Em roda:

CENA – Música da Semana: “Roda”, Papisa

1 - cenatopo19

* Faz quase duas semanas que saiu o álbum de estreia da Papisa, “Fenda”, um disco de descobertas. De descobertas para quem ouve e de totais descobertas para quem o fez, a cantora, compositora e multiinstrumentista e autoprodutora e autotécnica de som Rita Oliva, que abraçou todo o processo de desenvolvimento do disco, foi buscar timbres e texturas do zero, adaptou sua casa para gravar seu trabalho, estufou a parede da sala com colchões e embalou as estantes de livros com edredons para atingir a acústica que queria, criou audições especiais do disco para observar as reações das pessoas ao ouvi-lo. Essas coisas da mulher empoderada de hoje, graçasadeus.

Só não carimbou o disco com um selo próprio porque ele não existe (ainda). Mas foi lançado independente, tipo ela-mesmo.

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Arriscou tudo e se deu bem, talvez mais como projeto pessoal do que propriamente “sucesso popular”, porque “Fenda” e seus objetivos holísticos a serviço de uma mística que guia sua autora não são exatamente fáceis. Embora irregular, é um disco muito feliz, dentro do seu conceito e de sua feitura. Quando é bom, é muito bom.

Tipo esta canção que a gente quer destacar, “Roda”, música que quase encerra “Fenda” e nas experiências descobertas por Rita bota ela num caminho de sonoridade percorrido por artistas tão díspares quanto Warpaint e Chris Isaak, que no fim pode levar ao mesmo lugar. Coisas que oferecem respiro num dia rápido. Como “Roda” oferece um respiro em “Fenda”.

Bom, essa é uma análise sensorial, na verdade. Tanto de “Roda” quanto de “Fenda” em si. Cada um sente a sua. E, como mostra Rita Oliva em suas descobertas que viraram um disco, para ela e para nós ninguém disse que seria fácil.

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“Escrevi essa música baseada numa história familiar. Ela foi inspirada na minha vó, que toca piano desde cedo. Sempre foi muito talentosa. Ela sempre me contou de como ela tinha potencial, um maestro chegou a se encantar com o talento dela, mas ela acabou escolhendo o destino de casar, ter filho. Na época a mulher não era estimulada a seguir carreira. Mas dentro da minha cabeça eu sempre senti essa coisinha dentro dela que ela poderia ter ido mais longe com o piano”, conta Rita.

“Claro, isso pode ser mais meu do que dela, mas eu tinha essa perspectiva. Então ‘Roda” tem a ver com isso. Olha para traz e pensar no que ela poderia ter sido, ao mesmo tempo o que isso significa para mim, hoje, que posso seguir minha carreira.”

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* As fotos da Papisa, usadas neste post e na home da Popload, são de Déborah Moreno

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