Em tiktok:

SEMILOAD – Precisamos falar sobre o TikTok na música. Ou a música no TikTok

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* Faltava nossa pensadora musical Dora Guerra, que orquestra a ótima newsletter Semibreve, nossa parceira semanal, botar seus preciosos pingos nos “is” da plataforma revolucionária TikTok, que a seu jeito tem transformado o jeito de se consumir música.

Mesmo tendo o Caetano Veloso como contraponto, o que torna a tarefa mais instigante por tudo o que representa, não falta mais.

caetano

Nestes dias, viralizou um vídeo do “Porta dos Fundos” com o Caetano Veloso, que você deve ter visto por aí. Nele, os personagens de Gregório Duvivier e João Vicente representam empresários marketeiros, típicos, afins de subir os KPIs e outras siglas inglesas, tiktok-zando o Caetano. Choque de gerações. O bom e velho humor em cima de paulista.

Eis que, pouco tempo depois, me deparei com um artigo do Tab UOL – sobre a esquete e, principalmente, sobre o medo do TikTok e da necessidade de se tiktok-zar. Ao longo do artigo, o autor mostra seu espanto com a nova cultura da plataforma, o consumo rápido, a falta de densidade na nossa relação com a arte. Justo? Talvez. Mas eu acho que cabe também discordar – ou, por outro lado, tentar acalmar o autor.

(Lá vou eu, mais uma vez, a defensora da nova geração. Às vezes sinto que é só isso que faço – além de chatear beatlemaníaco).

Algumas coisas são fatos que nem eu posso contestar: 1) o TikTok está, sim, alterando a lógica da indústria musical; 2) músicas estão cada vez menores, diminuindo o espaço que grandes canções de sete minutos outrora tiveram e 3) “Meu Coco” é, realmente, um nome de álbum questionável.

Mas enxergar o TikTok como um vilão vem de um medo misturado com preconceito misturado com resistência. É uma plataforma de vídeos curtos, então claro que trechos curtos de música vão fazer mais sucesso. Todo mundo adora uma dancinha e, portanto, se na sua canção couber uma coreografia, ótimo. Mas isso de música-dançável-não-necessariamente-profunda é um fenômeno novo? Bom, você que me diz: vale lembrar que “Conga Conga Conga” vem dos anos 80.

Há um lugar para canções como a de Caetano – e esse nunca será o do TikTok, o que tanto a plataforma quanto o artista sabem. Primeiro que ninguém precisa do TikTok para fazer sucesso (ajuda, beleza, mas não é imprescindível). Segundo que você não vai à plataforma para pensar sobre canções profundas; na rede, a fração dominante da música tende a ser a sonoridade, o que já propõe uma relação interessante com o que a gente ouve por lá. Aliás, o TikTok teve um histórico de conceder sucesso a pequenos artistas e produtores, com um algoritmo próprio baseado em – pasmem! – o que as pessoas gostam de ouvir e usar de trilha sonora. Isso é mesmo tão assustador?

Beleza, o TikTok tem seus problemas (ao meu ver, mais relacionados à autoria e monetização de artistas); mas, se vai deixar estrago na indústria, é menos por sua existência e mais pela forma que alguns mercenários o interpretam.

Porque aqueles personagens caricatos do vídeo, incômodos pela falta de tato e obsessão com os números, existem. Ô, se existem. Na Faria Lima, você balança uma árvore e caem quatro deles. Mas é muito romântico da nossa parte acreditar que, em outros momentos da carreira de Caetano, empresários de gravadora igualmente sedentos não estavam implorando que ele saísse do tema político, investisse no marketing, fosse no Chacrinha ou qualquer que fosse a plataforma de tamanho proporcional ao TikTok do momento. Basicamente: desde que o mundo é mundo, alguém com coragem suficiente para minar alguém como Caetano Veloso sempre existiu e existirá. Lá no filme do Queen, alguém também olhou para uma obra-prima como “Bohemian Rhapsody” e disse que aquilo ali nunca ia tocar nas rádios. E aí?

A gente tem que respeitar o lugar das coisas – a graça do vídeo não está no que os empresários dizem, mas no fato de que Caetano está lá, atento e atônito, ouvindo o que esses homens têm a dizer.

Explicando o humor na tirinha: é engraçado porque, na vida real, Caetano não precisa disso – não pensou se você vai ler o nome do álbum dele errado, tampouco ficou preocupado em tornar “Anjos Tronchos” um hit. Quem você vê apelando para as estratégias nostálgicas, de meme ou “de entrar no Big Brother”, como citam os empresários no vídeo, são os artistas que estão começando e se divertindo, os que precisam de um hit ou que, a esta altura, querem conquistar uma visibilidade que perderam. É a Lizzo (nativa digital), a Avril Lavigne (cuja carreira ficou nos anos 2000/2010), o Projota (no meio da carreira, sem shows na pandemia).

Aliás, é curioso até que a figura escolhida para o vídeo seja o Caetano – logo ele, que não tem medo do futuro, que cita sambanejo, trap, pagodão em suas músicas. Ele, que vive se modernizando não por necessidade, mas por sede de novidade. Se Caetano quisesse, sim, talvez cedesse à lógica do TikTok como qualquer outro artista pop cedeu à lógica das rádios em qualquer dado momento na história. Isto é, se ele quisesse que sua música fosse o hit do momento. Mas ele não precisa ou quer – e é um desespero tolo acreditar que alguém como Caetano estará algum dia sujeito às métricas de marketing do novo mundo.

Claro, outros artistas estão, sim, sujeitos a essas métricas; por outro lado, vários deles têm hoje muito mais espaço que jamais tiveram (e menos renda, isso eu concordo). O mito da democratização que a internet traz é mito, mas tem sua ponta de verdade; o viral pode ser fabricável, mas também pode vir do povo. Quantas histórias de artistas desacreditados com músicas bem-humoradas não renderam carreiras nos últimos anos, graças ao TikTok e às redes?

O autor acaba o texto dizendo: “Algo se perdeu, algo se quebrou, algo está se quebrando”. É… Talvez. Muita coisa vem se quebrando ultimamente. Mas a gente anda ganhando muita coisa, também – diversificando, nos propondo a dançar, abrindo horizontes. Vamos com calma ao condenar o futuro, mais uma vez. Se tivermos danos a longo prazo causados pelo momento tecnológico (e claro, teremos), a nossa referência disso não é (nem deve ser) os produtores caricatos de grandes gravadoras que, pelo que a gente ouve dizer, sempre foram e sempre serão assim.

No mais, sabe quem não precisa se preocupar? O Caetano.

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* Não misture as redes. Dora Guerra faz dancinha das palavras no Twitter, como @goraduerra.

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SEMILOAD – TikTok? Clubhouse? Como o Tumblr, na surdina virtual, explica a música de hoje

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* Ok, vivemos a era do TikTok e essa acolhida fulminante ao Clubhouse, que parece bem legal aos anseios modernos ao mesmo tempo que levanta umas suspeitas de sua importância duradoura, nos fez querer botar uns pingos nos is, em relação ao que a gente mais gosta: a música. E a Dorinha Guerra, nossa pensadora think tank predileta, autora da newsletter mais necessária da música nova, a Semibreve, tem uma outra coisa para falar sobre o tema. Ou muitas coisinhas, já que o delicioso texto dela é nosso The Long Read predileto.

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Semana passada, bati um papo aqui sobre um tal de indie-mental health – um movimento de músicos (majoritariamente no “indie”) que vem levantando pautas sobre saúde mental, com muito menos medo dessa vulnerabilidade do que tempos atrás.

Esse movimento é, inegavelmente, relacionado a uma mudança geracional: percebo claramente que meus amigos têm muito menos dificuldade com terapia, fragilidades e possíveis transtornos do que a geração dos meus pais e afins. Além disso, dá para enxergar um processo no próprio mundo da música, que atravessa momentos mais introspectivos e autorreflexivos. Mas um culpado dessa história – um culpado de muitas mudanças na música e na cultura, na verdade – é o site social Tumblr.

O Tumblr mudou a cultura pop talvez na mesma proporção que o TikTok o faz, mas com uma relação menos clara e imediata. Não é de hoje que redes sociais causam mudanças significativas na música – e quando um Clubhouse da vida surge, todo mundo corre atento para esperar o impacto que a plataforma vai causar. Mas, em alguns casos, essa influência é mais subjetiva e não tão fácil de localizar.

É o caso do Tumblr: um espaço mais denso, misterioso e até subestimado. Com sua carinha de plataforma confessional – uma extensão da ideia de blog –, mas aspectos sociais específicos, o Tumblr reproduz uma estética bastante cuidada, com gifs, imagens e vídeos tratados com atenção.

Seu público é majoritariamente composto por adolescentes que encontram algumas de suas coisas preferidas por lá: identificação com outros de todo o mundo e anonimato/privacidade. Naturalmente, é por si só um terreno fértil para a cultura pop e sua relação direta com fãs em qualquer lugar do mundo. Formador de fandoms, gostos e consciências.
Um legado essencial do Tumblr (quase óbvio, à primeira vista) é estético – é isso que o faz tão bem-sucedido, movendo milhares de usuários a reblogar algo simplesmente porque é bonito, fotográfico.

Afinal, temos muito a culpar no Tumblr por mesclar todas essas épocas e linguagens visuais em uma mesma timeline. No meu próprio Tumblr de 2012 (que absolutamente não vou expor aqui), eu orbitava entre 1960 e 2010 com a mesma fluidez, reblogando fotos dos Beatles em Hamburgo e posts com letras do XX. Esse era um dos méritos da plataforma: fazia qualquer época parecer palpável, nos relembrando constantemente que era possível fazer uma rápida viagem no tempo. E o passeio temporal não é um problema, mas a regra musical é clara: no Tumblr, música deve ser constantemente ostentada, extremamente visual e ela diz quem você é o tempo todo. Algo feito exibir uma coleção de LPs, mas mais imagético e constante.

E a rede tem seus filmes, séries e capas de discos preferidos (“500 Dias com Ela” que o diga: inventou a romantização do ato de falar sobre The Smiths no elevador). Compilando tudo, o Tumblr serve como uma espécie de máquina do tempo a um falso vintage, de uma época inexistente; dentro da plataforma, é possível romantizar qualquer coisa. Entre cenas clássicas, melancólicas e desabafos amorosos, você acaba por glamourizar inclusive seu próprio sofrimento adolescente.

A nata desse universo estético nos últimos anos (e que não o larga, jamais) é a própria Lana Del Rey – “Video Games” é exatamente a representação etérea, caseira e romantizada do sofrimento de um relacionamento problemático. No vídeo, tem uma dose de tudo: imagens filmadas em casa, as de stock atuais, efeitos de filme antigo e diversas cenas em que a gente projeta toda a história. Aliás, cada pedaço daquele vídeo é reblogável, projetável, romantizável; assim ela o fez durante toda a sua carreira, repetindo a fórmula de sucesso estendendo esse universo, mas jamais o abandonando. E, assim, tornou relacionamentos abusivos o tema de versos bonitos e vídeos nostálgicos.

Para além de Lana e discípulos, a estética Tumblr se estende no universo musical e deixa suas pegadas em todo canto: afinal, na plataforma, os posts são interessantíssimos e sempre atraentes, com recursos gráficos minimalistas; são pseudoanalógicos, íntimos, cheios de granulados e desabafos. Haja capa de disco e single que se inspira nisso – um exemplo perfeito é a capa do “ye”, do Kanye West (aquilo ali poderia ser facilmente um post do Tumblr, e coincidentemente, é um exemplo também dessa “nova” preocupação com saúde mental). Mas a lista continua eternamente: capas da Florence + The Machine, dos discos do Twenty One Pilots, do Mac DeMarco, até de Recomeçar, do Tim Bernardes… O indie (ou o que quer parecer indie) e o Tumblr naturalmente se atraem.

Mas outra consequência essencial da rede – e que resulta, de modo geral, em uma mudança importante no cenário da cultura pop – é o fato de que ela serviu como incubadora de uma juventude diferente; talvez justamente porque ela aprendeu a se reconhecer diferente. Um estudo chamado New Rules for #20gayteen explora bem esse aspecto: a plataforma funciona como uma bolha LGBTQ+, extremamente autocelebratória e sedenta por produtos culturais que a representa. Daí vem muito do próprio Harry Styles, que deixa pequenas pistas para um fandom se debruçar sobre, dissecar até.

Esses discursos atravessam a própria música e, desta vez, você consegue acompanhar a discussão de modo público – pode ver, ao vivaço, quais letras são exaltadas e o que funciona. Surgem as teorias da conspiração sobre casais homossexuais, aplicadas a cantores que nunca sequer se assumiram LGBTQ+ – surge Larry Stylinson, Taylor Swift e Dianna Agron, essa coisa toda. Aos poucos, formou-se um público que entende o que é “queerbaiting” (e decide se o aceita), que exige representatividade e entende seu lugar.

Se os artistas e a indústria estão diferentes hoje, é que rolou um fenômeno anterior fortíssimo: o público mudou muito, antes de tudo.
Não só no sentido de compreender gênero/sexualidade, mas em todos os sentidos de identidade: vários outros estudos corroboram essa ideia do Tumblr enquanto um lugar em que consciências se formam – com um feminismo jovem, celebração de todos os corpos, tudo isso.

Com uma potência que só a internet pode proporcionar, a plataforma serviu como um liquidificador de tudo que você vê espalhado na Gen Z e afins: papos de saúde mental, sexualidades, arte, nostalgia, melancolia, introspecção. Claro, coisas que, em uma ou outra medida, são tipicamente adolescentes – mas talvez, graças ao Tumblr, os mesmos padrões tenham marcado uma mesma geração em nível mundial.

Afinal, um Tumblr da vida explica essa leva inteira (na qual eu ando me aprofundando) de artistas queer/indie mental health/lo-fi de letras minúsculas que veio em seguida – uma galera que, muito provavelmente, descobriu muito de quem era e do que gostava na plataforma. Convenhamos: basta ver um vídeo do Troye Sivan para ter certeza de que ele já teve um Tumblr.
Mas não só: a lista é longa. King Princess, Claud, Olivia Rodrigo, Lorde, WILLOW, até Manu Gavassi. Quando você traça um padrão entre todos esses artistas – e pensa no que os influenciou até aqui –, existe esse culpado pouco mencionado, mas que merece uma atenção especial. Sem o tumblr, não existiria muito do que há de bom na música – pelo menos não tão encorpado quanto é.

E eu posso provar.

Ou ainda: basicamente, o Tumblr explica a playlist lorem inteirinha.

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* As imagens usadas neste post e na chamada da home da Popload são do vídeo de Lana Del Rey para a música “Video Games”, seu primeiro hit.

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Viva Bowie! Duran Duran recria clássico “Five Years” e estrela streaming que lembra os aniversários de vida e morte do ícone inglês

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* De hoje a domingo, viveremos um período para comemorar o que seria o 74º aniversário do grande artista inglês David Bowie (hoje, dia 8) e também lembrar seu adeus (o cantor-ator morreu no dia 10 de jeneiro de 2016, há cinco anos portanto.

Seja pelo nascimento ou pelo passamento, algumas movimentações estão tomando forma para servir de tributo a esse que foi uma das figuras mais influentes dos nossos tempos.

A veterana banda Duran Duran, ícone da new wave, acaba de lançar uma cover-homenagem bonitaça para a música “Five Years”, clássico de Bowie dos anos 70, presente no importantíssimo disco “he Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars”.

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O Duran Duran, aliás, é presença garantida no streaming do evento “A Bowie Celebration: Just for One Day”, que acontece hoje na internet às 22h (horário brasileiro), com venda de passes para assisti-lo.

Além da banda inglesa, estão confirmados Billy Corgan, Anna Calvi, Boy George, Trent Reznor, Adam Lambert, Macy Gray, Perry Farrell, Peter Frampton, Yungblud, entre vários outros.

São vários pacotes, com diversas formas de atrativo. Do simples ingresso, custando R$ 135,25, até ingresso + camisetas e outros merchs + uma exclusividade dentro do streming e um “encontro” com Mike Garson, que foi pianista do Bowie, que sai por quase R$ 1.900.

Também de hoje, aniversário de vida, até domingo, aniversário de morte, o musical “Lazarus”, uma das últimas criações de David Bowie, vai ser mostrado em streaming especial, estrelado pelo ator Michael C. Hall, o Dexter do seriado.

A peça, que teve cartaz na Broadway, em NYC, em 2015, e no King’s Cross Theatre, em 2016 (de onde foi tirada essa encenação para o streaming), tem história inspirada no filme “The Man Who Fell to Earth”, dirigido por Nicolas Roeg em 1976, em que Bowie atuou.

O streaming vai beneficiar quatro zonas mundiais a cada dia em seus ingressos com algumas variações de preço, começando em aproximadamente R$ 120. Podem ser comprados aqui.

Até a plataforma das dancinhas de braço e caras engraçadas TikTok vai liberar músicas de Bowie para os “criadores de conteúdo” botarem de trilha e fundo em seus vídeos. Tudo em comemoração ao que seria o aniversário de 74 anos do cantor. O canal de Bowie no TikTok está em @DavidBowie, com vídeos icônicos. E, a partir domingo, dia 10, aniversário de 5 anos de sua morte, será lançado o desafio #TheStarman. Usando a famosa faixa “Starman”, vai dar para recriar na plataforma os olhares icônicos de Bowie ao longo dos anos.

@brucegallinger

Giving you a David Bowie moment. ‍✨ ##TheStarMan ##makeup

♬ Starman (2012 Remaster) – David Bowie

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