Em semibreve:

SEMILOAD – Por que a música nova (?!) ainda insiste nos anos 70

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* “Como assim os anos 70 estão na moda?”, questiona Dora Guerra, da newsletter massa Semibreve, parceira da Popload no nosso “Long Read” semanal. Ela questiona e ela mesma responde. Como Dora diz, olhando seja para o ressurgimento seventies do Twenty One Pilots ou para a última piração temporal de Alex Turner, o importante aqui é lembrar que a nostalgia por si só já não é mais um fenômeno. A gente vive esta realidade.

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Antes de qualquer anúncio oficial, vazaram pôsteres do “retorno” do duo americano Twenty One Pilots – e a estética visual deles me surpreendeu um bucado. Já extremamente animada e acompanhando a divulgação de “Daddy’s Home”, novo disco da St. Vincent, me deparei com esse universo em que ambos se confundem.

O padrão é simples: os anos 70 estão em voga há um tempo – quase que desde os próprios anos 70. Nos últimos anos, vimos fenômenos feito “Uptown Funk”, música do Mark Ronson/Bruno Mars; a retomada “indie” disso, com “Tranquility Base Hotel & Casino”, o último disco do Arctic Monkeys; e a leva disco assustadoramente forte no ano passado. Ainda assim, o ano é 2021 e temos St. Vincent, Twenty One Pilots (que não confirmaram nada, mas estou deliberadamente os usando para fortalecer o argumento) e Silk Sonic fazendo grandes anúncios utilizando TVs antigas. Temos ainda o grupo inglês Dry Cleaning, queridinho da Popload, gravando vídeo em cassete. É, galera… Estamos mergulhando (de novo!) em uma década que não volta mais.

É importante lembrar aqui que a nostalgia por si só já não é mais fenômeno; é realidade. A palavra nostalgia está tão na ponta da língua que foi até nome de álbum em 2020. O nosso presente é, quase que o tempo todo, meio passado. Na era da reprodutibilidade técnica, você pode simplesmente baixar instrumentos que simulam os sintetizadores setentões sem medo – em termos de moda e visuais, então, eu mesma quase faço de casa.

E, se já vivíamos uma era espontaneamente nostálgica – na leva da série “Stranger Things”, o grande exemplão caricato da nostalgia no século XXI –, nosso momento escapista definitivamente não nos ajuda. Enquanto a situação ainda é do mundo e não só brasileira, nada mais natural que a população global mergulhe em lembranças de aglomerações, discotecas e a sensação (ainda que ilusória) de que podemos estar em outro espaço-tempo.

E existe até uma teoria famosa por aí de que os ciclos nostálgicos acontecem de 20 em 20 anos, né? Isso significa que, segundo essa lógica, estaríamos revisitando os anos 2000 (e estamos também). Mas onde os anos 70 entram nessa história?

Afinal: o que há de tão sedutor nos anos 70, especificamente?

Um motivo possível é que, à primeira vista, essa década encapsula o melhor da música e da cultura efervescente. Estamos falando daquela cena cultural que nos gerou os grandes clássicos, “antigos” o suficiente para se tornarem inquestionáveis, mas novos o suficiente para (alguns) ainda estarem por aqui.

E aí, meu amor, você pode até gostar do “Blackstar” (2016); mas não é fã de Bowie se não conhecer o “Hunky Dory” (1971). Pode amar “Star Wars – o Despertar da Força” (2015), mas tem que ter assistido “Star Wars – Uma Nova Esperança” (1977). E foi outro dia, inclusive, que os longas “Bohemian Rhapsody” e “Rocketman” estrearam, cimentando ainda mais dois dos maiores ídolos daquela época.

Ou seja: 50 anos depois, a cultura também não nos deixou largar mão dos anos 70.

Nesses termos culturais, tudo nos anos 70 parece promissor à distância: era um momento de experimentar. Musicalmente, tínhamos Led Zeppelin, Pink Floyd, Supertramp, que tentavam de tudo em músicas extensas; mas o experimentar não se restringia só a isso. Um tempo antes da explosão da AIDS, as sexualidades e multiplicidades estavam a pleno vapor, nos proporcionando Bowies, Freddies e outros gigantes – que, muito antes de Bad Bunny e Harry Styles, já tinham visões embaçadas do que era definitivamente masculino ou feminino.

E, para um Bruno Mars ou Alex Turner da vida (nostálgicos de carteirinha), trata-se também de uma década importantíssima para a juventude de seus pais – ou seja, um período fadado a influenciá-los musical e culturalmente (afinal, todos nós, em alguma medida, aprendemos a cultuar os clássicos dos nossos pais). Não é só uma nostalgia coletiva, de uma década vivida até mesmo antes de eles existirem; mas uma nostalgia também individual, de ídolos e referências musicais com quem eles têm uma forte relação afetiva. Se você pudesse fazer algo próximo ao que seu pai te ensinou a ouvir, você não faria?

“Maybe I was a little too wild in the 70s”, canta Alex Turner em “Star Treatment”. Ele nasceu em 1986.

Acho que é isto: o romance. Quando vista sob um olhar romantizado, a década de 70 puxa exatamente dos pontos que queremos exercer, mas encontramos uma dura resistência política, social ou emocional: música primorosa, estilo de sobra e a ilusão de uma liberdade maior. Vale lembrar que a geração mais nova da música, composta por jovens TikTokers de sexualidade fluida e muita confiança identitária, não passeia tanto por décadas passadas a não ser os próprios anos 90 e 2000.

E, enquanto estes querem modernizar tudo (como devem), quem se ocupa em trazer de volta o ar setentão são os mais velhos: artistas em seus 30 anos, que se deparam com uma realidade absurdamente pesada e já não ostentam tanto otimismo.

Estou falando também com você, leitora/leitor na casa dos 30, que se pega ouvindo Fleetwood Mac para ver se apazigua o coração.

E, se ouvir “Dreams” enquanto desce de skate tomando suco realmente te traz paz, isso significa que você também faz parte da tendência de consumo. Não são só eles que decidem fazer a música anos 70; você também decide consumir e mostra que, enquanto a década de 70 resistir, você a comprará. O escapismo é de quem produz, mas também de quem ouve – e assim, o ciclo só acaba quando alguém decide sair.

Mas, sinceramente, acho que o clima setentão ainda é bem-vindo – enquanto nos servir bem e der vazão a nossas expressões artísticas, sem limitá-las a um molde de 50 anos atrás. Não é necessariamente inovador, mas não precisamos de muita inovação há um tempo (afinal, de novidades estarrecedoras já estamos cheios). Talvez esse seja exatamente o objetivo da nostalgia neste momento: para tanta mudança, os artistas nos compensam com garantias que sempre funcionaram bem.

Garantias feito guitarras e calças boca de sino.

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* A imagem da home da Popload, chamando para este post, é de 1971, da banda tiktoker Fleetwood Mac.

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SEMILOAD – Os truques do incrível Lil Nas X, o controlador da nova música

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* Nesta semana o grande evento musical foi o lançamento da canção nova do rapper, cantor e personalidade de internet Lil Nas X, “Montero (Call Me by Your Name)”.
Mas, pera, essa música já não tinha sido lançada? Por partes. Como assim partes?
A coisa não é tão simples quando o assunto é Lil Nas X e seu modo de lançar músicas e conduzir sua carreira. Você consegue acompanhar?
Para tentar entender qual é desse cara brilhante da nova música, convocamos a esperta Dora Guerra, da newsletter parceira Semibreve, que enxerga tão longe que vai desvendar para nós aqui todos os truques incríveis de Nas. Será que todos?

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Com o impacto gigantesco de “Call Me By Your Name”, que é assunto principal na maior parte dos sites gringos sobre música e nos fóruns religiosos, estive me perguntando por que o Lil Nas X era tudo isso. Eu conseguia SENTIR que ele era tudo isso, mas queria achar os argumentos certos.

Em um momento em que os popstars estão se sentindo mais confortáveis com suas sexualidades – expondo-as, explorando-as, não vivendo somente delas, mas dispondo-as quando querem –, Lil Nas X não é o primeiro rapper cis, preto e homossexual a dar as caras (tem uma galera já trilhando esse caminho: Kevin Abstract, Tyler The Creator e afins). É o primeiro, talvez, com esse nível de impacto e com uma relação tão tranquila entre virilidade e feminilidade.

Mas reduzir Lil Nas X à exposição de sua sexualidade é contraproducente – por mais que seja o papo que ele mesmo trouxe, isso por si só não explica a força dele. Sinceramente? Ele é um caso incrível de marketing e gestão de carreira; do tipo que eu faria um textão no LinkedIn se eu fosse outra pessoa com muito menos bom gosto.

Desde o início da sua explosão midiática – com o sucesso inacreditável de “Old Town Road” –, Nas (o pequeno) usa as redes sociais com maestria: é extremamente acessível, bem-humorado e, principalmente, um livro aberto. Seu produto principal não é a música, mas sua personalidade. Seguindo a linha de diversas outras celebridades, ele nos dá a ilusão muito bem construída de que está no controle de tudo que leva seu nome. E, como qualquer jovem inquieto nas redes sociais, ele não desaparece por completo, mas se mantém sempre relevante de alguma forma.

Esse marketing muitíssimo bem estruturado – que liga Lil Nas X a sua música, vídeos e tweets de forma intrínseca –, culminou em uma estratégia de lançamento como eu nunca vi.

Existem diversas formas de divulgar um futuro lançamento e, nos últimos tempos, a expectativa é cada vez menor. Contando com o fato de que todos nós – exceto a Sarah do BBB – estaremos em casa com a disponibilidade de ouvir o que é lançado, os artistas já não precisam espaçar ou fazer grandes anúncios adiantados para garantir que a gente saiba. É quase sempre assim: “Opa! A música nova sai amanhã, o disco sai semana que vem”. E o elemento-surpresa já é tão pouco surpreendente que, na verdade, o inesperado é esperar.

No caso de “Call Me by Your Name”, o truque foi este: deixar a gente esperando, por muito tempo – feito a Rihanna e o Frank Ocean fazem, com o contraponto de nunca realmente entregar. É normal, mas não é: para um artista pequeno, não existe muito propósito em dar pequenas prévias de uma música e não entregá-la por completo; para um artista do porte do Lil Nas X, isso até acontece, mas raramente com essa divulgação deliberadamente caseira.

Em outras palavras: há quase um ano (!!!), a música “Call Me By Your Name” era “vazada” pelo próprio artista, de tal forma que já havia uma compilação de trechos formando a música completa no Youtube. Seu TikTok era composto por vários vídeos com conotações completamente diferentes: memes com Hannah Montana (uma alusão a sua idade, inclusive), zoações com outros artistas ou simplesmente Lil Nas brincando com peitos falsos. O único fator em comum era, invariavelmente, a presença dessa música (até então, não-lançada) como trilha sonora.

Eram dicas, que já sugeriam possíveis (diversos!) usos da faixa no TikTok e em outras redes sociais; mais do que isso, que fizeram fãs implorarem pela música completa e não nos deixaram esquecer que essa música um dia sairia. Principalmente, dicas que ressaltavam o estilo do artista de conduzir tudo “com suas próprias regras”, brincando com a ideia de que sua gravadora inclusive não estaria a par da situação. Sabemos que é pouco provável – tudo deve ter sido arquitetado em conjunto com a gravadora –, mas isso não importa: com seu carisma, Lil Nas X tira tudo de letra.

Já era uma estratégia admirável, mas o resultado final ainda foi impressionante. Sabendo que tínhamos a música quase inteira, ele nos entrega (finalmente) a surpresa completa, contrabalanceando a divulgação caseira com um vídeo absurdo, repleto de referências, polêmico e até político – e se sabíamos muito da música, sabíamos pouquíssimo do vídeo até este sair. Assim, com um trabalho visual de botar qualquer cristão fervoroso para tremer, a falta de ineditismo da música passou batida.

Por fim, ele se blinda de qualquer possível crítica: se levando a sério quando menos esperamos, não se levando a sério quando não precisa. Por um lado, recebemos um vislumbre de um “Montero” mais vulnerável – em print de nota de celular –, desabafando brevemente sobre sua relação com a sua sexualidade; por outro, seu canal segue tendências do YouTube sem parecer forçado, enquanto o artista zoa Justin Bieber e enfrenta (com humor) um processinho da Nike no Twitter. Continuando o que começou, Lil Nas X está sempre online, rindo de si mesmo enquanto se divulga sem dó.

Sempre aparentemente espontâneo e, sem parecer, sempre no controle – com tudo tão bem arquitetado e funcionando, Lil Nas X está longe de ser um caso de one-hit wonder.

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SEMILOAD – Hook, drop, toquinho. Como a música vem se reinventando na Era TikTok

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* Nosso “The Long Read” de hoje, articulado por nossa parceira Dora Guerra, autora da newsletter mais necessária da música nova que eu conheço, a Semibreve, vai falar exatamente dessas transformações que essa música nova tem passado para se adaptar aos tempos atuais. Você sabe do que estamos falando: stream, Tik Tok, consumo digital desenfreado. Está preparado para o fim do refrão? Você curte os “hooks” das canções do Weeknd?
Não? Então a SEMILOAD vai te preparar.

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Música é como qualquer outra arte em tempos digitais. Não só não tem fórmula perfeita, como muda o tempo todo – principalmente quando precisa se vender. De uns tempos pra cá, a mudança vem sendo notável.

Eu mesma comentei ano passado sobre dois pontos já muito claros na música atual: o primeiro é a diminuição do tempo das canções (pop, especialmente). A partir do momento em que os artistas ganham por número de streams – ou seja, quantas vezes a música foi ouvida –, torna-se necessário encontrar formas de fazer você ouvir novamente. Se a música é longa, você não vai ficar ouvindo em loop; é matemática simples. O resultado é aquelas faixas minúsculas, com 2 minutos ou menos, que frequentemente acabam antes que você consiga digeri-las.

O outro ponto, que eu trouxe com músicas como “Blinding Lights”, do Weeknd (foto acima), é a inserção de um refrão (ou algo que lembra o refrão) logo no início da faixa – pensando que um stream, para o Spotify, conta só se você ouviu pelo menos 30 segundos da música. Isso fica claro em váaaarias músicas, a exemplo da viral “Girl like Me”, da Shakira/Black Eyed Peas. Logo a gente, com atenção tão difusa, precisa ser convencida a ouvir algo interessante antes de decidir tacar um “skip”. Melhor já entregar o ouro, certo?

(E bote ouro nisso).

Pois é. Eis que surgiu um ótimo artigo (como sempre, porque esses caras são incríveis) do Nate Sloan e Charlie Harding – a dupla Switched On Pop – para o “New York Times”. Nele, os músicos-musicólogos analisam as novas tendências com um olhar ainda mais atualizado. Otimistas, celebram o fim de uma certa estrutura tradicional, de verso-pré refrão-refrão.

Nisso, os autores já me desbancam (ou sustentaram meu ponto?) afirmando que o refrão, hoje, nem sempre precisa existir. O argumento deles é o seguinte: o que existe agora – e é um termo inclusive utilizado por compositores – é o “hook” no lugar do “chorus”; em bom português, tem que existir um gancho, que não necessariamente é um refrão de alguns versos cantado várias vezes ao longo da música.

Esse gancho pode ser, inclusive, o famoso “drop” – aqui eles listam “We Found Love” como um exemplo de hit da última década, já pautado em uma nova lógica. E, de fato, o ponto alto da faixa não é o momento em que Rihanna (foto na home) canta o verso que dá nome à música, mas quando a canção cai no clímax eletrônico. Sabe do que eu tô falando?

Pois eu cubro a aposta de Nate & Charlie e ainda acrescento: essa espécie de drop pode ser simplesmente uma viradinha, que é suficiente para tiktokers e afins. O drop é muito comum em músicas derivadas do EDM (e foi extremamente comum nos anos 2010) e ainda reaparece em canções populares, feito nas músicas do Major Lazer.

Mas às vezes não precisa ser tudo isso. O que a música precisa ter é um ponto em que ela se transforma – ou até pausa: só o “Stop, wait a minute”, de Uptown Funk, já é hit no TikTok. É nesse momento que os virais são criados: você dá tudo que as pessoas querem, fornecendo um clímax rápido para uma transição audiovisual. E, mesmo que você não esteja preocupado em viralizar, é um aspecto interessantíssimo de qualquer forma: nada te destaca melhor de uma multidão de músicas previsíveis que uma surpresa bem construída.

Mas outro gancho fortíssimo – e que a galera sacou aqui no Brasil talvez com muito mais antecedência e sucesso que os americanos – é aquela melodia pegajosa. Não necessariamente a do refrão: uma mais marcante, um gancho real, como no que muita gente por aí chama sabiamente de “toquinho” (lê-se tóquinho; não confundir com o artista Toquinho).

Nada supera a força de uma melodia infalível, que conversa com os vocais, mas não é a mesma que a deles. Esse é um elemento que o funk e o piseiro já incorporaram há muito tempo, recuperando a “flauta envolvente que mexe com a mente” de Bach para tornar uma música inesquecível. Um salve pro Mc Fióti.

Aliás, não estamos inventando a roda aqui – esse é um recurso clássico. Mas ele vem aparecendo com frequência, especialmente no início da faixa. Voltando ao exemplo de “Blinding Lights”: o que te conquista é aquela melodia com tratamento anos 80, muito antes de ouvir o Weeknd cantar.

E, se você analisar bem a história do “toquinho” e do drop, vai encontrar um personagem essencial para a nova música: o produtor. Não é à toa que DJs e produtores passaram a se tornar estrelas também – quando as canções eram naquele formatinho clássico de banda, era difícil precisar a contribuição do produtor; você valorizava mais os compositores, que muitas vezes eram (ou fingiam ser) a própria banda. Hoje, Calvin Harris e Rihanna dividem créditos porque sabemos que não foi ela quem deu o toque principal da música. E, de repente, nomes feito Mark Ronson, Diplo, Timbaland, Pharrell não importam só para quem tá dentro da indústria: são beeem conhecidos pela gente, também.

Nada disso é de agora. O produtores não ficaram importantes: sempre foram; esses elementos todos sempre existiram também em alguma medida. Mas a combinação desses fatores – tamanho da música, estrutura mais solta, melodia marcante logo no início – é um combo extremamente atual. ou ainda: “Light My Fire”, dos Doors, seria uma música a cara dos anos 2020 se, para início de conversa, tivesse um terço da duração (e um clipe nonsense com feat. da Doja Cat).

Afinal, vale fazer tudo isso e seguir fórmula para ganhar dinheiro? Para os românticos, respeitar fórmulas pode soar como um enterro da criatividade; o que é verdade, em partes. Mas, para mim, o curioso é que não se trata somente de uma estratégia de mercado: são truques psicológicos, que buscam entender não só como driblar o algoritmo, mas como fazer algo que soe atraente para o público de agora (e isso já é beeeem diferente do que soava atraente há uma década).

É, afinal, dar aos fãs o que eles querem ouvir de novo, de novo e de novo.

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SEMILOAD – Oba, domingo tem Grammy!!!!! Mas, antes, uma espinafradinha básica nesse prêmio zoado

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* Sempre odiei os xexelentos e arranjados prêmios Grammy, mas nunca quis gongar (muito) por aqui, para não me chamarem de mal-humorado e tals. Indie velha-guarda que não compreende o tamanho do pop dessa “distinta premiação” da indústria bajulando a própria indústria, atrasado e segregador e tudo mais. Mas aí a Dorinha Guerra, 22, achou de dar uma gongadinha rápida no evento que acontece domingo, em sua excelente newsletter semanal Semibreve, que eu corri para chamá-la no Whatsapp para desenvolver mais o tema: “Traz essa VERDADE para a Popload”. E aqui estamos.

Não sou que estou falando, ok? É a Dora!

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Como em todos os anos desde a primeira edição – mais de 60 anos atrás –, lá vem um domingo de Grammy. E, em como todos os últimos anos desde que descobrimos que a Academia adora ser machista e racista, você pode estar se perguntando: em 2021, vale a pena ver ou se importar com os Grammys?

Muita gente já decidiu que não. O Kendrick Lamar é uma dessas pessoas; Fiona Apple não quer ver os Grammys nem re-pintados de ouro (mesmo indicada!); o novo queridinho do clube anti-Grammy – e injustiçado do ano –, The Weeknd, concorda.

E esse foi realmente o vacilo da vez: quando “After Hours” – um dos melhores e mais relevantes álbuns do último ano – não ganha nem uma menção, algo de muito errado aconteceu. E olha que a Recording Academy tem categorias reservadas para os artistas negros, já que não gosta de conceder a eles, parece, as categorias principais; eles geralmente dão prêmios de Rap, Urban ou R&B para os negros e deixam por isso mesmo. Neste ano, não – até onde o Grammy sabe, The Weeknd simplesmente não existe. E até onde o The Weeknd sabe, o Grammy também faleceu.

Mas não é só Abel que anda falando mal por aí. Li que Zayn Malik sugeriu que “há corrupção nos bastidores da Academia”. Agradeço a sugestão, mas acho que é quase da mesma linha que sugerir que há algo de errado na mansão de 6 milhões do Flávio Bolsonaro: é óbvio. E eu vou além e ressalto que, assim como Flávio, a Academia sobra em babaquice – vide 2018, quando Neil Portnow (então presidente da Recording Academy) afirmou que a falta de mulheres no prêmio era porque “elas tinham que melhorar”. Essa aí é um clássico.

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Mas, se existe algum motivo para ainda prestar atenção nos Grammys, talvez seja exatamente este: concorde você ou não com a definição de rock do prêmio, fato é que desta vez a categoria incluiu só mulheres – e os homens têm que melhorar. Por Phoebe Bridgers, Fiona, HAIM, Brittany Howard e Big Thief, o Grammy conseguiu alguma parcela mínima de acerto. E mais: conseguiu que um gênero estagnado como o rock parecesse interessante e “fresh” novamente. Um beijo para as responsáveis.

Outro motivo é o de sempre, mas que infelizmente ainda não vacilou: apesar de o prêmio geralmente ser longo e um pouco maçante, as performances sempre rendem alguma coisa. Foi o Grammy que combinou St. Vincent e Dua Lipa, Daft Punk e Stevie Wonder. Neste ano – em que essas apresentações ainda são o mais próximo que temos de um show –, tem BTS ocupando um espaço gigantesco na indústria americana; tem .Paak e Mars, tem Cardi e Megan. Ainda tem artista que joga o jogo, gente importante e talentosa, que acaba nos atraindo para o lado de lá da força. E, enquanto eles não boicotam a premiação, fica difícil para nós, reles mortais.

Então, se você quer ver tudo isso, vai lá assistir – com a mão na consciência. É aquele dilema de separar arte do artista, aplicado a um evento e uma premiação inteira; quando você detesta parte da instituição, mas valoriza alguma outra fração, fica ainda mais difícil. E a Recording Academy sabe disso.

E, para quem vai para a festinha na casa do The Weeknd para não ter que assistir, não se preocupe: os Grammys estão, sim, caminhando para a insignificância. Há muito tempo, eles já não são determinantes do que realmente foi bom – quando você compara as listas de “melhores da última década” com quem realmente venceu Grammys, vai ver que a conta não fecha (nem chega perto). Ironicamente, a própria Recording Academy se esforça para contribuir para o próprio fim. A galera deve estar tão intrincada na corrupção que não consegue se atualizar de verdade, homenagear quem merece.

O engraçado é que, depois de escândalos como o de Portnow, a Academia está há anos mudando categorias, trocando cargos sêniores, dizendo que se empenha. Todo ano, eles prometem que “agora vai”. Bom… não foi não. E convenhamos? Não vai mais.

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SEMILOAD – O caos colorido e divertido da cantora Remi Wolf, na contramão do pop da melancolia

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* Nesta semana instigamos a Dora Guerra, dona da espertíssima newsletter quartafeiriana “Semibreve”, a falar mais de uma paixãozinha dela, a cantora californiana Remi Wolf, 25 anos. Era a segunda vez que Dora vinha, numa mensagem de Whatsapp inocente, falar bem da menina mais colorida da música atual e chamar a atenção para coisas dela. Então por que não escrever sobre ela, do “jeitinho Dora” absurdo de enxergar a música para além da música. Porque claramente “enquadrar” Remi no mundo pop de hoje não é (só) falar sobre suas canções. É elucidar meandros de comportamento, tendência, autodefesa, necessidade de existir e falar sobre essa existência, de se divertir. E, olha, não conheço ninguém com essa “lupa jovem” melhor que a Dorinha.

Curta esta Remiload. Ou seria Semiremi?

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O que acontece se você pegar todos esses artistas bem geração Z, jogar bastante cor e uns chapéus engraçados no liquidificador e reservar por 5 minutos?

Você tem algo como Remi Wolf, uma das artistas mais interessantes que eu tive o prazer de descobrir no último ano.

À primeira vista, na verdade, Remi pode parecer ter a mesmíssima idade que BENEE ou Claud – mas, na prática, ela é alguns anos mais velha, em um momento em que isso faz toda a diferença. Remi tem idade o suficiente para ter uma formação musical universitária finalizada; ter feito uma audição no American Idol que J.Lo achou bastante surpreendente; e, ao contrário de quem completa a maioridade já com uma carreira artística a pleno vapor, já teve mais tempo para decidir quem queria ser antes de começar.

Ainda assim, Remi Wolf é nova o suficiente para ser a cara da playlist “lorem”, literalmente falando e com o significado que isso tem hoje para a nova-música-nova. Com roupas largas e um estilo cuja única preocupação é se divertir – sem refinamento, sem elegância, com várias estampas brigando entre si –, Remi ainda é bastante simbólica desta nova geração que sabe se expressar como ninguém.

Ela ainda traz o mental health que a gente tanto fala: tem um assumido TDAH (déficit de atenção) e, inclusive, puxa inspiração dele para compor. Afinal, para muitos de nós – e aqui eu vou ter que me incluir porque, surpreendentemente para mim, Remi é até mais velha que eu –, ficar calado sobre o que você sente não é bem uma opção. E ostentar seus transtornos de cabeça erguida é uma nova forma de mostrar algo do tipo “É isso que eu tenho e não me impede de ser quem eu quero”.

Mas, fundamentalmente, Remi está no oposto do espectro melancólico que muitos desses seus colegas frequentam: na verdade, ela é a definição de euforia, de uma forma absolutamente inesperada para alguém que lançou álbum de casa, na quarentena. E de forma bem-vinda para gente como a gente, que não conseguiu encontrar essa euforia toda sozinha.

É que, dado o tamanho do buraco em que estamos de forma global, você tem duas alternativas: fazer uma visita ao fundo do poço e narrar o passeio ou criar um universo paralelo próprio, onde as coisas estão mais em ordem simplesmente por não terem ordem nenhuma. Remi é adepta da última: seus vídeos saturam a nossa visão com intensidade absurda, sem a menor pretensão de minimalismo. E, quando você entra no mundo de Remi Wolf, você inevitavelmente sorri.

Tudo isso embalado no que ela define por “funky soul pop”, já adiantando que não gosta nem vê o ponto de definir esse tipo de coisa; para ela e para todo mundo que é novo artista, rótulos não fazem muito sentido mais e “tudo é sopa”. É sopa mesmo, das melhores.

E, como uma boa jovem que criou TikTok na quarentena, Remi ainda é extremamente criativa, sem o menor medo de se expor. E isso traz um tempero extra a sua forma de ser artista: é o mais rock’n’roll que temos, posando só de calcinha e Crocs com toda a noção de que ela pode fazer o que quiser. Essa é a filosofia de Remi, aparentemente: ela está muito ocupada se divertindo, sem tempo pra se questionar. Com claras influências da galera de garagem dos anos 90, mas com altíssimas pitadas de anos 2010/2020 e um tempero só dela. E isso transparece de forma muito nítida em sua música – nos EPs “You’re a Dog!” e “I’m Allergic to Dogs!”. Percebe a despreocupação da mulher?

No fim das contas, o grande diferencial de Remi Wolf é conseguir fazer tudo ter cara de caseiro no melhor sentido; ela se apresenta pulando como se estivesse na sala de casa ou traz Dominic Fike para escovar os dentes com ela. Acessível na medida, mas não replicável.

É convidativo demais. Remi Wolf nos lembra que bom humor vende. E que está em falta. Por que será?


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