Em semibreve:

SEMILOAD – Ainda sobre a Anitta e a música número 1 mundial dela

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* Anitta deixando o Coachella de quatro e ainda fazendo twerk. Anitta levando Snoop Dogg, Diplo e a cantora-rapper Saweetie para o palco. O enorme The Weeknd citando a bunda da Anitta no show headliner dele. Anitta deixando o grande radialista Zane Lowe sem fôlego em entrevista ao vivo para o programa dele na Apple 1.

A gente ainda está meio tonta com tanta coisa que a Anitta anda armando nestes últimos dias e olha que ela ainda tem o segundo show do Coachella Festival no próximo final de semana para sacramentar de vez sua internacionalização.

Mas queremos voltar àquele assuntinho sobre a música “Envolver” e a “trama” para a música ser a mais ouvida do mundo.

Queremos é modo de dizer. A Dora Guerra que pilota esta Semiload a partir da ótima newsletter dela, a Semibreve, é quem quer. Então…

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Eu ia tentar sair contra a onda e falar de um assunto que não fosse a Anitta nestes últimos dias. mas não tem jeito: no meu Twitter, no Twitter dela, no de todo mundo, só de fala dela; não só no dia de lançamento do álbum da artista, mas há semanas – em parte, por uma estratégia surpreendente e histórica de tornar “Envolver” a música número 1 do Spotify.

A Anitta fez história, quebrou recordes nunca alcançados, aparentemente chegou lá: com a faixa, um reggaeton lento e sexy acompanhado de um ótimo (e dificílimo) desafio no TikTok, a artista pegou número 1 no ranking global de músicas da principal plataforma de streamings do planeta. Um feito inédito, que só alguém como ela conseguiria nessa “velocidade”.

Acontece que uma façanha assim, que envolveu mutirões e mutirões de brasileiros ouvindo a música diariamente, gera questionamentos. Vale ressaltar: nem sempre essas dúvidas são uma forma de invalidar a conquista da cantora, mas podem levantar dúvidas quase naturais. Eu mesma os tinha. Afinal, nessa luta de Anitta para conquistar o mercado internacional (estadunidense), com a dificuldade em decifrar o que está de fato tocando nas rádios por lá e o apoio brasileiro nessa onda, não tem como não se perguntar: e aí, já deu certo?

Em outras palavras: esse Top 1 global é global mesmo ou é brasileiro?

É nessa pergunta – a pergunta de ouro – que a questão fica mais complexa.

A “Folha de S.Paulo”, a UOL e afins fizeram essa pergunta. Mais do que isso, obtiveram alguma resposta: relataram que o resultado era, entre outras coisas, causado por um “hack” no algoritmo por parte dos fãs da Anitta. Por exemplo: ao criar mais de uma conta e várias playlists com “Envolver”, isso definitivamente ajudaria os números. Investigando um pouco mais, os jornalistas chegaram a uma conclusão que não era de fato tão inesperada – a maior parte dos streams vinha, sim, do nosso país.

Assim como eu acho normal levantar a dúvida, acho normal o jornalismo respondê-la (não curto, inclusive, as respostas na linha defensiva-ofensiva que a artista dá aos jornalistas, mas isso é outra história). Temos que entender que não estamos habituados a esse tipo de coisa como a galera da gringa está.

O ponto é: nada de realmente bizarro ou profundamente errado aconteceu no caso da Anitta. Resumindo, tudo faz parte do jogo. Ressalto aqui para você um detalhe, como fiz umas edições atrás: as grandes gravadoras são acionistas do Spotify e, portanto, o negócio já tem um sistema não necessariamente transparente. Será que é tão errado hackear uma plataforma já entregue à indústria? Fãs de K-pop (leia-se: BTS) sabem disso há muito tempo. O negócio é dar uma driblada no algoritmo e ter seus truques, o que não deixa de ser uma manifestação significativa de que aquele artista tem ouvintes dedicados.

“O consumo de música nunca foi orgânico. Se hoje tem “hack”, antes tinha jabá/payola” – Dani Ribas, no Twitter

Ou seja: o número 1 da Anitta tem que ser interpretado com cuidado por todos os lados. Em um ponto, é importante lembrar que nenhum número do spotify é realmente confiável. Por outro lado, um número 1 é um número 1 – se qualquer um fosse capaz de conseguir, todos conseguiriam. Um hack é uma forma de contornar o sistema, sim, mas não é o mapa do tesouro. Ele depende de muita gente por conta disso, a fim de apoiar um artista. E, se você pensa profundamente sobre o assunto, o topo daquela lista começa a se tornar uma recompensa até pequena para tamanho esforço.

Por fim, o principal: esse número 1 não diz nem que a Anitta tem a música mais ouvida no mundo, nem que a Anitta não está bombando lá fora. É um dado que existe mais como causa do que como consequência, em uma lógica bem maluca: uma forma de dizer “Ei, mundo, se você não estava prestando atenção, deveria”.

Não se pode ignorar a artista ou a música que pega o topo de uma lista como essa. E aí, se esse resultado foi autêntico (coisa que praticamente inexiste), essa é na verdade a menor das questões.

(Saiu uma carta aberta da assessoria da Anitta sobre o assunto, inclusive, caso te interesse).

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* Dora Guerra tem os tweets número 1 lá no perfil dela, o @goraduerra.

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SEMILOAD – O Lollapalooza tirou a música que estava presa dentro de nós

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* Se você acha que a esta altura todos os aspectos do gigantesco Lollapalooza Brasil já foram abordados, pensa direito! Dora Guerra, a moça da newsletter mineira Semibreve, de corpo e alma em terras paulistas para conferir o Lolla BR, traz de dentro dela um ponto importante sobre o festival do final de semana passado.

Diga, Dorinha!

DOJAgalera

Bora lá ainda falar de Lolla?

Desta vez, em termos mais práticos – menos no saudosismo de quem não via festivais há muito, muito tempo –, me peguei pensando no que fez com que alguns shows fossem curiosamente melhores que outros.
É gostoso ter um distanciamento, mesmo que as músicas tenham uma relação afetiva fortíssima com a gente.

Sinto que show em festival precisa essencialmente da interação para funcionar; dos pequenos e grandes momentos de conexão com a galera, mais que as músicas em si. E, por isso, quando um artista se esquece da plateia do outro lado, a gente sente claramente, porque parece um show pré-gravado – não algo que depende da nossa reação para acontecer. Nem sempre isso vem de propósito: senti isso um pouco no show da Gloria Groove, que me pareceu entregar muita energia à execução do show “perfeito” sem se lembrar de conversar tanto com a gente.

Mas pode acontecer por falta de carinho com o público também, escancarando a parte mais feia dos artistas que ninguém quer ver. A última coisa que um público quer é sentir que é dispensável. Pois nos sentimos: em um show dos Strokes que só foi perdoável para quem ama demais as músicas, o diálogo de Julian Casablancas com a plateia era, mais uma vez, um monólogo – em que ele não fazia questão de 1) ser compreendido ou 2) de fato estar lá. Entre isso, as letras erradas e pouquíssima sobriedade por parte do vocalista, de repente você se pega com raiva de conceder à banda seu tempo e dinheiro.

Em contraste, poucas coisas são mais deliciosas do que ver um artista emocionado de estar ocupando aquele palco. É questão de fingir que o poder está com a gente, ainda que esteja, na verdade, inteiramente nas mãos do artista. Essa foi a melhor parte de shows grandes como da Doja Cat e Marina, assim como de artistas menores e nacionais: muitos deles genuinamente surpresos e felizes com o mero privilégio de estar ali.

Não que seja necessário ser humilde o tempo todo. Miley Cyrus, por exemplo, não o foi – ela sabe seu tamanho, sabia a recepção que teria e em nenhum momento se demonstrou falsamente surpresa com a multidão gigantesca a aplaudindo e cantando todas. Por que deveria?

Em vez disso, a artista usou de outras artimanhas, tão eficazes quanto: entre elas, a conversinha fiada enquanto retocava a maquiagem que tirava da bolsinha. Esses breves momentos conseguem ser quase tão bons quanto as músicas em si – quando o artista não performa, ou performa mas disfarça de vida normal; finge que somos amigos dele; compartilha um momento; nos faz acreditar que aquilo ali ninguém mais viveu com ele.

Na verdade, um festival pode proporcionar diversas artimanhas, que foram muito bem usadas (de Kehlani a Fresno): encontros, convidados, pseudodecretos feitos por pseudopolíticos e a vontade de mandar todo mundo tomar no cu. A resposta brasileira a tudo que rolou foi um festival à parte – ainda que o público do Lolla tenda a ser bastante privilegiado e um recorte específico das pessoas, existiram palcos (literais e não) para algumas falas importantes.

Nesse momento, entrou uma cumplicidade a mais, especialmente envolvendo cantores e bandas brasileiros. Desde 2018 – e especialmente quando rola um decreto desses –, a função desses artistas passou a ser não só de entretenimento, mas de representação de uma mensagem maior. Claro, a arte é sempre política e a música sempre teve esse propósito. Mas, ultimamente, esse propósito teve que deixar de ser subliminar e ficar bastante explícito, constante, como se não pudéssemos curtir sem ter que dar uma resposta a este contexto horrível.

O lolla foi um evento-teste em mais sentidos que eu esperava: foi o primeiro grande festival que tivemos no país pós-retorno, em ano eleitoral, em uma espécie de fim-do-fim-do-mundo – uma aglomeração que parecia estranha nos primeiros minutos, até que você rapidamente esquecia que já houve outra realidade.

Era uma prova que eu precisava pessoalmente, aliás. A Semibreve, e por consequência a Semiload, é quase um produto de pandemia, mas eu já vinha questionando a minha relação com música. Dentro de casa, naquela realidade paralela de quem não estava vivendo, eu achava que não vinha absorvendo muito o que ouvia – não como quando eu tinha diferentes ambientes, emoções, acontecimentos. Mas parece que algo ficou, sim: a recepção calorosa de artistas como Doja Cat e Marina Sena (artistas cuja fama é produto de anos pandêmicos) botou tudo à prova. É verdade – estivemos, nos últimos dois anos, vivos, ouvindo e absorvendo música mesmo sem escape.

O lolla escancarou o quanto a música vinha ressoando dentro de nós, resistindo – e estávamos doidos para botá-la para fora; gritar, entoar, cantar, dizer muito do que vinha sendo apenas digitado dentro de casa. Foi muito gostoso lembrar que música é gente: calor de gente no público, gente cantando, gente tocando, gente, gente, gente.

Gente é para ver show.

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* Dora Guerra botou tudo para fora no Lolla e no Twitter, no perfil @goraduerra.

** A foto da chamada para a Semiload na home é da cantora Doja Cat. A do post, acima, é do público da Doja Cat. Ambas de Camila Cara/Lollapalooza Brasil.

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SEMILOAD – A montagem de um festival e todas as tretas que isso envolve. E mais: precisa mesmo ter line-up repetido?

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* Semana que vem temos o Lollapalooza Brasil e, aparentemente, vamos reiniciar a era dos grandes festivais internacionais no Brasil. Ainda: nesta semana que passou, o festival brasileiro Turá começou o anúncio de uma escalação enorme, de 26 atrações, enquanto o Coala Festival paulistano e o Queremos carioca turbinaram também seus line-ups.

Festivais gigantes, médios ou pequenos. Nacionais ou gringos. Todos eles geram graaaaaaaande discussão em todos os lugares, principalmente no “tribunal do Twitter”, por vários motivos. A escalação é boa, a escalação é ruim, queria tal banda, aquele grupo de novo?, o preço do ingresso tá alto demais, esses line-ups estão todos parecidos. A discussão é grande nas redes.

Então, nossa paladina de assuntos musicais polêmicos, a Dora Guerra, da grande newsletter Semibreve, resolveu falar uma coisa ou duas a respeito dos festivais e suas pendengas gerais. E saiu isto aqui:

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Os festivais estão voltando – ainda bem. Sensação boa, apesar de dar aquele nervoso: “Dou conta mesmo de me misturar com tantas milhares de gentes depois de tanto tempo?”. A gente se vira, a gente se encaixa. Sempre vale a pena.

Mas, com o retorno dos festivais, retorna também o sentimento clássico de que, bom, o line-up de vários é… meio igual. Na verdade, em se tratando de festival brasileiro, parece que o line-up nacional é tipo elenco britânico: só tem dez nomes diferentes para variar entre eles (e todos fizeram “Game of Thrones”).

É fácil se incomodar com isso, mas nem sempre dá para entender o motivo dessa repetição toda. Afinal, será que existe tipo um “artista de festival” (vide: oito a cada nove festivais nacionais de médio porte têm Marina Sena)? e será que essa “mesmice” é culpa dos festivais mesmo? O que está por trás do processo para formar um line-up?

Conversei com algumas pessoas que entendem do negócio – organizadores/produtores, gente por dentro e tal – e tô aqui para te tirar um pouco dessas dúvidas… Até para a gente não ficar só reclamando no Twitter.

Para começar, vale lembrar um ponto essencial: organizador de festival, boa parte do tempo, também é originalmente um fã de música. Não é interessante para eles ter o “mesmo” line-up que todos os outros. Se eu fosse organizar o Festival Semibreve, amor, eu ia querer que fosse uma experiência única e inigualável, com curadoria de milhões. Mas, ao contrário de mim e você – meros frequentadores –, os verdadeiros organizadores têm muito mais a pagar, literal e figurativamente.

E por isso, por mais que a intenção geralmente seja a de bancar um festival inovador, na prática o buraco é sempre mais embaixo. Em muitos anos, os eventos chegam a gerar dívidas, ao invés de lucro – ou seja, você pode tentar uma loucurinha neste ano, mas ano que vem você precisa pagar as contas (pode reparar: muito festival tem um line-up com algo mais “arriscado” em um ano, depois um lineup previsível no ano seguinte. faz parte).

E claro: em todos os casos, você tem funcionários acima de tudo. E aí, se você não quer ficar sem pagar gente que está fazendo o negócio acontecer, não dá para bancar tanta inovação assim.

Para as contas não ficarem no vermelho, você às vezes tem que ir pelo seguro: bancar os artistas que você sabe que dão retorno. No caso dos festivais de médio porte, não dá para chamar artista gigantesco o tempo todo, mas dá para convidar os médios – aqueles com apelo mainstream, números consideráveis e que vendem ingresso. Mais que isso: gente que entrega um show com energia de festival, o que é bem diferente de um show solo. Temos lá as Duda Beat, as Marina Sena da vida; constantes que, inclusive, a galera vai reclamar se não estiverem.

Aí entram outros detalhes, que os organizadores não vão te revelar mas eu te revelo: Às vezes, os artistas vêm em pacotes “peça 1 leve 2”, o que também faz parte do business. Isso pode acontecer de forma mais direta, quase “imposta”, mas também pode acontecer na sutileza – “Sim, você pode ter a Duda Beat, mas rola um espaço no seu line-up para a Dora Guerra?”. isso não é sempre um problema, mas tem duas consequências: primeiro, o festival não necessariamente queria a Dora Guerra; segundo, ficam ainda maiores as chances de esses dois nomes estarem presentes em vários festivais, em vez de só a Duda Beat. De 2 em 2, a galinha enche o papo (e você enche o saco de ver o mesmo line-up).

Também pode rolar de os patrocinadores terem uma banda mixuruca que, por acaso, gostaria muito de fazer parte do festival.

Outra fofoca que vale trazer – mas que deve acontecer menos no caso de festivais médios e nacionais – é que rola um veto, também. É, amor, às vezes line-up é tipo prova do líder… E um headliner pode simplesmente falar “Vou, sim, mas só se não tiver a Dora Guerra entre as atrações”. Em um universo repleto de egos como o da música, esse caso rola com certa frequência para festivais maiores e de proporção internacional.

Fora tudo isso, entram os agravantes de sempre: quem está de fato fazendo turnê ou disposto a fazer show? Quem tem agenda para tanto? Quem cabe no meu orçamento? Prefiro arriscar prejuízo com artista x ou prefiro investir em estrutura? O que devo aos patrocinadores?

Quando você pára para colocar tudo no papel, começa a entender que não é tão simples formar um line-up diferente dos outros, que dirá um diverso como a gente gostaria – em termos de variedade e puramente de diversidade de pessoas, mesmo.

Mas ter dó da vida complicada de organizadores de festivais não significa que a gente tenha que poupá-los de algumas coisas. Afinal, não é que não há organizadores dispostos a fazer o festival que a gente gostaria. E, enquanto frequentadores, temos lá nosso papel: 1) o de pedir os shows que queremos ver e 2) denunciar, especialmente, quando o line-up aponta uma certa injustiça ou predominância de homens, brancos, cis e por aí vai.

Esse esclarecimento de hoje vem com um objetivo somente: para você saber o que pedir e como pedir. Para saber que, se seu artista preferido não veio, calma! Ele ainda pode vir. Tem que dar stream, dar número, mostrar a ele, ao empresário e ao produtor que você o quer por aqui. E, quando de fato rolar – se couber no bolso e na agenda –, prestigiá-lo. Afinal, tem que mostrar a todos que valeu a pena trazê-lo. Só assim a gente bota o line-up para girar.

E convenhamos: mesmo que você esteja carimbando o cartão fidelidade de shows de certo artista em festivais, tem uns que sempre valem a pena. Tô falando de você, Baianasystem.

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* Dora Guerra adora discutir um line-up repetido no Twitter, lá no perfil @goraduerra.

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SEMILOAD – Ela, ele, elu e as variações dos gêneros de gente nos gêneros musicais

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* Uma das questões mais delicadas de se materializar em texto hoje em dia, Dora Guerra, a moça da excelente newsletter quinzenal “Semibreve”, nossa parceira na transposição para esta “Semiload”, transforma em suave a tarefa de versar sobre gênero. Como ela diz, o de gente, não o de música. Mas na música. Na letra. Na interpretação. Unindo Arctic Monkeys e Chico Buarque. Pabllo Vittar e Carpetgarden.

É assim, ó:

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Eu adoro pensar sobre os gêneros (gêneros de gente, não de música) nas letras.

Sempre admirei o intérprete que canta uma música que não tem a ver com sua realidade, mas diz a letra sem alterá-la: um homem hetero que canta sobre ser mulher e amar um homem, por exemplo. Eu gosto dos “desencontros” que isso provoca – além de achar que ser intérprete diz respeito exatamente a interpretar um papel dado pelo compositor; o resultado final depende de contexto e do que a plateia há de tirar disso tudo.

Acho lindo quando Chico Buarque canta em gênero feminino – não porque diz respeito a ele especificamente, mas porque existe um pacto silencioso entre artista e plateia ao reconhecer que essa é apenas uma história, vinda de um cancioneiro. Por vezes, essa história passava inclusive por um relato de amor lésbico; a voz de Chico, doce e melancólica, só relatava com sensibilidade o que se passava.

Mas saber do artista às vezes proporciona mais do que uma boa história: a música vira meio elemento de protesto, até. E outra mágica acontece muito propositalmente nesses desencontros: quando, simplesmente ao reinterpretar uma letra, ela passa a ter uma dose extra de ironia, uma sacada a mais.

Tem dois casos clássicos – e inesquecíveis – dessa subversão: por exemplo, quando ao recuperar uma música de machão, Ney Matogrosso canta “porque eu sou é homi” de saia, maquiado, afeminado. Porque ele é, é homi – e como é. Outra expressão genial disso cabe à Marina Lima, que reinterpreta Erasmo Carlos se declarando a uma mulher, e diz: “Você precisa de um homem para chamar de seu… mesmo que seja eu”.

Nesses casos, é uma subversão; no de Chico, uma história delicada. Mas, em muitos outros, pode ser simplesmente uma brincadeira, uma cover para não ser levado a sério porque é apenas uma reinterpretação. É o que acontece quando Alex Turner, em sua voz rouca e baixa, canta sobre “my fella, my guy”, um homem que parte seu coração. Se é verdade ou não, de que importa?

Essa brincadeira também aparece frequentemente nas músicas de Pabllo Vittar, por exemplo, que não só usa os pronomes femininos como se diz mulher – na diversão sutil de quem na verdade navega em outro paralelo enquanto drag queen. Esboço uma risada quando ela recanta “Ânsia”, composição que fez sucesso originalmente na voz de Eliza Mell (banda Brega.com), e manda um “Me fez uma mulher realizada” em um agudo que nem qualquer mulher alcança.

Mas dá para ir para o outro lado, também: acho igualmente interessante quando Gloria Groove (foto no alto desta página), também drag queen, canta “Então me diz se ele faz o que não fiz”, se comparando a um homem; nesse caso, você tem zilhões de interpretações possíveis, justamente porque não estão todas as cartas na mesa – você não sabe se é Glória ou Daniel, cantando para um homem ou mulher.

Mas não precisa mais ser só uma subversão ou na base da sutileza – hoje, já tem gente que escolhe se expor, escancarar do melhor jeito possível. Fico muito feliz com o fenômeno Ludmilla e o fato de que ela pode cantar claramente para outra “ela” – amada esta que estava ganhando visibilidade em um programa nacional gigantesco –, sem deslocamento algum entre intérprete, composição e realidade. É assim que a gente começa a ver que o espaço para autenticidade se expandiu: de “Maldivas” a “Do Cheiro Bom do Seu Cabelo”, você vê que o espaço se abriu para além da MPB de Cássia Eller e Ana Carolina.

E eu entro com tantos exemplos aportuguesados porque, na gringa, é mais fácil deixar as coisas no escuro: existe lá um they/them que por aqui pede tradução inadequada quase que por natureza – ainda que a gente esteja no processo de encontrar os termos certos para definir o que não se define. No caso das músicas em inglês, definir gêneros às vezes é uma forma proposital de zoar com a ordem das coisas – “Não precisa, mas eu quero”. É o caso de Carpetgarden: artista não-binário (foto na home) que, em sua música “IDC”, fala ao mesmo tempo dos garotos com que se relaciona e também do “seu dick”; com a tranquilidade que este dick não classifica nada que elu não queira.

Música pode dizer exatamente desse lugar de poder passear entre feminino, masculino e tudo que há no meio. E penso que o tempo é curto para trocar os versos de “homem” para “mulher” – ou se sentir definidx pelas palavras naquela canção – só porque tem mais a ver com a sua vida pessoal; enquanto artista, ao subir no palco, a sua vida pessoal entra só onde você quiser colocá-la.

Hoje, parece que as nuances do gênero e da sexualidade estão transbordando na música brasileira – têm aparecido de formas diferentes, saindo um pouco do cantar como hetero mesmo não o sendo. Afinal, música é só aquilo que a gente toca/canta. Ela se concretiza e começa a fazer sentido a depender de quem a interpreta.

É gostoso ver essas coisas variando, a música tomando outras formas. Abraçando outros gêneros, assumindo outras caras. Não é para isso que serve a arte?

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* Dora Guera é aquilo que ela tuita, com o @goraduerra.

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SEMILOAD – Penetração de Anitta nos EUA escancara como funciona o mercado da música lá e cá

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* Todo mundo tem prestado atenção na cantora Anitta tentando ganhar o pop nos EUA. Só Dora Guerra, da nossa parceira quinzenal Semibreve, presta atenção além do óbvio. Ela analisa como o apito musical toca no mercado musical americano, como ele funciona por aqui e como a “nossa” Anitta tem trabalhado para brilhar na gringa tanto quanto já triunfa no Brasil.

A coisa é mais ou menos assim, segundo a Dorinha:

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E a Anitta, hein? Vai emplacar na gringa?

Já adianto que eu não tenho bola de cristal, mas eu adoro fingir que tenho. Acompanhar o processo de Larissa Machado em tentar se tornar uma artista grande internacional (leia-se: uma artista grande nos EUA) tem sido uma experiência curiosa, em que a gente se pega tentando entender os paralelos entre o mercado de cá e o de lá.

Aqui no Brasil, aconteceu um fenômeno – encabeçado pela própria – que não dá para desconsiderar. Na esteira de artistas como Naldo Benny, o funk foi caminhando rumo ao pop na última década; as MCs trocaram a alcunha e as letras explícitas pelo que pudesse tocar mais nas rádios, ainda que com uma sonoridade similar. Investiram em vídeos, em roupas, em tudo aquilo que transforma alguém em uma popstar – e, dessa leva, vieram não só Anitta, como Ludmilla, Rebecca, Lexa, Pocah, Luísa Sonza (que caminha entre uma coisa e outra, funk e pop, apesar de não ter a mesma origem) e por aí vai. Os maiores nomes de hoje no pop estão nesse limiar.

Estamos, de modo geral, mais acostumados e afetivamente ligados a essa sonoridade mista. Mas essa é uma lógica muito nossa. Ainda que o funk converse com o reggaeton, tenha tocado em pleno palco do Grammy e não seja um som difícil de compreender (basta dançar!), é natural que ele precise entrar bem disfarçado, quase meio cavalo de Tróia, para dar certo fora daqui – foi a tentativa de “Faking Love”, com uma Anitta muito menos carismática que o funk merece.

Na gringa, popstars são muito mais polidas; vi estes dias um paralelo entre as performances sexy de Luísa Sonza e as mais explícitas de Madonna, Janet Jackson e Britney Spears. Para aquele fim específico – o de defender Sonza das críticas – até faz sentido, mas, no macro, são coisas extremamente diferentes: estamos comparando o mercado do país do Carnaval ao mercado do país do capitalismo e da indústria cultural. Um país que, ao ver Anitta em seu piscinão de Ramos, é incapaz de absorver (mesmo que não se trate de um vídeo musical complexo) as nuances da cena; o churrasquinho na praia não diz nada a ninguém que não um bom brasileiro.

Por isso, dava para ver que os primeiros passos eram alguma coisa, mas jamais chegariam onde ela queria. “Me Gusta” tinha todo o peso de Cardi B, mas musicalmente foi Cardi que veio à Anitta, não Anitta que alcançou Cardi; pagodão baiano e vídeo em Salvador são uma delícia, mas gritam América Latina como nunca. “Girl from Rio” (single) também foi para gente, praticamente, quase um aviso de despedida, aquele seu conhecido que antes de ir para o intercâmbio já começa a falar em outra língua.

Talvez Anitta não o soubesse na época, mas hoje reconhece: em um mercado tão autocentrado e xenofóbico, não adianta apresentar um país que eles não têm interesse em conhecer, sobretudo usando sample de uma música que atrai preciosismos. Vai cantar “let me tell you about a different Rio” para quem nem sabe onde fica o Rio?

E, convenhamos, a Anitta não foi aos EUA para promover a música brasileira – nem precisa! Ela foi para lá para se promover. O resto é consequência, uma possibilidade que só se abre para artistas consolidados. E aí a impressão que dá é que tem que jogar o jogo deles, esconder o sotaque, fingir que é de lá; deixar a brasilidade aparecer só no fato de que Anitta é uma gostosona.

É por isso que, ao chegar em “Boys Don’t Cry”, o negócio muda totalmente de cara.

Literalmente: nessa, Anitta abandonou até o lettering que usava nas capas de seus singles anteriores, como se estivesse começando do zero. A música – que não conversa em nada com as outras lançadas até então – também não tem um pingo de brazuca, um pop quase genérico do ponto de vista autoral.

Podia ser cantada por qualquer uma: Dua Lipa, Fulana, Ciclana. Calhou de ser Anitta – e isso pode parecer um problema, mas na verdade pode ter sido bem calculado.

Em um mercado fechado como esse, ter uma identidade talvez deva ser um acontecimento posterior – primeiro, você entra camuflado; depois, adota características que vão ajudar as pessoas a lembrar quem você é e que tipo de música você faz. Em “Boys Don’t Cry”, Anitta surfa as ondas certas: notas de pop rock, toques de nostalgia, referências visuais fáceis de absorver e, principalmente, produção digna de popstar. Até para a gente, foi uma Anitta irreconhecível: refinada como nunca, sem parte da espontaneidade que nos atraiu a ela, mas com o pacote completo para bom gringo ver.

Mas e aí? Agora, o buraco é mais embaixo: a grande questão se torna entender para onde Anitta vai em seguida. Dificilmente a artista vai adotar o pop rock enquanto estética permanente (e tampouco deveria). Mas uma vez que tivemos “Boys Don’t Cry”, o nível só pode subir daqui para frente.

Uma coisa está garantida: a cola que liga tudo é ela mesma. Não uma sonoridade, não um visual, nem mesmo a rebolada; mas a mesma artista que brinca sobre seus 30 namorados em entrevistas, músicas, paga de desapegada e é mesmo. Uma artista que você não vai ver cantando baladas tristes porque ela não tem muito tempo para a tristeza. E, se sacarem isso internacionalmente, bom, eles conhecem a Anitta.

Agora oficialmente pagando de Anira, até que gringo saiba falar um bom T.

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* Dora Guera está ganhando o mercado brasileiro através do Twitter @goraduerra.