O domingo, último dia do C6 Fest, foi um verdadeiro presente para os entusiastas do pop alternativo e talvez a confirmação definitiva de que a curadoria do festival segue sendo uma das mais afiadas do país.
A francesa Oklou, projeto da cantora e produtora Marylou Mayniel, parecia saber exatamente onde estava ao subir no palco da tenda. Na busca extremamente eficiente e genuinamente carismática de se conectar com o público brasileiro, Oklou adicionou samples de “Gol do Brasil” ao fundo de algumas músicas sem medo de quebrar a delicadeza da própria estética.

Ela também arrancou gritos da plateia ao abrir um caderno e ler anotações em português. E, no final, com seis minutos restantes antes do horário limite, improvisou uma faixa fora do setlist oficial ao lado da banda, emocionada como quem ainda não queria deixar aquele momento acabar.
Em meio a um visual sutil, projeções de uma paleta azul ciano, lâmpadas e balanços suspensos que ajudavam transformar tudo num pequeno universo particular da artista, o ponto alto da apresentação foi a faixa “Harvest Sky”, sua colaboração com a artista Underscores para o seu último álbum, “Choke Enough”, lancado no ano passado.
O melhor show da edição? É o que estão dizendo por aí.
Na sequência, veio mais um capítulo da categoria “shows que hipnotizam”. Porque essa sempre foi a especialidade de Lykke Li.

A cantora sueca que ao lado de Robyn ditou o pop nórdico moderno por anos, e que pavimentou a estrada para as conterrâneas Tove Lo e Zara Larsson chegarem onde estão, entregou uma performance que fez todo mundo lembrar por que ela ainda é a rainha quando o assunto é sofrer bem e com elegância.
A cenografia já entregava o clima antes mesmo da primeira nota: móveis cobertos por plástico, como uma casa abandonada ou preservada no meio de um luto, enquanto uma fumaça espessa tomava conta do palco. Quando surgiu coberta por uma capa escura, Lykke Li foi se revelando aos poucos, literal e emocionalmente. O clima frio, profundamente melancólico, exatamente como no universo “lykkeano”.
Passeando por diferentes fases da carreira com hinos como “Little Bit” e “I Never Learn”, o auge emocional da noite veio quando cantou, em português impecável, “Sozinho”, clássico de Caetano Veloso.
Ainda houve espaço para músicas do novo álbum, o recém-lançado “The Afterparty”, incluindo “Lucky Again”, faixa que reforça um talento que Lykke Li domina como poucas: transformar palavras carregadas de dor em algo estranhamente dançante e luminoso.
Entre a delicadeza futurista de Oklou e a melancolia cinematográfica de Lykke Li, com a tenda bem cheia, o festival encerrou sua programação ali lembrando que o pop alternativo continua vivo justamente porque ainda consegue soar estranho e bonito, ao mesmo tempo que um tanto íntimo ainda que diante de milhares de pessoas.
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* Cobertura Popload no C6 Fest – Vinicius Dotta, Carolina Andreosi, Lúcio Ribeiro.
** Fotos Divulgação do C6 Fest.