Em Portland:

Quando Stephen Malkmus conheceu o Nirvana… Ano passado, no caso

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As duas mensagens acima são de Stephen Malkmus, gênio da música alternativa que um dia ofereceu ao mundo o lindo Pavement, em uma espécie de exercício de consciência, falando que finalmente tinha entendido o Nirvana. Isso em abril de 2015, mais de duas décadas após o fim da banda. Mas nunca é tarde…

Dois meses depois de tornar isso público, Malkmus se apresentou com seu The Jicks no Quiet Music Festival, em Portland, e começou o show com “Come As You Are”, do Nirvana.

Malkmus e sua banda, em show intimista na cidade de Portland (junho/2015)

Malkmus e sua banda, em show intimista na cidade de Portland (junho/2015)

O show, intimista, consistiu basicamente em canções de seu catálogo tocadas com arranjos diferentes, algumas raridades e canções cover, tipo essa da banda do Kurt Cobain e ainda Pink Floyd, por exemplo.

A boa notícia é que a organização do festival, quase um ano depois, botou o show inteiro na internet. Pra todo mundo ouvir de graça o Malkmus cantando Cobain. Boa pedida, hein?

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O visual, os cheiros, o astral, a cor do céu, a trip toda. Ah, e as bandas. Considere ir ao Sasquatch Festival

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* Galera brasileira curte um festival gringo faz tempo. Desde os anos 90 eu me deparo com “patrícios” em todo lugar do mundo a que fui atrás de uma reunião de bandas boas num mesmo evento. Mas talvez não tenha festival mais prazeiroso e “bem acabado” que o Sasquatch, hoje em dia, desde que você não se importe de ir longe e montar uma logística minimamente decente.

O Sasquatch, pode ser que já você tenha tido a oportunidade de ter lido por aqui, é um evento com umas 130 bandas que acontece por quatro dias no Memorial Day, o feriado americano que inaugura o verão de shows por aqui (não exatamente a estação, veja bem). A data, em lembrança aos mortes das guerras em que o EUA se meteu, é sempre na última segunda-feira de maio. E o Sasquatch, de uns anos para cá, já é armado forte desde a sexta anterior ao Memorial Day.

O festival fica a três horas de carro de Seattle e cinco de Portland, duas das cidades indies mais delícia dos EUA, com tradição de cena, casas de shows, rádios boas, lojas de discos infernais, galera atuante, as bandas todas. As estradas para o festival, tanto de um lado como de outro, são lindas de morrer, tranquilas, cheia de paisagem típica deste canto americano.

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Entre o Sasquatch e Seattle, por exemplo, você passa pela cidade de Snoqualmie, um lugarejo no meio de uma floresta de montes com neve no pico mesmo quando está calor e árvores altas. É onde tem a Snoqualmie Falls, queda d’água famosa que aparece na vinheta de abertura do histórico seriado Twin Peaks, que leva ao riacho onde foi encontrado o corpo envolto num plástico da deusa Laura Palmer. Lembra, né? Fiz umas fotinhos da região. Só não comi o famoso donut.

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O Sasquatch acontece num anfiteatro natural chamado Gorge, uma ribanceira linda que serve de arquibancada para o gigantesco palco principal, colocado aos pés da colina, com um cenário atrás típico de aquarelas de paisagem de eras renascentistas: o rio, as montanhas, o vale todo, as nuvens, o sol e depois a lua. No alto do vale, para trás do anfiteatro, mais três palcos e uma grande tenda eletrônica são montados.

A não ser que você acampe, é muito difícil ficar perto do Gorge Amphitheatre, o local onde rola o Sasquatch. Já me hospedei em Quincy, a meia hora de carro, e desta vez descolei um hotel em Ellensburg, cidade no meio do nada onde tem uma universidade importante porém pequena do Estado de Washington, uns rodeios às vezes, umas cachoeiras e é isso. Ellensburg está a 50 minutos do Sasquatch, dirigindo. Mas o que poderia ser um saco para ir e principalmente voltar, na hora do cansaço na madrugada, é também uma atração, pelo espetáculo visual de pontes incríveis, lagos e o rio Columbia, o que passa atrás do palco do festival, colinas, plantações de uva e as hélices gigantes dos geradores eólicos, que ornam qualquer estrada dessas, já bonitas.

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Diferentemente do Coachella e do Lollapalooza de Chicago, para pegar dois exemplos famosos e cada qual com sua beleza estonteante e praticidade ou perrengues particulares, o Sasquatch é um festival “manejável”. Não porque você consiga beber sem estar num cercadinho e fumar maconha (se for a fim, claro) sem culpas e perseguições (a erva é liberada para uso recreativo no Estado de Washington, o que evoca uma outra discussão no caso do Sasquatch). Mas sim porque nele você lida com 35 mil pessoas, quando está absurdamente lotado, espalhadas em um formato irregular de festival. Não é com 80 mil, 90 mil num retângulo gigante, como no Lolla e no Coachella. Isso implica, obviamente, no ir e vir, nos banheiros, na caça ao que comer e beber.

E fora as bandas escolhidas. Cada um com seu gosto, claro. Mas, tirando o Pitchfork Festival, de Chicago, sempre considero o Sasquatch o festival com melhor curadoria desses médio-grandes dos EUA. Vai ao pop, ao hip hop, ao eletrônico, ao punk, ao velho e ao novo com uma esperteza de seleção que só quem está numa região perto de Seattle e Portland pode fazer.

Sasquatch 2016? Desde que tempo e $$$ permitam, acho que sim.

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War on Drugs em Portland. O “novo indie” abraçando mesmo a banda de “roqueiro velho”

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* Popload enquanto em Portland, Oregon, na semana passada.

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Na última quinta-feira, a banda War on Drugs, de um tamanho improvável de grande dentro do indie americano (já tentamos entender o que acontece, aqui), fez um show esgotado num clube de Portland, o Crystal Ballroom, onde cabem 1500 pessoas e por dentro parece a Capela Sistina, dado os afrescos bíblicos pintados no texto e paredes.

O grupo do cabeludo Adam Granduciel, de aparência hippie desleixada mas de voz e guitarra impressionantemente boas, foi uma das atrações do Sasquatch Festival, na “região”, e aproveitou a escalação no evento para fazer um one-off em Portland.

Banda de “roqueiro velho”, o War on Drugs nasceu no começo da década passada com o talentoso Kurt Vile na formação e uma obsessão por Bob Dylan na música. Mas foi só de mudar bastante a formação e chegar com seu terceiro disco m março de 2014 que o grupo vem causando na nova música.

Desse tal disco, o campeão “Lost in a Dream”, capturamos a bela “Burning”, que entrega bem o “jeito War on Drugs” de envolver com sua música, quase todas elas e principalmente ao vivo. O ritmo vai cadenciado, quase lento, esquenta quando entra a voz de Granduciel e pega fogo com seus solos.

Na rabeira tem um trecho da linda “Under the Pressure”, uma das mais importantes do álbum e que ecoou no ano passado em rádios indies americanas. O vídeo está de longe, portanto desfocado, e ainda por cima está incompleto. Então por que postar o vídeo? Porque é “Under the Pressure”, oras.

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Popload em Portland – A lavanderia mais cool do mundo, a criação de galinhas hipster e a sua banda, que é uma merda

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* Popload em Portland, Oregon.

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* Como a vida não está fácil para ninguém, estou aqui lavando uma roupa suja, literal. E, como o lance é em Portland, a lavanderia tem bar, café, jornais e revistas cool, máquinas de fliperama e é toda focada em ecologia. Todos os seus produtos, do sabão em pó ao iogurte, são orgânicos e de produção local. Tsá? Durante o tempo que eu gastei enquanto a roupa lavava e secava, ficou rolando Beatles, Velvet Underground e o álbum inteiro do Modern Lovers na laundry. Melhor laundry do mundo?

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* Por todos os lugares, as referências de placas e lugares e sinais em Portland trata a cidade como PDX, que é o código de aeroporto daqui, tipo BSB em Brasília e CWB, Curitiba. Quando descobri isso e indaguei o X, em vários textos que li cheguei à resposta que botando ‘X” fica mais cool. Sério.

* Você pensa em toda a coolness e o hipsterismo em Portland, mas a taxa de suicídio e diagnósticos de depressão forte é bem alto na cidade. Deve estar relacionado. Quando me informei sobre esse tema, li que tem uma banda de hip hop daqui, mais ou menos conhecida, chamada de The Lifesavas, que soube até o Snoop Dogg é fã. A banda foi criada em 2006/2007 e botou esse nome justamente em referência à coisa do suicídio. O mesmo texto dizia que desde que o Lifesavas foi criado, a taxa de suicído em Portland só aumentou.

* A última coisa freak de Portland, juro. Pega mal em Portland você ter um quintal nos fundos da casa e não criar… galinhas. Galera toda cria. Acho que para comer, sei lá. Dizem que se você tem o quintal e não cria, é porque você é… republicano.

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* Acabei de comprar, na gigante Powell’s Books, o livro “Your Band Sucks: What I Saw at Indie Rock’s Failed Revolution (But Can No Longer Hear)”, do Jon Fine, que vai estar autografando e conversando sobre o livro na Powell’s aqui em Portland acho que nos próximos dias. Obviamente vou perder o papo.
Fine foi guitarrista da importante banda de hardcore e post-punk Bitch Magnet, de Ohio, que habitou a música nos anos 80 e viu a música independente/alternativa americana surgir forte depois que baixou a poeira punk e as college radios ganharam espaço. O Bitch Magnet, banda-prima de Blag Flag e até do Sonic Youth, voltou para uma edição especial do festival All Tomorrow’s Party, da Inglaterra, aproveitou para excursionar pela Ásia e Europa e acabou de novo. Mas Jon Fine nunca deixou de frequentar os porões indies, a cultura da turnê em vans e os shows nos lindos porões das principais cidades americanas, convidado de várias bandinhas que surgem e chamam o cara para tocar.
“Your Band Sucks” está sendo bastante elogiado. Resenhas dizem aqui que é um verdadeiro “insider’s look” da cultura indie, de quem sempre viveu e nunca saiu dela. Vou ler e depois comento mais.

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* Falando em banda bem indie, fui ontem a um showzinho em loja do The Helio Sequence, dupla indie daqui de Portland que lançou nesta semana seu sexto disco, homônimo, e tocou na Music Millennium, record store famosa aqui da cidade. Banda da Sub Pop bem famosa em Portland e não muito fora dela, o The Helio Sequence gravou 26 músicas em um mês, distribuiu para amigos e família, pegou as mais votadas e botaram no álbum novo. Dupla que não precisa de mais ninguém na banda para fazer um som consistente, cheio de nuances ainda que dentro de uma pegada simples de indie-folk, desses de encher a sala e você achar que tem uns cinco caras tocando.

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* Hoje tem War on Drugs aqui, no clube Crystal Ball, perto do hotel onde eu estou. É tipo um Cine Joia de Portland. Já fez as vezes de cinema e tem capacidade para 1500 pessoas. Amanhã tem Father John Misty. Ambos os shows estão sold-out. Ambas as atrações estão na lista do Sasquatch Festival, em Quincy, que começa amanhã e vai até segunda-feira (feriado aqui). Vou tentar ir no War on Drugs hoje. Vejo o FJM no Sasquatch.

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* Cheguei na cover mais espetacular que eu vi este ano deste modo. Amanhã, aqui em Portland, tem show da dondoca Lana Del Rey, com abertura da malucona Courtney Love, uma espécie de anti-Lana Del Rey em absolutamente todos os sentidos, tendo em vista as voltas que a música independente dá. Iria fácil ver as duas e me interessei em saber quem era a banda que suporta (mesmo) a ex-viúva do Cobain, ex-Hole, ex-um monte de coisa. No baixo, está uma protegida dela, a Jennie Vee, uma loira gata de Nova York que tem voz de fada tipo a da Ida No, do Glass Candy, e uma banda shoegaze e dream pop de mulheres, pensa. Fora que é queridinha das próprias, da Love e da Lana.
Daí que nessas coincidências da vida chega um email para mim desses de produtoras, contando que Jennie Vee lançou recentemente um vídeo novo, que é cover de “Lips Like Sugar”, fantástica música do fantástico grupo veterano Echo & The Bunnymen, de Liverpool. Olha que belezura. Tudo belezura.

Dizem que o Alan McGee, da Creation Records, sabe?, o que descobriu o Oasis para o mundo a partir de um showzinho em Glasgow, está apaixonado pela menina. E os ingleses também. E os franceses. E agora a Popload.

A cover de Echo faz parte de um EP que Jennie Vee lança em junho agora, “Spying”, que também estava para audição no email que me enviaram. Delicinha. Saco, numa tacada eu perco amanhã a Vee, a Love e a Lana.

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Popload e os Simpsons em Portland. E a Courtney Barnett aqui e em Nova York

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* Popload no Oregon, NW dos Estados Unidos.

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* Portland, uma das cidades mais incríveis em que dei a sorte de ter pisado, tem uma auto-estima que São Paulo, por exemplo, não tem e deveria ter. Portland se vende. As pessoas compram a fama da cidade, porque querem comprar, porque incentivam essa fama, e principalmente porque ela é real. Todos aqui realmente parecem gostar de Portland e de fazê-la melhor. Não à toa, você vai na incrível megaloja Powell’s City of Books e dentre os 20 livros mais vendidos tem uns seis, sei lá, cuja inspiração é Portland. Tudo livro recente. Ou pelo menos desta década. Vi vários, na linha “As Melhores Cervejarias de Portland”, “This Is Portland” (A cidade que todos dizem que você deveria gostar), “Os Gatos de Portland”, “Portland e os cavalos”, “As Bicicletas de Portland”, “As Rosas de Portland”, “Lugares para Nadar Pelado perto de Portland” (vocês leram a Popload ontem, né?), “Portland e os Vegans”, “Portland e a Obsessão por Cafés”, “As Bandas de Portland”…

* Para quem parece um bairro grande de São Paulo e tem 600 mil habitantes em sua área (ok, contra 12 milhões de SP), a cidade é considerada a mais verde dos EUA, teria a maior população de galera que anda de bicicleta como transporte oficial sendo que o transporte público é uma beleza, tudo é plano e muita coisa se faz a pé e o Ibirapuera aqui seria apenas o 49º lugar na parada dos parques, em tamanho.

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* Enfim, fora tudo isso fiquei emocionado ontem em passar pela Flanders Street, na ótima região hipster Pearl District. É famosa a história de que o Matt Groening, o criador do desenho The Simpsons, é de Portland e botou nome de vários personagens do programa em homenagem a ruas da cidade. A cool Flanders Street batizou o Ned Flanders, o vizinho “insuportável” do Homer. :)

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* E, enfim, a Courtney Barnett. Ontem, dei uuma chegada à enorme Everyday Music, uma das muitas lojas de disco de Portland. Três pôsteres grandes do primeiro disco da guitarrista canhota australiana, o incrível “Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit”, lançado há três meses e um dos mais importantes álbuns de 2015, ilustram de modo vistoso as vitrines da Everyday Music. Chega a inibir outros pôsteres de outros lançamentos.

Prova master de que Courtney Barnett encanta em terras americanas é o jeito que falam das músicas dela quando vão tocá-las nas rádios daqui. Qualquer que seja a emissora, qualquer que seja a canção. Courtney Barnett é atração deste final de semana no Sasquatch Festival, aqui do lado. Ontem um DJ da 94.7 FM, rádio indie de Portland que faz parte da associação NPR, ficou uns cinco minutos explicando o quanto o show dela era o mais imperdível do festival, entre os 60 que vão acontecer. Acho que eu concordo.
Courtney Barnett atualmente está ocupada com uma residência lotada no Bowery Ballroom, em Nova York. São três datas seguidas, todas sold-out. Começou ontem. Claramente Courtney Barnett já precisa tocar em lugares maiores em NYC, tipo o Terminal 5.
Abaixo, cenas do show de ontem. Inclusive fazendo cover de “Cannonball”, das Breeders.

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