CENA – Com o single “Cair”, O Cientista Perdido foge do cinismo indie

Entre synth pop melancólico e afetos queer, o brasiliense O Cientista Perdido estreia uma nova fase com “Cair”, single que acabou de ser lançado com o intuito de preparar terreno para seu primeiro álbum. E talvez o que mais chame atenção no projeto não seja simplesmente a música em si, mas a maneira como ela parece ir contra um fenômeno em alta na cena alternativa: o cinismo. Existe algo de radical em simplesmente soar sincero.

O Cientista Perdido. Foto: Dranilo

Por trás do nome curioso está Rodrigo, artista de Brasília hoje radicado em São Paulo, que transforma experiências LGBTQIAPN+ em matéria-prima para suas canções, fugindo da autoironia e da pose desinteressada.

A história de “Cair”, que nos streamings é grafada toda em maiúsculas, como um grito, tem inspiração em uma experiência chata, mas de certa forma comum: o cantor levou o famoso “ghosting” amoroso e fez do sumiço uma música. Mas, apesar da história pessoal, a canção tem a habilidade de ampliar a lente para discutir abandono e pertencimento, temas complexos que atravessam muitas vivências queer.

E a faixa começa doce: teclado delicado, voz suave e refrão fácil de processar. Há algo na interpretação de Rodrigo que lembra os primeiros trabalhos do gringo pop star Troye Sivan. No entanto, “Cair” ganha força justamente quando abandona a previsibilidade: ao longo do arranjo o instrumental cresce, fica intenso, meio desconfortável, como se a música precisasse explodir depois de tanto se conter.

Capa de “CAIR” por Dranilo

É um movimento interessante: o arranjo acompanha a ansiedade do desaparecimento amoroso e a sensação de queda sugerida no título. Quando Rodrigo canta sobre “se entregar sem precisar cair”, o que poderia soar apenas romântico é também uma reflexão sobre a vida de forma geral.

“O nome do projeto é uma grande desculpa para a minha vontade de esmiuçar as coisas. Sou formado em letras e tenho o péssimo hábito de querer dar nome para tudo. O Cientista Perdido é aquele que faz isso por mim, com as ferramentas da ciência na mão, vagando por aí para falar do que não sabe ainda. Talvez seja uma boa metáfora de como eu gosto de pensar a composição e a música – e uma desculpa para falar “Não, mas era um personagem”, conta Rodrigo à Popload.

É legal perceber que “Cair” parece apontar para um disco menos interessado em romances idealizados e mais focado nas estruturas que moldam subjetividades. O Cientista não parece tão perdido assim: chega à CENA um artista disposto a falar de experiências queer com honestidade num momento em que boa parte da música alternativa parece preferir a distância emocional de ser “cool” demais para sofrer.

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Postado por Clara Campos   dia 01/06/2026
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