Em pelada:

POPLOAD NOW: 3 bandas das letras pequenas do Primavera Sound para prestar bastante atenção

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* Sim, estamos meio obcecados com o assunto Primavera Sound, o festival de Barcelona que acontece no ano que vem e apresentou recentemente um line-up de dar vontade de morar nele para sempre. E que provavelmente ainda vai render muita pauta até 2022, tipo essa de ontem aqui na Popload, quando demos um panorama na escalação master da música eletrônica. Desta vez queremos comentar sobre três nomes em especial que chamaram a nossa atenção no meio daquela pilha de bandas e artistas. Talvez muitos outros ainda chamem, porque parece que a cada olhada no line-up fazemos uma nova descoberta.
Mas, neste caso desta trinca em especial, que andavam perdidos em alguma playlist nossa, achamos que seria legal dar a dica aqui. São elas:

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* MOLCHAT DOMA

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Primeiro surgiu como recomendação do nosso streaming musical. Aí, conversando com um amigo, surgiu o nome também. Em outra roda, mesma coisa: “Já ouviu aquela banda russa?”.
Para ser sinceros, não nos lembramos de nenhuma banda vinda daqueles lados desde, sei lá, t.a.t.u.? Risos à parte, fomos investigar essa tal de Molchat Doma, que ganhou um nominho no valoroso line-up do Primavera, e descobrimos um universo paralelo.
Tivemos até “consultor” sobre assuntos do leste europeu, que resumiu muito bem nossa primeira impressão: “a Joy Division da cortina de ferro”.
Molchat Doma (que também está em foto na home) é na verdade da Bielorrússia, para não nos perdermos na geografia, e explodiu no mundo por causa de um vídeo viral do TikTok (ah, vá…) onde um cara mostra um pouco da sua vida quando ele morava na Rússia.
O que vemos, ao som de “Судно (Sudno)”, são jovens vestidos de preto em lugares industriais, cabelos exóticos, festas numa realidade que parece ter parado nos anos 80. Entre os comentários do vídeo, tem os significantes “Melhor propaganda sobre a Rússia” ou “Me mudando para lá agora mesmo”.

@leonverdinsky

Saint Petersburg #russia #Россия #foryou

♬ Судно (Борис Рижий) – Molchat Doma

De lá para cá, o prédio da capa do disco até virou ponto turístico em Minsk, capital bielorrussa, que chama a atenção por sua arquitetura brutalista, famosa em países da ex-União Soviética. Também foram destaque no Pitchfork, que explicou muito bem a subcultura doomer que cerca os fãs da banda. O “doomer” é grosso modo o niilista de 20 e poucos anos, cujo desespero sobre o mundo o faz se afastar da sociedade tradicional, se “escondendo” na tecnologia e em relações no máximo virtuais.
E, depois de se ligarem da fama que estavam alcançando para além da Bielorússia, a banda até começou a legendar seus vídeos.

E, para falar bem a verdade, não sabemos nem como pronunciar os nomes da músicas (foi mal galera, mas cirílico ainda é um pouco complexo para a gente). Mas, apesar das barreiras todas, confere o Molchat Doma, porque vale muito a pena!

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* PELADA

Tem Pelada no Primavera Sound. Para além dessa piada de quinta-série, esta descoberta veio direto do programa de rádio do Iggy Pop na BBC 6 Music, que escolheu o EP de estreia da banda “Movimiento para Cambio”, como tema do seu programa semanal. A primeira coisa que chamou a atenção foi um vocal em espanhol, declamando de uma forma meio “punk/hardcore”, uma letra anti-machista e uma batida sensacional.

pelada

Em “A Mi Me Juzgan por Ser Mujer” ouvimos “A mí me juzgan por ser mujer, pero no nací en este cuerpo, no lo escogí ni sé que que hay hacer, eso esta fuera de mi control”, algo como “Eu sou julgada por ser mulher, mas eu não nasci neste corpo, não o escolhi e nem sei o que fazer, isso está fora do meu controle”. Em outro trecho genial temos: “Estoy harta y cansada de las reglas de belleza, y diciéndome que sea más delgada”, que quer dizer “Estou cheia disso e cansada das regras de beleza, me dizendo para ser mais magra”.

Pelada é um duo canadense, de Montreal, que chamou a atenção internacional na cena underground de rave. Suas letras expressam temas como poder, identidade e justiça ambiental, e a combinação de letra e música são digníssimas de comparação com a linha de bandas do cultuado selo nova-iorquino DFA, de James Murphy.

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* THE MURDER CAPITAL

Este causa buzz na nossa antena há um tempinho, mas vale muito o destaque ousado de pertencer ao vaaaasto catálogo de bandas pequenas incríveis do Primavera Sound. The Murder Capital é mais uma para a lista de bandas pós-punk da cena britânica (e quase britânica, no caso destes irlandeses da agitada Dublin). Do mesmo movimento que fez surgir o Idles, Fontaines D.C. (vizinhos), Shame, Black Midi… The Murder Capital também veio para dizer algumas verdades pontuais banhadas de som feroz. Digamos que todas traduzem a expressão “urgent music for urgent times”.

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Seu disco de estreia, “When I Have Fears”, é de final de 2019 e veio depois de eles estourarem na internet com o single “More Is Less”, que foi superbem-recebido pela crítica. Ao vivo, eles parecem ter saído de um episódio da maravilhosa série brit “Peaky Blinders”: blazer, camisa esvoaçante, acessórios…

Esta turma de Dublin também carrega em suas letras temas profundos como saúde mental, solidão, luto… Inclusive foi centrado neste assunto, após a perda de um amigo, que a banda compôs seu primeiro álbum.

No ano passado, pouco antes da pandemia, o grupo se apresentou no famoso estúdio da BBC em Maida Vale. Uma das últimas apresentações aliás, porque eles tiveram o azar de lançar seu álbum de estreia poucos meses antes de o mundo fechar. A performance foi para o “Live from BBC Maida Vale”, apresentado pela genial Annie Mac, onde eles fizeram uma ótima cover da música “Cellophane”, da FKA Twigs.

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* Esta seção da Popload é pensada e editada por Lúcio Ribeiro e Daniela Swidrak.