precisamente – não é por aí. Mas, quando muito se fala da diferença entre artista e influencer e a métrica (desleal) de seguidores, que não atesta qualidade de trabalho, a questão vai além disso: Lil Nas X já veio com conhecimento que curso de marketing (ou equipe!) algum o ensinaria. Isso significa que – basicamente – o que ele quiser vender, seus fãs “compram”. E, enquanto tiver esse fator, ele é infalível.

Sabe quem faz parecido? A Doja Cat. Menos quanto à própria carreira – que exala mais glamour que sua verdadeira personalidade –, mas mais como forma de se garantir no carisma. Doja fez sua fama em parte pelas músicas, em parte simplesmente por viralizar na internet fazendo ou falando bobagens, enfiando batatas fritas no nariz (sério). Não é à toa que suas músicas viralizam constantemente no TikTok (para além dos seus próprios vídeos na plataforma): algo na própria Doja, por si só, é extremamente viral.

Trazendo para um caso mais local, a Pabllo também faz isso muito bem, como alguém que realmente usa o Twitter em seu tempo livre. São nessas brechas que surgem as oportunidades. feito a profecia do “Pabllo Vittar vai passar mal”, uma brincadeira que fez todo mundo ficar de olho no perfil dela e, por fim, receber notícia de novo vídeo. Existem diversos outros brasileiros que fazem bem esse tipo de coisa – porque a gente naturalmente se comunica nesse tom de humor, talvez. Os três que mais me vêm à mente são Jaloo, Clarice Falcão e Brvnks: artistas que não me parecem usar o Twitter e as redes como ferramentas de trabalho – e sim como usuários comuns –, mas não deixam de ter bons efeitos de visibilidade justamente por isso.

Mas o principal é que esse tipo de coisa eu não acho que se ensina, só se aprimora. Para quem tem facilidade com isso, o trabalho musical ganha mais uma dimensão, fornecendo mais um ponto de contato com o público que é continuamente interessante, dinâmico, acessível e (principalmente) divertido. Essa proposta de relacionamento entre artista e fã é uma espécie de continuação do MySpace, de forma diluída, que funciona. Eu vivo martelando, é uma forma de você mostrar que, enquanto figura pública, você vale a pena – o seu produto, qualquer que seja, é secundário.

(E aí, vendendo sua figura, você consegue vender até maquiagem ou lingerie se precisar. Né, Rihanna?)

Esse tipo de relação, no fim das contas, é a mais perene que você pode ter em um mercado tão instável – faz com que você não dependa de mais ninguém para saber dominar sua própria carreira. Ou pelo menos faz parecer que é assim.

Na internet, rir de si mesmo nunca falhou. Ainda bem (é graças a isso que eu sigo aqui).

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* Dora Guerra ri de sim mesmo também no Twitter, como @goraduerra.

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Top 50 da CENA – Um piano tira a Pabllo do nosso topo. Amaro Freitas lidera, seguido pelo MC Rodrigo Brandão. Mas o terceirão é dela, sim

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* Na semana passada nosso primeiro lugar foi talvez um dos trabalhos mais pop da nossa história, né, Pabllo? Nesta semana aqui, jazz e música de improviso fazem um dobradinha no topo da nossa lista. É o universo reequilibrando as coisas. Pode reclamar, a gente esquece muita coisa, não dá conta de outras, mas não damos margem para dizerem que nós não tentamos escutar um pouco de tudo de lindo que é feito neste país hoje em dia na música, para criar nossa radiografia do que acontece de melhor por aí, hein? Dito isso, toma esta!

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1 – Amaro Freitas – “Sankofa” (Estreia)
Quem lê sempre nosso Top 50 já reparou que a gente ama quando o próprio músico traz palavras inspiradas sobre o que pensou para a canção em destaque. Parece um passo lógico, mas não é todo mundo que se arrisca a pelo menos traçar uma linha sobre o que acabou de entregar. O Amaro Freitas, pianista de Recife, por sua vez, escreveu bastante e bem sobre sua proposta no álbum “Sankofa” e a gente pirou na ideia: “Trabalhei para tentar entender meus ancestrais, meu lugar, minha história, como homem negro. O Brasil não nos disse a verdade sobre o Brasil”. A expressão “sankofa” é justamente sobre esse tipo de processo, visitar o passado para possibilitar novas compreensões e futuros. Uma busca, que como revela Amaro, apresenta as inconsistências do que temos em nossas mãos atualmente. Muita coisa foi contada errado, muita coisa foi apagada e isso é um dos motivos de termos problemas de imaginar futuros novos. Sem dúvida, um mundo trilhado por esse álbum de Amaro não dá chance para fascistas, por exemplo. Essa é a energia aqui.

2 – Rodrigo Brandão – “O Sol da Meia-Noite” (Estreia)
Quem já viu uma sessão de improviso do Rodrigo Brandão sabe a força que reside ali. Força de inspiração e criação afiada de um dos principais MCs da música brasileira faz tempo. Seu segundo trabalho solo é mais uma experimentação nesse sentido de composição em tempo real tocada por Marshall Allen, líder da Sun Ra Arkestra, com participação de um timaço de músicos nacionais (Tulipa Ruiz e Juçara Marçal, os saxofonistas Thiago França e Thomas Rohrer, o percussionista Paulo Santos (Uakti) e mais um par de integrantes do Hurtmold, Guilherme Granado e Marcos Gerez), além de três membros da Sun Ra (Knoell Scott, o brasileiro Elson Nascimento, e Danny Ray Thompson). Este álbum foi gravado em 2019, mas chega agora em 2021. Aguardemos.

3 – Pabllo Vittar – “Não É Papel de Homem” (1)
Ao optar em reler clássicos do tecnobrega e do forró que foram a trilha de sua adolescência em um contexto que respeita os gêneros e ainda absorve elementos da música pop atual, Pabllo enriquece sua já boa mistura e aproxima seu trabalho das experiências de hyperpop tocadas por artistas como Sophie e Charlie XCX. É uma inversão inteligente do senso comum que ronda o pop nacional. Em vez de deixar o pop mundial informar a música brasileira, aqui a música brasileira informa o pop do planeta. Não é um movimento simples, não. O Primavera Sound vai ver só.

4 – 2DE1 – “Emersão” (2)
Emersão, segundo um dicionário online, é tanto o movimento de um corpo que sai de um fluido no qual estava mergulhado quanto a reaparição de um astro que eclipsara. Significativo que esse seja o som de uma retomada após um relativo silêncio. E, bom, basta reparar na letra para sacar que a intenção dos gêmeos Fernando e Felipe Soares passa por uma aceitação de si mesmo e de assumir uma luta para alterar os aspectos que estão danificando o universo ao redor.

5 – Marisa Monte – “Totalmente Seu” (Estreia)
Em seu belo novo trabalho, Marisa escolheu uma coleção de velhas e novas parcerias. Ao lado de figuras batidas, como Nando Reis e Arnaldo Antunes, aparecem agora nomes como Chico Brown, Marcelo Camelo e os irmãos Silva, Lucas e Lúcio. Conectado com a obra de Marisa em uma esfera bem próxima (Silva dedicou um disco às canções dela), parece lógico que a parceria Silva/Marisa soe tão bem e seja a música que mais chame a atenção em uma primeira edição. “Totalmente Seu” é nível hit da Marisa que pode tocar por um ano, fácil fácil, em rádios e novelas.

6 – Letrux – “I’m Trying to Quit” (Estreia)
Vício é foda. Bebida, cigarro, um relacionamento. Letrux acerta um monte em resgatar essa letra escrita em 2013 e que seguiu tão boa ao longo destes anos. Como ela bem escreveu, ali foi o começo do fim do mundo. Não? Pela promessa, esse single é a abertura de uma série de mais três lançamentos individuais.

7 – Giovanna Moraes – “Rosalía” (Estreia)
Parte do seu álbum mais recente, “III”, Giovanna resolveu expandir a música “Rosalía” em um single que reapresenta sua bela música acompanhada de uma versão demo e outra que é descontrução da própria canção, indo atingir com ela um outro gênero. Se entendemos bem, isso é o que costumávamos ter com um bom lançamento de single.

8 – Taco de Golfe – “Tratados de Obrigação” (Estreia)
A dupla sergipana Gabriel Galvão e Alexandre Damasceno segue a apresentação da piração que veremos em seu álbum “Memorandos”. Que a gente, não sei se eles repararam, adivinhou o nome por aqui quando achou uma mensagem cifrada em morse no Bandcamp da banda. Ninguém valoriza nossos momentos de Sherlock?

9 – Nill – “Singular” (3)
Participação da Ana Frango Elétrico, sample do Paramore. Que som que o Nill lançou aqui para abordar as questões e inseguranças de dentro da sua mente. E a faixa é tão curtinha que pede por uns três replays a cada escutada.

10 – Ana Frango Elétrico – “Promessas e Previsões” (4)
E, por falar na Ana, um elogio a ela aqui por soltar um vídeo para um som seu do “distante” 2019. Esse jeito de trabalhar um álbum em slow motion é um ajuda e tanto para nós, jornalista, sobrecarregados por tanta coisa a escutar. Mirem-se no exemplo.

11 – Mineiros da Lua – “Armadilha” (5)
12 – Iara Rennóo – “Ava Viva” (6)
13 – Bonifrate – “Cara de Pano” (7)
14 – Isabel Lenza – “Tudo Que Você Não Vê” (8)
15 – Romulo Fróes – “Baby Infeliz” (9)
16 – Nelson D – “Algo Em Processo” (10)
17 – Ella from the Sea – “Lonely” (11)
18 – Linn da Quebrada – “I Míssil” (12)
19 – GIO – “Joias” (13)
20 – BNegão feat. Paulão King – “Cérebros Atômicos” (14)
21 – Rodrigo Amarante – “I Can’t Wait” (15)
22 – ATR – “Corazón (Badsista Remix)” (16)
23 – Bonifrate – “Casiopeia” (17)
24 – Mallu Magalhães – “Pé de Elefante” (18)
25 – Edgar – “A Procissão dos Clones” (19)
26 – Tuyo – “Toda Vez Que Eu Chego em Casa” (20)
27 – Giovanna Moraes – “Baile de Máscaras” (21)
28 – Marcelo Perdido – “Que Bom” (22)
29 – Gustavo Bertoni – “Old Ghost, New Skin” (23)
30 – Marina Sena – “Voltei pra Mim” (24)
31 – Rincon Sapiência – “Meu Mundo” (25)
32 – Supervão – “Amiga Online” (26)
33 – Jonathan Ferr – “Amor” (28)
34 – Jadsa – “Mergulho” (29)
35 – Mulungu – “A Boiar” (30)
36 – Jup do Bairro – “Sinfonia do Corpo” (31)
37 – Lupe de Lupe – “Brasil Novo” (32)
38 – Bruna Mendez e June – “A Vida Segue, Né?” (33)
39 – Zé Manoel – “Como?” (35)
40 – Yung Buda – “Digimon” (40)
41 – Duda Beat – “Meu Pisêro” (41)
42 – FEBEM – “Crime” (42)
43 – Aquino e a Orquestra Invisível – “Os Prédios Cinzas e Brancos da Av. Maracanã” (43)
44 – Boogarins – “Supernova” (44)
45 – BaianaSystem – “Brasiliana” (45)
46 – Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo – “Delícia/Lúxuria” (46)
47 – Jota Ghetto – “Vagabounce” (47)
48 – Mbé – “Aos Meus” (48)
49 – Rico Dalasam – “Expresso Sudamericah” (49)
50 – LEALL – “Pedro Bala” (50)

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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, o pianista pernambucano Amaro Freitas.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix. Com uma pequena ajuda de nossos amigos, claro.

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