Em semiload:

SEMILOAD – Conexão Belory Hills. Um olhar mineiro rápido sobre a rica cena mineira

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* Vira e mexe a Popload resvala em alguma boa coisa vinda de Belo Horizonte. Ou, para os criativos produtores da cena local, Belory Hills. Tem um hip hop bacana, vai ver, tá lá: da capital de Minas Gerais. Olha que indie-folk bonitaço, trabalhado profissionalmente: mineiro. Que banda indie barraqueira interessante, de onde é: BH. Festinha cool, coletivo esperto, selo inventivo, festival em apartamento, estúdio nas montanhas? A terra do Keno e do Hyoran tem. Daí que nos tocamos que temos a maior representante da cena mineira com olhar sobre o mundo pop aqui mesmo, na Popload. Ela, a “creative” mineira Dora Guerra, da newsletter Semibreve, nossa parceira semanal deste espaço aqui. Como estamos sentido bons ventos musicais vindo de Belo Horizonte, resolvemos perguntar, direto e reto. O que está pegando aí, Dorinha?

Captura de Tela 2021-04-16 às 1.10.15 PM

Eu não sou natural de Belo Horizonte, nem completamente versada na música daqui. Demorou um tempinho (alguns anos) para que eu começasse a entender como a banda toca – mas quando eu descobri, a cidade se tornou outra.

Sinto que estou sempre correndo atrás de conhecer o que realmente acontece e alguém sempre me escapa: nos últimos anos, o que não falta é coisa nova e boa. Sempre com aquele jeitinho Belory Hills de ser – todo mundo é meio seu amigo, conhecido do seu conhecido ou inimigo do seu primo. Em BH, a regra dos seis graus de distância se torna um grau só.

Aqui não só não tem show, como já não tem mais casa: perdemos, entre outras coisas, a nossa querid’A Autêntica. Mas, de alguma forma, a música de BH não só resiste, comos consegue permanecer inventiva. E tem muita coisa gostosa surgindo.

Por isso (e a pedido do Lúcio), segue um pequeno tributo à música de cá – considerando só lançamentos de 2021, para ficar mais fácil. Tem para todo mundo. Olha só:

Para quem quer coisa nova (ou coisa velha com cara de nova), tem muito projeto incrível – muita música “daquele naipe”. Um deles é o Qnipe, um projeto de quatro músicos que dão uma carinha contemporânea e descolada a clássicos dos anos 2000. O resultado é impossível de ignorar. Tem que ouvir “Tremendo Vacilão”, com as talentosas Clara x Sofia, que é puro bom humor com vídeo gravado em Cyber Shot.

Aqui também tem festa para quem é de festa. A parte eletrônica da cidade vinha florescendo (às vezes aos trancos e barrancos, mas vinha!) e os rolês estavam transformando ex-indies em clubbers. Para apaziguar o coração de quem passava a noite na pixtinha, a festa e selo CurraL lançou a Curral01, primeira coletânea de música eletrônica autoral de Belo Horizonte. E tem faixa com nome de lugar, que acompanha uma imagem mental vívida das manhãs pós-festa no centro da cidade. Coisa com som de hoje, coisa com som de amanhã, e coisa com som oitentão, o que é superontem, hoje e amanhã.

Falando em beats: se você não conhece VHOOR (foto acima), tá perdendo. O produtor musical e beatmaker tem músicas que passeiam entre hip-hop e funk com influência de soul, jazz e até MPB anos 70. O menino é bom demais. Em 2021, ele lançou “Ritmo”, um álbum que vai até o afro-house e volta.

E aí se junta com FBC e o estrago tá feito: “OUTRO ROLÊ” é realmente outro rolê, um EP de rap que desce bem e acaba rápido demais. Com músicas feito “De Kenner”, que tem carinha de funk das antigas.

E, claro, tem banda para quem é de banda, também. Tem aos montes. A bem-indie Chico e o Mar, que estreou com o EP “sdds” há uns meses e já dá sinais de coisa fresquinha e promissora. Tem Moons, uma das maiores representantes de música-gostosa-para-contemplar-as-montanhas (vide música lançada hoje, “Love Hurts”). Tem a famosa Lamparina e a Primavera, que é bem brasilzêra – é MPB, mas tem sido bem funk também. E, na esteira MPB-indie, a clássica Graveola, que também anda lançando coisa.

Tinha Rosa Neon, o quarteto-surpresa de BH: que cresceu rapidinho, encheu show que foi uma beleza, foi na Europa e voltou. Deu seus últimos respiros ainda neste ano, como Marina Sena (vocalista) falava para o jornalista Guilherme Guedes em live: “Banda é feita para acabar”. E, enquanto durou, lançou cada membro com muito primor.

Tanto primor que vem aí – ainda em 2021 – Marina Sena (solo), cuja estreia com “Me Toca” (também deste ano) já deu um sustinho em todo mundo. Ela é boa demais, lança um “sexy caseiro” como ninguém. E vai explodir em breve. Pode anotar.

Para quem é genuinamente fã de rock triste, shoegaze e manifestações somente ocasionais de sorrisos, Minas também não falta com isso – porque é eclética assim mesmo. Um exemplo é o contemplativo (e ocasionalmente destrutivo) “Ensaio pra Destruir”, de Fernando Motta. A Geração Perdida é um coletivo independente daqui (que inclui Motta e seus amigos-colaboradores), mas também é meio jeitinho de ser.

Tudo isso que eu citei já dá caldo, mas devem ter coisas que eu provavelmente esqueci: gente que eu só vou lembrar quando voltar a ver pôsteres de shows ou vir algum deles bebendo no Maletta. É difícil honrar a música de cá com propriedade quando o fato de estar pertinho nem faz diferença. Mas fato é que a música de Minas e BH anda deliciosa de explorar: eclética, plural pra caramba.

Plural, sim, mas com uma coisa em comum: a cada 10 músicos, 10 citam Milton, Lô e o Clube da Esquina como influências. Independente do estilo musical.

Todo mundo parte do mesmo lugar. E é isso que faz a música de cá um trem de doido.

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SEMILOAD – Por que a música nova (?!) ainda insiste nos anos 70

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* “Como assim os anos 70 estão na moda?”, questiona Dora Guerra, da newsletter massa Semibreve, parceira da Popload no nosso “Long Read” semanal. Ela questiona e ela mesma responde. Como Dora diz, olhando seja para o ressurgimento seventies do Twenty One Pilots ou para a última piração temporal de Alex Turner, o importante aqui é lembrar que a nostalgia por si só já não é mais um fenômeno. A gente vive esta realidade.

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Antes de qualquer anúncio oficial, vazaram pôsteres do “retorno” do duo americano Twenty One Pilots – e a estética visual deles me surpreendeu um bucado. Já extremamente animada e acompanhando a divulgação de “Daddy’s Home”, novo disco da St. Vincent, me deparei com esse universo em que ambos se confundem.

O padrão é simples: os anos 70 estão em voga há um tempo – quase que desde os próprios anos 70. Nos últimos anos, vimos fenômenos feito “Uptown Funk”, música do Mark Ronson/Bruno Mars; a retomada “indie” disso, com “Tranquility Base Hotel & Casino”, o último disco do Arctic Monkeys; e a leva disco assustadoramente forte no ano passado. Ainda assim, o ano é 2021 e temos St. Vincent, Twenty One Pilots (que não confirmaram nada, mas estou deliberadamente os usando para fortalecer o argumento) e Silk Sonic fazendo grandes anúncios utilizando TVs antigas. Temos ainda o grupo inglês Dry Cleaning, queridinho da Popload, gravando vídeo em cassete. É, galera… Estamos mergulhando (de novo!) em uma década que não volta mais.

É importante lembrar aqui que a nostalgia por si só já não é mais fenômeno; é realidade. A palavra nostalgia está tão na ponta da língua que foi até nome de álbum em 2020. O nosso presente é, quase que o tempo todo, meio passado. Na era da reprodutibilidade técnica, você pode simplesmente baixar instrumentos que simulam os sintetizadores setentões sem medo – em termos de moda e visuais, então, eu mesma quase faço de casa.

E, se já vivíamos uma era espontaneamente nostálgica – na leva da série “Stranger Things”, o grande exemplão caricato da nostalgia no século XXI –, nosso momento escapista definitivamente não nos ajuda. Enquanto a situação ainda é do mundo e não só brasileira, nada mais natural que a população global mergulhe em lembranças de aglomerações, discotecas e a sensação (ainda que ilusória) de que podemos estar em outro espaço-tempo.

E existe até uma teoria famosa por aí de que os ciclos nostálgicos acontecem de 20 em 20 anos, né? Isso significa que, segundo essa lógica, estaríamos revisitando os anos 2000 (e estamos também). Mas onde os anos 70 entram nessa história?

Afinal: o que há de tão sedutor nos anos 70, especificamente?

Um motivo possível é que, à primeira vista, essa década encapsula o melhor da música e da cultura efervescente. Estamos falando daquela cena cultural que nos gerou os grandes clássicos, “antigos” o suficiente para se tornarem inquestionáveis, mas novos o suficiente para (alguns) ainda estarem por aqui.

E aí, meu amor, você pode até gostar do “Blackstar” (2016); mas não é fã de Bowie se não conhecer o “Hunky Dory” (1971). Pode amar “Star Wars – o Despertar da Força” (2015), mas tem que ter assistido “Star Wars – Uma Nova Esperança” (1977). E foi outro dia, inclusive, que os longas “Bohemian Rhapsody” e “Rocketman” estrearam, cimentando ainda mais dois dos maiores ídolos daquela época.

Ou seja: 50 anos depois, a cultura também não nos deixou largar mão dos anos 70.

Nesses termos culturais, tudo nos anos 70 parece promissor à distância: era um momento de experimentar. Musicalmente, tínhamos Led Zeppelin, Pink Floyd, Supertramp, que tentavam de tudo em músicas extensas; mas o experimentar não se restringia só a isso. Um tempo antes da explosão da AIDS, as sexualidades e multiplicidades estavam a pleno vapor, nos proporcionando Bowies, Freddies e outros gigantes – que, muito antes de Bad Bunny e Harry Styles, já tinham visões embaçadas do que era definitivamente masculino ou feminino.

E, para um Bruno Mars ou Alex Turner da vida (nostálgicos de carteirinha), trata-se também de uma década importantíssima para a juventude de seus pais – ou seja, um período fadado a influenciá-los musical e culturalmente (afinal, todos nós, em alguma medida, aprendemos a cultuar os clássicos dos nossos pais). Não é só uma nostalgia coletiva, de uma década vivida até mesmo antes de eles existirem; mas uma nostalgia também individual, de ídolos e referências musicais com quem eles têm uma forte relação afetiva. Se você pudesse fazer algo próximo ao que seu pai te ensinou a ouvir, você não faria?

“Maybe I was a little too wild in the 70s”, canta Alex Turner em “Star Treatment”. Ele nasceu em 1986.

Acho que é isto: o romance. Quando vista sob um olhar romantizado, a década de 70 puxa exatamente dos pontos que queremos exercer, mas encontramos uma dura resistência política, social ou emocional: música primorosa, estilo de sobra e a ilusão de uma liberdade maior. Vale lembrar que a geração mais nova da música, composta por jovens TikTokers de sexualidade fluida e muita confiança identitária, não passeia tanto por décadas passadas a não ser os próprios anos 90 e 2000.

E, enquanto estes querem modernizar tudo (como devem), quem se ocupa em trazer de volta o ar setentão são os mais velhos: artistas em seus 30 anos, que se deparam com uma realidade absurdamente pesada e já não ostentam tanto otimismo.

Estou falando também com você, leitora/leitor na casa dos 30, que se pega ouvindo Fleetwood Mac para ver se apazigua o coração.

E, se ouvir “Dreams” enquanto desce de skate tomando suco realmente te traz paz, isso significa que você também faz parte da tendência de consumo. Não são só eles que decidem fazer a música anos 70; você também decide consumir e mostra que, enquanto a década de 70 resistir, você a comprará. O escapismo é de quem produz, mas também de quem ouve – e assim, o ciclo só acaba quando alguém decide sair.

Mas, sinceramente, acho que o clima setentão ainda é bem-vindo – enquanto nos servir bem e der vazão a nossas expressões artísticas, sem limitá-las a um molde de 50 anos atrás. Não é necessariamente inovador, mas não precisamos de muita inovação há um tempo (afinal, de novidades estarrecedoras já estamos cheios). Talvez esse seja exatamente o objetivo da nostalgia neste momento: para tanta mudança, os artistas nos compensam com garantias que sempre funcionaram bem.

Garantias feito guitarras e calças boca de sino.

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* A imagem da home da Popload, chamando para este post, é de 1971, da banda tiktoker Fleetwood Mac.

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SEMILOAD – Hook, drop, toquinho. Como a música vem se reinventando na Era TikTok

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* Nosso “The Long Read” de hoje, articulado por nossa parceira Dora Guerra, autora da newsletter mais necessária da música nova que eu conheço, a Semibreve, vai falar exatamente dessas transformações que essa música nova tem passado para se adaptar aos tempos atuais. Você sabe do que estamos falando: stream, Tik Tok, consumo digital desenfreado. Está preparado para o fim do refrão? Você curte os “hooks” das canções do Weeknd?
Não? Então a SEMILOAD vai te preparar.

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Música é como qualquer outra arte em tempos digitais. Não só não tem fórmula perfeita, como muda o tempo todo – principalmente quando precisa se vender. De uns tempos pra cá, a mudança vem sendo notável.

Eu mesma comentei ano passado sobre dois pontos já muito claros na música atual: o primeiro é a diminuição do tempo das canções (pop, especialmente). A partir do momento em que os artistas ganham por número de streams – ou seja, quantas vezes a música foi ouvida –, torna-se necessário encontrar formas de fazer você ouvir novamente. Se a música é longa, você não vai ficar ouvindo em loop; é matemática simples. O resultado é aquelas faixas minúsculas, com 2 minutos ou menos, que frequentemente acabam antes que você consiga digeri-las.

O outro ponto, que eu trouxe com músicas como “Blinding Lights”, do Weeknd (foto acima), é a inserção de um refrão (ou algo que lembra o refrão) logo no início da faixa – pensando que um stream, para o Spotify, conta só se você ouviu pelo menos 30 segundos da música. Isso fica claro em váaaarias músicas, a exemplo da viral “Girl like Me”, da Shakira/Black Eyed Peas. Logo a gente, com atenção tão difusa, precisa ser convencida a ouvir algo interessante antes de decidir tacar um “skip”. Melhor já entregar o ouro, certo?

(E bote ouro nisso).

Pois é. Eis que surgiu um ótimo artigo (como sempre, porque esses caras são incríveis) do Nate Sloan e Charlie Harding – a dupla Switched On Pop – para o “New York Times”. Nele, os músicos-musicólogos analisam as novas tendências com um olhar ainda mais atualizado. Otimistas, celebram o fim de uma certa estrutura tradicional, de verso-pré refrão-refrão.

Nisso, os autores já me desbancam (ou sustentaram meu ponto?) afirmando que o refrão, hoje, nem sempre precisa existir. O argumento deles é o seguinte: o que existe agora – e é um termo inclusive utilizado por compositores – é o “hook” no lugar do “chorus”; em bom português, tem que existir um gancho, que não necessariamente é um refrão de alguns versos cantado várias vezes ao longo da música.

Esse gancho pode ser, inclusive, o famoso “drop” – aqui eles listam “We Found Love” como um exemplo de hit da última década, já pautado em uma nova lógica. E, de fato, o ponto alto da faixa não é o momento em que Rihanna (foto na home) canta o verso que dá nome à música, mas quando a canção cai no clímax eletrônico. Sabe do que eu tô falando?

Pois eu cubro a aposta de Nate & Charlie e ainda acrescento: essa espécie de drop pode ser simplesmente uma viradinha, que é suficiente para tiktokers e afins. O drop é muito comum em músicas derivadas do EDM (e foi extremamente comum nos anos 2010) e ainda reaparece em canções populares, feito nas músicas do Major Lazer.

Mas às vezes não precisa ser tudo isso. O que a música precisa ter é um ponto em que ela se transforma – ou até pausa: só o “Stop, wait a minute”, de Uptown Funk, já é hit no TikTok. É nesse momento que os virais são criados: você dá tudo que as pessoas querem, fornecendo um clímax rápido para uma transição audiovisual. E, mesmo que você não esteja preocupado em viralizar, é um aspecto interessantíssimo de qualquer forma: nada te destaca melhor de uma multidão de músicas previsíveis que uma surpresa bem construída.

Mas outro gancho fortíssimo – e que a galera sacou aqui no Brasil talvez com muito mais antecedência e sucesso que os americanos – é aquela melodia pegajosa. Não necessariamente a do refrão: uma mais marcante, um gancho real, como no que muita gente por aí chama sabiamente de “toquinho” (lê-se tóquinho; não confundir com o artista Toquinho).

Nada supera a força de uma melodia infalível, que conversa com os vocais, mas não é a mesma que a deles. Esse é um elemento que o funk e o piseiro já incorporaram há muito tempo, recuperando a “flauta envolvente que mexe com a mente” de Bach para tornar uma música inesquecível. Um salve pro Mc Fióti.

Aliás, não estamos inventando a roda aqui – esse é um recurso clássico. Mas ele vem aparecendo com frequência, especialmente no início da faixa. Voltando ao exemplo de “Blinding Lights”: o que te conquista é aquela melodia com tratamento anos 80, muito antes de ouvir o Weeknd cantar.

E, se você analisar bem a história do “toquinho” e do drop, vai encontrar um personagem essencial para a nova música: o produtor. Não é à toa que DJs e produtores passaram a se tornar estrelas também – quando as canções eram naquele formatinho clássico de banda, era difícil precisar a contribuição do produtor; você valorizava mais os compositores, que muitas vezes eram (ou fingiam ser) a própria banda. Hoje, Calvin Harris e Rihanna dividem créditos porque sabemos que não foi ela quem deu o toque principal da música. E, de repente, nomes feito Mark Ronson, Diplo, Timbaland, Pharrell não importam só para quem tá dentro da indústria: são beeem conhecidos pela gente, também.

Nada disso é de agora. O produtores não ficaram importantes: sempre foram; esses elementos todos sempre existiram também em alguma medida. Mas a combinação desses fatores – tamanho da música, estrutura mais solta, melodia marcante logo no início – é um combo extremamente atual. ou ainda: “Light My Fire”, dos Doors, seria uma música a cara dos anos 2020 se, para início de conversa, tivesse um terço da duração (e um clipe nonsense com feat. da Doja Cat).

Afinal, vale fazer tudo isso e seguir fórmula para ganhar dinheiro? Para os românticos, respeitar fórmulas pode soar como um enterro da criatividade; o que é verdade, em partes. Mas, para mim, o curioso é que não se trata somente de uma estratégia de mercado: são truques psicológicos, que buscam entender não só como driblar o algoritmo, mas como fazer algo que soe atraente para o público de agora (e isso já é beeeem diferente do que soava atraente há uma década).

É, afinal, dar aos fãs o que eles querem ouvir de novo, de novo e de novo.

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SEMILOAD – Lana, não está faltando nada no seu disco novo, não?

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* Bom, hoje é Lana’s Day. Fica tudo meio turvo para o restante dos humanos musicais quando sai um disco da musa americana dos romances trâgicos mas glamurosos. O site inglês “NME” deu todas as suas estrelas disponíveis para o álbum “Chemtrails over the Country Club”. O “rigoroso” site americano “Pitchfork” deu uma booooa nota 7.5 (para os padróes pitchforkianos).
Mas e nós? Gostamos do disco?
Hummmmm.
Em conversa com Dora Guerra, que semanalmente faz a incrível newsletter Semibreve e agora armou até um site para se apresentar melhor, descobrimos que ela gostou até mais que a gente do novo da Lana. Então, pela nossa paixão eterna pela cantora, vamos deixar a Dora entregar nosso sincero parecer combinado sobre “Chemtrails over the Country Club”, em forma de pensata.
Nós, a Popload e a Semibreve (ou, enfim, a SEMILOAD), concordamos que é um verdadeiro disco dA Lana del Rey. Mas, que está faltando alguma coisa nele para ser UM VERDADEIRO DISCO DA LANA DEL REY, isso está…

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Inevitável: Lana Del Rey não consegue deixar de ser Lana Del Rey.

Esse é seu maior fardo e sua maior vantagem – há nove anos, Lana cria sua própria realidade etérea, nostálgica de uma época que só existiu na televisão e não na vida real. Aquele universo que, infalivelmente, glamouriza cada segundo de melancolia. Para quem compra a viagem, ela nunca falha. Para quem não tem o costume de fazer o trajeto, ele tende a ser cansativo. Mas é sempre um caminho similar – bonito, contemplativo, frequentemente pouco funcional.

Eu não sou uma viajante que sempre paga por esse ingresso. Quando Lana passou por “Norman Fucking Rockwell” – um trajeto que, sobre o piano, andava por territórios como o da feminilidade, da vulnerabilidade e de um país em pedaços –, foi a primeira vez que me perdi de fato na paisagem. Refiz a viagem diversas vezes; entendi, finalmente, o grande apelo de uma cantora já influente, combinada com um produtor que a compreendia.

Achei que, por isso, eu já estaria mais treinada ao chegar onde chegamos: no trajeto “Chemtrails over the Country Club”. Mas houveram percalços no caminho, como a própria Lana – tão imersa em si mesma que, na eterna tentativa de dizer algo certo, acaba dizendo a coisa errada. Já cheguei com o coração fechado. Mas segue o diário de viagem, ainda assim.

“Chemtrails” (álbum) começa igual, mas diferente. Nós não conhecíamos Lana como uma cantora de falsete, mas conhecíamos essa sonoridade. E você se pega em um déjà-vu infinito, que funciona cada vez menos.

As melodias parecem ser as mesmas; os temas com certeza são. É como se Lana estivesse se citando o tempo todo: em “Wild at Heart”, você fica esperando a melodia de “Hope Is a Dangerous Thing…” e praticamente a recebe. Não se mexe em time que (quase) ganha Grammy… Certo?

Para muitos artistas, a música funciona melhor quando explicada; quando conhecemos os detalhes de quem a pessoa é, do que ela está falando, do quão real é a letra. Não é o caso de Lana. Quanto mais ela se abre, mais lembramos que suas músicas são puramente abstratas. Recordo que, quando ela apareceu, a internet se perguntava quem era ela de fato; eu ouvia histórias mirabolantes de cirurgias plásticas, pais milionários, uma trajetória digna de atriz de cinema dos anos 50. Quase uma década depois, a fantasia de Lana Del Rey já se dissipou – e, quando ela afirma que é “selvagem”, fica difícil acreditar. Vira uma música de promessas, de alguém que não necessariamente é o que canta, mas que acredita fielmente que é. E quando ela recita frases como “Not all those who wander are lost”, frase de tatuagem em letra cursiva, não parece que haverá nada de realmente profundo no trabalho.

Mas, sempre que estive prestes a desistir, Lana provou que ainda pode mostrar outras facetas. Ela visita o trip hop em “Dark But Just a Game” (minha preferida, sem dúvidas) e, de repente, você se interessa de novo. E percebe: não é a vibe Lana que cansa, desde que ela venha com outros formatos. Outras coisas novas aparecem – isso fica nítido em faixas como “Tulsa Jesus Freak”, que explora autotune e uma bateria também meio Massive Attack. Experimentações combinam com ela; flertes com outros gêneros também. Ao fim de “Dance Til We Die”, de repente encontramos um rock/blues delicioso, com instrumentos de sopro e tudo – me deu vontade de um disco inteiro assim, mais vivo. Mas o momento logo acaba e eu concluo: Lana boa é a que experimenta.

As grandes estrelas do álbum são os arranjos, com instrumentos muitas vezes tocados pelo produtor Jack Antonoff. São músicas cheias de elementos e detalhes, construindo um corpo pra tudo que a artista narra. É uma herança provável de faixas como “Mariners Apartment Complex”, mas que ocupa faixas inteiras. E a mágica de um bom produtor acontece: o que provavelmente começou como desabafos em um diário é, de novo, transformado em um universo à parte. Com novas vozes – de Nikki Lane, Weyes Blood, Zella Day – muitíssimo bem recebidas nesses cenários, incluindo em um cover de Joni Mitchell, estrategicamente colocado no fim: se você não entendeu para onde estávamos indo, Lana desenha.

Mais uma vez, Lana Del Rey não consegue deixar de ser ela mesma – tão confiante e literal em sua visão que raramente nos proporciona algo de novo. Para quem sempre amou a viagem, o resultado é exultante; para alguém como eu, que se empolgou só com o último passeio, algo fica faltando. Mas o que sempre está lá é a identidade infalível, sonora e visual.

O que nunca faltará a Lana Del Rey é… Lana Del Rey. E, assim, ela se basta.


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SEMILOAD – Oba, domingo tem Grammy!!!!! Mas, antes, uma espinafradinha básica nesse prêmio zoado

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* Sempre odiei os xexelentos e arranjados prêmios Grammy, mas nunca quis gongar (muito) por aqui, para não me chamarem de mal-humorado e tals. Indie velha-guarda que não compreende o tamanho do pop dessa “distinta premiação” da indústria bajulando a própria indústria, atrasado e segregador e tudo mais. Mas aí a Dorinha Guerra, 22, achou de dar uma gongadinha rápida no evento que acontece domingo, em sua excelente newsletter semanal Semibreve, que eu corri para chamá-la no Whatsapp para desenvolver mais o tema: “Traz essa VERDADE para a Popload”. E aqui estamos.

Não sou que estou falando, ok? É a Dora!

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Como em todos os anos desde a primeira edição – mais de 60 anos atrás –, lá vem um domingo de Grammy. E, em como todos os últimos anos desde que descobrimos que a Academia adora ser machista e racista, você pode estar se perguntando: em 2021, vale a pena ver ou se importar com os Grammys?

Muita gente já decidiu que não. O Kendrick Lamar é uma dessas pessoas; Fiona Apple não quer ver os Grammys nem re-pintados de ouro (mesmo indicada!); o novo queridinho do clube anti-Grammy – e injustiçado do ano –, The Weeknd, concorda.

E esse foi realmente o vacilo da vez: quando “After Hours” – um dos melhores e mais relevantes álbuns do último ano – não ganha nem uma menção, algo de muito errado aconteceu. E olha que a Recording Academy tem categorias reservadas para os artistas negros, já que não gosta de conceder a eles, parece, as categorias principais; eles geralmente dão prêmios de Rap, Urban ou R&B para os negros e deixam por isso mesmo. Neste ano, não – até onde o Grammy sabe, The Weeknd simplesmente não existe. E até onde o The Weeknd sabe, o Grammy também faleceu.

Mas não é só Abel que anda falando mal por aí. Li que Zayn Malik sugeriu que “há corrupção nos bastidores da Academia”. Agradeço a sugestão, mas acho que é quase da mesma linha que sugerir que há algo de errado na mansão de 6 milhões do Flávio Bolsonaro: é óbvio. E eu vou além e ressalto que, assim como Flávio, a Academia sobra em babaquice – vide 2018, quando Neil Portnow (então presidente da Recording Academy) afirmou que a falta de mulheres no prêmio era porque “elas tinham que melhorar”. Essa aí é um clássico.

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Mas, se existe algum motivo para ainda prestar atenção nos Grammys, talvez seja exatamente este: concorde você ou não com a definição de rock do prêmio, fato é que desta vez a categoria incluiu só mulheres – e os homens têm que melhorar. Por Phoebe Bridgers, Fiona, HAIM, Brittany Howard e Big Thief, o Grammy conseguiu alguma parcela mínima de acerto. E mais: conseguiu que um gênero estagnado como o rock parecesse interessante e “fresh” novamente. Um beijo para as responsáveis.

Outro motivo é o de sempre, mas que infelizmente ainda não vacilou: apesar de o prêmio geralmente ser longo e um pouco maçante, as performances sempre rendem alguma coisa. Foi o Grammy que combinou St. Vincent e Dua Lipa, Daft Punk e Stevie Wonder. Neste ano – em que essas apresentações ainda são o mais próximo que temos de um show –, tem BTS ocupando um espaço gigantesco na indústria americana; tem .Paak e Mars, tem Cardi e Megan. Ainda tem artista que joga o jogo, gente importante e talentosa, que acaba nos atraindo para o lado de lá da força. E, enquanto eles não boicotam a premiação, fica difícil para nós, reles mortais.

Então, se você quer ver tudo isso, vai lá assistir – com a mão na consciência. É aquele dilema de separar arte do artista, aplicado a um evento e uma premiação inteira; quando você detesta parte da instituição, mas valoriza alguma outra fração, fica ainda mais difícil. E a Recording Academy sabe disso.

E, para quem vai para a festinha na casa do The Weeknd para não ter que assistir, não se preocupe: os Grammys estão, sim, caminhando para a insignificância. Há muito tempo, eles já não são determinantes do que realmente foi bom – quando você compara as listas de “melhores da última década” com quem realmente venceu Grammys, vai ver que a conta não fecha (nem chega perto). Ironicamente, a própria Recording Academy se esforça para contribuir para o próprio fim. A galera deve estar tão intrincada na corrupção que não consegue se atualizar de verdade, homenagear quem merece.

O engraçado é que, depois de escândalos como o de Portnow, a Academia está há anos mudando categorias, trocando cargos sêniores, dizendo que se empenha. Todo ano, eles prometem que “agora vai”. Bom… não foi não. E convenhamos? Não vai mais.

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